Uma metodologia para cidades inteligentes

Proposta pode auxiliar municípios na adequação 
de políticas e planejamento urbano

 

Um estudo da Unicamp resultou em metodologia apoiada no conceito de cidades inteligentes (smart cities) para auxiliar municípios brasileiros na adequação de políticas e planejamento urbano. O método volta-se ao desenvolvimento sustentável e resiliente das cidades. Além de poder ser aplicada ao contexto das cidades, a proposta permite que gestores ou empresas interessadas avaliem a implementação de soluções nesta área.

O trabalho foi conduzido pela engenheira de computação e gestora de programas de Tecnologia de Informação (TI) Ana Jane Benites. Ela defendeu em agosto deste ano dissertação de mestrado sobre o tema, junto ao Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

Conforme a autora da pesquisa, a metodologia analítica para cidades inteligentes é baseada no conceito amplo de sustentabilidade, nas dimensões ambiental, social, econômica, institucional e cultural. Ana Benites informa que a sustentabilidade tem se constituído como um objetivo estratégico perseguido por muitas cidades no Brasil e no mundo.

Particularmente no contexto nacional, o Relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) prevê que os centros urbanos brasileiros, sobretudo as cidades costeiras, devem sofrer crises com as alterações no clima. Eventos climáticos extremos, como ressacas, marés altas e fortes chuvas causariam alagamentos, desabamentos e soterramentos, segundo estudos do PBMC.

“É neste contexto de vulnerabilidade que as implementações de cidades inteligentes vêm ganhando força no Brasil e no mundo. Partindo do princípio de que as prefeituras das cidades vêm recorrendo às tecnologias de smart cities para enfrentar esses desafios, que se desdobram em metas de seus planos estratégicos, a pesquisa cria uma metodologia para analisar a capacidade de cidades inteligentes em solucionar tais problemas”, explica a pesquisadora. 

Coube à professora Flávia Consoni, do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do IG, a orientação do mestrado. A docente coordena linhas de pesquisas sobre tecnologia, inovação e desenvolvimento sustentável, com trabalhos na área de cidades inteligentes, mobilidade sustentável e veículos elétricos. Flávia Consoni também coordena o Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE).

“O tema das smart cities ainda é visto com certo ceticismo. As pessoas se perguntam: cidades inteligentes? A princípio todas as cidades têm ou deveriam que ter o aspecto da inteligência. O trabalho desenvolvido pela Ana Benites é relevante neste sentido, porque caracteriza e descreve, teórica e empiricamente, a cidade inteligente, colocando outros elementos além do tecnológico, para classificar uma smart city. Além disso, a pesquisa resulta de uma metodologia capaz de analisar e tratar as necessidades e prioridades das cidades dentro dessa temática”, avalia a docente.  

Desmistificando
A autora da pesquisa esclarece que o conceito de cidade inteligente é uma evolução ao de cidades informatizadas e instrumentais, concebidas sob forte determinismo tecnológico. Neste ponto, Ana Benites reconhece que um dos desafios do seu trabalho foi desmistificar o conceito que, segundo ela, vai além daquele que define uma cidade como digital.

“Após cerca de duas décadas das primeiras menções às smart cities, uma concordância sobre o seu significado atual começa a se estabilizar entre os atores. O conceito atual refere-se àquelas cidades que utilizam todo o potencial das modernas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) para desenvolverem-se de maneira sustentável, participativa e resiliente”, define. 

Ana Benites ressalta que não se trata apenas de contar com recursos computacionais para planejar e administrar os centros urbanos, prática difundida e típica das cidades digitais. O conceito envolve a integração inovadora de recursos da TICs, incorporados aos espaços urbanos virtuais, para produzir cenários eficientes na resolução de problemas. Deve haver também, de acordo com a autora da pesquisa, participação dos cidadãos na escolha, ajuste e materialização das estratégias das tecnologias inteligentes.

“Uma smart city de alto nível de inteligência deveria oferecer, por exemplo, serviços fundamentados em algoritmos analíticos sobre nuvens de dados para redução de congestionamentos e melhoria do transporte público; para moderar o consumo de água e regularizar seu armazenamento e distribuição; para planejar a logística a eventos culturais, entre outros. E liberaria as bases de dados ao acesso dos cidadãos, criando canais, também virtuais, para que eles possam colaborar com o conteúdo e influenciar no desenho dos serviços públicos e políticas, participando mais intensamente do dia-a-dia da cidade e de sua resiliência”, exemplifica.

Proposta metodológica
Alinhada com este conceito de cidade inteligente, a proposta metodológica baseou-se em três componentes principais. O primeiro determinou a capacidade de alavancagem de soluções de smart cities que poderiam ser empregadas pelas administrações públicas. O objetivo, neste caso, seria tornar as soluções de cidades inteligentes bem sucedidas no que se refere à sua implantação, difusão e utilização, evitando perda de recursos em iniciativas efêmeras.

“No segundo aspecto definimos a orientação das funcionalidades das soluções de cidades inteligentes às dimensões da sustentabilidade. Empreendedores locais e cidadãos devem ser contemplados, assim como metas das demais vertentes da sustentabilidade incluídas em serviços de saúde, habitação, transporte, conectividade, turismo e saneamento. O objetivo é elevar a qualidade de vida da população, preservando o meio ambiente e a herança cultural”, acrescenta.

Por fim, o terceiro aspecto da metodologia integra os anteriores, consolidando o nível de inteligência da cidade, isto é, sua maturidade ou competência em entregar serviços alinhados aos objetivos e metas do desenvolvimento sustentável urbano.

Estudo de caso 
A autora do trabalho informa que a metodologia foi aplicada para avaliar o Centro de Operações do Rio de Janeiro (COR), inaugurado em 2010 pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Segundo Ana Benites, o centro de operações do Rio figura, atualmente, como um modelo bem-sucedido de smart city, tendo recebido diversas premiações internacionais.

Na avaliação que faz do centro de operações, a autora distingue duas fases. “A primeira é dedicada à construção, inauguração e dois primeiros anos de operação do centro. Nela, o padrão digital é mais dominante no perfil da solução tecnológica. A segunda está associada à expansão de suas responsabilidades para incorporar serviços de análise da nuvem de dados urbana e de gerência de programas relacionados à resiliência da comunidade. Nesta segunda fase, o COR amadurece sua plataforma, assumindo um comportamento mais proativo e inclusivo, isto é, mais smart.”

Publicação

Dissertação: “Análise das cidades inteligentes sob a perspectiva da sustentabilidade - O caso do Centro de Operações do Rio de Janeiro”
Autora: Ana Jane Benites
Orientadora: Flávia Luciane Consoni de Mello
Unidade: Instituto de Geociências (IG)