Ruído afeta a percepção da fala de crianças, aponta estudo

Pesquisa mostra a urgência de testes auditivos já nos 
primeiros anos do ensino fundamental

 

Durante o período em que foi funcionária da Secretaria da Educação da cidade de Bom Jesus dos Perdões, SP, atendendo crianças das escolas do ensino fundamental da rede municipal com dificuldades escolares, a fonoaudióloga Nádia Giulian de Carvalho, com aprimoramento em saúde auditiva, teve sua atenção despertada pelo ambiente muito ruidoso das salas de aulas. Os ruídos decorriam da conversação das crianças, do arrastar das cadeiras, das áreas de recreação e eram agravados pela acústica não adequada das salas. Assentada em estudos comprovadores de que o ruído elevado em sala de aula está diretamente relacionado ao desempenho do aluno, ela se propôs a investigar a dimensão dessa interferência na percepção de fala. Com essa inquietação ela procurou a professora Maria Francisca Colella Santos, docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, que lhe apresentou o teste Hearing in Noise Test - HINT Brasil, do qual são escassos trabalhos publicados no país envolvendo crianças, embora adequado para a avalição de percepção da fala tanto no silêncio como no ruído em adultos e crianças.

Daí surgiu o projeto de seu mestrado, financiado pela Fapesp, realizado no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente e orientado pela docente, que desencadeou a pesquisa em que ela aborda a percepção de fala no ruído em crianças com dificuldade escolar, considerando as variáveis gênero, faixa etária e lado da orelha.  Trata-se de um estudo quantitativo, de corte transversal e descritivo, realizado com crianças de 8 a 10 anos. Com a colaboração da Secretaria da Educação de Bom Jesus dos Perdões, dele participaram 124 crianças de cinco escolas da cidade, sem queixas iniciais de audição, nem aparentes alterações cognitivas/síndromes, tampouco com diagnóstico de alterações que afetem o desenvolvimento neuropsicomotor ou de linguagem. Delas, 63 tinham dificuldade escolar e 61, utilizadas como contraponto, apresentavam bom desempenho escolar.

Avaliações necessárias 
Embora o objetivo do estudo fosse a percepção de fala no ruído através da aplicação do HINT Brasil, havia necessidade de verificar antes de tudo toda a integridade auditiva dos participantes. Para tanto era necessário realizar, primeiramente, uma avaliação com vistas a verificar se os sons chegam à criança, se ela apresenta dificuldade de escuta. Essa avalição básica envolve o sistema auditivo periférico, constituído pelas orelhas externa e média e sua condução até a orelha interna, chegando à cóclea, órgão da audição que transforma a estimulação sonora em elétrica. Desta etapa, em que participaram 124 crianças, 27 foram excluídas por apresentarem alterações de orelha média e/ou perda auditiva, com a recomendação de que fossem encaminhadas para tratamento pelo município. Ou seja, 22% delas já manifestavam comprometimento periférico, índice que pode ser considerado preocupante, segundo a pesquisadora.

Ocorre ainda que, da cóclea ao cérebro, existem outras vias de audição, compostas de várias estações, que constituem o sistema auditivo central, responsável pela transmissão dos impulsos nervosos até o córtex auditivo do cérebro. Problemas nesta audição central explicam dificuldades, por exemplo, de processar o que é ouvido, escutar mas não entender, não localizar a direção de proveniência do som, ouvir com dificuldade nas situações de ruído. É pois nessa parte central da audição que ocorre o processamento auditivo central, de forma que o cérebro possa entender o que está sendo ouvido.  Portanto é crucial também, além da audição periférica, a avaliação do processamento auditivo central, mesmo porque, e as pesquisas mostram, que existem evidências da relação das habilidades do processamento auditivo central com o desempenho escolar. Ocorrências de problemas nesse sistema podem repercutir na fala, leitura, escrita ou mesmo comportamentais, o que torna imperioso que ele seja também devidamente avaliado já nos anos iniciais da educação básica.

Como a avaliação do processamento auditivo central envolve uma grande bateria de testes, por questões inerentes a toda a pesquisa, ela fez um recorte, aplicando nas 97 crianças selecionadas o teste Dicótico de Dígitos, muito usado em avaliação do processamento auditivo, que possibilita avaliar como a pessoa integra as informações recebidas pelas duas orelhas. Trata-se de um teste que avalia a chamada figura-fundo, que é a habilidade de ouvir o som pretendido mesmo na presença de estímulos competitivos.

Essa habilidade de concentrar a audição apenas no que interessa é posta a prova, por exemplo, em uma sala com televisão ligada, pessoas conversando e onde chegam ainda outros ruídos vindos da própria casa ou até externos. De forma similar, em uma sala de aula, existem crianças que conseguem manter o foco no que a professora diz enquanto outras não, porque quaisquer outros estímulos competitivos interferem nessa habilidade. No universo das 97 crianças estudadas, os resultados mostraram que enquanto 100% das crianças com bom desempenho escolar passaram no teste, cerca de 70% das que apresentavam dificuldade escolar foram reprovadas.

Na etapa seguinte todas essas crianças foram submetidas ao HINT Brasil, com fone auricular, em cabina acústica. O HINT é um teste de percepção de fala, que utiliza frases estruturadas de forma semelhante à de uma conversação diária, que possibilita a avalição da capacidade funcional auditiva, buscando conhecer quanto o paciente é capaz de ouvir e entender a fala no silêncio e na presença de ruído competitivo, produzido a partir da filtragem do espectro acústico do próprio material de fala do teste, em situação de silêncio, ruído competitivo tanto na orelha direita como esquerda e ainda nas duas orelhas. Os resultados mostraram que as crianças com dificuldade escolar têm muito mais dificuldade de percepção de fala, tanto no silêncio como no ruído.

Em linhas gerais ela concluiu que as crianças com dificuldade escolar têm mais alterações periféricas (perdas auditivas e alterações de orelha média), mais dificuldades na habilidade de figura-fundo e mais dificuldade na percepção da fala, tanto no silêncio como nas situações de ruído. Todas estas avaliações foram realizadas no Laboratório de Audiologia do Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação (CEPRE) da Unicamp

Considerações
A autora lembra que, conforme mostra a neurociência, várias regiões do córtex cerebral contribuem para o aprendizado e se alguma coisa falha ele pode ser comprometido, caso dos problemas de audição. Por isso defende que as crianças precisam de um olhar diferenciado e devem passar por uma avaliação do processamento auditivo central e não apenas periférica, o que ainda não é realidade nos serviços públicos oferecidos no Brasil. Ela enfatiza que, mesmo com a normalidade da audição periférica, a criança pode não estar escutando bem porque ocorrem alterações da cóclea para o cérebro, o que a leva a não processar bem o que está ouvindo, como mostram vários trabalhos que correlacionam processamento auditivo central com aprendizagem.

Ela defende então o aumento da oferta dessas avaliações nos serviços públicos de saúde, como evidenciam os resultados da pesquisa, que não só a justificam como chamam a atenção para urgências, sugerindo a necessidade do aumento da utilização de fonoaudiólogos nas escolas com vistas ao atendimento dessa necessidade.

Mais ainda, ela considera que, além do teste Dicótico de Digitos, precisam ser aplicados outros testes do processamento auditivo central de forma integral, o que permite a avaliação de todas as habilidades inerentes à audição, para que os tratamentos possam ser corretamente encaminhados, propiciando uma evolução rápida dos resultados dos tratamentos, que hoje se revelam eficientes quando o problema está suficientemente localizado.

Ela destaca ainda a necessidade de preocupação com o ruído no ambiente escolar, que deve ser visto como uma questão de saúde pública, obedecendo as normas da ABNT que sugerem que o ruído de sala de aula não deve ultrapassar 55 decibéis. Nas escolas eles são mais elevados, o que causa dificuldade para todos, principalmente para as crianças com dificuldade escolar, conforme comprovou o estudo. Neste particular, Nádia destaca a importância do fonoaudiólogo nas escolas para incentivar medidas que propiciem um ambiente escolar mais silencioso, contribuindo para a promoção da saúde. Para ela, essa intervenção deve ocorrer desde o projeto do prédio até a construção e montagem das salas de aulas.

Publicação

Dissertação: “Percepção de fala no ruído em crianças com dificuldade escolar”
Autora: Nádia Giulian de Carvalho
Orientadora: Maria Francisca Colella Santos
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)