O planeta está muito próximo do ponto de transição – momento em que o sistema climático da Terra ultrapassa um limite crítico de aquecimento e sofre uma mudança irreversível – e isso precisa ser levado em conta pelos governantes no momento de tomar decisões.

O alerta foi feito nesta quarta-feira (23), na Unicamp, pelo coordenador do Programa Mudanças Climáticas da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Luiz Aragão, durante workshop em que a Fundação faz um balanço do programa e avalia tendências de futuro das pesquisas climáticas.
“Não há mais espaços para que a tomada de decisão seja realizada sem considerar os aspectos climáticos”, disse ele durante o evento no auditório do Instituto de Geociências (IG), que termina nesta quinta-feira (24).
“A mudança climática deve ser levada em conta na hora de estabelecer estratégias de prevenção, preparação, adaptação e mitigação dos efeitos extremos do clima, já que, até agora, a resposta tem sido apenas em relação aos danos causados, e não à prevenção”, reclamou. Para ele, é urgente que o país deixe de atuar apenas na resposta aos desastres e passe a focar na prevenção. Essa mudança, afirma, reduz prejuízos econômicos e garante a justiça climática, uma vez que as populações mais vulneráveis – como pequenos agricultores e habitantes de moradias inadequadas – são as que mais sofrem com os impactos extremos.
Para Aragão, a mudança climática já é realidade. “As evidências estão aí. E nem precisamos mais de modelos para demonstrar que a mudança já ocorre e afeta diversos setores econômicos do país”, afirmou. “Nos últimos meses, a temperatura dos oceanos e as temperaturas terrestres têm batido recordes – cerca de 0,7 ºC acima da média histórica. As tendências das temperaturas atuais devem ultrapassar 1,5 ºC – isso quer dizer que a gente está muito perto do ponto de transição”, afirma.

Aragão lembrou que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês) estima uma chance de 90% de o El Niño de 2026 se tornar “muito forte” e 69% de ser o mais intenso já registrado desde 1950.
Enfrentamento à mudança climática
Responsável pela Diretoria Executiva de Sustentabilidade (DExS) da Unicamp, o professor Roberto Donato avalia que, historicamente, a Fapesp tem priorizado estudos em certas áreas cruciais, como energia, agricultura, ações de mitigação e desmatamento de florestas. Para ele, o foco atual da ciência é avançar para além da geração de dados, contribuindo diretamente para a implementação de políticas públicas de enfrentamento à mudança climática. O grande desafio, diz ele, é garantir que as universidades e centros de pesquisa participem ativamente do processo de tomada de decisões e da execução dessas políticas.
Donato afirmou que a Unicamp tem participado ativamente desse processo por meio de ações de extensão e inovação. O diretor lembra que a Universidade está desenvolvendo uma política científica e tecnológica voltada para a sustentabilidade, tendo como destaque o HIDS (Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável), “planejado para ser uma plataforma de produção de soluções de inovação científica, tecnológica e social para o enfrentamento da crise climática”.
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