A política de formação de professores que está sendo estruturada na Unicamp vai buscar a valorização das licenciaturas, afirmou o vice-presidente do Grupo de Trabalho (GT) encarregado de definir uma proposta, o assessor docente de Gabinete do Reitor, Arnaldo Pinto Junior, durante a abertura do I Seminário Política de Formação de Professores, realizado nos dias 31 de agosto e 1º de setembro no auditório Raízes, do Ciclo Básico da Unicamp.
Organizado pelo Gabinete do Reitor e Pró-Reitoria de Graduação (PRG), em conjunto com a Comissão Central de Graduação (CCG) e com o Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem ([ea]²), o seminário discutiu os desafios e perspectivas da formação do professor hoje.
De acordo com Pinto Jr, o GT deverá propor até o final do ano as bases de uma política institucional de formação de professores para a educação básica, articulando de forma robusta os cursos de licenciatura de diferentes unidades e situando a área da educação como estratégica para a ampliação de diálogos com a sociedade.
“Estamos preparando uma política de formação de professores para valorizar as licenciaturas”, afirmou ele. “E isso é importante porque é um posicionamento da nossa Universidade: colocar as licenciaturas como um espaço importante de atuação da Unicamp – muito reconhecida pela excelência de suas pesquisas –, mas que também se preocupa com a futuras gerações de professoras e professores que atuam na educação básica”, acrescentou.
“Os conhecimentos acadêmicos de cada área – física, história, geografia, matemática etc. –, têm, claro, sua importância, mas os saberes docentes são fundamentais para trabalhar esses conhecimentos na formação das novas gerações que estão passando pelas escolas, seja no ensino fundamental, seja no ensino médio”, argumenta o professor.
Segundo ele, trata-se de uma política que pretende aproximar efetivamente a atuação do professor das áreas de pesquisa, ensino e extensão.

O projeto institucional
O seminário integra o processo de construção do projeto institucional de formação de professores na Universidade. Ao longo de dois dias, especialistas discutiram os desafios e perspectivas da formação docente, o papel das licenciaturas em universidade pública, o perfil profissional almejado e a articulação entre prática como componente curricular – estágio e extensão – para a consolidação de processos formativos interdisciplinares e compartilhados.
A representante da PRG no GT, Jacqueline Peixoto Barbosa, lembrou a importância da estruturação de uma política de formação docente. Segundo ela, a formação precisa ser assumida como um compromisso institucional e responsabilidade social da Universidade como um todo, sem se restringir a determinados cursos, unidades ou departamentos.
Ela defendeu também a necessidade de construir um “lugar comum” de diálogo entre universidade e escola pública, conectando a pesquisa e a formação acadêmica à prática e aos desafios cotidianos das redes de ensino.
Por conta disso, anunciou a realização de um segundo seminário, em meados de outubro, voltado à participação da rede pública estadual nos 20 municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC).
A professora ressaltou que um dos objetivos do encontro é sistematizar o acúmulo de experiências (estágios e extensão) “para gerar articulação, continuidade e identidade institucional sem anular a diversidade acadêmica”. O GT prevê entregar um relatório no final deste ano, mas já definiu o perfil de profissional que os cursos de licenciatura deverão formar.
De acordo com Pinto Jr., o profissional deve reconhecer a pluralidade e diversidade sociocultural para atuar com respeito às diferenças étnico-raciais, de gênero, de faixa etária, de classe social, de necessidades especiais e de orientação sexual ou religiosa.
Além disso, diz ele, precisará reconhecer diferentes contextos socioculturais de inserção da instituição escolar em que desenvolve suas atividades, assumindo posturas críticas e propositivas com vistas à transformação social. Deve, ainda, desenvolver suas atividades profissionais de forma “coletiva, colaborativa e comprometida com o bem público”, adotando perspectivas interdisciplinares.

Apagão docente
Os especialistas lembram que o Brasil está, hoje, à beira do que está sendo chamado de “apagão docente”.
“Daqui a pouco não teremos mais professores em determinadas áreas”, disse Jacqueline Barbosa. “Isso é mais sensível na área de exatas. Professor de física e química, por exemplo, está se tornando uma raridade”, ressalta.
“Com certeza corremos o risco de apagão. Mas é preciso lembrar que esse não é um problema exclusivamente brasileiro. Trata-se de um fenômeno internacional”, avalia Pinto Jr. “O Brasil não está ileso dessa tendência de diminuição drástica de professores e professoras na educação básica”, acrescenta.
Dados divulgados pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) em março deste ano mostram que o risco é real. De acordo com projeções feitas pela entidade com base em dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), até 2040 o país deverá registrar um déficit de 235 mil professores no ensino básico.
Os dados apontam para dificuldades na formação, já que a investigação apurou que 58% dos alunos de licenciatura desistem do curso antes de receber o diploma. O levantamento mostrou ainda que 16 estados brasileiros apresentam déficit crítico de docentes de física, por exemplo.
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