“Você é a continuação de um sonho da sua mãe e do seu pai, de todos que vieram antes de você. Honre quem abriu o caminho e seja o caminho para quem vem depois”, aconselha o cartaz na entrada da quinta edição da Unicamp Black Network (UBN), feira voltada a jovens pretos e pardos em busca de estágios e empregos, realizada nesta quarta-feira (2/9), no prédio da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) da Unicamp.
A UBN 2026 bateu o recorde de inscritos, com mais de mil estudantes interessados em conhecer processos seletivos, conversar com recrutadores e descobrir caminhos que nem sempre parecem acessíveis. Nos estandes, representantes das 25 empresas presentes nesta edição explicaram suas áreas de atuação, apresentaram oportunidades e, sobretudo, aproximaram-se de uma parcela de talentos que ainda encontra barreiras para chegar aos espaços mais disputados do mercado de trabalho.

Matheus Pires, cofundador e presidente da UBN, destaca o crescimento ao longo das cinco edições da feira, que deixou de ser apenas um encontro entre estudantes e recrutadores para se transformar em uma rede de conexões. “Desde a primeira edição o evento tem crescido em todos os aspectos: número de participantes, número de empresas envolvidas e infraestrutura”, afirma.
Para ele, a consolidação da feira é motivo de orgulho tanto para a organização quanto para a Universidade, parceira do evento. “Somos 25 pessoas envolvidas na organização, a maioria alunos e ex-alunos da Unicamp”, destaca.
A UBN mantém programas de mentoria e, durante o evento, ofereceu atendimento para revisão de currículos e perfis no LinkedIn. A organização mapeia oportunidades e ainda oferece bolsas de formação para interessados em cursos de inglês, negócios, Excel e outras áreas. “É uma jornada criada junto”, resume Pires.

“Das empresas que participam do encontro, historicamente pelo menos 80% recrutam ao menos uma pessoa da base de inscritos a cada ano. A gente tem um caso de uma empresa que, na edição anterior, recrutou 13 pessoas entre os participantes”, conta.
A proposta da feira nasceu de uma constatação que Pires conheceu pela própria experiência. Formado em Engenharia Mecânica pela Unicamp, ele entrou na Universidade em 2015. Na sala de aula, lembra, eram cerca de 140 estudantes, dos quais apenas seis negros. “A UBN nasceu de uma dor, que era a de olhar pra sala de aula”, afirma.
A percepção de que havia poucos estudantes negros ao seu redor acabou dando origem a uma comunidade que, com o tempo, se transformou na rede que hoje promove a feira. “A presença de jovens negros nos espaços de formação e, posteriormente, no mercado de trabalho ainda está distante da realidade da população brasileira. Nosso trabalho é ajudar a reduzir essa lacuna de empregabilidade”, afirma. Segundo ele, menos de 10% dos quadros executivos das maiores empresas brasileiras são compostos por pessoas pretas e pardas. “Não existe um futuro de país de sucesso que não passe por reduzir desigualdades raciais”, ressalta.
Desde 2025, Pires é aluno da Harvard Business School, nos Estados Unidos. Ele destaca que é o primeiro estudante negro egresso da Unicamp na prestigiada escola de negócios. Ao se candidatar, levou para o processo seletivo a própria história e a experiência de construção da UBN. “Harvard já recebeu aproximadamente mil estudantes brasileiros ao longo de um século de seu MBA, e eu sou apenas o sétimo estudante negro brasileiro a passar pelo programa.”

Via de mão dupla
No início do projeto, lembra Pires, era necessário procurar as empresas e convidá-las a participar da UBN. Hoje, muitas chegam por indicação de outras companhias ou de profissionais que conheceram a feira nas edições anteriores. Neste ano, 6 das 25 empresas presentes eram estreantes, entre elas a Volkswagen e o iFood.
Gabriele Cristina da Silva trabalha na Volkswagen há 16 anos. Além da função de compradora de peças de reposição e acessórios, lidera o grupo Nós, parte de uma estrutura de cinco núcleos mantidos pela empresa que reúne voluntários e ações voltadas à promoção da diversidade no ambiente corporativo. “Estar aqui já é diferente. Muitos entram na companhia por causa dos pais, que trabalhavam ou trabalham na empresa. Acabamos tendo essa possibilidade de fazer um curso e conseguir uma vaga. Foi o meu caso.”
Ela considera a presença da Volkswagen na feira uma conquista. “Espero que seja a primeira de muitas. Como companhia, também precisamos assumir esse compromisso social de fazer a nossa parte e nos comprometer”, defende.



Taiama Marinho, da área de recrutamento da plataforma iFood, conta que a empresa chegou à feira com foco principal no programa de estágio. “Os estudantes da Unicamp são superantenados, o que faz bastante diferença para nosso contexto. É uma turma que tem um olhar para a inovação muito forte e já chega conectada com tudo que é de novo no mercado”, afirma.
Participante da feira desde 2023, a consultoria estratégica Kearney já recrutou estudantes da Universidade por meio das iniciativas relacionadas à feira. Bruna Honório, da área de recrutamento, destaca que a experiência também provoca transformação dentro das próprias empresas. “Ter essa parceria com a UBN expandiu nossa mente para muitas oportunidades e ações que podemos fazer. Para mim, como RH, é um privilégio poder fazer parte da vida dessas pessoas para mostrar para elas que existe um leque de oportunidades.”
Damaris Marques Santos de Lima, aluna do curso de Física, visitou a feira pela segunda vez. No ano passado, chegou a avançar em um processo seletivo, e agora, perto de concluir o curso, busca empresas com oportunidades compatíveis com sua formação. “É um ambiente interessante para conversar com os recrutadores mais de perto e tentar também descobrir qual emprego vai se adequar mais à minha formação”, conta.


A feira também despertou a curiosidade entre estudantes que não estão procurando imediatamente uma vaga. Lyan Lisboa, aluno de História, visitou a UBN pela primeira vez e aproveitou a oportunidade para ampliar a experiência. Sua namorada, Joane Ramos dos Santos, estudante de Música, também procurava possibilidades para além dos caminhos tradicionalmente associados ao curso. Para ela, conhecer diferentes empresas pode significar descobrir novas formas de aplicar sua formação. “É importante conhecer os projetos, ver se tem como aplicar alguma coisa no meu curso e, se não tiver, também me abrir um pouco mais para ver se consigo atuar em alguma outra área”, comentou.
Ao aproximar estudantes, empresas e oportunidades, a UBN procura fazer da feira mais do que um encontro pontual. A proposta é construir uma rede que continue depois dos estandes e das conversas, conectando formação, empregabilidade e diversidade. É uma movimentação que traduz a frase escrita na porta de entrada. O sonho que chega à feira não é necessariamente o de uma vaga específica, de uma empresa determinada ou de um cargo já imaginado. Pode ser simplesmente o desejo de encontrar uma possibilidade.
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