Pesquisa inédita, iniciada pela Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), pretende promover um amplo e profundo diagnóstico das condições de trabalho dos professores da Unicamp. O levantamento tem como objetivo medir as transformações ocorridas nas últimas décadas no ambiente universitário – como estrutura física de trabalho, intensificação da digitalização, alterações nas métricas de desempenho, formas de contratação e progressão na carreira e renovação geracional do quadro funcional.
Além dos professores, a pesquisa investigará também as condições de trabalho dos servidores Paepe (Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão) e dos trabalhadores da Funcamp (Fundação de Desenvolvimento da Unicamp).
De acordo com a presidente da associação, professora Silvia Gatti, a pesquisa foi estruturada em quatro eixos.
No primeiro, pretende identificar as transformações no perfil de docentes, considerando fatores como geração, gênero, raça e inserção institucional. Um segundo eixo analisará a jornada de trabalho e os limites entre vida profissional e pessoal.

O terceiro vai tratar das relações institucionais e interpessoais, investigando aspectos como cooperação, sociabilidade e assédio. O quarto eixo será dedicado às dimensões subjetivas do trabalho, como saúde mental, reconhecimento profissional e bem-estar.
Chamada de “Transformações no Trabalho Docente na Unicamp: condições de trabalho, vivência universitária e relações institucionais”, a pesquisa deverá ser concluída até maio do ano que vem, quando a ADunicamp completa 50 anos de existência.
Segundo Gatti, levantamentos anteriores feitos pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) indicam carga de trabalho excessiva entre os professores.
“Nos nossos docentes trabalham muito nos finais de semana”, afirma Gatti. “Trabalham muito mais que oito horas por dia ao longo da semana. Enfrentam cobranças das agências de fomento. Tudo isso impacta o conjunto dos docentes de maneira contundente”, explica.
“Você pergunta em quantos projetos um professor está envolvido e descobre que ele tem aula de graduação e de pós, relatórios a apresentar às agências de fomento, além de participação em diversos grupos ou comissões. Não são raros os casos de docente envolvido em 11 atividades diferentes no seu dia a dia dentro da universidade”, argumenta. “Isso não pode ser saudável para ninguém”, constata.
Os resultados da pesquisa serão apresentados à comunidade; haverá debates, e as conclusões serão levadas à Reitoria.
Desafios
A presidente da ADunicamp lembra dos muitos desafios que os professores enfrentaram ao longo das últimas décadas. Fundada em 1977, em plena ditadura militar, a ADunicamp colocou-se como um espaço de resistência, em defesa do ensino público de qualidade, da autonomia e da liberdade de cátedra.
No início da década de 1980, a Unicamp viveu um dos episódios mais marcantes e conturbados de sua história. O governo estadual de São Paulo impôs a substituição de diretores eleitos e nomeou interventores para assumir cargos de comando e direção em diversos institutos e faculdades da universidade.
A comunidade acadêmica reagiu. Organizou assembleias e passeatas de protesto, muitas das quais tomaram as ruas de Campinas. No campus, a comunidade acadêmica encontrou uma forma peculiar de resistência.
“Professores faziam corredores pelos quais os interventores tinham de passar antes de chegarem às salas onde iriam trabalhar”, conta Gatti. “Houve o caso de um interventor que não conhecia o campus e, no seu primeiro dia, perguntou como faria para chegar ao seu local de trabalho. Foi orientado a tomar determinado caminho e, no final, descobriu que caminhava em círculo em torno do Ciclo Básico”, relembra.
A pressão interna e política deu resultado: vários dos interventores nomeados acabaram renunciando aos cargos.
Hoje, diz ela, os desafios são outros.
Gatti lembra que a Unicamp conta hoje com três gerações diferentes de professores – submetidos, inclusive, a diferentes regimes de aposentadoria. “A gente tem que estar sempre atento para que não venha uma nova reforma da previdência que nos prejudique mais ainda”, alerta. “A manutenção de direitos é, hoje, um grande desafio”, diz.


Programação dos 50 anos
Desde seu surgimento, a ADunicamp tem se notabilizado por atividades que vão além do caráter sindical das entidades de representação. Por exemplo, mantém parcerias ou oferece apoio a entidades sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), comunidades indígenas, população trans e cozinhas solidárias.
De acordo com a presidente, as comemorações pelos 50 anos deverão refletir essa característica. A programação começa agora em agosto e se estende até maio de 2027, com atividades culturais, exposições, eventos, cursos e feiras.
Ações
A ADunicamp mantém programas de apoio e assistência às cozinhas solidárias do São Marcos e do ProDICA (Programa Desenvolvimento Integrativo Criança e Adulto). Este último distribui mais de 400 refeições por semana, proporcionando alimentação saudável para famílias em extrema vulnerabilidade socioeconômica. O programa ainda oferece atividades pedagógicas e profissionalizantes, como cursos de culinária, panificação, estética e oficinas de artesanato.
Ações semelhantes são promovidas pelo programa no Jardim São Marcos – uma das regiões de vulnerabilidade socioeconômica da cidade. ADunicamp abre espaços, por exemplo, para a comercialização de pães artesanais preparados pela comunidade.
Há, ainda, ações solidárias junto ao Acampamento Marielle Vive, instalado em Valinhos.
Indígenas
A ADunicamp, que mantém forte parceria com o Coletivo de Acadêmicos Indígenas da Unicamp (AIUN), retomou a Feira de Artesanatos Indígenas “Saberes ancestrais, arte viva”. A proposta é unir valorização cultural e geração de renda para os estudantes e comunidades indígenas, com a venda de cestarias, cerâmicas, bijuterias e camisas com grafismo tradicional, trazendo a cultura indígena como passado, presente e futuro, pulsando no território acadêmico e na vida política da universidade.
Cinema
Gatti conta que serão mantidos os ciclos de cinema da ADunicamp. Uma das novidades será a Sessão de Cinema Reserva Imovision – uma iniciativa que amplia o acesso gratuito ao cinema autoral e fortalece a cultura como espaço de encontro, reflexão e formação crítica. O ciclo é uma parceria entre a ADunicamp e a Imovision, uma das maiores distribuidoras de cinema independente e autoral do Brasil. De acordo com a presidente, haverá também a retomada dos ciclos de cinema italiano e cubano.
Estão previstas, ainda, apresentações de artistas e grupos de música que vão do clássico ao popular. Os docentes serão incentivados a mostrarem sua arte na ADunicamp.
Fotos
A partir dos arquivos da associação, estão previstas exposições de fotografias dos grandes temas dos quais a Unicamp participou. A expectativa é fazer pelo menos uma exposição por mês – inclusive nos campi de Limeira e Piracicaba. “Este será um movimento constante e itinerante”, diz Gatti.
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