Mais da metade das 24 unidades da Unicamp lançou — ou estão finalizando — editais do programa piloto de concursos exclusivos para a contratação de professores pretos e pardos, uma das ações afirmativas destinadas ao ingresso de docentes e aprovadas pelo Conselho Universitário (Consu). Até a terceira semana de julho, 12 unidades de ensino, pesquisa e extensão da Universidade já haviam publicado editais com vagas destinadas exclusivamente a esse grupo. (Veja abaixo a lista completa). Outras duas — Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) e Instituto de Geociência — deverão abrir inscrições na primeira semana de agosto (confira o link).
A Unicamp conta com 1.867 docentes, dos quais 121 são negros (31 pretos e 90 pardos), o que corresponde a cerca de 6,5% do corpo docente, de acordo com os dados do Censo do Ensino Superior (2024) divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira .

O programa prevê 24 cargos, um para cada unidade, e segue o exemplo da administração pública federal, que reserva aos candidatos pretos e pardos 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos que realiza. O programa define que os candidatos deverão apresentar autodeclaração étnico-racial e passar por procedimento de heteroidentificação para confirmação da condição declarada.
Desde 2021, a Unicamp reserva a candidatos negros 20% das vagas em concursos e processos seletivos para Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe).
O coordenador-geral da Universidade e reitor em exercício, Fernando Coelho, ressalta dois aspectos que considera importantes nessa política. Primeiro, diz, vai garantir o ingresso desse profissional em todas as unidades da Universidade. Além disso, continua Coelho, a seleção preserva aspectos importantes como o mérito, por exemplo.
Coelho diz estar otimista. “Tenho a impressão de que vamos conseguir contratar profissionais muito bem qualificados, e isso deverá fazer com que possamos aumentar com qualidade a densidade de profissionais pretos e pardos no quadro docente da Universidade”, avalia.
Segundo ele, ainda vai levar um tempo para que se possa fazer uma avaliação clara sobre a política, mas já admite a possibilidade de ampliar o alcance da medida. “Neste primeiro momento, ficamos focados em profissionais pretos e pardos, mas eu acho que uma expansão natural seria criar uma vertente também para profissionais indígenas”, disse.
Direitos
A professora Debora Jeffrey, diretora da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, disse, em depoimento ao programa Conexão Adunicamp, que a reserva de vagas destinada a docentes pretos e pardos representa um avanço para a Universidade. Lembrou, porém, os desafios que envolvem a iniciativa, como a efetivação de ações afirmativas que simbolizam a reparação histórica da população negra, bem como a sua representatividade e efetividade de direitos.

“Temos, hoje, 55% da população brasileira que se autodeclara preta ou parda, mas ela não se faz presente na Universidade”, diz a diretora. “No caso da Unicamp, somos menos de 10% (dos professores). Isso significa que alguma coisa aconteceu para que essas pessoas não estejam aqui de forma amplamente representada.”
Para Jeffrey, o modelo adotado na Unicamp, com uma vaga reservada por unidade, é desafiador, pois algumas delas nunca tiveram um professor negro. Para ela, esse fato vai exigir acolhimento, bem como o reconhecimento de novas epistemologias.
A diretora considera ainda, que o concurso faz parte de um processo de enfrentamento ao racismo institucional e da consolidação da política de ações afirmativas estabelecidas nos últimos anos na Universidade.
Foto de capa:
