A trajetória acadêmica, intelectual e artística do antropólogo, educador, escritor e fotógrafo Carlos Rodrigues Brandão será celebrada com a exposição “Os Rostos do Campo: a Poética do Encontro de Carlos Rodrigues Brandão”, a partir do próximo dia 29, na Sala Gabriel García Márquez, do Memorial da América Latina, em São Paulo. Aberta ao público em geral e com entrada gratuita, a mostra, que segue até 28 de agosto, integra a programação dos 60 anos da Unicamp.
Com 230 fotografias feitas por Brandão, selecionadas de um acervo de aproximadamente 4 mil imagens produzidas ao longo de décadas de pesquisa de campo, a exposição é organizada pelo Centro de Memória-Unicamp (CMU), com apoio do Consulado Geral do México. A curadoria, expografia e produção executiva da mostra foram realizadas pela pós-doutoranda Iara Rolim. Sua pesquisa de pós-doutorado teve a orientação da professora Maria Silvia Hadler.

“Brandão doou um conjunto de fotografias tiradas durante sua atividade como professor e pesquisador. A importância de resgatar esse material é que, se ele não estiver exposto ao público, só quem faz pesquisa tem acesso. Brandão escreveu muito, e é mais conhecido pelas letras do que pelas imagens, mas suas fotos têm um olhar muito interessante”, explica Hadler. “Então, a ideia é não só trazer isso a público, mas mostrar como Brandão já tinha um olhar da antropologia visual antes mesmo de essa vertente se consolidar na antropologia”, ressalta.
Já a pós-doutoranda Iara Rolim conta que o projeto resgata um sonho não realizado. “Esta exposição nasceu do meu pós-doutorado no Centro de Memória da Unicamp, mas sua origem está na pesquisa de iniciação científica que desenvolvi ao lado de Brandão, então meu orientador. Na época, participávamos do projeto Homem, Saber e Natureza, realizado em Joanópolis, na Serra da Mantiqueira. Durante anos, sonhamos em publicar um livro com as fotografias dessa pesquisa, mas não conseguimos concluir o projeto”, lembra. “Após a morte do Brandão, retomei esse trabalho a partir do acervo fotográfico que ele havia doado ao CMU, e o processo acabou se transformando no meu pós-doutorado. A exposição é uma homenagem a ele e é também a realização de um projeto que idealizamos juntos”, celebra a pupila que se transformou em guardiã da memória do antigo mestre.
Para o diretor-presidente da Fundação Memorial da América Latina, Pedro Machado Mastrobuono, a trajetória de Brandão ensina que a memória também se constrói pelo encontro com as pessoas, seus territórios e suas culturas. “Poder realizar a exposição em parceria com a Unicamp, o Centro de Memória-Unicamp e o Consulado Geral do México em São Paulo reforça um compromisso que o Memorial considera essencial, que é justamente aproximar a produção acadêmica da sociedade e ampliar o acesso ao patrimônio cultural latino-americano”, diz ele.

Literatura
Além da produção acadêmica, Brandão consolidou uma extensa obra literária que transita entre diversas áreas e gêneros textuais. “A literatura entre a poesia e o conto, a antropologia e a educação. As três vocações que tenho escrito ao longo da vida”, dizia o professor.
Ao lado do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, Brandão foi um dos maiores expoentes da Educação Popular na América Latina. A famosa citação “A educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas mudam o mundo”, geralmente é atribuída a Freire. Contudo, a citação original é de Brandão: “Paulo sabia bem que, por conta própria, a educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas mudam o mundo”.
Com esse legado enraizado na cultura nacional, a exposição em São Paulo reafirma a contribuição de Brandão para a preservação da memória social por meio de um acervo que documenta diferentes culturas, territórios e formas de vida. Entre os destaques, estão fotografias produzidas no México, em 1966, durante sua formação em educação de adultos no Centro Regional de Educação Fundamental para a América Latina (Crefal), em Pátzcuaro. As imagens registram comunidades indígenas dos estados de Michoacán, Guerrero e Oaxaca.
O público também poderá conhecer registros da religiosidade popular brasileira, incluindo manifestações como Folias de Reis, Festas do Divino Espírito Santo e Cavalhadas, além de fotografias de comunidades rurais de diferentes regiões do país. As imagens retratam o cotidiano do trabalho no campo, os saberes tradicionais e os modos de vida das populações com as quais o pesquisador conviveu ao longo de décadas.
Mais do que uma retrospectiva fotográfica, a mostra propõe uma reflexão sobre o papel da fotografia na pesquisa antropológica. As imagens evidenciam a construção de vínculos entre pesquisador e comunidades, revelando a fotografia como instrumento de conhecimento, memória e diálogo cultural.


Vida
Brandão nasceu em 14 de abril de 1940, em Copacabana, no Rio de Janeiro, cidade onde passou os primeiros 25 anos de vida. Formado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tornou-se mestre em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Ciências Sociais pela USP.
Sua carreira docente teve início em 1967, quando ingressou na UnB. Desde então, dedicou mais de cinco décadas ao ensino superior, à pesquisa e à formação de pesquisadores. Brandão construiu uma sólida carreira na Unicamp, onde se tornou professor livre-docente em Antropologia Simbólica, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), de 1976 a 1997, e seguiu envolvido com a pós-graduação como professor colaborador até depois da aposentadoria.
Na Faculdade de Educação (FE), também da Unicamp, o professor colaborou com o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (Gepeja). Brandão ainda ofereceu, em 2017, em parceria com a professora Nima Spigolon, a disciplina “Temas e lugares entre fronteiras: educação e vida”, no Programa de Pós-graduação em Educação. Em 2015, recebeu o título de professor emérito pela Unicamp.
Distinções
Ao longo da carreira, Brandão conquistou importantes distinções, entre elas a Comenda da Ordem do Mérito Científico, concedida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Recebeu o título de professor emérito da Unicamp e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), além de ser doutor honoris causa pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pela Universidad Nacional de Luján, na Argentina. Também foi Fellow do St. Edmund’s College, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Brandão faleceu aos 83 anos, em 12 de julho de 2023. Para mergulhar em seu universo e explorar seu vasto legado acadêmico, visite o site.

Serviço:
Exposição – “Os Rostos do Campo: a poética de Carlos Rodrigues Brandão”
Memorial da América Latina – Sala Gabriel García Márquez – Av. Mário de Andrade, 664 – Barra Funda, São Paulo
Terça a domingo, das 10h às 17h
Entrada gratuita
De 29 de julho a 28 de agosto
Foto de capa:
