Garantir e ampliar o ingresso na universidade é apenas uma parte do desafio de democratizar o ensino superior no Brasil. Na Unicamp, assegurar que os estudantes tenham condições de permanecer na instituição e concluir sua formação tornou-se um eixo estratégico. A criação da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil (Deape) fortaleceu essa política de atuação – que completa 50 anos – e ampliou o alcance das ações voltadas ao bem-estar, ao desenvolvimento acadêmico e à inclusão.
De acordo com a responsável pela Deape, a professora Mariana Freitas Nery, a ampliação das ações afirmativas – como as cotas, o Vestibular Indígena, os programas de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais) e de Formação Interdisciplinar Superior (Profis) – exigiu que a Universidade avançasse também na estrutura de apoio aos estudantes. “A democratização do acesso precisa ser acompanhada da democratização da permanência. Não basta garantir a entrada na universidade; é preciso criar condições para que esses estudantes concluam sua trajetória acadêmica com sucesso.”
Após um trabalho de cinco décadas, a reorganização institucional desse setor começou em 2023, com a transformação do antigo Serviço de Apoio ao Estudante (SAE) na já mencionada Deape. A mudança consolidou, em 2024, uma estrutura vinculada diretamente à Administração Central da Universidade, ampliando sua atuação junto à graduação, à pós-graduação e aos colégios técnicos.

Mais do que oferecer auxílio financeiro, a política de permanência passou a reunir diferentes frentes de atuação. Além das bolsas e da moradia estudantil, a Diretoria coordena ações voltadas ao acolhimento, à saúde mental, ao acompanhamento pedagógico e à inclusão de estudantes com deficiência.
Diversidade
Na avaliação de Nery, o fortalecimento da permanência estudantil provocou uma mudança de paradigma na Universidade. O antigo entendimento de que a ampliação do acesso poderia comprometer a excelência acadêmica foi superado pelos resultados obtidos nos últimos anos. “Os indicadores mostram exatamente o contrário. A produtividade da Universidade continua crescendo, e a diversidade enriquece o ambiente acadêmico”, atesta ela, ressaltando que os estudantes beneficiados pelas políticas de permanência frequentemente tornam-se agentes de transformação em suas comunidades. “Muitos são os primeiros de suas famílias a ingressar na universidade. Quando concluem a graduação, transformam não apenas suas próprias vidas, mas também a realidade de todo o seu entorno.”
Às vésperas dos 50 anos das políticas de permanência estudantil da Unicamp, Nery avalia que a Universidade alcançou um estágio de maturidade institucional que coloca o tema entre suas prioridades estratégicas. Para a diretora,garantir condições para que estudantes de diferentes origens ingressem, permaneçam e concluam sua formação representa um investimento não apenas na instituição, mas também no desenvolvimento da sociedade. “A permanência não oferece vantagens simplesmente; ela busca reduzir desigualdades para que todos tenham condições reais de desenvolver seu potencial. É o que deve fazer uma universidade pública comprometida com a equidade e com a transformação social.”

Inclusão
Uma das frentes mais recentes da Deape, lembra a diretora, é o fortalecimento da política de atendimento aos estudantes com deficiência, especialmente após a regulamentação institucional ocorrida em 2024. Por meio do Programa de Atendimento Educacional Especializado (PAE), cada estudante recebe um plano individual de acompanhamento elaborado por profissionais especializados. As adaptações variam conforme as necessidades de cada caso e podem incluir adequações em avaliações, materiais didáticos acessíveis, apoio pedagógico ou intérpretes de Libras.
Nery faz questão de ressaltar que a inclusão vai muito além da eliminação de barreiras arquitetônicas. “Às vezes, a barreira está no método de avaliação, no material didático ou na forma de ensinar. O objetivo é remover essas barreiras para que o estudante possa demonstrar plenamente seu potencial acadêmico”, afirma.
A Deape também atua com suporte aos docentes, oferecendo orientação técnica sobre metodologias inclusivas e adaptações pedagógicas. “Não é o caso de o professor resistir à inclusão; ele apenas não teve formação específica para lidar com essas situações. Nosso papel é oferecer esse apoio para que a inclusão aconteça de forma segura e qualificada”, reforça Nery.

Multidisciplinar
A assessora docente da Deape, Renata Gallo, reforça que a Universidade tem investido continuamente no fortalecimento das iniciativas de permanência estudantil. “A Unicamp tem olhado cada vez mais para essas políticas, desenvolvendo e aprimorando seus programas. Hoje, contamos com uma equipe multidisciplinar que atua para assegurar a permanência dos estudantes durante toda sua trajetória acadêmica”, afirma.
Além dos programas de assistência, a Universidade mantém bolsas sociais vinculadas a projetos de formação acadêmica, científica e profissional, permitindo que estudantes em situação de vulnerabilidade conciliem apoio financeiro com experiências de aprendizado.
Esse fortalecimento acompanha a transformação do perfil dos estudantes da Unicamp. Atualmente, entre 50% e 55% dos alunos são oriundos da rede pública de ensino, resultado da ampliação das políticas de inclusão e das diferentes modalidades de ingresso.
Para Renata Gallo, esse cenário reforça a importância de ampliar as ações. “Com essa mudança de perfil, as políticas de permanência precisam ser pensadas exatamente para esse público. Os ganhos são imensuráveis, porque a diversidade amplia o debate acadêmico e contribui para a formação de todos os estudantes”, destaca.
Ainda na avaliação da assessora docente, os benefícios da permanência estudantil se estendem além da Universidade, ao possibilitarem que mais estudantes concluam a graduação e ingressem no mercado de trabalho. “É um elemento fundamental para a democratização do ensino superior. Os resultados não ficam restritos à universidade; quem ganha é o país como um todo”, opina.
Novidades
A expectativa para os próximos meses inclui a implantação de um novo posto da Deape na Biblioteca Central, no campus de Barão Geraldo, em Campinas, além da modernização da unidade de Limeira. Também pretendem criar um painel de indicadores, em parceria com o Escritório de Dados (Edat). A 8ª edição do “Congresso de Permanência Estudantil” e um evento comemorativo marcará a trajetória da política na Universidade.

Bolsas transformam trajetória de engenheira da Unicamp
Enquanto percorria os corredores da centenária Cardiff University, no Reino Unido, a engenheira civil Ingrid Xavier de Oliveira tinha uma certeza em mente: na trajetória entre dar o primeiro passo acadêmico e chegar até ali, nada foi fácil. Vinda de Sorocaba, ingressou na graduação da Unicamp em Engenharia Civil, em 2019, e concluiu em 2023. Recentemente, defendeu seu mestrado na área de Estruturas.
Durante os primeiros anos da graduação, a estudante conciliou diferentes modalidades de auxílio (social, moradia e alimentação) com atividades institucionais. Posteriormente, foi selecionada para desenvolver projetos de iniciação científica financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nessa etapa, a Universidade complementou sua renda, possibilitando que Ingrid se dedicasse integralmente aos estudos.
No último semestre do curso, ela passou a atuar como monitora por meio do Programa de Apoio Didático (PAD), mantendo o suporte financeiro necessário para custear suas despesas básicas. Esse conjunto de auxílios foi fundamental para que concluísse a graduação com excelência, em 2023. Por ter obtido o melhor desempenho acadêmico entre os formandos de sua turma, recebeu as premiações concedidas pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (CREA-SP) e pelo Instituto de Engenharia.

Posteriormente, Ingrid ingressou no mestrado, inicialmente com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e, depois, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em seguida, obteve uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), também concedida pela Fapesp, o que possibilitou a realização de parte do mestrado em regime sanduíche na Cardiff University, durante seis meses, no Reino Unido.
Além dos impactos individuais, Ingrid acredita que os programas de permanência representam um investimento social com retorno para toda a sociedade. Na sua avaliação, ao garantir que estudantes permaneçam na universidade e se qualifiquem profissionalmente, a instituição amplia as oportunidades de mobilidade social e forma profissionais altamente capacitados. Ela cita como exemplo colegas que hoje ocupam posições de destaque no mercado de trabalho ou na pesquisa científica. “É uma política que ajuda o estudante quando ele mais precisa e, depois, esse profissional devolve esse investimento para a sociedade por meio do seu trabalho”, diz.
Sonhos
A estudante também destaca os benefícios das políticas de permanência para a saúde mental dos universitários. Segundo ela, a necessidade de conciliar estudo e trabalho costuma gerar sobrecarga física e emocional, especialmente em cursos integrais. Ao reduzir essa pressão, os auxílios permitem maior dedicação às atividades acadêmicas e melhor aproveitamento da formação. “Os sonhos podem, sim, se tornar realidade. Quando a gente acredita no que está fazendo e encontra o apoio necessário para continuar, surgem oportunidades que muitas vezes pareciam impossíveis”, celebra.
Permanência estudantil impulsiona formação de aluna indígena
Sair da aldeia Muruari, em Santarém (PA), para estudar na Unicamp parecia um sonho distante para Amanda Kumaruara. Integrante do povo Kumaruara e hoje estudante de Administração Pública da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira, ela afirma que sua trajetória só foi possível graças às políticas de acesso e permanência estudantil, que garantiram não apenas seu ingresso na universidade, mas condições para permanecer, pesquisar e atuar em defesa dos povos indígenas.
Amanda nunca havia cogitado prestar o Vestibular da Unicamp. As dificuldades financeiras, a distância entre o Pará e São Paulo e a necessidade de trabalhar tornavam o ensino superior inviável. A oportunidade surgiu com o Vestibular Indígena realizado em Santarém. Ao chegar à Universidade, enfrentou novos desafios, como a ausência de moradia estudantil no campus de Limeira e o choque cultural. Segundo ela, o acolhimento dos próprios estudantes indígenas e os programas de permanência foram fundamentais para sua adaptação.

Hoje, aos 38 anos, Amanda é pesquisadora, liderança estudantil e representante indígena em diferentes instâncias da Unicamp. Bolsista de Iniciação Científica (Pibic), desenvolve pesquisa sobre a atuação de mulheres indígenas em posições de liderança no território Kumaruara e prepara um projeto para estudar políticas públicas de energia solar em comunidades indígenas da Amazônia, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Amanda ressalta que a permanência estudantil transformou sua trajetória e ampliou sua atuação política. Além do auxílio financeiro, destaca que as bolsas possibilitam dedicação à pesquisa, à extensão e à formação acadêmica. “Sem permanência, eu seria apenas mais uma estudante tentando sobreviver na universidade”, afirma.
México
Amanda participou de intercâmbio no México para conhecer iniciativas de atendimento psicológico voltadas aos povos indígenas. Além disso, ela integra debates nacionais sobre acesso e permanência estudantil. Para ela, permanecer na Universidade significa mais do que apoio financeiro: representa acolhimento, respeito à identidade e condições para produzir conhecimento e fortalecer os direitos dos povos indígenas. “Entendi que, para mudar o sistema, precisamos ocupar esses espaços. Precisamos estar formados, produzir conhecimento e participar da construção das políticas públicas”, aponta a estudante.
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