Uma plataforma online criada para reunir e disponibilizar livros e outros materiais didáticos adaptados a pessoas com deficiência visual e outras condições que dificultam ou impedem o acesso convencional a conteúdos impressos. Ou seja, conhecimento compartilhado sem barreiras. Este é o objetivo do Repositório “Isadora”, lançado esta semana pelo Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU).
A iniciativa do Laboratório de Acessibilidade Informacional (Labaces) centraliza, em um único ambiente digital, obras convertidas para formatos acessíveis. O nome surgiu, inicialmente, da união das letras do sistema – Informação e Serviços de Adaptação e Difusão de Obras com Recursos de Acessibilidade –, mas também faz referência à bailarina Isadora Duncan (1877-1927), reconhecida por desenvolver uma linguagem artística inovadora e fora dos padrões tradicionais, em sintonia com os princípios de inclusão que orientam o projeto.
A plataforma já está disponível para uso. Os interessados devem realizar um cadastro para acessar o acervo. De acordo com Oscar Eliel, diretor do SBU, já foram digitalizadas 111 obras, mas há um acervo acumulado ao longo de anos de trabalho que será gradualmente incorporado à plataforma. É importante ressaltar que o acesso ao conteúdo observa as normas de direitos autorais. Usuários externos precisam apresentar documentação que comprove a deficiência que justifica o uso dos materiais adaptados. No caso dos estudantes da Unicamp, essa comprovação já integra os processos institucionais de matrícula.
O diretor-adjunto do SBU, Márcio Souza Martins, detalha que o Isadora busca não apenas organizar um acervo em um ambiente seguro, mas também levar os serviços e conteúdos da Universidade para além de seus muros. “O repositório centraliza todo esse material em um único local, facilitando a busca e o acesso pelos usuários”, reforça ele.

Formatos
A coordenadora do Centro de Recursos de Aprendizagem e Pesquisa (CRA) e do Laboratório de Acessibilidade Informacional (Labaces), Michele Lebre de Marco, explica que toda a equipe atua há mais de uma década oferecendo suporte informacional à comunidade universitária com deficiência. Segundo ela, as adaptações não alteram o conteúdo original das obras, apenas o seu formato. Os materiais são convertidos para três modelos principais: áudio, texto em formato TXT compatível com leitores de tela e tecnologias assistivas e PDF acessível com recursos específicos de acessibilidade.
Entre as tecnologias compatíveis com os materiais adaptados, também estão softwares leitores de tela e dispositivos como a linha Braille, equipamento que converte informações digitais em caracteres táteis para leitura por pessoas alfabetizadas nesse sistema. “A criação do Repositório Acessível Isadora representa um avanço nas ações de acessibilidade informacional da Unicamp, fortalecendo a inclusão e ampliando as possibilidades de acesso ao conhecimento para pessoas com deficiência”, ressalta a coordenadora.
O repositório oferece dois níveis de acesso. O primeiro é aberto ao público em geral e reúne obras em domínio público ou já disponibilizadas em acesso aberto, como teses e dissertações. O segundo é restrito a usuários que comprovem ter deficiência visual ou outra condição prevista em lei para acesso a obras adaptadas protegidas por direitos autorais. Para utilizar os conteúdos de acesso restrito, o interessado deve realizar um cadastro, apresentar documentação comprobatória e aceitar um termo de responsabilidade. O objetivo é garantir que os materiais sejam disponibilizados apenas aos usuários que tenham direito legal de acesso.

Autonomia
Lançado recentemente, o Isadora ainda está em fase inicial de utilização. Os primeiros usuários cadastrados participaram dos testes de acessibilidade da plataforma, contribuindo para a validação de recursos e funcionalidades antes da abertura do sistema ao público. A expectativa é que a plataforma se torne uma importante ferramenta de inclusão, democratizando o acesso ao conhecimento produzido pela Unicamp.
Marcos Couto, que atua como técnico administrativo no Labaces e colaborou diretamente na tarefa de adaptação dos materiais incluídos no Isadora, garante que a experiência é valiosa. “É um sistema bem intuitivo, fácil para você navegar, tanto para quem tem baixa visão, que é o meu caso, quanto para uma pessoa que seja totalmente cega”, avalia. “Acredito que qualquer pessoa com deficiência visual conseguirá utilizar com autonomia total, sem auxílio. É muito simples o uso do sistema”, aprova Couto.
Aluna de graduação em Letras e deficiente visual, Bruna Lopes percebeu vantagens consideráveis em seu dia a dia com o uso do sistema. “O Isadora me ajuda muito, principalmente, por ser um meio rápido de acesso a tantos textos. Não sei se as pessoas que enxergam têm noção do quanto coisinhas que, para elas, são muito rápidas de fazer, para quem não enxerga envolvem um processo demorado e estressante”, comenta. “Daí, ter o sistema Isadora, que é um lugar onde absolutamente todas as leituras que os meus professores passam estão organizadas por capítulo, me faz ter um processo de leitura pleno e agradável”, completa.
Foto de capa:
