Enquanto busca um protagonismo global na produção agropecuária, o Brasil precisa se organizar para uma nova etapa de desenvolvimento baseada na agregação de valor aos recursos vindos do campo. Com essa perspectiva, pesquisadores da Unicamp iniciaram a articulação de uma proposta denominada “BioAgroValor”. Ainda embrionária, a iniciativa pretende reunir diferentes unidades da Universidade para transformar produtos, resíduos e subprodutos do agronegócio em materiais de alto valor agregado, com aplicações nas áreas de alimentos, saúde, fármacos, embalagens e indústria.
A coordenadora do movimento, a professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) Glaucia Maria Pastore, explica que a proposta busca ampliar o papel da ciência brasileira na geração de inovação e riqueza a partir da biodiversidade e da produção agroindustrial do país. “O conceito de BioAgroValor representa um novo estágio de desenvolvimento do setor agropecuário, combinando conhecimentos já consolidados em áreas como agricultura, biotecnologia, química, engenharia e saúde para criar produtos mais sofisticados e com maior impacto econômico”, explica. “O Brasil já possui conhecimento científico acumulado ao longo de décadas e agora tem a oportunidade de converter esse conhecimento em inovação industrial”, acrescenta.
A iniciativa também está alinhada aos princípios da economia circular. Materiais frequentemente descartados, como cascas de frutas, sementes e resíduos vegetais podem ser convertidos em alimentos, nutracêuticos, medicamentos, compostos para embalagens e diversos outros produtos.
Unidades
O projeto prevê a participação de várias unidades da Unicamp. Além da FEA, as conversas iniciais sobre o assunto também envolvem representantes da Faculdade de Engenharia Química (FEQ), do Instituto de Química (IQ), do Instituto de Biologia (IB), da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA). O grupo ainda pretende incorporar o Instituto de Computação (IC) para ampliar o uso de ferramentas digitais e de inteligência de dados nos processos de desenvolvimento tecnológico.

Outro objetivo é fortalecer a interação entre a Universidade e o setor produtivo, ressalta Pastore. A proposta busca aproveitar oportunidades de financiamento voltadas à inovação industrial, especialmente por meio de programas de subvenção econômica que estimulem parcerias entre empresas e instituições de pesquisa, como os disponibilizados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Na opinião da coordenadora do grupo, o BioAgroValor pode representar o início de uma nova fase para a Ciência nacional. “O conhecimento acadêmico é importante porque promove transformações. O que buscamos é justamente ampliar a contribuição da Ciência para o desenvolvimento do país”, destaca. Pastore afirma ainda que o movimento está aberto à participação de pesquisadores interessados no tema e que a expectativa é ampliar gradualmente a rede de colaboradores.
Paradigma
A médica e professora do Departamento de Cirurgia da FCM Raquel Franco Leal – que participou da primeira reunião do grupo – acredita que o momento é fundamental, porque marca a transição do Brasil para um novo paradigma produtivo, em que a biodiversidade deixa de ser apenas um estoque de recursos naturais para se tornar o fundamento de uma economia sustentável e competitiva. “Iniciativas como essas permitem que o país processe seus produtos naturais para gerar bioprodutos de alto valor, como novos fármacos e alimentos funcionais, o que, do ponto de vista da saúde, fortalece, por exemplo, a segurança alimentar. Para a população, os benefícios podem ser diretos, como o desenvolvimento de soluções de saúde e bem-estar baseadas em nossa própria riqueza biológica”, afirma.
O professor da FCF Rodrigo Ramos Catharino aponta que o novo conceito BioAgroValor utilizará técnicas analíticas de ponta para encontrar compostos bioativos que gerem segurança aos produtos alimentícios. “Isso também ajudará a desenvolver técnicas mais baratas e versáteis para irmos a campo testar a qualidade dos novos produtos. Além disso, o desenvolvimento humano e social amparado por esse novo conceito será inestimável. Uma nova era de desenvolvimento de produtos e tecnologias virá”, acredita.
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