O editor, escritor e tradutor Cláudio Giordano morreu neste domingo (7) após uma vida dedicada aos livros. Nascido em 1939, fundador da Editora Giordano e da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, Giordano tornou-se uma referência entre editores, tradutores e pesquisadores dedicados à preservação da memória bibliográfica brasileira. Parte importante de seu legado está preservado na Biblioteca de Obras Raras (Bora) da Unicamp, que abriga um acervo de aproximadamente 40 mil livros, periódicos e documentos reunidos por ele ao longo da vida.
Para o professor Alcir Pécora, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), que conduziu as negociações para a incorporação do acervo à Universidade, a característica mais marcante de Giordano era sua relação afetiva com os livros. “Ele era um amante dos livros no sentido mais profundo. O que mais me impressionava era a disposição totalmente gratuita de trabalhar com eles, de preservá-los e de compartilhar esse conhecimento com outras pessoas”, afirma.

Pécora conheceu Giordano quando a Oficina do Livro enfrentava dificuldades financeiras para manter sua sede, instalada em uma antiga casa-ateliê do artista Samson Flexor, no bairro da Aclimação, em São Paulo. O acervo reunido durante anos corria o risco de ser dispersado.
“Fiquei sabendo que ele estava com dificuldades para sustentar a coleção. Era uma biblioteca enorme e manter um acervo desse porte custa caro. Livros raros exigem cuidados especiais, conservação, espaço adequado. Havia o risco de aquele patrimônio se perder”, recorda.
A partir dessa preocupação, a Unicamp assumiu o transporte da coleção para Campinas e garantiu sua preservação. “Era um acervo extraordinário e muito representativo da cultura brasileira”, destaca o professor. A transferência começou em 2006 e, dois anos depois, após um processo de higienização, catalogação e organização, o acervo foi oficialmente inaugurado na Biblioteca Central César Lattes (BCCL). Posteriormente, passou a integrar os acervos especiais da Bora.
Já o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio (Cedae) ficou com o acervo de correspondências, fotografias, cartões-postais, publicações, recortes de jornais e gravuras, além da documentação referente à Editora Oficina do Livro e à Cláudio Giordano, como agendas, contratos, correspondência, fotografias e publicações.
Companheiros de vida
Embora tenha se tornado uma referência no meio editorial, Giordano chegou relativamente tarde ao universo dos livros. Depois de trabalhar durante décadas no comércio, passou pela Livraria Antiquária Corrêa do Lago, em São Paulo, experiência que transformou sua relação com a leitura e o levou a dedicar-se integralmente à atividade editorial. Em entrevistas, costumava lembrar que foi ali que nasceu seu desejo de recuperar autores e obras esquecidas pelo mercado. Dessa iniciativa surgiu, em 1990, a Editora Giordano, criada para publicar títulos fora de catálogo e resgatar parte da memória cultural brasileira.
Mais tarde, em 1999, fundou a Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, entidade cultural sem fins lucrativos voltada à preservação de livros, documentos e periódicos de interesse histórico. Em poucos anos, a instituição reuniu cerca de 40 mil itens entre livros, revistas, jornais, correspondências, fotografias, gravuras e documentos históricos.
O próprio Giordano costumava afirmar que o objetivo da Oficina era contribuir para a preservação da memória cultural do país. Ao longo dos anos, o acervo cresceu graças a aquisições em sebos e a inúmeras doações, tornando-se uma das mais expressivas coleções privadas dedicadas à cultura brasileira.
Segundo Pécora, a coleção refletia a personalidade de seu criador. “A casa dele era tomada por livros. Ele conhecia a história de muitos daqueles exemplares, sabia como tinham chegado até ali. Era uma dedicação impressionante.”
Em 1999, Giordano recebeu o Prêmio Jabuti de Tradução pela versão em português de Tirant lo Blanc, clássico da literatura catalã escrito por Joanot Martorell no século 15. Também é autor de obras como Monteiro Lobato editor (1996), Histórias das mil e uma noites (2009), publicado pela Editora da Unicamp, O tempo e o vinho (2012), Apontamentos de leituras (2016) e Antonio Candido, mestre da cortesia (2020).
Além do trabalho como editor e tradutor, Giordano publicou revistas culturais, organizou coleções dedicadas à recuperação da memória literária e ajudou a colocar novamente em circulação autores pouco conhecidos do público contemporâneo. Para aqueles que conviveram com ele, porém, sua principal marca talvez tenha sido a capacidade de reunir pessoas em torno dos livros.
“Ele era alguém que criava redes de amizade, de colaboração e de interesse pela leitura. Conseguia mobilizar pessoas para preservar livros, encontrar obras esquecidas e manter vivo esse patrimônio”, afirma Pécora.
Embora frequentemente fosse chamado de bibliófilo, Giordano costumava rejeitar a definição. Em entrevistas, afirmava que não via os livros como objetos de coleção, mas como companheiros de vida. “O livro sempre foi uma companhia, alguém para dialogar”, declarou ao recordar sua trajetória.