Assim que foi informado sobre um armazenamento suspeito de materiais em sua unidade, o diretor da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), Anderson Souza Sant’Ana, determinou o fechamento imediato de todos os seus laboratórios. “Não houve exposição de pessoas a risco, pois o material estava devidamente contido”, afirma.
Sant’Ana ressalta que o episódio evidencia a importância do cumprimento rigoroso de protocolos de segurança e da comunicação imediata entre pesquisadores no campus. “A ciência trabalha com colaboração, mas sempre dentro de regras claras. O que não pode acontecer é a movimentação de materiais sem conhecimento e autorização dos responsáveis”, pondera.
O dirigente pontua que a colaboração entre unidades é uma prática comum, e até mesmo incentivada, dentro da Unicamp. Com o objetivo de otimizar as verbas públicas, a Universidade evita a duplicação de estruturas e equipamentos, priorizando o uso compartilhado de recursos, sem comprometer em nada a capacidade e qualidade de ensino e pesquisa. O custo de um laboratório NB-3, por exemplo, varia entre R$ 2 milhões e R$ 10 milhões, dependendo da complexidade. Assim, pesquisadores frequentemente utilizam laboratórios de outros institutos ou recorrem a instalações multiusuárias, mediante agendamento e aprovação prévia.

Quando o material biológico retirado de forma irregular do Instituto de Biologia (IB) em fevereiro apareceu em um dos laboratórios da FEA, medidas foram colocadas em prática. Uma professora envolvida no caso mantinha atividades de pesquisa no IB, mas estava recentemente lotada na FEA. O estudo da professora envolve vírus que necessitam de maior contenção, condição atendida pelo laboratório NB-3, do IB, mas inexistente em seu novo local de trabalho.
A transferência feita sem comunicado formal era prenúncio de problemas. Contudo, o diretor da FEA reitera que tudo sempre esteve sob controle no local. “O material foi armazenado de forma adequada, em ultrafreezers a -80 °C, dentro de recipientes apropriados e lacrados. A interdição temporária da faculdade e o lacre dos equipamentos foram medidas adotadas para preservar possíveis evidências durante a investigação”, lembra Sant’Ana.
Seguindo todas as normas de segurança e boas práticas, o diretor informa que o acesso aos laboratórios é restrito e condicionado a treinamento em biossegurança. Pesquisadores só podem atuar de forma autônoma após capacitação, e a entrada em espaços específicos depende de autorização, chaves controladas e sistemas eletrônicos. O monitoramento por câmeras e o registro de atividades complementam os mecanismos de segurança no local.
Em relação ao caso que está sob investigação, Sant’Ana explica que a retirada de qualquer material biológico sem autorização do responsável é uma prática que pode causar riscos. “Há procedimentos formais, que incluem comunicação prévia e registro, muitas vezes por e-mail ou plataformas institucionais. Isso é ainda mais rigoroso quando se trata de agentes infecciosos”, alerta ele.
O diretor destaca que o transporte de materiais biológicos segue normas específicas – inclusive internacionais –, envolvendo planejamento prévio, critérios técnicos e protocolos rigorosos de biossegurança, podendo exigir documentação, empresas especializadas e, em alguns casos, sendo proibido, mesmo para substâncias não patogênicas.
Planejamento
Sobre o fato em si, Sant’Ana comenta que a chegada de um novo docente à faculdade envolve planejamento com antecedência mínima de um ano, incluindo até a definição de espaço físico para escritório e atividades laboratoriais. “Quando não há espaço disponível, é necessário discutir alternativas com uma comissão específica, buscando compatibilidade entre o local e o tipo de pesquisa”, diz.
O diretor comenta que, no caso de pesquisas em microbiologia e virologia, há restrições técnicas que impedem o compartilhamento de determinados ambientes. “Trabalhos com vírus, mesmo os considerados seguros, como bacteriófagos utilizados na indústria, podem ser incompatíveis com laboratórios voltados a bactérias, exigindo avaliação criteriosa para alocação”, detalha.
Sobre a FEA não contar com laboratórios de nível de biossegurança 3 (NB3), Sant’Ana explica que esse tipo de estrutura não é uma demanda típica da engenharia de alimentos, já que vírus relevantes ali são, em geral, classificados como NB-2.
FEA é destaque em inovação e propriedade intelectual

Reconhecida como berço da Engenharia de Alimentos na América Latina nos anos 1960, a FEA possui uma trajetória de excelência e de contribuição ao país, já tendo formado 3.882 graduados, além de 3.557 mestres e doutores desde a sua fundação em 1967.
A faculdade possui papel de destaque na inovação, liderando, com frequência, o ranking de propriedade intelectual da Universidade. Com um portfólio de 185 patentes depositadas e 100 concedidas, a FEA transforma pesquisas em ativos econômicos, gerando retornos de licenciamento da ordem de R$ 4,5 bilhões até o momento.
Essa conexão com o setor produtivo é comprovada pelo ecossistema empreendedor da unidade. Atualmente, são 98 empresas-filhas e nove spin-offs que levam o DNA da FEA para o dia a dia do consumidor.