O episódio envolvendo a retirada de amostras do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada de nível de biossegurança 3 (NB-3), localizado no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, no último mês de fevereiro, serviu para colocar pela primeira vez em prática todos os protocolos de segurança mantidos pela Universidade. Quem afirma é o diretor do IB, Hernandes Faustino de Carvalho.
A abertura de uma sindicância, o trabalho conjunto com as autoridades, a identificação das pessoas envolvidas, a adoção de medidas de contenção e a localização dos materiais levados e posteriormente descartados consolidaram o passo a passo adotado pelos dirigentes dos setores envolvidos.

Com a intenção de deixar claro que não existe qualquer tipo de risco aos alunos, docentes, servidores e à população em geral, Carvalho informa que todas as medidas necessárias foram tomadas e que o laboratório em questão segue operando normalmente, sem interrupções nas atividades acadêmicas ou de pesquisa.
O dirigente explica que o local conta com múltiplas camadas de segurança e monitoramento contínuo por câmeras, e que o acesso é restrito a profissionais treinados. As imagens registradas, por exemplo, foram fundamentais para a rápida identificação da movimentação fora dos padrões estabelecidos. “Cada envolvido possui experiência, treinamento e conhecimento técnico para atuar no local, o que reforça que não se tratou de uma invasão externa, mas de uma violação de regras por pessoas habilitadas”, afirma Carvalho.
A entrada para o laboratório NB-3 do IB é feita por quatro portas, com acesso controlado por chaves e fechaduras. Internamente, o acesso é feito com identificação pessoal por intermédio de código numérico específico, tudo sob o monitoramento por câmeras de segurança que funcionam 24 horas por dia. As imagens ficam guardadas por dois anos.
Laboratórios de nível de biossegurança 3, que possuem instalações de alta contenção para armazenamento e experimentos com agentes biológicos causadores de doenças potencialmente graves, operam sob rigorosos protocolos. É permitida apenas a entrada de profissionais altamente treinados e vinculados a projetos específicos. Não há, portanto, o fator do frequentador aleatório.
Para atuar em um NB-3, o pesquisador passa por diversas etapas de capacitação, incluindo treinamento em laboratórios de menor nível de biossegurança. O preparo envolve desde técnicas laboratoriais até adaptação ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras, luvas e vestimentas especiais. Esse processo pode levar anos, especialmente em níveis mais avançados de contenção. “Não é alguém que chega hoje ou amanhã que pode operar em um NB-3”, ressalta Carvalho.

No IB, o controle é rigoroso, a ponto de nem mesmo o próprio diretor do instituto ter acesso liberado ao local se não cumprir todas as exigências técnicas. “A entrada no laboratório envolve múltiplas barreiras físicas e digitais. Há pelo menos quatro portas de segurança, além de sistemas de controle por código individual. Antes de chegar ao NB-3, o pesquisador precisa atravessar áreas intermediárias, como laboratórios de nível inferior, e demonstrar competência em procedimentos técnicos e uso de equipamentos de proteção”, reforça Carvalho.
Ultrafreezer
Em relação ao episódio recente envolvendo a retirada indevida de amostras de um ultrafreezer que se mantém a -80 °C, o diretor do IB reforça que não houve falhas nos sistemas de segurança. Para ele, o incidente ocorreu devido à ação de pessoas autorizadas, que possuíam treinamento e credenciais válidas para acessar o local. “Se uma pessoa treinada utiliza seu código de acesso, nenhum alarme é acionado. O sistema funciona exatamente como projetado”, justifica.
O laboratório NB-3 do IB funciona há pouco mais de cinco anos, sem nenhum registro de incidentes semelhantes. Após o ocorrido, medidas adicionais foram adotadas, como a troca de chaves de acesso a determinados espaços, embora a avaliação técnica seja de que a estrutura já atendesse aos requisitos de controle.
A direção do IB reforça que não há risco para a comunidade universitária ou para a população em geral. O diretor do instituto informa que o material retirado foi posteriormente destruído pela própria pessoa envolvida, seguindo os procedimentos corretos e eliminando o risco associado àquelas amostras. Embora vírus manipulados em laboratório possam representar risco se liberados no ambiente, isso não ocorreu, de acordo com Carvalho. “Se armazenados corretamente — em recipientes fechados e sob congelamento adequado —, esses materiais não oferecem perigo”, diz.
Mesmo assim, como medida preventiva, foi emitido um comunicado interno orientando pesquisadores a monitorarem o acesso aos ultrafreezers. A recomendação inclui a verificação de eventuais amostras não identificadas, com acionamento imediato das autoridades em caso de suspeita.

Regulamentação
O diretor do IB observa que o caso trouxe à tona um problema considerado central: a ausência de uma regulamentação nacional específica para o manuseio de organismos patogênicos geneticamente não modificados. “Atualmente, laboratórios brasileiros seguem protocolos internacionais, como os adotados no Canadá, Estados Unidos e pela Organização Mundial da Saúde. No entanto, não há normas nacionais consolidadas que orientem desde o funcionamento desses laboratórios até o transporte e armazenamento de material biológico”, aponta.
Carvalho acredita que esse “vácuo regulatório” dificulta a definição de responsabilidades e a comunicação com autoridades em situações de risco. Diferentemente dos organismos geneticamente modificados – como soja, milho e algodão, por exemplo, na agricultura –, que são regulamentados pela legislação de biossegurança, vírus e outros agentes naturais não contam com regras específicas no Brasil. “Com o apoio da Universidade, temos buscado sensibilizar o governo federal sobre a necessidade de criação destas normas, destacando que a questão extrapola o âmbito institucional e representa um desafio em âmbito nacional”, explica o diretor do IB.
Para Carvalho, o episódio pode servir como ponto de inflexão para o avanço da biossegurança no país. A expectativa do dirigente é de que o caso contribua para acelerar a criação de uma legislação nacional que estabeleça regras claras para o funcionamento de laboratórios de alta contenção.
Virologista descarta risco à população
A professora titular e virologista Clarice Weis Arns, docente da Unicamp há 37 anos e responsável pelo laboratório de nível de biossegurança 3 (NB-3) do Instituto de Biologia (IB), que teve amostras retiradas de um de seus ultrafreezers em fevereiro, garante que o fato não representa qualquer risco à população. “As pessoas podem ficar tranquilas. A maioria dos vírus não é problemática para humanos, e muitos não são transmitidos de pessoa para pessoa”, explica.
Após o ocorrido, ela reforça que medidas adicionais de segurança foram adotadas, como a troca de fechaduras e um maior monitoramento por câmeras.

Para a pesquisadora, o caso deve servir de objeto de reflexão para instituições e profissionais sobre o controle de acesso a laboratórios. “Não é só uma questão de sistema de segurança, mas de comportamento individual. Passamos a ter de ser mais vigilantes.”
A docente defende a implementação de novos mecanismos, como sistemas de alerta em tempo real – por celular, por exemplo – para entradas fora do horário regular dos laboratórios.
Confiança
De acordo com Arns, o episódio não foi apenas uma infração às normas institucionais, mas uma quebra de confiança. Os envolvidos no caso tinham relação próxima com a docente. “Eu sempre fui muito tranquila quando precisava compartilhar material para pesquisa. Nunca tive qualquer problema. Por isso, [o episódio] foi uma surpresa ”, afirma ela, que diz ter recebido apoio de colegas do Brasil e do exterior, muitos dos quais relataram já ter vivenciado situações semelhantes.
A professora lembra que os envolvidos no caso entraram no laboratório fora dos horários de xpediente, como períodos noturnos ou muito cedo, em fins de semana e durante o recesso institucional de fim de ano.
Respeitado internacionalmente
O Instituto de Biologia (IB) é uma das mais antigas unidades de ensino, pesquisa e extensão da Unicamp. Respeitada internacionalmente, a unidade conta com dotação orçamentária de R$ 125 milhões (números de 2025) e é formada por cinco departamentos: Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT); Biologia Vegetal (DBV); Biologia Animal (DBA); Biologia Estrutural e Funcional (DBEF); e Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia (DGEMI).
O IB é responsável pelos cursos de bacharelado e licenciatura em Ciências Biológicas, contribuindo para a formação de professores que atuam na rede básica em todo o país. A estrutura da unidade compreende o Museu de Zoologia, o Herbário UEC (que possui a maior coleção de plantas da flora nacional), a maior biblioteca setorial da Unicamp e um laboratório de microscopia eletrônica, entre outras instalações de ensino e pesquisa.
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