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Pró-Reitoria de Pesquisa amplia apoio à pesquisa indígena e lança novo edital com mais vagas

Investimento de R$ 170,4 mil visa à inclusão científica, permanência e engajamento dos alunos

Criar um mecanismo de apoio financeiro e acadêmico para que a pluralidade cultural, regional e social dentro da Unicamp contribua para a transformação da sociedade brasileira. Com esse objetivo, a Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), por meio do Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepex), abriu um novo edital (nº 43/2026) voltado ao incentivo de projetos de pesquisa desenvolvidos por estudantes indígenas de graduação. A iniciativa “Pesquisadores Indígenas: Primeiros Projetos”, que está em sua segunda edição, receberá propostas entre 15 de abril e 1º de junho. Os interessados podem inscrever seus projetos por meio de formulário. A Unicamp conta, hoje, com mais de 500 estudantes indígenas, oriundos de aproximadamente 60 povos diferentes.

O novo edital também chega com o aumento no número de projetos contemplados, passando de 8 na edição anterior para até 12 nesta nova chamada. A proposta também reforça uma diretriz institucional de não restringir esses estudantes a temas relacionados exclusivamente às suas origens. A ideia é garantir liberdade acadêmica para que possam atuar em qualquer área do conhecimento, contribuindo com diferentes perspectivas e ampliando a diversidade na produção científica.

A pró-reitora de Pesquisa, Ana Frattini: reformulação do edital
A pró-reitora de Pesquisa, Ana Frattini: reformulação do edital

O edital é, dentro da perspectiva das ações afirmativas, um estímulo à inserção de estudantes ingressantes pelo Vestibular Indígena no sistema de iniciação científica, além de fortalecer a atuação acadêmica desses alunos em suas comunidades de origem. A proposta também busca ampliar a participação de estudantes indígenas em grupos e laboratórios de pesquisa da Universidade, promovendo projetos com impacto social e caráter intercultural.

Podem participar estudantes cuja graduação esteja prevista para dezembro de 2027 ou depois. As propostas devem ser submetidas por orientadores vinculados à Universidade e podem se enquadrar em duas modalidades: projetos com impacto direto nas comunidades indígenas, que prevê, além da bolsa, recursos adicionais para execução, e projetos em qualquer área do conhecimento, com concessão exclusiva de bolsa de iniciação científica. O investimento total previsto é de R$ 170,4 mil. Cada proposta da primeira modalidade poderá solicitar até R$ 20 mil, enquanto as projetos generalistas têm teto de R$ 8,4 mil. Em ambos os casos, os estudantes contemplados receberão bolsa mensal de R$ 700 ao longo de 12 meses.

“Mais uma vez, escutamos a demanda da comunidade acadêmica e reformulamos o edital visando a contemplar, adicionalmente, alunos indígenas ligados a grupos que realizam suas pesquisas nos campi da Unicamp”, afirma Ana Maria Frattini Fileti, pró-reitora de Pesquisa (PRP).

“O edital surge a partir de um diagnóstico institucional que apontou uma menor taxa de sucesso de estudantes indígenas na obtenção de bolsas de iniciação científica. Dados internos indicam que menos de 40% das propostas submetidas por esses alunos são aprovadas, proporção inferior à de outros grupos”, aponta Eduardo José Marandola Júnior, assessor docente da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP). “Esse cenário está relacionado a uma série de desafios enfrentados por estudantes indígenas no ambiente universitário. Entre eles estão a adaptação a um novo contexto cultural e acadêmico, a distância das comunidades de origem — muitas vezes localizadas a milhares de quilômetros — e diferenças nos sistemas de ensino de formação básica”, acrescenta o professor.

O assessor docente da PRP, Eduardo José Marandola Júnior: incentivar pesquisas que promovam o retorno dos estudantes a seus territórios
O assessor docente da PRP, Eduardo José Marandola Júnior: incentivar pesquisas que promovam o retorno dos estudantes a seus territórios

Ainda de acordo com Marandola, a nova edição do programa pretende não apenas ampliar o acesso à pesquisa, mas também fortalecer a permanência e o desenvolvimento acadêmico desses estudantes. “O objetivo é incentivar pesquisas que promovam o retorno dos estudantes a seus territórios, fortalecendo a relação entre universidade e comunidades indígenas”, diz. Já a segunda modalidade contempla projetos em qualquer área do conhecimento, com foco na inserção dos estudantes em grupos e laboratórios de pesquisa da própria universidade. Nesse caso, o apoio financeiro é restrito à bolsa acadêmica.

“Outro destaque é a antecipação do cronograma, pensada para atender às exigências éticas específicas de pesquisas em comunidades indígenas. Projetos dessa natureza precisam passar por diferentes instâncias de aprovação, o que pode prolongar o início das atividades. Com o novo calendário, a expectativa é garantir tempo adequado para essas etapas e evitar atrasos no desenvolvimento das pesquisas”, justifica Marandola.

Novo pensar

A professora Jamille da Silva Lima-Payayá, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira, participa ativamente da primeira edição do edital como orientadora de duas estudantes indígenas. “A pesquisa tem um papel central na universidade e, muitas vezes, é um espaço difícil de acessar. Esse tipo de edital é fundamental para garantir que estudantes indígenas não estejam apenas no ensino, mas também plenamente inseridos na produção de conhecimento”, aprova ela.

A professora da FCA Jamille da Silva Lima-Payayá: orientadora de duas estudantes indígenas
A professora da FCA Jamille da Silva Lima-Payayá: orientadora de duas estudantes indígenas

Para a docente, a proposta vai além de uma inclusão numérica e contribui para a construção de um ambiente acadêmico mais plural.   destaca que a presença indígena nas pesquisas promove uma troca rica de experiências e saberes, com impactos que se estendem também ao ensino e à extensão universitária.

“A pesquisa atua como um meio de conexão, e não como uma concessão. Não se trata de ‘dar voz’, porque essas vozes já existem. O que está em jogo é criar espaços de diálogo e participação efetiva, reconhecendo que a universidade, historicamente, não foi pensada para incluir essas epistemologias”, explica.

Ela também enfatiza a importância de valorizar diferentes formas de conhecimento. Segundo Jamille, há uma hierarquização histórica entre saberes, e a entrada de epistemologias indígenas na Universidade contribui para questionar essas estruturas e renovar o ambiente acadêmico. “Esse movimento traz uma oxigenação necessária para a universidade. Permite que o conhecimento seja mais dinâmico e que novas formas de pensar sejam incorporadas”, afirma.

Outro ponto destacado é que a participação de estudantes indígenas na pesquisa não deve se restringir a temas relacionados às suas origens. Para ela, é fundamental que esses estudantes tenham liberdade para atuar em qualquer área do conhecimento. “Limitar o estudante indígena a determinados temas também é uma forma de preconceito. Eles podem e devem estar em todas as áreas, contribuindo com suas perspectivas, independentemente do tema da pesquisa”, pontua a docente, que tem origem indígena e integra o Programa Formativo Intercultural para Ingressantes pelo Vestibular Indígena (ProFIIVI).

Igualdade

O aluno de Administração Sidney Cordeiro (de nome indígena Diami), do povo Baré, teve sua pesquisa contemplada na primeira edição do edital e sente avanços práticos. Ela trata de melhorias na educação, vulnerabilidade e mobilidade em Tabocal dos Pereiras, comunidade multiétnica localizada no Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. “Inicialmente, quem me incentivou bastante a tentar uma oportunidade foi a professora Jamille Payayá. Acredito que, a partir desse edital, nós conseguimos uma maior igualdade. É algo que vem agregando bastante na minha vida acadêmica. Sinto também que, através disso, eu consigo desenvolver uma pesquisa no mesmo patamar dos demais alunos”, avalia o estudante.

Participantes do ensaio da Dança dos Mascarados do Povo Kambeba (Aikima Cürümawa) e equipe da Unicamp na Comunidade Nova Jerusalém, em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Participantes do ensaio da Dança dos Mascarados do Povo Kambeba (Aikima Cürümawa) e equipe da Unicamp na Comunidade Nova Jerusalém, em São Gabriel da Cachoeira (AM)

“Minha pesquisa, que está em andamento e tem prazo de finalização para outubro, fala sobre a vulnerabilidade presente nas comunidades indígenas. As terras são constantemente invadidas por pessoas que vão atrás dos recursos naturais e as questões da segurança alimentar e proteção propriamente dita são importantes ali. Já fiz uma viagem de apresentação do projeto”, conta Cordeiro, que retornará para a coleta de campo após o resultado da apreciação ética de sua pesquisa.

O estudante comenta ainda que há um projeto de criar uma sala de extensão na comunidade. “A ideia é levar a universidade para perto da comunidade. A maior parte dos estudantes indígenas na Unicamp vem de São Gabriel da Cachoeira. Assim, acho importante que a universidade se aproxime do local onde a maior parte de seus estudantes está”, diz. Cordeiro pretende dar sequência aos estudos e fazer uma pós-graduação. “Quando tudo acabar, vou voltar para a minha comunidade. É o que se espera dos alunos que vêm para cá que eles retornem e ajudem as suas comunidades”, afirma.

Crianças e mulher baniwa na produção de peneiras
Crianças e mulher baniwa na produção de peneiras

Transformar

Para a professora Ciça Veiga, do ProFIIVI, Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) e coordenadora da Comissão Assessora de Inclusão Acadêmica dos Povos Indígenas (Caiapi), além de ampliar o acesso, a iniciativa contribui para transformar a própria produção de conhecimento. “Isso porque muitos estudantes indígenas desenvolvem pesquisas conectadas a seus territórios e comunidades, abordando temas como educação, tecnologia, saúde e fortalecimento cultural. Esses estudantes enfrentam desafios no ambiente acadêmico, mas também trazem novas formas de aprender e produzir conhecimento”, diz. “Quanto mais oportunidades, mais a universidade se torna plural e representativa da sociedade brasileira.”

Mão dupla

Já o professor Adriano Luiz Tonetti, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau), é orientador de uma estudante indígena que desenvolve pesquisa sobre saneamento básico em sua comunidade de São Gabriel da Cachoeira. De acordo com ele, a proposta do edital vai além da produção acadêmica tradicional. “É um aprendizado de mão dupla. A iniciativa beneficia não apenas os alunos, mas também a universidade ao ampliar o olhar sobre os desafios brasileiros e promover uma ciência mais inclusiva e conectada à diversidade”, diz. “O edital valoriza o respeito às especificidades culturais e incentiva a criação de tecnologias adequadas às diferentes realidades, como é o caso de minha orientanda”, completa Tonetti.

Dia dos Povos Indígenas

Além da segunda edição do edital, a Unicamp prepara uma série de atividades para o mês de abril, em alusão ao Dia dos Povos Indígenas, com o evento Abril Indígena. A programação inclui eventos acadêmicos, exposições e ações culturais em diferentes campi, reforçando o compromisso com a valorização e visibilidade dos povos indígenas no ambiente universitário.

Foto de capa:

Imagem do Porto Queiroz Galvão, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, um dos locais de pesquisa de campo
Imagem do Porto Queiroz Galvão, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, um dos locais de pesquisa de campo
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