A segunda edição do edital Mais Mulheres na Pesquisa, lançado nesta segunda-feira (9) pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Unicamp, conta com uma novidade: além da modalidade que prevê a estadia da docente ou pesquisadora da Unicamp em universidades estrangeiras, há também a opção de receber um docente ou pesquisador estrangeiro na Universidade.
Na primeira edição, no ano passado, a PRP recebeu 114 projetos e selecionou 25. “A segunda edição do edital surge depois de uma primeira experiência bastante positiva. Inicialmente estavam previstas 12 contempladas, mas, diante da grande demanda, o número foi ampliado”, lembra a pró-reitora de Pesquisa, professora Ana Frattini.
“A demanda para a primeira edição foi bastante significativa. Por isso fizemos uma reserva de verba e depois dobramos esse valor para poder atender o maior número possível de propostas indicadas”, destaca. O objetivo do edital é estimular a formação de novas redes de cooperação internacional lideradas por mulheres e fomentar a internacionalização de docentes e pesquisadoras. O recurso total é de R$ 400 mil, proveniente do Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepex), e o valor será dividido entre as duas modalidades.
Após a análise das propostas enviadas e dos questionamentos recebidos, surgiu a ideia da nova modalidade, “pensada especialmente para pesquisadoras que, por diferentes motivos, não conseguem se ausentar do país”, explica a pró-reitora. “Muitas vezes esse motivo está relacionado à economia do cuidado. São pesquisadoras com filhos pequenos ou adolescentes, ou que estão cuidando dos pais. Essa participação forte das mulheres no cuidado da família acaba restringindo a possibilidade de passar um período no exterior”, completa.

Essa segunda modalidade vai permitir que a pesquisadora traga um colaborador do exterior para desenvolver uma pesquisa conjunta no Brasil. “A pesquisadora propõe a colaboração e pode convidar quem considerar mais adequado para o projeto. Pode ser homem ou mulher. O importante é que o grupo de pesquisa agregue valor ao trabalho que ela já desenvolve aqui”, explica.
A expectativa é que essas parcerias resultem em novas colaborações científicas e no desenvolvimento de projetos que possam ser submetidos a agências de fomento. A criação do edital foi motivada por um estudo realizado pelo Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) em conjunto com a PRP, que apontou a falta de equidade entre homens e mulheres nas posições de protagonismo em publicações científicas da Universidade. “Quando a pesquisadora aparece como primeira autora ou última autora de um artigo, isso indica algum grau de protagonismo. E havia uma discrepância entre o número de mulheres e de homens nessas posições. A diferença varia entre as áreas, sendo mais significativa em alguns campos do conhecimento, mas ainda assim presente em toda a Universidade”, completa Frattini.
Outro dado que chamou a atenção foi a redução da participação feminina nos níveis mais altos da carreira docente. “No nível mais sênior da carreira, o MS6, as mulheres representam apenas cerca de 30%. Já no nível MS3, esse número fica entre 40% e 45%. Ou seja, há uma queda na proporção de mulheres ao longo da progressão na carreira. Nesse contexto, o edital foi pensado como uma estratégia para fortalecer a atuação das pesquisadoras e incentivá-las a disputar posições de maior liderança acadêmica”, completa.
O edital, que vai receber as propostas entre 11 de maio e 1º de junho, é exclusivo para mulheres. Pesquisadoras já contempladas em 2025 não são elegíveis. O valor máximo a ser solicitado em cada proposta é de R$ 40 mil, e é preciso especificar se a pesquisa será feita no exterior ou prevê a vinda de um parceiro estrangeiro. A divulgação do resultado será realizada no dia 6 de julho.

Nova realidade no País de Gales
Após a primeira edição, docentes relataram a importância de terem tido essa oportunidade, de viajar e levar estudantes de doutorado ou pós-doutorado para apoio em suas pesquisas, como a professora Fabricia Zulin, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Fecfau), que, em novembro, foi para a Universidade de Cardiff, no País de Gales (Reino Unido), com a pós-doutoranda Letícia Teixeira Mendes, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Urbanização para o Conhecimento e Inovação (Ceuci), sediado na Unicamp.
A visita fez parte da pesquisa “Crianças na construção de Territórios do Futuro”, coordenada por Zulin, com atividades de extensão no Jardim Bassoli (leia mais aqui). “Fomos recebidas por Matluba Khan, referência internacional nos estudos sobre participação infantil e no desenvolvimento de metodologias de projetos com e para crianças, que conheci quando ela veio para a Unicamp em abril do ano passado”, conta.
“Khan tem uma metodologia de participação de crianças e adolescentes em planos de bairros e acabamos trabalhando juntas com um grupo de crianças no Bassoli. O trabalho que fizemos aqui deu muito certo, e quando surgiu o edital, eu a contatei. Já havia uma afinidade de trabalho, mandei um e-mail explicando sobre o edital e que eu gostaria de dar continuidade ao trabalho, mas de uma forma mais ampla”, relata Zulin.
“Ir até lá também me colocou em contato com outra realidade. Visitamos um projeto participativo, bem diferente do nosso. Uma troca entre realidades tão distintas é muito valiosa”, avalia.
Após a viagem, as atividades continuam. “Seguimos desenvolvendo outras ações. Trata-se de um projeto de pesquisa internacional, e foi interessante porque fizemos várias reuniões com o grupo de pesquisa dessa professora, já pensando em uma proposta conjunta para um edital do Reino Unido”, continua.
“Trabalhamos em áreas vulneráveis, mas também queremos levar essa perspectiva para os territórios de conhecimento de quarta geração. O projeto Células de Inovação e Cidades Inteligentes é uma pesquisa abrangente, e por isso convidei a Letícia para ir comigo. Foi bom ter alguém para trocar impressões. Achei que seria importante para ela, que está fazendo pós-doutorado justamente em um tema ligado à habitação dentro desse projeto”, completa Zulin. “Foi uma grande oportunidade de fortalecer a própria carreira como pesquisadora e de internacionalizar o trabalho.”

Odontopediatria na Argentina
A professora Carolina Steiner Oliveira Alarcon, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), passou dez dias em dezembro de 2025 na Faculdade de Odontologia da Universidade de Buenos Aires (UBA), na Argentina, junto com a aluna de doutorado Juliana Benine Warlet.
“Nossa pesquisa está relacionada com a prevenção da cárie. É interessante dizer que, infelizmente, essa ainda é a doença mais prevalente no mundo. É um trabalho infinito e pesquisamos estratégias de prevenção”, conta Alarcon. Além dos protocolos habituais de combate à cárie com flúor, elas apresentaram produtos novos. “São bioativos em associação ou não com equipamento de laser de alta potência”, explica a professora, da área de odontopediatria.
“Fomos recebidas pelos professores Aldo Squassi, Luciana D’Eramo e María Agustina Saizar, que fizeram um cronograma para nós que foi muito bom. Participamos da condução de metodologias e ministramos duas palestras com o tema laser para o departamento que nos recebeu, de saúde comunitária, e fizemos contatos com pesquisadores. Já estamos em conversa para novas pesquisas, e a ideia é continuar a parceria”, destaca.
A professora ressalta que, em junho, vai realizar uma segunda viagem a Buenos Aires. “Como fomos perto, ficamos com uma carta na manga, já que, com o valor do edital, será possível realizar duas viagens. Perguntei ao PRP se poderia, e a resposta foi afirmativa, se ficasse dentro do mesmo valor, o que é o caso. Pretendemos finalizar essa pesquisa e começar a pensar em uma próxima.”

Pesquisa com leite em Portugal
A professora Débora Parra Baptista Freitas, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), viajou em janeiro para a Universidade do Minho (UMinho), na cidade de Braga, em Portugal. “O edital foi uma oportunidade muito boa para mim. Superou bastante as minhas expectativas”, define a professora, que fez graduação, mestrado e doutorado na FEA.
Assim que tomou conhecimento do Mais Mulheres na Pesquisa, fez contato, por e-mail, com a pesquisadora portuguesa Ana Cristina Braga Pinheiro. “Já tinha essa expectativa de desenvolver uma parceria com ela. Eu sou recém-contratada, comecei na FEA em 2024, e estou em uma fase inicial desse processo de estabelecer novas colaborações. Lá, eles trabalham com algumas coisas complementares ao que a gente faz aqui”, relata. “A pesquisadora que me recebeu foi super-receptiva. Ela também está em início de carreira, então nossas trajetórias são parecidas.”
Ela diz que o trabalho pelo qual foi selecionada, voltado para a área de leite e derivados, teve resultados além do esperado. “Conheci os laboratórios, toda a estrutura que eles têm. Eu já sabia do trabalho deles pelos artigos científicos, então tinha uma ideia do que dava para fazer, mas foi diferente estar lá, conhecer a estrutura e discutir o projeto com calma. Consegui realmente afinar essa proposta durante a visita e, agora, uma das minhas alunas vai para Portugal em outubro, para um período de seis meses, em um projeto que já foi aprovado com uma bolsa da Fapesp”, comemora.
“Nosso foco é desenvolver produtos mais saudáveis pensando especialmente na população idosa. Estamos explorando diferentes processos com o objetivo de entregar produtos com maior potencial de absorção de nutrientes”, explica.
“Acabei conseguindo visitar outras instituições na região, como a Universidade do Porto, que é próxima, e visitei o INL, o Laboratório Ibérico de Nanotecnologia, que fica na própria cidade de Braga”, completa a professora, que também fez uma apresentação da linhas de pesquisa desenvolvida na FEA para a equipe de Portugal.
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