O RECALCAMENTO DA MORTE NA CONTEMPORANEIDADE

 

Celia Tamura
celiatamura111@yahoo.com.br

 

1. Situação da Morte na Sociedade Contemporânea

De acordo com os filósofos, é estreita a relação entre bem viver e bem morrer. Somente vivendo com o pensamento na morte, isto é, consciente de que se irá morrer um dia, é que se pode aproveitar bem a vida. Citando Platão, Philippe Ariès afirma que a filosofia é sempre meditatio mortis. [1]

Historiadores, sociólogos e psicanalistas que se detêm no estudo da morte na atualidade têm verificado e denunciado um fenômeno recente, denominado “desaparecimento da morte”. Segundo eles, a sociedade contemporânea baniu a morte de seu círculo de convivência, por esta ter-se tornado suja. Como principal agente ocultador da morte, é apontada a sociedade industrial, que gera a sociedade humorística, gerada pelo individualismo, criticada por Gilles Lipovetsky. [2]

Segundo Philippe Ariès, até o começo do século XX, a função atribuída à morte e a atitude diante da morte, eram praticamente as mesmas em toda a extensão da civilização ocidental. Esta unidade foi rompida após a Primeira Guerra Mundial. As atitudes tradicionais foram abandonadas pelos Estados Unidos e pelo noroeste da Europa industrial, sendo substituídas por um novo modelo do qual a morte foi como que expulsa. Em contrapartida, os países predominantemente rurais, que, aliás, eram muitas vezes católicos, permaneceram-lhes fiéis. O interdito da morte parece ser solidário com a modernidade, acompanhando os progressos da industrialização, da urbanização e da racionalidade. A sociedade produziu os meios eficazes para se proteger das tragédias quotidianas da morte, a fim de ficar livre para prosseguir em suas tarefas sem emoções nem obstáculos.

Três fenômenos acompanham o tratamento da morte na modernidade, segundo os sociólogos e historiadores da morte, quais sejam:

1.       A ocultação da morte, isto é, o seu banimento da sociedade. Tudo ocorre como se a morte não existisse, e tal idéia é veiculada pelos meios de comunicação de massa.

2.       A transferência para o hospital, onde a morte é escondida.

3.       A extinção do luto.

Conclui-se que, se a morte passou a não ter sentido, da mesma forma também a vida perdera sua importância. Com a sua ocultação, já não se sabe mais o que é a morte, pois já não se sabe mais o que é a vida, de acordo com José de Souza Martins. [3] O sociólogo fala em alienação da morte, fenômeno presente numa época em que se discute muito sobre a eutanásia, mas não sobre a moralidade do prolongamento artificial da vida. O homem perdeu o controle sobre sua própria vida, apesar de, aparentemente, ter-se tornado capaz de evitar a consumação da morte, ao menos por algum tempo. [4]  

Os historiadores indicam os Estados Unidos como o país de origem da atitude moderna diante da morte, ou seja, a interdição da morte a fim de preservar a felicidade. O período em que se inicia essa interdição é estimado como sendo por volta do início do século XX. Embora nascido nos Estados Unidos, foi na Europa que tal atitude encontrou suas formas mais extremas. Os costumes americanos consistem em desejar transformar a morte, maquiá-la, sublimá-la, mas sem fazê-la desaparecer. Mistura-se comércio e idealismo, fazendo-se dos enterros eventos de publicidade flagrante, “como qualquer outro objeto de consumo, um sabonete ou uma religião”. [5]

Em nossa época, a morte tornou-se inominável. “Tudo se passa como se nem eu nem os que me são caros não fôssemos mais mortais. Tecnicamente, admitimos que podemos morrer, fazemos seguros de vida para preservar os nossos da miséria. Mas, realmente, no fundo de nós mesmos, sentimo-nos não-mortais”. [6]

Philippe Ariès atenta para diversas mudanças ocorridas num período breve de tempo, no que concerne às atitudes das pessoas em relação à morte. Segundo ele, embora os rituais mortuários tenham sofrido modificações num período de um milênio, o caráter social e público da morte permaneceu praticamente inalterado, principalmente em vastas áreas do Ocidente latino. As pequenas mudanças ocorreram com lentidão, distribuídas ao longo de gerações, sem serem sequer percebidas pelas pessoas da época. 

Ainda no início do século XX, digamos até a guerra de 1914, em todo o Ocidente de cultura latina, católica ou protestante, a morte de um homem modificava solenemente o espaço e o tempo de um grupo social, podendo se estender a uma comunidade inteira, como, por exemplo, a uma aldeia. Fechavam-se as venezianas do quarto do agonizante, acendiam-se as velas, punha-se água benta; a casa enchia-se de vizinhos, de parentes, de amigos murmurantes e sérios. O sino dobrava a finados na igreja de onde saía a pequena procissão que levava o Corpus Christi...

[...]Depois da morte, afixava-se na entrada um aviso de luto (que substituía a antiga exposição do corpo ou do caixão na porta, costume já abandonado). Pela porta entreaberta, única abertura da casa que não fora fechada, entravam todos os que, por amizade ou convenção, se sentiam obrigados a uma última visita. O serviço na igreja reunia toda a comunidade, inclusive os retardatários que esperavam o fim do ofício para se apresentarem; depois do longo desfile de pêsames, um lento cortejo, saudado à passagem, acompanhava o caixão ao cemitério; dos parentes e amigos à família... Depois, pouco a pouco, a vida retomava seu curso normal e já não restavam senão visitas espaçadas ao cemitério. O grupo social tinha sido atingido pela morte e reagira coletivamente, a começar pela família mais próxima, estendendo-se até o círculo mais amplo das relações e das clientelas. Não só todos morriam em público, como Luís XIV, mas também a morte de cada um constituía acontecimento público que comovia, nos dois sentidos da palavra – o etimológico e o derivado – a sociedade inteira: não era apenas um indivíduo que desaparecia, mas a sociedade que era atingida e que precisava ser cicatrizada. [7]

Atenta-se para o surgimento, durante o século XX, de uma forma absolutamente nova de morrer, em algumas zonas mais industrializadas e urbanizadas do mundo ocidental. A sociedade expulsou a morte, salvo a dos homens de Estado, nos dizeres de Ariès, configurando o que ele chama de “morte invertida”. [8]

Nada mais anuncia ter acontecido alguma coisa na cidade: o antigo carro mortuário negro e prateado transformou-se numa limusine banal cinza, que passa despercebida no fluxo da circulação.

A sociedade já não faz uma pausa: o desaparecimento de um indivíduo não mais lhe afeta a continuidade. Tudo se passa na cidade como se ninguém morresse mais. [9]

Ariès cita um estudo feito por Geoffrey Gorer, “Pornography of Death”, contendo reflexões sobre a mudança da função social do luto. Discorrendo a respeito do fenômeno da rejeição e da supressão do luto, Gorer mostra que a morte tornara-se vergonhosa e interdita como o sexo na era vitoriana, ao qual sucedia. Uma interdição era substituída por outra. [10] Em seu livro Death, Grief and Mourning [11] , Gorer relata que a morte se afastara a ponto de o enterro ter deixado de ser um espetáculo familiar: entre as pessoas interrogadas, 70% não tinham assistido a um enterro havia cinco anos.

As crianças não acompanham nem mesmo o enterro dos pais.[...] Assim, mantêm-se as crianças afastadas; não são informadas ou então lhes dizem que o pai partiu em viagem, ou ainda que Jesus o levou, Jesus tornou-se uma espécie de Papai Noel, de quem se servem para falar às crianças da morte, sem acreditarem nele. [12]  

Gorer relata a experiência de seus sobrinhos, que não foram avisados da morte do pai destes, a não ser depois de muitos meses. Elizabete, sua cunhada, não suportava falar e ouvir falar no assunto, diz Gorer, que, “ao voltar à casa dela depois da incineração do irmão, ela contou-lhe, muito naturalmente, que havia passado um dia agradável com as crianças: tinham feito um piquenique e, em seguida, cortado a grama.”

José Luiz de Sousa Maranhão, em seu livro O que é Morte, confirma as idéias destacadas por Philippe Ariès, a respeito da transformação da morte em objeto de interdição, que classifica como um fenômeno curioso da sociedade industrial capitalista:

[...] à medida que a interdição em torno do sexo foi se relaxando, a morte foi se tornando um tema proibido, uma coisa inominável. A obscenidade não reside mais nas alusões às coisas referentes ao início da vida, mas sim aos fatos relacionados com o seu fim. [...] Atualmente, existe a preocupação de iniciar as crianças desde muito cedo nos “mistérios da vida”: mecanismo do sexo, concepção, nascimento e, não tardará muito, também nos métodos de contracepção. Porém, se oculta sistematicamente das crianças a morte e os mortos, guardando silêncio diante de suas interrogações, da mesma maneira que se fazia antes quando perguntavam como é que os bebês vinham ao mundo. Antigamente, se dizia às crianças que elas tinham sido trazidas pela cegonha, ou mesmo que elas haviam nascido num pé de couve, mas elas assistiam, ao pé da cama dos moribundos, às solenes cenas de despedida. [...] quando se surpreendem com o desaparecimento do avô, alguém lhes diz: “Vovô foi fazer uma longa viagem”, ou: “Está descansando num bonito jardim”. [13]

A morte passou a ser indecente, suja e inconveniente, pois a limpeza tornou-se um valor burguês. Os missionários cristãos impõem aos seus catecúmenos a limpeza do corpo tanto quanto a da alma. Durante a segunda metade do século XIX, a morte deixa de ser vista como bela, como fora na época romântica. Passa-se, então, a realçar-lhe os seus aspectos repugnantes.

No final do século XIX, vêem-se refluir as imagens hediondas da era macabra que tinham sido reprimidas desde o século XVII, com a diferença de que tudo o que fora dito na Idade Média, sobre a decomposição depois da morte, ficou desde então transferido para a pré-morte, para a agonia. [14]     

Dessa forma, a morte torna-se inconveniente, como os atos biológicos do homem, as secreções do corpo. Passa-se a ser indecente torná-la pública. [15]

Já não se tolera deixar entrar qualquer um no quarto com cheiro de urina, suor, gangrena ou com lençóis sujos. É preciso impedir o acesso, exceto a alguns íntimos, capazes de vencer o nojo, e aos que prestam serviços. Uma nova imagem da morte está se formando: a morte feia e escondida, por ser feia e suja. [16]

A morte passa a ser escondida no hospital, desde os anos de 30 e 40, tornando-se um procedimento generalizado a partir de 1950. No início do século XX, o quarto do moribundo não era resguardado contra a participação pública na morte. Os ocupantes da casa suportavam a promiscuidade da doença. Entretanto, quanto mais se avança no século XX, mais essa promiscuidade torna-se difícil de ser tolerada. “Os rápidos progressos do conforto, da intimidade, da higiene pessoal, das idéias de assepsia tornaram todo o mundo mais delicado; sem que nada em contrário se possa fazer, os sentidos já não suportam os odores nem os espetáculos que, ainda no início do século XIX, faziam parte, com o sofrimento e a doença, da rotina diária”. [17] Os progressos da cirurgia, bem como os tratamentos médicos prolongados e exigentes conduziram, com mais freqüência, o doente em estado grave a permanecer no hospital. Este passa a fornecer às famílias o asilo apropriado para esconder o doente inconveniente, para que elas pudessem continuar uma vida normal. O hospital passa, então, a ser o local da morte solitária. [18] Em pesquisa realizada em 1963, G. Gorer comprova que apenas um quarto das pessoas que perderam um ente querido, em sua amostragem, haviam presenciado a morte de seu parente próximo. [19]

Uma forma de recusa da morte, característico do chamado American way of death, é o recurso à técnica do embalsamamento, surgido em 1900, na Califórnia. Segundo Ariès, este sentido torna-se mais aparente à medida que a morte passa a ser objeto de comércio e lucro. “Não se vende bem o que não tem valor por ser demasiado familiar e comum, nem o que provoca medo, horror ou sofrimento”. [20]

Para Ariès, o atual interdito da morte está fundado sobre as ruínas do puritanismo, em uma cultura urbanizada na qual dominam a busca da felicidade ligada à do lucro, e um crescimento econômico rápido. Pode-se perguntar se uma grande parte da patologia social de hoje não teria sua origem na expulsão da morte da vida cotidiana, com a interdição do luto e do direito de chorar os mortos. [21]

 

 

2. O Moribundo Privado de sua Morte

Segundo Ariès, o homem foi, durante milênios, o senhor soberano de sua morte e das circunstâncias da mesma. Atualmente, entretanto, a morte deve ser dissimulada, escondendo-se de um doente o seu verdadeiro estado de saúde. O doente não deve saber nunca que seu fim se aproxima. O novo costume exige que ele morra na ignorância de sua morte.           

Até a metade do século XX, segundo Ariès, cada indivíduo era, ele próprio, o primeiro a ser avisado de sua morte. O aviso era o primeiro ato de um ritual familiar. Após o anúncio, procedia-se à cerimônia pública das despedidas, à qual o moribundo devia presidir. Ele dizia alguma coisa, fazia seu testamento, reparava seus erros, pedia perdão, exprimia suas últimas vontades e se despedia.

Hoje, porém, há uma inversão, devendo-se morrer escondido, sem que ninguém saiba, nem mesmo o próprio moribundo, que não é avisado que vai morrer. Os donos do domínio da morte são quem decidem como se vai morrer. São eles: a equipe do hospital, médicos e enfermeiros, porém certos da cumplicidade da família e da sociedade. Dessa forma, nas sociedades industriais, verificou-se que o moribundo não sente a morte chegar, não é mais o primeiro a decifrar seus signos, que são escondidos, ocultados dele. O moribundo é apenas um objeto privado de vontade e, muitas vezes, de consciência, mas um objeto perturbador, e tanto mais perturbador quanto mais recalcada é a emoção. A morte foi transferida da casa para o hospital, tornando-se ausente do mundo familiar de cada dia. “O homem de hoje, por não vê-la com muita freqüência e muito de perto, a esqueceu; ela se tornou selvagem e, apesar do aparato científico que a reveste, perturba mais o hospital, lugar de razão e técnica, que o quarto da casa, lugar dos hábitos da vida quotidiana”. [22]

É tácito que o primeiro dever da família e do médico é o de dissimular a um doente condenado a gravidade de seu estado. O doente não deve saber nunca (salvo em casos excepcionais) que seu fim se aproxima. O novo costume exige que ele morra na ignorância de sua morte. Já não é apenas um hábito ingenuamente introduzido nos costumes. Tornou-se uma regra moral. Jankélévitch o afirmava sem rodeios, em um recente colóquio de médicos sobre o tema “Deve-se mentir ao doente?”. “O mentiroso”, declara, “é aquele que diz a verdade (...) Sou contra a verdade, passionalmente contra(...). Para mim existe uma lei mais importante eu todas as outras, que é a do amor e da caridade”. Ter-se-ia, então, faltado com a verdade até o século XX, quando a moral obrigava a informar o doente? Com essa oposição temos a medida da extraordinária inversão dos sentimentos e, em seguida, das idéias. [23]

A partir do momento em que um risco grave ameaça um dos membros da família, esta logo conspira para privá-lo de sua informação e de sua liberdade. O doente torna-se, então, um menor de idade, como uma criança ou um débil mental, de quem o cônjuge ou os pais tomam conta e a quem separam do mundo. Sabe-se melhor do que ele o que se deve saber e fazer. O doente é privado de seus direitos e, particularmente, do direito outrora essencial de ter conhecimento de sua morte, prepará-la e organizá-la. E ele cede porque está convencido de que é para o seu bem. Entrega-se à afeição dos seus. Se, apesar de tudo, adivinhou, fingirá não saber. Antigamente, a morte era uma tragédia – muitas vezes cômica – na qual se representava o papel “ daquele que vai morrer” . Hoje, a morte é uma comédia – muitas vezes dramática – onde se representa o papel “daquele que não sabe que vai morrer”. [24]

Ariès, referindo-se ao American Way of Death, afirma que, atualmente, morre-se quase às escondidas:

Onde somos tentados a ver apenas escamoteamento, mostram-nos a criação empírica de um estilo de morte em que a discrição aparece como a forma moderna da dignidade. [25]

Da mesma forma, no modo americano, a toalete fúnebre tem por objetivo mascarar as aparências da morte e conservar no corpo os ares familiares e alegres da vida.

Já Norbert Elias, atribui a solidão na hora da morte a um estilo de vida moderno, no qual também se vive só.

A ênfase especial assumida no período moderno pela idéia de que se morre em isolamento equivale à ênfase, nesse período, do sentimento de que se vive só. Sob esse ponto de vista também a imagem de nossa própria morte está intimamente ligada á imagem de nós mesmos, de nossa própria vida, e da natureza dessa vida. [26]

 

 

3. A Extinção do Luto

A segunda grande mudança que intervém nas atitudes diante da morte, pode-se dizer, é a recusa do direito do luto aos familiares sobreviventes. A sociedade moderna proíbe aos vivos de parecerem comovidos com a morte dos outros, não lhes permitindo nem chorar os que se vão, nem fingir chorá-los. A partir de meados do século XX, houve a interdição do luto, necessidade milenar, cuja manifestação era legítima. Durante o espaço de uma geração, a situação foi invertida. “o que era comandado pela consciência individual ou pela vontade geral é, a partir de então, proibido; o que era proibido, é hoje recomendado. Não convém mais anunciar seu próprio sofrimento e nem mesmo demonstrar o estar sentindo.” [27] O novo consenso exige que se esconda aquilo que antigamente era preciso exibir e mesmo simular o seu sofrimento. “Hoje, a reclusão tem o caráter de uma sanção análoga àquela que se abate sobre os desclassificados, os doentes contagiosos e os maníacos sexuais. Rejeita os consternados impenitentes para o lado dos associais. Quem quiser poupar-se desta experiência deve, portanto, conservar a máscara em público e só tirá-la na mais estrita intimidade: ‘Chora-se’ diz Gorer, ‘apenas, em particular, como nos despimos e descansamos apenas em particular’, às escondidas.” [28]

Hoje é vergonhoso falar da morte e do dilaceramento que provoca, como antigamente era vergonhoso falar do sexo e de seus prazeres. Quando alguém se desvia de você porque está de luto, está dando um jeito de evitar a menor alusão à perda que você acaba de sofrer, ou de reduzir as inevitáveis condolências a algumas palavras apressadas; não que a pessoa não tenha coração, que não esteja comovida, pelo contrário, é por estar comovida, e quanto mais comovida estiver, mais esconderá seu sentimento e parecerá fria e indiferente.

O decoro proíbe, a partir de então, toda referência à morte. É mórbida, faz-se de conta que não existe; existem apenas pessoas que desaparecem e das quais não se fala mais – e das quais talvez se fale mais tarde, quando se tiver esquecido que morreram. [29]

O luto, como a morte, passa a ser indecente. “A dor da saudade pode permanecer no coração do sobrevivente, não devendo este manifestá-la em público, segundo a regra atualmente adotada em quase todo o Ocidente. Exatamente o contrário do que exigiam dele anteriormente”. [30] Segundo Gorer, hoje, a morte e o luto são tratados com a mesma pudicícia que os impulsos sexuais há um século. É preciso aprender a dominá-los. “Hoje admite-se, como perfeitamente normal, que homens e mulheres sensíveis e razoáveis possam perfeitamente se dominar durante o luto pela força de vontade e caráter. Já não têm, portanto, necessidade de manifestá-lo publicamente [...] tolerando-se apenas que o façam na intimidade e furtivamente, como um equivalente da masturbação”. [31] A manifestação pública do luto é, hoje, considerada mórbida, como uma doença. “Aquele que o demonstra prova fraqueza de caráter. [...] O período de luto já não é o do silêncio do enlutado no meio de um ambiente solícito e indiscreto, mas do silêncio do próprio ambiente: o telefone deixa de tocar, as pessoas o evitam. O enlutado fica isolado em quarentena”. [32]

Essa atitude de neutralização do luto é vista pelos psicólogos como perigosa e anormal. Tanto Freud quanto Karl Abraham esforçaram-se por mostrar que o luto era diferente da melancolia, insistindo na necessidade do luto, bem como nos perigos de sua repressão. Enquanto a sociedade passa a considerar mórbido o luto, os psicólogos, em sentido contrário, consideram a sua repressão como mórbida, e causadora de morbidez.

Essa oposição mostra a força do sentimento que leva a excluir a morte. De fato, todas as idéias dos psicólogos e dos psicanalistas sobre a sexualidade e o desenvolvimento da criança foram rapidamente vulgarizadas e assimiladas pela sociedade, enquanto as idéias sobre o luto ficaram completamente ignoradas e mantidas de lado da vulgata que os meios de comunicação de massa difundem. A sociedade estava pronta a aceitar umas, porém rejeitou as outras. A recusa da morte pela sociedade não sofreu o menor abrandamento pela crítica dos psicólogos. [33]  

A recusa do luto representa um sentimento característico da modernidade, em que se evita impingir uma perturbação à sociedade, bem como uma emoção excessivamente forte, insuportável. Só se tem direito à comoção em particular, ou seja, às escondidas. “As manifestações aparentes de luto são condenadas e desaparecem. Não se usam mais roupas escuras, não se adota mais uma aparência diferente daquela de todos os dias”. [34] O luto não é mais um tempo necessário, respeitado pela sociedade. Pelo contrário, tornou-se um estado mórbido que deve ser tratado, abreviado e apagado. O decoro proíbe toda referência à morte. É mórbida, faz-se de conta que não existe; existem apenas pessoas que desaparecem, e das quais só se volta a falar mais tarde, quando já se tiver esquecido que morreram, segundo Ariès.

 

 

 

 



[1] Philippe Ariès. O Homem Diante da Morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

[2] Gilles Lipovetsky. A Era do Vazio; Ensaio sobre o Individualismo Contemporâneo. Trad. Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria. Lisboa: Relógio D’Água Editores, s. d.

Georges Minois ressalta que a proximidade do riso com a morte e o medo é significativa. Cita Menandro (342 a. C.–292 a. C.), comediógrafo grego, segundo o qual o público pode liberar pelo riso aquilo que lhe provoca medo. Há aí, uma inversão no papel do riso na comédia. O que antes era utilizado para amedrontar, é utilizado para afugentar o medo. Para Demócrito, o riso é a sabedoria, e filosofar é aprender a rir. A aventura humana é ridícula, e só se pode rir dela. In: Georges Minois. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: UNESP, 2003.

 

[3] José de Souza Martins (Org). A morte e os mortos na sociedade brasileira. São Paulo: Hucitec, 1983.

[4] José de Souza Martins ainda lamenta que, à alienação do trabalhador, da classe operária e à alienação do trabalho, venha juntar-se, agora, a alienação da morte, considerando esta uma perda das mais lastimáveis dentro da classe operária. Destaca um fato já totalmente esquecido pela sociedade, de que o sindicalismo brasileiro nascera das associações funerárias, entre o fim do século XIX e começo do século XX, que eram então denominadas associações de mútuo socorro. Relembra que a doença e a morte foram as primeiras causas da consciência operária no Brasil, fazendo-os organizarem-se contra a sua grande ocorrência na classe operária.

[5] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente, p. 96.

[6] Idem, p. 102.

[7] Philippe Ariès. O Homem Diante da Morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, pp. 612-613.

[8] Como exemplo desse escamoteamento da morte na atualidade, pelos meios de comunicação de massa, pode-se citar, entre vários outros, o conto de Ernest Hemingway, “The Snows of Kilimanjaro”, adaptado para o cinema em 1952, pelo diretor Henry King, com Gregory Peck, Susan Hayward e Ava Gardner no elenco. Segundo Anthony Burgess, “o irônico final feliz da visão agonizante de Harry – a conquista da montanha ‘vasta como o mundo, alta, e incrivelmente branca ao sol’ – é suavizado e transformado num resgate, numa cirurgia bem-sucedida e na cura que deixa Harry pronto para um ‘recomeço’. Mas o final, da forma como foi escrito por Hemingway, é imensamente mais forte: embora não haja esperança de regeneração, Harry enfrenta seu fracasso em servir tanto à vida quanto à arte em auto-compaixão, com compreensão e submissão ao destino, conseguindo finalmente ‘queimar as gorduras de sua alma’”. Ao se banir a morte, na produção cinematográfica, a obra de Hemingway perde muito de sua característica, já que a morte era o tema central do conto. Burgess contrapõe a morte suja da personagem à morte limpa do animal morto no cume do monte Kilimanjaro.  “No conto, a morte ‘limpa’ do predador aventureiro e a morte suja e sem dor pela gangrena são usadas como símbolos de considerável força. A fera representa o artista que morre nobremente, procurando o cume, e a gangrena a corrupção e a mortificação do talento mal-usado, prostituído, que se permitiu que se atrofiasse”.

[9] Idem, ibidem, p. 613.

[10] José L. de S. Maranhão, como Ariès, verifica o deslocamento do tabu da sexualidade, que passa a ser então a morte, tomando como exemplo a popularidade dos filmes de terror e o culto da violência nas produções cinematográficas. Acrescenta que a “pornografia da morte” causa-nos excitação. Além disso, constata que muitos médicos e enfermeiros escolheram essas profissões para conhecerem a fundo suas próprias ansiedades e sentimentos acima da média a respeito da morte. Destaca a “atitude contrafóbica”, frente ao fenômeno da morte, que provoca um medo muito intenso, ao qual algumas pessoas reagem defensivamente, aproximando-se dele com uma curiosidade mórbida.

[11] G. Gorer. Death, Grief and Mourning in Contemporary Britain. Nova Iorque Doubleday, 1965.

[12] Idem, ibidem.

[13] José Luiz de Souza Maranhão. O que é Morte. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.10. Segundo Norbert Elias, antigamente, as crianças também estavam presentes quando as pessoas morriam, pois “onde quase tudo acontece diante dos outros, a morte tem lugar diante das crianças.” In: A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 26.

[14] Philippe Ariès, op. cit, p. 622.

[15] Norbert Elias lembra que a morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. In: A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 10.

[16] Idem, p. 622.

[17] Idem, p. 623.

[18] Norbert Elias afirma que, atualmente, apenas as rotinas institucionalizadas dos hospitais dão alguma estruturação social para aa situação de morrer. “Essas, no entanto, são em sua maioria destituídas de sentimentos e acabam contribuindo para o isolamento dos moribundos.” In: A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 36.

[19] Como afirma Norbert Elias, o problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos. In: A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 9.

[20] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente, p. 95.

[21] Norbert Elias lembra que a atitude em relação à morte e a imagem da morte em nossas sociedades não podem ser completamente entendidas sem referência à segurança relativa e à previsibilidade da vida individual – e à expectativa de vida correspondentemente maior. “A vida é mais longa, a morte é adiada. O espetáculo da morte não é mais corriqueiro. Ficou mais fácil esquecer a morte no curso normal da vida. Diz-se às vezes que a morte é ‘recalcada’.” In: A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 15.

[22] Philippe Ariès, História da Morte no Ocidente, p. 293.

[23] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 235.

[24] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 238.

[25] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 239.

[26] Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p; 70.

[27] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 250-251.

[28] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 261.

[29] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 224-225.

[30] Idem, p. 631.

[31] Idem, p. 633.

[32] Idem, p. 633.

[33] Idem, p. 634. Norbert Elias, em seu ensaio A Solidão dos Moribundos, atenta para o fato de que, sem que haja especial intenção, o isolamento precoce dos moribundos ocorre com mais freqüência nas sociedades mais avançadas, tratando-se de uma das fraquezas dessas sociedades. “É um testemunho das dificuldades que muitas pessoas têm em identificar-se com os velhos e moribundos.” In: Norbert Elias. A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 8.

[34] Philippe Ariès. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.