O QUE SE DIZ E O QUE (AINDA) SE TEM A DIZER SOBRE A TRADUÇÃO?

Resenha de:

MITTMANN, Solange. Notas do tradutor e processo tradutório: análise e reflexão sob uma perspectiva discursiva. Porto Alegre: Editora da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2003. 183 pp.

 

Resenhado por Márcia Regina Terra
Doutoranda do PPG-LA/IEL-Unicamp-SP
mterra@estadao.com.br

 

Doutora em Estudos da Linguagem e pesquisadora nas áreas de Análise do Discurso francesa e Tradução, Solange Mittmann, em seu livro, “Notas do tradutor e processo tradutório: análise e reflexão sob uma perspectiva discursiva”, fala sobre a Tradução, um tema que vem, crescentemente, despertando a atenção de estudiosos em diversas áreas do conhecimento. Todavia, a autora incumbe-se de uma tarefa bastante inovadora, ao tomar como objeto de reflexão, não mais a “tradução”, como tradicionalmente é vista,  mas como um “processo tradutório”, ou seja,  “como um processo de relação de sentidos e de produção de discurso” (p.171).

Por sua vez, esse novo modo de pensar a tradução, como um processo discursivo, traz implicações importantes aos modos de compreensão do tradutor, bem como às relações que se estabelecem dentro desse processo. No decorrer dos cinco capítulos que compõem a obra, a autora, com clareza e amplitude de idéias, procura desenredar questões, que têm sido motivo de controvérsias no campo de estudos relativos à tradução, a fim de buscar a construção da sua proposta inusitada de deslocamento da tradução  para o processo tradutório.

 

Tradução e Tradutor: resgatando concepções

Descartando a idéia de proceder a “um inventário de todos os que falaram sobre a tradução e [de] tudo o que disseram a respeito” (p.15), a autora escolhe focalizar o embate entre duas concepções teóricas de tradução, a saber:  concepção tradicional x concepção contestadora,  para, em seguida, com base no aparato teórico da Análise do Discurso (Escola Francesa), formular a sua proposta de tradução em uma perspectiva discursiva.

A primeira concepção de tradução - concepção tradicional – representada, no livro, pelas idéias básicas de três teóricos, (Eugene  A. Nida, Erwin Theodor, e Paulo Rónai), entende a tradução, simplificando ao máximo, como:

 a) “um tipo de mecanismo capaz de transportar uma mensagem de uma língua para a outra”, implicando, com isso, a visão do tradutor como um mero identificador de símbolos equivalentes que devem ser organizados, conforme as exigências da estrutura da língua de chegada demandem (Nida, p. 16);

 b) A partir de Theodor, a tradução é tida como uma “transposição” do “conteúdo de um texto com os meios próprios de outra língua” (p.17), quer dizer, a exigência principal é a de que o tradutor seja capaz de na ‘outra’ língua recodificar, além do sentido da mensagem, “as suas conotações culturais e civilizatórias”, desde que ele ofereça uma mensagem que “corresponda o mais aproximadamente possível ao texto original” (p.20);

c) Com Ronái, a tradução não é mais um ato mecânico de substituição de palavras isoladas, mas o que se deve traduzir é a “mensagem”, pois “as palavras não possuem sentido isoladamente, mas dentro de um contexto” necessário à desambigüização, ou seja, é preciso determinar “apenas um dentre os sentidos que aquela palavra possui”, id est, o seu “equivalente na outra língua”.

Em síntese, como enfatiza a autora, nessa concepção tradicional, “é como se o texto da segunda língua fosse pressuposto e o tradutor simplesmente o preenchesse com a informação pretendida pelo autor” (p.79). Como conseqüência, embora se admita a subjetividade do tradutor, essa subjetividade representa um empecilho para a tradução ideal. De uma forma geral, portanto, os três autores filiados à concepção tradicional tomam como referência o texto e a língua, como se fossem “baús capazes de guardar o sentido, a mensagem, o conteúdo, ou informação” a serem ‘transferidos’ sem se cogitarem as condições de produção.

            A segunda concepção é denominada, por Mittmann, de perspectiva contestadora, sendo representada, no livro, por quatro preeminentes teóricos  (Francis Henrik Aubert, Rosemary Arrojo, Lawrence Venuti, Theo Hermans) cujas concepções de tradução (e suas imbricações) não apresentam pontos de confronto com as concepções da AD sobre linguagem, sujeito e sentido, adotadas pela autora.  Tais autores contestam a “possibilidade de transporte fiel de um sentido estável de um texto para outro”, sendo a tradução entendida como um ato de interpretação determinado por contingências externas (visão de mundo, ideologia, padrões estéticos, etc.) que “agem sobre o tradutor e que têm uma relação particular com cada língua” (p. 34). Nessa linha de idéias, é reivindicado um novo papel para o tradutor que passa a ser considerado como “um sujeito atuante, produtor e responsável”, em vez de ser um “mero instrumento, sem direito à voz e acusado de traição”, quer dizer,  existe o reconhecimento do “caráter transformador e produtivo da tradução”, bem como  “o papel inquestionavelmente autoral do tradutor” (p. 79). Ou seja, o texto não carrega em si sentidos, mas os sentidos do texto emergem no ato da interpretação; tanto o texto original como o texto da tradução são resultantes de um processo de transformação; e, além disso, ambos os textos apresentam uma pluralidade de vozes.

 

Construindo uma proposta de reflexão sobre o processo tradutório

A partir do confronto entre as duas visões teóricas, mencionadas mais acima, a autora observa importantes rupturas nos modos de conceber a tradução e o tradutor e as relações imbricadas nesse processo e parte, portanto, em busca, dentro das três regiões do quadro epistemológico da AD – o materialismo histórico, a lingüística e a teoria do discurso – de noções  que lhe permitam apresentar uma proposta particular sobre o processo tradutório. Percebendo que a ideologia “se apresenta como prática, como materialidade, atuando internamente no processo tradutório, e, portanto, no discurso do tradutor, criando no e pelo discurso os efeitos de universalidade e individualidade”; observando, ainda, “que há uma materialidade também lingüística, pois as sistematicidades lingüísticas servem de base para o processo tradutório” e que, por extensão, “o discurso que é produzido durante o processo tradutório tem uma materialidade que é ao mesmo tempo lingüística e histórica”, o processo tradutório passa, então, a ser concebido, conforme definição da autora, como

um processo discursivo, porque é um processo de produção de discurso, que envolve o lingüístico e o histórico. Além disso, é um processo de relação e de produção de sentidos, em que os sentidos são produzidos não isoladamente, mas na relação com o discurso original e com outros discursos presentes no interdiscurso (p. 172). 

Essa nova concepção de tradução, como processo discursivo, em que o discurso é entendido como “um efeito de sentidos entre os interlocutores”, contradiz a idéia de transporte, transmissão/retransmissão de mensagens, de sentidos ou das intenções do autor (pregadas pela concepção tradicional), para dar lugar à visão de autor, tradutor e leitor produzindo sentidos. Isso significa dizer que o processo tradutório é concebido como um processo amplo de relações de sentidos entre discursos,  em que múltiplas e heterogêneas vozes são constitutivas desse discurso, e não mais como um ato individual de um tradutor.

 

Analisando o processo de produção do discurso: as Notas do Tradutor

Objetivando desvendar o “processo de produção de discurso durante o processo tradutório”, Mittmann elege como caminho privilegiado para essa análise, a Nota do Tradutor, e busca refletir, a partir delas, sobre três questões: a) como se estabelece a relação entre tradutor e autor, ou, ainda, entre discurso da tradução e discurso original?; b) como se dá a heterogeneidade de discurso dentro da N.T.?; c) como o tradutor apresenta os embates que sofre durante o processo tradutório? Com base nas análises, a autora observa, entre outros, que a N.T. representa a materialidade do discurso do tradutor durante o processo tradutório,  “em um momento em que este discurso não se confunde ilusoriamente com o do autor do texto original, como acontece no restante do texto da tradução”.

Pelas análises, a autora descobre que as relações que se estabelecem entre autor x tradutor tanto pode ser de aliança como de confronto, uma vez que “há ao mesmo tempo um distanciamento entre as duas posições-sujeito e a ilusão de que no texto da tradução somente a voz do autor é que fala”; observa, ainda, que há heterogeneidade de discursos dentro da N.T, pois “o tradutor recorre a outros discursos, localizáveis ou não, de um campo discursivo estabilizador ou não, para dar sustentação ao seu dizer durante o processo tradutório”.

Quanto aos embates, a autora detecta três formas: a) pela falta do que dizer na língua de chegada; b) pelas incertezas – quando o tradutor divide as suas inseguranças com o leitor; c) pela multiplicidade de sentidos – e a necessidade de ‘optar’ por um desses sentidos no texto da tradução. Quer dizer, a N.T., nas palavras da autora, “pode não ser um mecanismo de controle do discurso, mas ao contrário ela pode servir para mostrar-nos que o sentido, muitas vezes não pode ser controlado”.

Enfim, com base em toda a reflexão realizada, Mittmann efetua a sua própria proposta a respeito de N.T.: “consideramos, então, a N.T. não como um discurso paralelo, mas também não como o mesmo discurso, e sim como um discurso de extensão, baseado no discurso do texto da tradução, mas sem se restringir a ele, e produzido durante o mesmo processo tradutório” (p.175).

Pelo que precede, argumentamos que Mittmann, ao se incumbir da tarefa de propor o deslocamento da tradução para o processo tradutório, reflete sobre os efeitos das rupturas e transformações suscitados nos modos de entender a tradução, o tradutor e as relações que se estabelecem dentro desse processo, levando-nos a pensar a tradução sob prismas, até então, inusitados, ou seja, “como um processo de relação de sentidos e de produção de discurso” (p.171), e faz da sua obra um livro obrigatório para todos aqueles que se interessam pelo campo de estudos relativos à  tradução.