EM BUSCA PELO SAGRADO NA OBRA DE CORA CORALINA

 

 

Heitor Gribl
Unicamp – IEL
2001

 

Introdução

 

Da Delimitação do Princípio da Sacralidade

A tarefa de investigar o caráter do Sagrado na literatura não pode ser resumida a uma simples identificação de palavras ou elementos que estejam imbuídos de alguma sacralidade. Uma análise de busca pelo sagrado não pode se prender a elementos religiosos pois a presença de algum comportamento religioso não é condição para que haja o sagrado. Da mesma forma, a linguagem poética não assegura, por si somente, que possa haver um momento de suspensão capaz de levar o texto literário ao fator do sagrado.

A dificuldade, portanto, que se impõe para a definição do sagrado não é resolvida com a oposição da definição de profano. A relação sagrado-profano se dá de forma dialética. Seria custoso admitir que o sagrado e o profano aparecem separadamente ou de forma pura. O sagrado se manifesta como essência, a partir do discurso apofático, a partir do não-dito e, portanto, através da abertura do sintagma para significados não expressos de forma explícita. Dessa forma, o sagrado, tal como queremos delimitar, não reside em discursos didático-religiosos ou na determinação de rituais, elementos dogmáticos ou símbolos comuns às religiões universalmente conhecidas. O sagrado, como aqui tratamos, necessita de um processo de interpretação semelhante à metáfora.

Ora, o ser humano é um ser simbólico por excelência. O homem não sobreviveria sem que houvesse a representação, seja essa feita através das palavras ou de símbolos que apontassem para algum referente. No momento em que esta representação faz com que o símbolo utilizado signifique não apenas o seu sentido literal mas que, paradoxalmente, indique também alguma referência transcendental ou memoralística, sem deixar de ser o próprio símbolo, temos o que Eliade chamou de hierofania [1] . Gostaria de propor o termo Princípio da Sacralidade a partir da definição de hierofania porém direcionado aos textos literários. Se quisermos levantar alguns elementos que podem ser enquadrados ao Princípio da Sacralidade, poderíamos dizer que o tempo narrativo exerce uma importante função na literatura. A própria necessidade humana de atribuir sentido à vida produz um sentimento de perda e finalidade diante da morte. Dessa forma, se a linha do tempo fosse sempre linear, o ser humano não teria os sentimentos de salvação e renovação que ocorrem no tempo cíclico. A esperança de encontro do ser humano com o transcendental após a morte impulsiona e legitima o próprio viver. De forma semelhante, a morte pode ser simbólica, representando a transformação do indivíduo através da redenção (morte ritual e renascimento ritual). Os elementos aqui apresentados podem ser identificados na literatura, porém, antes de atribuí-los diretamente ao Sagrado, deveríamos chamar, em primeira instância, de Princípios da Sacralidade. A ponte que ligará esse Princípio da Sacralidade ao Sagrado, propriamente dito, só será possível a partir de uma interpretação simbólica e metafórica, ou seja, a sacralidade não é atingida de forma direta a partir da experiência da leitura ou da forma de representação em que o texto foi expresso, mesmo porque a manifestação do sagrado não ocorre na tentativa de explicar racionalmente a experiência do indivíduo. Para isso, cabe a nós um cuidadoso processo de interpretação para identificar o elemento que dá abertura para o sagrado (Princípio da Sacralidade) sem cairmos na simplificação mecanizada de carimbar as palavras “sagrado” e “não-sagrado” nos textos examinados.

A teofania, como exemplo de hierofania, é uma metáfora da criação do mundo, presente desde as sociedades mais primitivas até as religiões contemporâneas. A teofania parte da noção etnocentrista de demarcar um território a partir de seu centro religioso, seu ponto de criação, a pedra fundamental, o Axis Mundi. Esse centro que marca o início de uma civilização está, geralmente, associado a algum tipo de manifestação do sagrado, ainda que, se for preciso, seja produzido a partir da ação do homem através de rituais.

De qualquer forma, a impossibilidade de apreender o sagrado e defini-lo na forma de um conceito fechado produz um sentimento de constante insatisfação diante da insuficiência de noções que delimitem o sagrado. A dificuldade de desvincular nossas crenças e noções subjetivas para compreender o sagrado em seu estado de essência nos obriga a atermos à textualidade e à construção poética para que seja possível a amarração dos argumentos interpretados.

No presente texto, tentarei descrever o meu processo, entre tantos outros possíveis, para a identificação deste Princípio da Sacralidade, que ocorre através da hierofania, entendido como processo de interpretação do sintagma e que pode permitir a abertura de sentido para atingir o sagrado.

Ao lidarmos com o elemento do Sagrado na Literatura podemos, facilmente, cair no erro de limitar o Sagrado às aparições de algumas marcas específicas em um texto, de forma mecanizada e simplista. Nem toda metáfora é, necessariamente, condição para a abertura do elemento sacralizante. A abertura de um sintagma atingiria o sagrado mediante uma interpretação metafórica, não apenas por sua abertura de sentidos. Poderíamos dizer que esse processo de interpretação metafórica só é possível a partir de um ritual de iniciação, presente não apenas no texto mas, também, naquele que o interpreta. Os processos iniciatórios, para os leitores, podem ser desde o simples conhecimento de determinados comportamentos religiosos ou até mesmo a experiência de ter participado de tais rituais de passagem. Esses rituais podem não estar explícitos na obra literária mas podem ser apresentados de forma simbólica. Dessa forma, poderíamos identificar tais rituais como Princípios da Sacralidade e, após detalhada análise no contexto da obra, descobrir se nos permite a abertura para o Sagrado. A dor está intimamente ligada senão condição do ritual de iniciação. O local dos rituais estão geralmente associados a lugares secretos, representados ora como florestas, ora como o sertão. De qualquer forma, o sentimento de passagem ritual está ligada à idéia de morte ritual, da morte para  o renascimento de um novo indivíduo para uma nova vida.

Assim, o Princípio da Sacralidade surge a partir do momento em que ele é interpretado como um símbolo que torne possível a compreensão de seu sentido não apenas em sua literalidade mas que, concomitantemente, aponte seu sentido para algo além de si, transcendente ou memorável, e que possibilite a elevação do indivíduo a um estado de “presença” diante deste transcendente.

 

 

A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu [2]

 

O atestado da “verdade” como Princípio da Sacralidade

Talvez fosse preciso explicar ao leitor alguns mecanismos comuns à estrutura dos contos de causo ou detalhar o contexto da cultura caipira brasileira, especialmente da cidade de Goiás,  para a interpretação e entendimento das estórias contadas por Cora Coralina. Não acredito que isso seja necessário.  “Iniciar” o leitor ao fenômeno que ocorre na forma simples de um conto de causo seria o mesmo que explicar o funcionamento das estórias fantásticas de pescadores. Sabemos que são estórias e que não possuem compromisso com a realidade histórica.

A obra de Cora Coralina possui elementos comuns à literatura oral, como a riqueza dos recursos construtores da verossimilhança, geralmente, presente nos causos. Identificamos um despojamento em sua linguagem, apresentando o texto na estrutura de uma das formas simples, e repetidamente assevera a “veracidade” do conto narrado, de forma semelhante ao que ocorre na literatura oral. Gostaria de propor, inicialmente, que o Princípio da Sacralidade possa estar presente na valorização do ato de contar estórias.

Em primeiro lugar,  convidaria o leitor para a leitura do texto A moeda de ouro que um pato engoliu. Acredito que esse texto apresenta uma essência representativa da estrutura de um conto de causo, a começar pela linguagem simples e a ênfase da oralidade. Não seria suficiente dizer que a oralidade é justificada apenas por se tratar de um texto voltado ao público infantil, pois a oralidade está presente na quase totalidade da  obra de Cora Coralina. Na transposição do oral para o escrito, Cora Coralina preserva o registro oral. Não é raro encontrar na obra de Cora Coralina trechos de transcrição da fala caipira como intermezzo de sua narração. Creio que o fator da oralidade e o registro da fala do povo sejam elementos que comprovem uma certa estratégia de verossimilhança, estratégia essa que, poderíamos dizer, formou o estilo despojado de Cora Coralina em sua escolha por uma forma de escrever descompromissada de movimentos literários ou de formas mais elaboradas de escrita. Não quero, com isso, dizer que sua obra não seja elaborada. Não é minha intenção cair na questão do valor literário, medida a partir da sua elaboração mais ou menos complexa, mas demonstrar minimamente o quanto a escolha por uma literatura de forma simples valoriza todo o contexto da obra de Cora Coralina.

Gostaria de propor uma leitura possível para a Moeda de Ouro como um elemento que pode ser considerado um Princípio da Sacralidade e identificar a medida deste sagrado. A hipótese que gostaria de levantar é a de que a Moeda de Ouro representa a riqueza da literatura oral, do contar estórias e da linguagem popular.

Em primeiro lugar, deveria deixar claro que a presença de elementos de religiosidade no conto não atingiria o conceito de Princípio da Sacralidade. O pato que seria oferecido para o padre não está imbuído do sagrado por ter sido preparado para ser dado ao padre ou por terem encontrado a moeda dentro dele. O próprio título do conto deixa claro, através dos artigos definido e indefinido, que o centro da estória está na moeda e que o pato é apenas mais um entre outros. Os elementos religiosos tais como a festa do Santo e a presença do padre não centralizam a sacralidade que aqui desejo demonstrar. Será preciso uma interpretação metafórica sobre a Moeda de Ouro como via de abertura para atingirmos o Sagrado.

Se fôssemos investigar as simbologias associadas à moeda, veríamos que nas civilizações mais antigas a moeda não tinha valor monetário mas, de certa forma, sagrado. De um lado da moeda era gravada a figura do governante da civilização e do outro lado a figura do deus ou do animal sagrado adorado por este governante. Em meados do século III a.C. as moedas passaram a ter valores numéricos, geralmente proporcionais ao seu tamanho, peso e metal. Entre os metais, o ouro foi sempre considerado o de maior valor por seu brilho raro, por sua pureza e por ser o metal que menos se deteriora com a ação do tempo e dos fatores químicos.

Algumas destas simbologias associadas à moeda permanecem até hoje como, por exemplo, a escolha de um animal comum no território ou da figura do representante do país. A moeda da Cora possui a efígie de D. João VI mas não sabemos qual era seu valor monetário, possivelmente por estarmos tratando de uma moeda com um sentido sagrado. Mas como seria possível a revelação desse sagrado? Acredito que a revelação ocorre a partir da iniciação que Cora Coralina desenvolve a partir da palavra escrita, a palavra epistolar, a carta que a avó remete ao neto.

É preciso destacar que a moeda não tem sentido sagrado desde o princípio do texto. Existe uma passagem do profano ao sagrado atribuído à moeda através da iniciação pela palavra. No momento em que a moeda foi encontrada, nasce uma cifra, uma pergunta: De quem agora é a moeda? Porém, a moeda aqui ainda é tratada sem o sentido do sagrado, sendo resolvida facilmente ao encontrar um dono apropriado. A revelação do sagrado pode estar no não-dito, no momento em que a personagem Maria do Morro está calada, refletindo a revelação que acabara de ter. Encontramos na fala da Maria do Morro a resposta para outras perguntas que não são explicitadas no texto: Por que os patos morrem, em seu sítio, sem razão aparente? Onde o pato encontrou moeda? O silêncio da personagem pode significar o limite que separa o sentido profano da moeda para o sentido sacralizado. No trecho abaixo encontramos algumas respostas que a personagem Maria do Morro formula sob a forma de hipóteses (ou seria possível dizer mito?):

Dona Maria do Morro, que estava calada, pensando alguma coisa, então falou:

Ara veja vassuncêis... Pur isso é que lá em casa, no sítio, muitos patos morre incaiado, se espremendo que fais dó... Até que tem lá em casa, no oratório, mais duas dessa, irmãzinha, que achei debaixo da estiva, onde os pato drome, no meio do esterco deles. Ia passando, pega um ovo largado, vi um trenzinho redondo amarelo, lumeando sujo de estrume. Catei, lavei e guardei no oratório, dejunto do Santo. Lá nas aguada tem muita grota, buraqueira onde os pato meti o bico, churriando... De certo deu cuma panela cheia dessas nota e vorta e meia engole uma e depois descome ou morre na espremedeira... (grifo meu)

 

A Maria do Morro retirou a moeda de ouro do estrume e colocou-a sobre o altar. Acredito que, metaforicamente, Cora Coralina faz algo semelhante com a linguagem popular, a literatura oral, geralmente associada a uma literatura “inferior”, retirando sua preciosidade do anonimato, daquele “estrume”, para colocá-la no altar da literatura brasileira. Provavelmente, a noção de literatura “inferior” esteja registrada no discurso da autora, ao dizer que a moeda foi retirada de um lugar baixo, “que achei debaixo da estiva”, ou através das últimas linhas de seu texto em que a autora escreve “Se a estória não é melhor é porque a vovó não tem mesmo jeito pra contar.”, tentando se justificar não para o seu neto, mas para o leitor, por não ter escolhido uma forma literária “melhor” para contar sua estória. Simultaneamente, a moeda encontrada nesse estrume é feita do metal que representa a pureza, a raridade e a beleza, qualidades estas que podem ser atribuídas perfeitamente à riqueza da literatura oral.

É preciso ressaltar que a tradição é outra característica da literatura oral e que é um dos fatores responsáveis em manter a oralidade viva. Nessa tradição, tão importante como o “contar” estórias é o de “ouvir” e conservar as estórias para que possam ser mantidas em movimento, passadas de geração em geração. Os acontecimentos contados são fundamentados a partir do discurso de testemunho, o discurso de quem teve a experiência de participar do conto narrado. Segundo Barthes,

Na história auditiva, o ouvido volta a ser o que era na Idade Média: não apenas o primeiro dos sentidos (antes do tato e da vista), mas o sentido que fundamenta o acontecimento.(...)A palavra (...), nos termos da cultura ocidental, em que nada privado de sentido pode ser captado, ela era o próprio acontecimento. A distância milenar entre o ato e o discurso, acontecimento e testemunho, atenuou-se (...).

Parece existir uma preocupação em fazer o leitor  acreditar na veracidade dos fatos através do processo de testemunho. Dessa forma, seria possível fazer a leitura da moeda de ouro como sendo a “prova” da verdade. Essa leitura, porém, fica mais evidente ao considerarmos as ilustrações do livro infantil. Na figura abaixo, vemos um senhor (Joaquim do Morro) contando a mesma estória para as crianças enquanto mostra a moeda de ouro como o atestado da verdade. Essa ilustração é uma das últimas do livro e que permite uma circularidade da própria narrativa: a de estar sempre recontando a mesma estória para as futuras gerações. Joaquim do Morro é descrito por Cora Coralina como uma personagem conservadora, como aquele que preservou a moeda e a tradição da literatura oral.

O texto é uma carta enviada para seu neto em 1965, portanto, originalmente sem ilustrações e sem a formatação de livro. Dessa forma, é preciso que nossos argumentos sejam extraídos da textualidade. Por tratarmos de uma carta, vemos que Cora Coralina exerce o papel desse contador de estórias ao transmitir o causo ao seu neto, valorizando a circularidade da literatura oral e que a ilustração foi uma das leituras possíveis (e não exclusiva) da carta ao ser publicada na forma de livro infantil.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BARTHES, R. O Rumor da Língua, Trad. Mario Laranjeira, Brasiliense, 1988.

CANDIDO, A. Parceiros do Rio Bonito, 7a. edição, Duas Cidades, São Paulo, 1987.

ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões – Martins Fontes, 5a. tiragem , trad. Rogério Fernandes, São Paulo, 2001.

JOLLES, A. Formas Simples: legenda, saga, mito, advinha, ditado, caso, memorável, conto, chiste; Trad. Álvaro Cabral, Cultrix, São Paulo, 1976.

SPERBER, S.F. O Signo e a abertura do Sintagma in Guimarães Rosa: Signo e Sentimento. Ensaios 90, Ática, São Paulo, 1982.

CORALINA, C. O Tesouro da Casa Velha, Global, 3a. ed., São Paulo, 2000.

___________ Estórias da Casa velha da Ponte, Global, 9a. ed., pp.21-7, São Paulo, 2000.

___________ A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu, Global, São Paulo, 1997.

 

 

ANEXO

 

Texto de Cora Coralina utilizado na análise

A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu [3]

Vovó mora longe, numa cidade antiga, fundada em 1726 pelos bandeirantes que descobriram Goiás.

Cidade de Goiás, e que foi capital do Estado. Foi ali que vovó nasceu e vovó é mais velha do que este século, mas é forte.

Vovó mora lá e diz que tem raízes naquela terra e que a terra dela é a melhor de todas.

Perto da cidade da vovó tem um antigo lugar onde começou Goiás que se chama Ferreiro. Tem lá uma velha igreja e um arruado de casinhas pobres. Vovó conta que “aquilo” já foi muito melhor.

Havia no Ferreiro muita devoção de São João, e uma família que o povo chamava “gente do Morro” fazia a festa lá todos os anos. Festa à velha moda – com muita comida, potes de doces, música, fogos e fogueiras queimando no Largo da Igreja. Tinha em Goiás um padre goiano muito amigo do lugar e da “gente do Morro”.

O Padre ia fazer o tríduo, batizados, celebrar a missa do Santo e ajudar a queimar os fogos, que o Padre era alegre e festeiro.

Aconteceu que aquela gente, querendo preparar um almoço melhor para o Padre e para as pessoas que iam da cidade com ele, resolveu de matar um pato novo, alvinho, e que estava encruzando as asas, que nesse ponto é que o pato presta para ser comido, feito com arroz mole, comida muito gostosa.

Depois do pato depenado e despenujado, pato novo tem muita penugem, dona Maria do Morro entregou o pato para Idalina, moça velha que a tia do Padre criou, e disse:

— Agora, Sá Dalina, vassuncê arrecebe o pato e aprepara ele no gosto de seu Padre.

Idalina recebeu o pato, gordinho, de pele amarela de gordo, depenado e despenujado. Tomou a faca e abriu pela cacunda.

Tirou fora o de dentro, tripas, moelas, o fígaro, os bofes. Separou a moela e passou a faca. A faca rangiu e não cortou. Idalina deu jeito dos lados, pensando que o que estava atrapalhando era alguma pedra que o pato tivesse engolido.

Quando ela virou o debulho, saltou uma linda moeda de ouro com a efígie de D. João VI.

Foi um espanto para todos, e toda gente queria ver e pegar, dando palpites. Perguntaram: - De quem agora é a moeda?

— É de seu Padre – todos responderam.

Então o Padre pegou a moeda, olhou e disse:

— Eu não quero ficar com a moeda, só quero o pato. Fica a moeda para quem criou o pato.

Ficou então para um chamado Joaquim, filho da Dona Maria do Morro, que era quem criava os patos.

Dona Maria do Morro, que estava calada, pensando alguma coisa, então falou:

— Ara veja vassuncêis... Pur isso é que lá em casa, no sítio, muitos patos morre incaiado, se espremendo que fais dó... Até que tem lá em casa, no oratório, mais duas dessa, irmãzinha, que achei debaixo da estiva, onde os pato drome, no meio do esterco deles. Ia passando, pega um ovo largado, vi um trenzinho redondo amarelo, lumeando sujo de estrume. Catei, lavei e guardei no oratório, dejunto do Santo. Lá nas aguada tem muita grota, buraqueira onde os pato meti o bico, churriando... De certo deu cuma panela cheia dessas nota e vorta e meia engole uma e depois descome ou morre na espremedeira...

A moeda encontrada na moela do pato ainda está com o Joaquim do Morro, gente simples e conservadora. Traz a efígie de D. João VI e a data de 1816.

Fim final estória acabada.

 

Com abração da

Vovó

Goiás, 14-4-65

 

Se a estória não é melhor é porque a vovó não tem mesmo jeito pra contar.

 

Abraços

 



[1] “(...) A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo. (...) M. Eliade, O Sagrado e o Profano, pp.17.

[2] Para o trabalho de análise do Princípio da Sacralidade na obra de Cora Coralina proponho a leitura do texto  transcrito no Anexo.

[3] CORALINA, C. - A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu, Ilustrações de Alcy, Ed. Global, São Paulo, 1997.