“DIFÍCIL É DIZER-TE O QUE AMAMOS”

(considerações sobre a poesia de Paulo Plínio Abreu)

 

Benilton Cruz [1]

 

Paulo Plínio Beker de Abreu, nascido em Belém a 19 de junho de 1921 e morto devido a uma nefrite crônica aos 38 anos de idade em 5 de setembro de 1959, tem apenas um livro, Poesia (1978) [2] , publicado postumamente sob os cuidados do professor Francisco de Paulo Mendes através da Universidade Federal do Pará. Esta obra precisa de uma segunda edição, revisada e ampliada, uma vez que são percebidas algumas gralhas, ou seja, problemas de edição. De qualquer maneira, é muito forte a impressão dessa única obra de Paulo Plínio Abreu nos seus poucos leitores. Com este artigo pretendemos divulgar a obra de mais um poeta paraense para a literatura brasileira, principalmente para aqueles que acessam o sítio de publicação dos alunos da pós-graduação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Não iremos analisar com mais profundidade aspectos da sua poesia, antes iremos apenas considerar Paulo Plínio Abreu como um poeta de qualidades merecedoras de mais atenção, e, portanto, um lugar na poesia brasileira do século XX.

 

CRONOLOGIA

- 1921 - Nasce em Belém, a 19 de junho, Paulo Plínio Beker de Abreu, filho de Dilermando Cals de Abreu e Lídia Beker de Abreu.

- 1925 - Inicia seus estudos primários, em casa.

- 1930 – Obteve o certificado de Curso Primário no Grupo Escolar Floriano Peixoto, onde hoje funciona a Casa da Linguagem.

- 1933 – Estudos secundários no Colégio Paes de Carvalho.

- 1938 – Termina o curso de inglês no English College, tendo sido o orador da turma.

- 1939 – Conhece o prof. Francisco Paulo Mendes, no colégio Paes de Carvalho.

- 1940 – Matricula-se na Faculdade de Direito do Estado do Pará. Publica, na revista Novidade, seus primeiros poemas “Suicídio” e “A estranha Mensagem”. Na revista Terra Imatura aparece o poema “A Aventura”.

- 1941 – Admitido pelo Instituto Agronômico do Norte, onde exerceu funções como a de Bilbiotecário-Chefe, tradutor e Secretário de Diretoria.

- 1944 – Colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Pará.

- 1948 – Casou-se com Edith Correa de Paiva.

- 1949 – Nasce sua primeira filha, Ana Lúcia.

- 1950 – O suplemento “Arte-Literatura”, do jornal Folha do Norte, sob a direção de Haroldo Maranhão, publica um número especial, em 24 de dezembro, sobre poetas paraenses contemporâneos, onde se encontra uma nota sobre Paulo Plínio Abreu e alguns de seus poemas.

- 1952 – Aceito no Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará. Viagem ao Rio de Janeiro a fim de tratar da distribuição das publicações deste Instituto.

- 1954 – Nomeado para reger a disciplina Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belém.

- 1956 – Profere a aula inaugural do ano letivo na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belém.

- 1958 – Nasce Cristina, sua segunda filha. Designado para chefiar o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, da Universidade Federal do Pará, para o biênio 1958/1959.

- 1959 – Morre em 05 de setembro, em Belém, aos 38 anos, devido a uma nefrite crônica.

FONTE: Abreu, Paulo Plínio. Poesia. Apresentação:Prof. Francisco Paulo Mendes. Belém: UFPA, 1978.

 

Podemos dizer, em síntese, que a poesia de Paulo Plínio Abreu se desenvolve em profundidades diversas, como, por exemplo, a questão do tema do “anjo” herdado das elegias rilkeanas. Interessa ver esse “anjo”, como um termo substituto da palavra “Deus”, pois, segundo Rilke os poetas teriam uma “consciência divinizada” [3] para a qual, o poeta defenderia a  idéia de um “Deus inacabado” a quem “cabe ao poeta lírico completar com a palavra poética” [4] , portanto, a poesia teria uma aproximação com a força teológica da palavra enquanto substância divina. A elegia seria, nesse caso, a melhor forma dessa expressão, não necessariamente um “canto”, e nem necessariamente uma “oratória” do espírito ou da condição espiritual do homem. Daí o inevitável tom de lamento. Isso já perceberam os antigos: Aristóteles, por exemplo, em sua Poética não conseguia “encaixar” a elegia no gênero épico, encontrou certa dificuldade com esse tipo de composição. A elegia tem lá as suas liberdades, o que vem a favorecer o surgimento de uma poesia metafísica e, conseqüentemente, a metapoesia.

É bem provável que a poesia consiga “questionar” a linguagem como um “sinal” ou o homem como “ser” de linguagem. A poesia não deixa, portanto, de ser metafísica em sua essência. Ou seja, “metapoesia” e “metafísica” se aproximam ou parecem ser a mesma coisa quando se trata de poesia. Existiria uma “metafísica” na poética de Paulo Plínio Abreu. Anjo e língua são, diríamos, “transparentes", ambos não dizem, mas revelam “algo”, que, na essência, seria indizível, como na poética rilkeana. Quem ganha nisso tudo é a poesia.

Abaixo, apenas para não passarmos em branco, um dos poemas de seu único livro. Trata-se de “Tudo é sinal e mito”, provavelmente escrito por volta de 1958, quando o poeta preparava uma coletânea que seria denominada simplesmente de “Poemas” [5] Neste texto, uma das características de sua poética seria um reconhecimento de que a linguagem não consegue representar o que deveria. No máximo, seria uma advertência dos perigos, ou o “exagero” ou a inconseqüência do mito, ou a própria fugacidade, expressa na simbologia frágil da rosa. Tudo isso em oposição do nada e do tudo, como se o poeta buscasse uma concepção do mundo, no qual tudo seria sinal, mito ou sonho.

 

TUDO É SINAL E MITO

Tudo é sinal e mito

neste ermo precário

em que de novo a seiva

deste luar secreta

a rosa dessa hora

entre todas, sinal.

Um caracol esculpe

sua incerta passagem

nas folhas e no ar

e risca na linguagem

do nada que se apaga

a mensagem de tudo,

do amor, e do fogo

descendo pela escarpa

nesta hora que avança,

as nuvens que não caem

também algo predizem.

Um besouro vermelho

zune a sua agonia

e escuto o silêncio

de remoto acalanto.

Há um sinal equívoco

neste ermo precário

que tudo anuncia

mas que passa fugaz

como sopro ou onda

neste fim de dia.

 

Sinal, mito ou sonho.

 

Tudo seria sinal, ou seja: “advertência” por se prever alguma coisa diante da vida, esse “ermo precário”.  A vida ou o ermo para o que uma estranha “seiva” do luar “secreta a rosa dessa hora”, ou seja. Estamos diante de dois símbolos preciosos da poesia: a lua e a rosa. A lua, símbolo da solidão, e a rosa, símbolo do amor. Tudo seria mito, uma das mais complexas criações da linguagem humana, sobre a qual não seria conveniente reduzir aqui um conceito ou características do mito. No caso de Paulo Plínio Abreu, mito e poesia se entrelaçariam como recurso de sua poética. Em sua poesia o mito atua, ora como linguagem onírica necessária da criação, ora como uma viagem, ora como “força de um pensar antigo”, esse verso seu do poema “O barco e o mito”, abre-alas de seu único livro, verso esse que funcionaria como um verdadeiro conceito para o mito dentro da poética de Paulo Plínio Abreu.

Porém, no poema transcrito acima, o sinal seria “sinal equívoco”, portanto, incapaz, aquele que apenas prediz, como um símbolo em ruínas, ou seja o poeta trabalharia com uma linguagem predestinada ao fracasso, como um “caracol que esculpe nas folhas e no ar”, a linguagem pela qual o poeta seria o único personagem que pode unificar este mundo. Talvez, por isso Paulo Plínio Abreu tenha escolhido os seguintes versos de Rilke como epígrafe de seu único livro “Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt/ die weit in jedem auseinanderfältt.“ [6] , que em português seria “O singular poeta unificou o mundo/ que segue despedaçando-se“.

Importa muito pesquisar sobre seus outros temas explorados em sua poética, como o tema do polichinelo, provavelmente influenciado do Futurismo, o tema do espantalho, o do saltimbanco e o da boneca. Esses dois últimos visivelmente influenciados das dez mais famosas elegias de Rilke, as Elegias de Duino. Esses temas têm que ser explorados em um artigo à parte, pois denotaria uma pesquisa mais atenta à época na qual viveu o poeta e a poesia que se lia então. De qualquer maneira em ambos os casos, nas vezes em que o poeta se refere ao polichinelo, há evidências dos traços físicos de Orfeu e da mesma condição da linguagem humana, frágil e ironicamente, quase que ela mesma um polichinelo, personagem da comédia italiana, falsamente heróico e fanfarrão. Interessante é ver que o polichinelo, na poesia de Paulo Plínio Abreu, não possui essas características. Ao contrário, tem olhos azuis, boca vermelha, humor profundo, amargo e doloroso e de coração ausente

 

O POLICHINELO

O seu segredo era como o dos outros.

Seus olhos eram de vidro azul

e na boca vermelha

o riso da ironia.

O humor profundo, amargo e doloroso

vinha de sua boca;

o riso da sabedoria

e do desespero

gritava da sua boca aberta em sangue.

O riso do polichinelo

vinha do coração ausente, era uma advertência.

era apenas o riso

e falava de um mundo

maior que sua alma.

 

Pode-se ver no poema acima um “auto-retrato” de Paulo Plínio Abreu: o poeta tem olhos “de vidro azul”, na boca o riso da ironia, o humor profundo, amargo e doloroso, sábio e desesperado. Seu riso era uma advertência (como a sina da palavra poética no poema “Tudo é sinal e mito”): apenas um riso cuja amplidão anímica supera qualquer mundo físico. Pode-se ver aqui também uma alegoria do poeta moderno enquanto um polichinelo: um quase “palhaço” que não serve para alegrar, daí o ”riso da sabedoria e do desespero”. Praticamente, o mesmo acontece quando o poeta se refere ao espantalho, em um outro interessante poema seu.

 

LEMBRANÇAS DE UM ESPANTALHO

Lembro-me que era um espantalho

e que balançava no ar

no caruncho da tarde o seu frágil corpo de plano

tanto mais terrível quanto mais humano

pois algo havia de humano

no ar da tarde ou no espantalho

que me lembro ter visto.

Era só um espantalho

agitado no ar pelo vento da tarde.

A chuva caía-lhe na cabeça grotesca.

Um verme subia no seu corpo

para roer-lhe a madeira.

E eu quis pousar no seu ombro

o meu cansaço de ave.

mas algo havia no seu ser

que me aterrou.

 

Quem seria esse espantalho? Se não for o próprio poeta, seria a humanidade, “pois algo havia de humano” e é terrível como a revelação da beleza pela voz da Primeira Elegia [7] de Rilke, traduzida pelo próprio Paulo Plínio Abreu. De qualquer maneira, essa humanidade precisou de mais um para compor a humanidade e foi a própria humanidade o espantalho para o poeta: “E eu quis pousar no seu ombro/ o meu cansaço de ave/ mas algo havia no seu ser/ que me aterrou”. No conto de Hans Baumann sobre Orfeu, este fantástico poeta lendário da Trácia, aparecia de olhos azuis e sempre acompanhado de uma pomba-do-mato ao ombro: “Ela surgiu da árvore e pousou no ombro de Orfeu quando ele retomou suas andanças, e não o deixou mais.” [8] A simbologia da pomba-do-mato sobre o ombro de Orfeu refere-se à aptidão do mítico poeta com o canto e a voz, dentro daquela virtude da qual Marcel Detienne chamou de “virtude centrípta” [9] , quando o poeta reúne com a voz todas as criaturas da terra, do céu e o mar. Assim, queremos entender o poeta como aquele que reúne. Aquele que atrai para si as criaturas que podem ouvir e cantar, sob as mais variadas formas.

Abaixo, enumeramos alguns temas na poesia de Paulo Plínio Abreu, sem pretensão alguma de análise ou estudo mais aprofundado, mas para divulgar sua bela e estranha poesia.

 

2. 1 O tema  de Orfeu

 

O NÁUFRAGO TRAZIA UM PÁSSARO NO OMBRO

Sei que trazia um pássaro no ombro.

De um reino vinha carregado de sonhos

Na mão trazia as marcas da viagem

Ainda giravam em torno do seu corpo

os ventos do mar.

No olhar o horizonte carregado de bruma,

No ouvido o pio das gaivotas,

Trazia o mar no corpo,

As medusas do mar.

No peito trazia marcada em tatuagem

a palavra amor.

Vinha do mar e trazia um pássaro no ombro.

 

ORFEU

Com palavras que hoje restam da infância

edificarei meu reino

e nele estrelas cairão de noite puras.

De corações mais puros

tombarão as águas em que os animais

virão matar a sede

e onde dois olhos, símbolos do amor,

o caminho indiquem para a salvação.

Com palavras inúteis e canções apenas

refaremos o mundo

o mundo sobre o qual

eterna como a rosa morta pela chuva

a poesia reine

e viva sobre a terra

 

2. 2 O tema da viagem

 

POEMA

Diante de tua beleza as coisas se apagaram.

És o golfo onde escondi meu barco doente

e a cripta onde deporei meus mortos.

Ave e orvalho, mulher e cornamusa.

Somos irmãos no mito

e eis que te refaço

com a seiva de meu ser.

De ti recolho este secreto espanto,

este secreto mel,

Em ti refaço a viagem não feita, o riso não rido e o amor não amado.

És a beleza mesma adiada no tempo

E nos outros a necessidade de sua perfeição.

 

A AVENTURA

Eu te encontrei

como quem atravessa um corredor logo e janelas fechadas,

como quem vem para a manhã trazendo o sono enfermo das madrugadas.

Eu te encontrei

como quem saiu da noite e foi descalço até o mar para brincar nas pedras.

Como quem sob a chuva saiu para apanhar as açucenas,

e dormiu nas grandes folhas úmidas das árvores,

ou como quem, perdido nos caminhos, de súbito encontrou o mar.

 

03. O tema da rosa

 

FRAGMENTO

Na rosa de ontem

Vi o mistério do corpo

Fechado aos segredos da morte.

No efêmero eterno

Um dia concebido

Vibrante e inconstante

O segredo d estar em véspera de sono.

A delícia do amor

Jamais celebrada,

As mãos que se entregaram

As lembranças que vêm de longe

Frias como a noite.

O desejo que cresce mudo sem palavras.

As chaves do mundo

Para sempre perdidas.

 

 

04. A influência de Rilke

Wer jetzt weint irgendwo in der Welt,

ohne Grund weint in der Welt,

weint über mich.

 

Wer jetzt lacht irgendwo in der Nacht,

ohne Grund lacht in der Nacht,

lacht mich aus.

 

Wer jetzt geht irgendwo in der Welt,

ohne Grund geht in der Welt,

geht zu mir.

 

Wer jetzt stirbt irgendwo in der Welt,

ohne Grund stirbt in der Welt,

sieht mich an.

 

(Das Buch der Bilder)

Quem agora chora em algum lugar no mundo

Sem razão chora no mundo,

Chora por mim.

 

Quem agora ri em algum lugar na noite

Sem razão ri dentro da noite,

Ri-se de mim.

 

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,

Sem razão caminha no mundo,

Vem a mim.

 

Quem agora morre em algum lugar no mundo,

Sem razão morre no mundo,

Olha para mim

 

(O Livro das Imagens) Trad.: Paulo Plínio Abreu

 

 

05. A linguagem como uma advertência, um “sinal”.

 

DIFÍCIL É DIZER-TE O QUE AMAMOS

Difícil é dizer-te o que amamos

Nessa furtiva espera gasta pelo tempo.

Há longos anos batemos à tua porta

E o teu nome esquecemos.

O medo está nas mãos onde o frio espera

Sangra e não choramos, apenas esperamos

Por um sinal que tarda

E um dia virá talvez, hoje ou amanhã.

 

O significado desses versos acima compreende parte da a poética de Paulo Plínio Abreu, da qual considera a linguagem apenas sinais, mito ou sonho do que podemos dizer. No mínimo poderemos esperar pelo que tarda, porque até “o teu nome esquecemos”.. A influência de Rilke é grande, mas Paulo Plínio soube colocar-se diante dela. Por exemplo: as elegias. O tom elegíaco da poesia rilkeana fascinou Paulo Plínio Abreu. O “belo sinistro”, como disse Lya Luft, deixou uma influência duradoura na literatura brasileira. Ainda não se pôde avaliar o alcance dessa influência. Mas, todos os poetas, da década de 40 e 50 no Brasil, beberam nesta fonte como Vinícius de Moraes e Geir Campos, por exemplo. Rilke seria um “gnóstico” no século XX. Seus poemas não deixam de ser um procura pelo Anjo, o que não deixa de ser um “Deus”, principalmente em suas Elegias de Duino, de 1923.

A palavra “Anjo” é literalmente uma influência de Rilke, porém, “chuva”, “mito”, “lua”, “mar”, dentre outras, são palavras de uma poética eminentemente de Paulo Plínio Abreu que, como diz o poeta, “dissolvem” em poesia e não na luta com o anjo. Para Paulo Plínio Abreu a luta do poeta não é com o anjo, mas com o verbo, no seu mais conhecido poema.

 

ARTE POÉTICA

A luta do poeta não é

com o anjo

mas com o verbo,

que dissolve em poesia.

 

Na luta do poeta com o verbo, outros temas como “viagem”, “país” (no sentido de “pátria metafísica”) e “rosa” são temas também encontrados na poesia alemã (da longa tradição que passa pela poesia de Ângelus Silesius e a filosofia de Mestre Eckhart até chegar novamente em Rainer Maria Rilke, o poeta de língua alemã mais influente do século XX, que tem em seu romance “Os cadernos de Malte Laurids Brigge” uma condensação de sua poética. Para Rilke “tudo é indizível” [10] e a “suprema realidade está no poema”, portanto, “o poeta se dedica a expressão do invisível através do visível” [11] . Daí o misticismo e o tom anímico de sua poesia inevitavelmente elegíaca.

Concluímos que a forma poética preferida de Paulo Plínio Abreu fora, portanto, a elegia, a composição poética que (inevitavelmente) retrata a perda do amor ou da pátria, no sentido aqui, mais metafísico, e refere-se ao luto e à tristeza. A elegia não deixou de favorecer uma certa “oratória” dos sentimentos a dissertar, em termos poéticos, sobre a vida humana, seus prazeres e males. Importa saber que a elegia, na Antiguidade, nem sempre falava de amor. A elegia para os antigos gregos tinha uma importante função em suportar os ciclos do destino e sua inexorabilidade, ou seja, o caráter implacável da sorte. A elegia, que era acompanhada de flauta, tornou-se, com o tempo, marca de solidão e espiritualidade. Tornou-se um caso lírico à parte: tornou-se marca de uma poesia do tormento espiritual em épocas de penúrias. A elegia seria, assim, a forma poética adequada para refletir poeticamente a morte. Destarte, Paulo Plínio Abreu soube conviver com esse “clima” favorável à elegia e conduziu essa mesma elegia para a poesia lírica, o que é uma característica sua: os seus pequenos poemas elegíacos.

 

 

BIBLIOGRAFIA

ABREU, Paulo Plínio Becker. Poesia. Prefácio, notícias e notas de Francisco Paulo Mendes, Belém: UFPA, 1978.

BAUMANN, Hans, BORATYNSKI, Antoni. Orfeu. Trad. Tatiana Belinky. São Paulo: Ática, 1990.

BERMUDES-CAÑETE, F. Rilke. Barcelona: Jucar, 1984.

BRANDÃO, Junito de Sousa. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

COELHO, Marinilce Oliveira. O Grupo dos novos (1946-1952): memórias literárias de Belém do Pará. Belém: EDUFPA/UNAMAZ, 2005.

DETIENNE, Marcel. A escrita de Orfeu. Trad. por: Mário da gama Kury. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

JOUVE, Vincent. A Leitura. Trad. Brigitte Hervor. São Paulo: UNESP, 2002.

O Olhar de Orfeu: mitos literários do ocidente. Org. Bernadette Bricout. Trad. Leila Oliveira Benoit. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

NUNES, Benedito. Comunicação pessoal, Feira Pan-Amazônica do Livro, Belém, PA, set/2005.

RILKE, Rainer Maria. Soneto a Orfeu; Elegias de Duíno. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes, 1989.

______. Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Trad.: Lya luft. São Paulo: Mandarim, 1996.

______. Rainer Maria Rilke. Gesammelte Werke. Geneva: Eurobuch, 1998.

SCHÖNBERGER, Rolf. Mestre Eckhart - Pensamento interiorização do Uno In.: KOBUSCH, Theo. Filósofos da Idade Média, Uma Introdução. São Leopoldo: UNISINOS, 1999.



[1] Doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp, professor da UFPA. E-mail: bencruz@ufpa.br

[2] Trata-se da primeira gralha no livro publicado pela editora da UFPA: a primeira capa traz o ano de 1978 enquanto que a folha de rosto indica o ano de 1977, fato que confunde o leitor. Segundo informações do professor Benedito Nunes, em uma comunicação pessoal (Feira Pan-Amazônica do Livro, em 2005), o livro fora publicado em 1978.

[3] BERMUDES-CAÑETE, F. Rilke. P. 44.

[4] Idem.

[5] Segundo o professor Francisco Paulo Mendes em “Notícias, notas e variantes”, p. 181 do livro Paulo Plínio Abreu. Poesia. UFPA, 1978.

[6] Vale aqui lembrar mais uma gralha no livro. A palavra “auseinanderfällt” aparece grafada como “auseinderfällt”. Está faltando um “an”, ali no meio da palavra, uma sílaba inteira. Possivelmente quem datilografou o livro de Paulo Plínio Abreu não tinha habilidade com a língua alemã (naquela época, 1978, não havia computadores na gráfica da UFPA).

[7] As famosas elegias de Rilke, as Elegias de Duino, foram, talvez, traduzidas pela primeira vez no Brasil, por Paulo Plínio Abreu. “Denn das Schöne ist nichts als des Schrecklichen Anfang”, da Primeira Elegia “Pois o belo não é senão o início do terrível”

[8]   Hans BAUMANN Orfeu. 1990, p 09.

[9] Marcel DETIENNE. A escrita de Orfeu. 1991, p. 87 Orfeu teria uma “virtude centrípta, que reúne em torno da voz os seres vivos animados ou inanimados da terra, do céu e do mar (...) reúnem-se árvores, pedras, pássaros e peixes.”

[10] RILKE, Rainer Maria. Os cadernos de Malte Laurids Brigge, p. 45.

[11] BERMUDES-CAÑETE, F. Rilke, p. 14.