ALGUMAS  IMPRESSÕES SOBRE O TEMA:

“MACUNAÍMA E AS TEORIAS DA HISTÓRIA”

 

Lucianne Chociay

 

 

 

Para fazer esta memória a primeira coisa que procurei foi saber o que era uma memória e encontrei num livro esta definição:  “é a relação escrita de fatos ou acontecimentos passados, dos quais o autor foi protagonista.”  E creio que possuo maior liberdade em expor as minhas descobertas e curiosidades que surgiram durante estes dois meses de curso.

Confesso que nas primeiras aulas quando você falou que Macunaíma era um plágio - se é que isso se pode dizer - de uma série de lendas, inclusive de uma registrada por Koch Grümberg, eu fiquei muito ressabiada:  “será que ele está falando de Mário de Andrade, o nosso grande modernista”? Com o andamento das aulas percebi que isto era verdade, no entanto, não desmerece a obra.  Mário de Andrade quer dar ao povo brasileiro, através das crenças e mitos que aqui povoam, a autoria do livro.  Ele quer tanto uma obra quanto uma cultura realmente brasileiros.

Começo expondo agora as minhas impressões sobre o assunto, falando do Romantismo que é onde tudo começa.

O Romantismo foi uma revolução num amplo sentido.  É nele que a concepção de mundo e as atitudes que se tomam diante dele passam a ser distintas das que marcaram os séculos anteriores.  O final do século XVIII é marcado pela dissolução de várias aristocracias governantes, através de revoluções, que mudaram os valores na literatura que até então então eram exprimidos na tragédia e em outros gêneros clássicos.  Isto teve grande influência da Revolução Industrial, principalmente na Inglaterra e Alemanha, países onde o romantismo começa dominar o cenário cultural.

O Romantismo traz para a literatura a noção do progresso indefinido na humanidade e da relatividade, e da evolução da civilizações.  Idéias estas retomadas por Mário de Andrade em Macunaíma, principalmente com as leituras de Herder e Spengler.

Há o desenvolvimento da nacionalidade, eleva-se o gosto pelas tradições locais, pela poesia popular, pela história e pela literatura da Idade Média.  A palavra romântico vem das semelhanças com os romances da Idade Média.  O Romantismo quer o retorno ao passado, onde a era medieval tem a seu favor o ambiente misterioso e transcendental que a caracteriza, o da identificação com as origens da nacionalidade.  No Brasil, a exaltação do índio por José de Alencar – O  Guarani.

Vemos no subjetivismo uma não preocupação com os modelos a seguir, há uma total liberdade para escrever, o que também ocorre no Modernismo, uma liberdade estética;  no reformismo uma proposta de reformar o mundo como nos poemas de Castro Alves ligados a uma problemática abolicionista, uma preocupação com o social, com o povo;  no sonho pela aspiração por um mundo melhor, representado por símbolos e mitos, como em Macunaíma com as lendas de nosso folclore;  na natureza como elemento de ligação ao homem.

No Romantismo há uma mistura de gêneros literários.  Ele quer se libertar das normas clássicas, mesclando os gêneros, criando novos e assim desaparecendo o espírito sistemático e absolutista que dominava as artes, devido às mudanças ocorridas no período.  Pela primeira vez a literatura deixa a elite para a chegar ao povo, sendo isto o que Mário de Andrade mais quis que acontecesse com Macunaíma e com a cultura brasileira.

Formas conceituadas como a ode, a canção, a elegia, perderam o seu significado antigo, dando lugar à formas novas como a poesia lírica e o poema, com a ressalva de que não se teve uma ampla libertação como chegaram os modernos, mas existe uma diferença:  já não se prende as normas e preceitos rígidos.

O Romantismo é tão importante para a nossa literatura que ressaltaremos agora alguns aspectos peculiares ao nosso ambiente:  traduziu-se numa forma peculiar de indianismo, o sentimento nativista brasileiro fez do índio e sua civilização  um símbolo de independência espiritual, política, social e literária.  A inspiração em elementos nacionais aconteceu num Brasil recém-independente, em plena fase de afirmação de sua personalidade como nação.  O caráter original de criatividade está na compreensão da literatura popular, daí o interesse pelos mitos e civilização indígena e a expansão de estudos sobre o nosso folclore – tão valorizados no Modernismo.  Consolidou-se a poesia em nossa terra, libertando-se das normas clássicas dos escritores portugueses e com a preocupação com uma língua nacional, que Mário de Andrade tanto quis com suas obras.  Foi com o Romantismo que o Brasil ganhou literatura própria.

Tive essa impressão da importância da influência do Romantismo na formação da cultura brasileira, pois é neste período que primeiro se fala em uma língua nacional, nas nossas lendas, no nosso folclore, incentivando o Brasil a pensar em suas raízes.  Estas idéias são retomadas no Modernismo, são valorizadas com uma outra significação influenciado principalmente pelo grau de evolução, e também evolução industrial, conquistado pelo país.

Daremos um salto do Romantismo até o Modernismo e não me atenho a falar do Realismo e outros movimentos que antecederam ao movimento moderno para não me distanciar do tema central que é vincular Macunaíma à teorias históricas.

No período compreendido entre o final do século XIX e início do século XX aconteceram profundas transformações na sociedade brasileira.  Estamos na transição dos ciclos do açúcar e do café, e este agora cresce e quer a abolição dos escravos que estavam nos engenhos de açúcar.  Depois de muito tentarem, e já dando início à imigração, a abolição é decretada em 1889, e o café ganha força na economia brasileira, com grandes cafeicultores como Paulo Prado, e já representa 90% da produção mundial.  A literatura começa a se desenvolver embasada pela oligarquia cafeeira.  Com dinheiro o país se desenvolve e com os imigrantes ele se industrializa, formando uma nova, e em ascensão, burguesia urbana industrial.  Macunaíma é escrito nesta época e é sentido no livro as influências da situação econômica e cultural do Brasil, como o conflito entre Macunaíma e Wenceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã.  Macunaíma representa o povo brasileiro lutando para sobreviver e o gigante Piaimã é o estrangeiro que quer abocanhar o Brasil.  Na vida real, a burguesia industrial ganhará a disputa com a queda da bolsa de Nova York que faz despencar o preço do café e assim, a oligarquia cafeicultora perde o poder econômico.  Em Macunaíma, o gigante Piaimã morre afogado numa macarronada e não vai para o campo vasto do céu, onde reside a tradição brasileira. 

Situa-se a Semana de Arte Moderna no meio da disputa café/indústria.  A indústria é a máquina, o progresso, é o avanço tecnológico.  As mudanças são rápidas e a velocidade comanda a sociedade e gera uma ânsia pela novidade, o novo é sempre melhor.  A sociedade nova necessita uma literatura nova, como nos diz Oswald de Andrade “Estamos atrasados de 50 anos em cultura, chafurdados em pleno parnasianismo ”ou Graça Aranha “A nossa literatura está morrendo de academicismo.  Não se renova.  São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos da Fundação da Academia ”.

O Brasil recebe influências do futurismo, do cubismo, do dadaísmo, do surrealismo, do impressionismo, que na semana de 22 se traduz em renegar o passado, o hieratismo parnasiano, a linguagem clássica, o academicismo, o tradicionalismo.  O Modernismo quer criar uma consciência criadora nacional.  Mário de Andrade prega a liberdade da pesquisa estética, a renovação da poesia, e principalmente, como é visto em Macunaíma, a criação de uma língua nacional.

 

Macunaíma é um personagem que representa o povo brasileiro e todas as suas peculiaridades, boas ou más.  O “herói de nossa gente”- herói pois nasce de mãe virgem.  O herói passa por uma série de intempéries no decorrer do livro que representam as dificuldades e os sofrimentos que o povo brasileiro enfrenta na vida.  E como brasileiro sempre o herói sempre dá um “jeitinho” e consegue escapar de suas safadezas.  Macunaíma é um retrato do Brasil.  Assim como José de Alencar em seus romances, Mário de Andrade quer mapear o Brasil e se utiliza do folclore como ferramenta para mostrar as raízes brasileiras, os seus costumes e suas crenças.  A influência do meio (natureza) sobre o herói é imprescindível na narrativa, e vem das teorias de Herder e Spengler.

Herder aproxima o homem de Deus.  Essa aproximação seria causa única da existência dos homens na Terra.  Nasceríamos com essa finalidade que era reencontrar o nosso criador.  A natureza é a vontade de Deus.  A natureza é que molda o homem, portanto em cada ambiente surgirá uma cultura diferente, e no Brasil surgirá Macunaíma.

 

História do homem    :    Geografia  +  Raça  +  Cultura

 

Em cada lugar surgem culturas diferentes pois existem os mais variados meios que moldam cada um uma raça com características próprias.  A geografia do Brasil molda Macunaíma (e todo brasileiro) dando as particularidades de nossa raça e da  nossa cultura.  Cada brasileiro tem um pouco de Macunaíma.  Uma das maneiras aonde percebo isto é quando Macunaíma vai delineando as nossas crendices e ditados populares.  E Macunaíma simboliza o povo brasileiro, e consequentemente este é autor dos seus provérbios.

E como acaba o povo brasileiro?  É aí que entram as teorias de Spengler.

Para Spengler não existem histórias universais, existem histórias nacionais, e dentre estas somente algumas se tornam civilizações.

Uma sociedade é inicialmente rural.  A cultura se desenvolve com a técnica e atinge sua maturidade desenvolvendo uma civilização.  O surgimento da indústria, da máquina, levaria esta civilização a decadência  e por fim à morte.  A inteligência leva à decadência.  E a grande pergunta de Macunaíma é essa:  O Brasil chegará a ser uma civilização?

Macunaíma sempre se vira nas suas safadezas e no final se “enche da vida”:  “Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. (...) Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver (...) Quando urubu está de caipora o debaixo caga no de cima, este mundo não tem jeito mais e eu vou pro céu”. 

Antes disso Macunaíma perde definitivamente a Muiraquitã que é engolida por um jacaré gigante chamado Ururau, que mostra que não sabemos o que acontecerá com a nossa cultura, não sabemos se um dia chegaremos a nos tornar uma civilização.  A narrativa acaba com a extinção de todos os Tapanhumas e será que isso irá acontecer com o brasileiro?

“O brasileiro não possui caráter porque não possui nem civilização própria” (a cultura é comida pelo monstro Ururau)” nem consciência tradicional ”(Macunaíma vai para o campo vasto do céu e a tribo Tapanhumas é extinta e só fica o papagaio para contar a história do herói de nossa gente para Mário de Andrade).  O herói hesita e Mário de Andrade sabe disso e também não sabe o que acontecerá com o Brasil e nem quer julgar.  O futuro da nação fica em aberto.

Macunaíma é escrito numa época em que a oligarquia cafeeira está perdendo o lugar para a burguesia industrial, para a máquina, para o novo, para o progresso, para o futuro incerto.   É nesta época que se instaura a revolução industrial no Brasil.  Estas transformações na economia e na sociedade são percebidas no livro.  Wenceslau Pietro Pietra rouba a muiraquitã de Macunaíma e então tem início o conflito:  a perda para a civilização da máquina.  No fim da narrativa, Macunaíma perde de novo a muiraquitã que “é engolida  pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem com pau ”.  Entendo isso como um não saber o que acontecerá com a cultura brasileira.  Se a nossa cultura é engolida por um jacaré gigante que não morre, significa que a cultura sobreviverá, mas não sabemos se um dia nos tornaremos uma civilização, como no esquema de Spengler.

Macunaíma revela a preocupação de Mário de Andrade em valorizar uma cultura nacional, do nosso povo e para ele, na obra ele quer que nós também valorizemos o Brasil e que não deixemos a nossa cultura ser massacrada por outra e, assim, chegaríamos a condição de civilização.  Mário de Andrade busca inspiração no Romantismo, nas teorias de Herder e de Spengler, na sua consciência de Brasil para integrar o herói de nossa gente, o brasileiro.

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

 

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