VIDAS DE ROMANCE

Maria de Lourdes Eleutério
Doutora em Sociologia pela USP

Tão logo Amélia abriu o livro, foi chamada para o salão em que aguardavam amigos da família para ouvi-la declamar poesias. Elas as sabia, tantas e tantas, dos poetas mais consagrados e bem próximos, entre eles seus irmãos e o noivo. Entretanto, habitava em sua mente o desejo de escrevê-las também. Aplaudida e acarinhada com elogios pela dicção perfeita, interpretação exímia, Amélia sorria, e suas faces eram vincadas pela tristeza de não estar fazendo o que verdadeiramente queria: compor poemas. Mas ela os fazia. Secretamente, depois, tomada de inaudita coragem, apoiada por amigas, publicou alguns. A família não gostou, o noivo não gostou. Só as amigas continuaram a incentivar. Venceram os primeiros...

Uma outra Amélia dividia cada página lida com os cuidados dados à sua pequena filha que circulava em torno dela. Entre afagos e o correr dos olhos pelas palavras impressas, o mesmo empenho e afeição daquela que lera Paulo e Virgínia aos oito anos e se mantivera, desde então, fiel à leitura e também ao fazer literário. Seu marido a considerava "companheira admirável também no sentido literário."

Adelaide fez o mesmo gesto da primeira Amélia, qual seja, o de ler apressadamente e até fechar o volume que a interessava, para atender aos reclamos do irmão que a chamava para tocar piano, numa espécie de trilha sonora enquanto ele compunha versos. Ela os fazia também e só os publicou quando já contava mais de setenta anos. Autocensura compreensível para quem foi o alento de um grande versejador que, à beira da morte, queria uma vez mais ouvi-la ao piano:

"Ai toca ! Enche de sons o derradeiro dia

Daquele que só tem por sonho – uma harmonia

Por única riqueza...a ti...e ao teu piano! "

Evangelina mal podia passar os dedos ágeis pela biblioteca reunida pelo irmão e já era solicitada para acudir o pai louco, as exigências da casa ou, ainda, pelo implacável relógio que indicava ser hora de mais uma aula a lecionar no tosco piano que garantia algum dinheiro para o apertado orçamento doméstico. Ler, para ela, dava sentido a um mundo rígido, sem passeios e fantasias, imposto pelo irmão que não a queria "falada". Sua vida, só de responsabilidades, era abrandada por pequenos momentos em que o gesto de abrir um livro significava abrir perspectivas de conhecimento, sentimentos, idealizações, como por exemplo a de ser escritora, como o irmão.

Afinal, pouco antes de a loucura ter-lhe acometido o pai, Evangelina tivera um conto premiado em um concurso de revista !

Ernestina rezava muito pelo irmão de vida desregrada. Ele vivia alcoolizado e andarilhava sem destino. Ela rezava e copiava os lindos poemas que ele produzia. Um exercício muito conveniente, naqueles tempos de enorme domínio da Igreja Católica, era aprender orações e vidas exemplares de santos através da leitura sistemática de missais e hagiografias, que possibilitaram à devotada irmã não só o apaziguamento de sua preocupação com o irmão querido, mas a composição de versos religiosos que seriam publicados depois do triste fim do doidivanas.

Ernestina pretendia com a edição auferir algum dinheiro para a viúva e filhas desamparadas do irmão. Além disso, fora ela também que providenciara e arquivara cópias dos versos feitos por Luís, precaução decisiva para a publicação da obra de alguns dos nossos poetas. Adelaide e Evangelina, por exemplo, também o fizeram, metodicamente.

Elas passariam horas, absortas, lendo e escrevendo também. Tão instigante quanto ler, era escrever. Esse desvendamento parecia uma infinidade de múltiplas significações que o ato de ler lhes proporcionava e que talvez pudesse ser definido como uma extrapolação, um ir além de tudo o que essas mulheres vivenciavam. Ler era de fato um antídoto para o confinamento que a época lhes impunha.

Francisca lia versos, muitos versos, gostava dos românticos, dando preferência a Goethe e Heine, os quais traduzia, possivelmente do francês, e os publicava. Ela não copiava os versos do irmão. Na verdade, mesmo tendo publicado alguns livros, ele não era um bom poeta. Mas era jornalista e ajudou Francisca a lançar seus próprios poemas pela imprensa. Depois escreveram juntos um volume para crianças.

Traduzir como fazia Francisca era um expediente muito usado e consentido. Uma atividade que ficava na penumbra, que nunca se divulgava, podia-se fazer no mais recôndito do lar. Muitas dessas aspirantes das letras fizeram isso.

Se Francisca se exercitava na criação poética lendo românticos alemães, Ibrantina se inspirava lendo Gabriela Mistral para escrever uma dezena de livros. Exímia pianista, coisa louvável para a época, casou-se muito jovem com um poeta com o qual trocava cartas feitas em versos, naturalmente...

Mas essa admiradora de Mistral era ávida pelas letras, consumindo suas horas na leitura de livros, revistas e jornais. Foi assim que o cotidiano se revelou incompatível e o casal de poetas acabou se separando mesmo vivendo sob o mesmo teto, cada um em seu canto, lendo.

Albertina também, segundo suas próprias observações, passava horas absorta, lendo. Teve melhor sorte que Ibrantina. Tanto seu pai quanto o marido sempre a incentivaram. Ela nos conta como seu pai a animava:

"Foi em francês que escrevi meus primeiros contos. Papai leu-os e me disse "Você tem intuição literária."

O pai indicava-lhe leituras e também vetava algumas, segundo ele devido à pouca idade da filha. Foi o caso de Carlyle, autor que parece ter deixado forte impressão em Albertina, a qual, ao escrever um romance, que aliás teve várias edições, faz a protagonista idealizar o ser amado, pensando na "pena violenta de Carlyle". Outro escritor citado algumas vezes por essas autoras e suas personagens é Ibsen. Afinal, é um autor que tinha grande significado não só em sua terra mas também nos trópicos longínquos. Uma de suas protagonistas, ao abandonar casa, marido e filhos, torna-se exemplar aos olhos de muitas mulheres. Nos romances de Albertina fala-se de Ibsen, fonte também de inspiração para a revolta de certa personagem desiludida do casamento em livro de título apropriado: Divórcio.

"Casamo-nos. Por amor ? - Qual ! (...) Eu era um (...) objeto que te ornamentava a casa (...) Era mais ou menos a Nora da Casa de Bonecas (...). Enquanto te demoravas até às 3 e 4 da madrugada, (...) cheguei a ler Ibsen; vê que progresso!"

Andradina, a autora da obra, ficara viúva muito jovem, com dois filhos para criar. Mesmo tendo que prover o lar, não se submetia. Escreveu vários livros sobre o jugo da mulher e criou o jornal O Escrínio, onde articulava vozes não só femininas, mas de incentivo à mulher, não se restringindo à questão do divórcio.

Falava da importância do trabalho e da independência, assim como exaltava a maternidade e o companheirismo do casal. Era, sim, contra a hipocrisia de manter um casamento de conveniência. E recorria sempre a escritoras famosas. Mulheres letradas ilustres eram sempre tomadas como heroínas nos mais diferentes jornais femininos. Ler autoras como George Sand ou George Eliot, por exemplo, dava grande alento e inspiração, não só pela qualidade das obras, mas em especial pelo percurso de suas vidas.

A filha de Andradina seguiu os passos da mãe e publicou muitos livros nos quais sempre homenageava àquela com a qual aprendera o exercício inesgotável de desvendar o mundo através da leitura e da escrita.

"Resolvi abraçar a carreira literária por necessidade", eis uma frase que poderia ser de Andradina. Entretanto, foi dita por quem a inspirou a envolver-se com o mundo das letras. Havia, no Brasil mesmo, alguém que aparecia como um exemplo de coragem a seguir. Emília, como Andradina, ficara viúva, com filhos para criar. Ela escrevia para um dos mais prestigiados jornais do Brasil naquele período, O País. Sua coluna saía todos os domingos e apesar de ganhar bem, com então se dizia, Emília escrevia para outros jornais, publicava contos, tinha peças encenadas e, inevitavelmente, pouco tempo para a leitura. Como que para desculpar-se, ela nos revela o que está sobre sua mesa de trabalho: Ondas, de Luís Murat, O cinematógrafo, enviado por seu autor, João do Rio, e ainda, o último número de O Escrínio. Lamentando-se, fala das dificuldades em viver da literatura, mas lembra em seguida que talvez isso possa mudar com a recente concessão do prêmio Nobel à escritora sueca Selma Lagerlof. Pela primeira vez uma mulher ! E o lamento se dissipa em satisfação.

O convívio diário com o mundo das letras seduziu desde criança a filha da escritora e, fascinada, Cecília seguiu os passos da mãe. Sob o pseudônimo de Chrysanthème, influência do romance homônimo do escritor francês Pierre Loti, grande sucesso da época, ela publicou uma dezena de títulos: romances, contos ou artigos que desenham, de modo jocoso e ferino, a mulher aturdida com os novos tempos. A literatura aparece como possibilidade de aguçar-lhe a inteligência em textos marcados pela ânsia de desvendar essa mulher.

Talvez, Chrysanthème almejasse, além da satisfação de escrever e sanar problemas financeiros, tornar-se, através de seus textos, uma voz que repercutisse as perplexidades daquele momento. Ela dialoga consigo mesma ao criar uma personagem que lhe diz:

"Às vezes, você é demasiado agressiva para com as mulheres, embora reine sempre nos seus escritos muita piedade pelas criaturas desse sexo ainda incompreendido, estranho e complexo como o nosso."

A mulher ganha, com Chrysanthème, uma conselheira polêmica que, ao reivindicar um novo espaço para as mulheres, simultaneamente lhes recusava as frivolidades. Isso vendia muito...

O acesso ao exercício de ler, escrever e publicar, já não era tão difícil. Os temas, tanto na vida quanto na obra, já não eram os irmãos, maridos, ou filhos, até mesmo os amados perdem espaço. Os conflitos da mulher, os de sempre e os que emergem de um novo tempo, são escritos e lidos por elas. A leitura, tantas vezes interrompida e sempre desejada, responde a anseios e propõe encontros que articulam sentidos para muito além das letras impressas.

SÚMULA DAS AUTORAS CITADAS
  •  Amélia de Oliveira, carioca nascida em 1868, irmã do poeta Alberto de Oliveira, foi noiva de Olavo Bilac. Seus poemas foram publicados após a sua morte em um volume sob o título de Póstuma, poesias, sob organização de Elmo Elton, Rio de Janeiro, Mauá, s/d.

  • A segunda Amélia é Amélia de Freitas Bevilacqua, nascida no Piauí em 1860, esposa do jurista Clóvis Bevilacqua. Escreveu uma dezena de livros, entre eles, Angústia, 1913. Impressões, 1929, Jeannette, 1933. A citação pode ser encontrada em Macário Lemos Picanço, Clóvis Bevilacqua: sua vida e sua obra, Rio de Janeiro, Educadora, 1935.

  • Adelaide Castro Alves Guimarães, nasceu na Bahia em 1854, irmã do poeta Antonio Castro Alves. tendo se casado com um de seus melhores amigos, o jornalista e abolicionista Augusto Álvares Guimarães. Ambos foram os organizadores da edição das obras de Castro Alves. Adelaide publicou aos 79 anos de sua autoria os versos O imortal, versos de outrora, Rio de Janeiro, Marisa, 1933. Os versos de Castro Alves foram intitulados À minha irmã, in Obras Completas de Castro Alves, 2 vols. Rio de Janeiro, Nacional. 1938, p.452.

  • Evangelina de Lima Barreto, carioca nascida em 1882, é irmã de Afonso Henriques de Lima Barreto. Publicou um único conto com o qual obteve 2º lugar no concurso da revista A Universal, 10.06.1902, ano II, nº 42.

  • Maria Ernestina Fagundes Varela, carioca, irmão do poeta Luís Nicolau Fagundes Varela, faz publicar postumamente alguns poemas do irmão junto de alguns seus, sob o título de Cantos religiosos, Rio de Janeiro, Laemmert, 1878.

  • Francisca Júlia da Silva Munster, paulista nascida em 1871, publicou dois importantes livros de poemas: Mármores, São Paulo, Horácio Belfort Sabino, 1895 e Esfinges, 2ª ed. Monteiro Lobato, 1920. Com o irmão, que escreveu vários livros, publicou Alma infantil, São Paulo, Magalhães, 1912

  • Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona, nascida em Friburgo aos 11 de novembro de 1868, publicou Plectros, São Paulo, Steidel, 1897, Heptacórdio, São Paulo, Sociedade Editora Olegário Ribeiro, 1922, entre outros.

  • Albertina Berta de Lafayette Stockler, carioca, nascida em 1880, filha do jurista e conselheiro do Império, Lafayette Rodrigues Pereira. Escreveu entre outros, os romances: Exaltação e Voleta. A citação encontra-se em Francisco de Assis Barbosa, Retratos de família, 2ª Ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1968, p.96.

  • Andradina de Oliveira Andrade, gaúcha nascida em 1859, foi professora e proprietária do jornal O escrínio, tendo publicado, entre outros, além de Divórcio, Porto Alegre, Livraria Universal, 1912, o romance O Perdão, Porto Alegre, Livraria Americana, 1910 e o volume de contos Preludiando, Rio Grande, Trocadero, 1897. Sua filha, Lola de Oliveira, nascida em ano incerto, realizou uma série de volumes de poesias com nomes de pedras preciosas. Ametistas, Rubis, Safiras, além de relatos de viagem, textos regionalistas e ainda duas obras em louvor da mãe: Travessuras de Andradina, Rio de Janeiro, 1949, Minha mãe, Rio de Janeiro, Laemmert, 1958

  • Emília Moncorvo de Mello, entre os pseudônimos da autora está o de Carmem Dolores com o qual assinava suas colunas no jornal O País. Nascida em 1852, possivelmente no Rio de Janeiro. Escreveu: Um drama na roça, Rio de Janeiro, Laemmert, 1907, A luta, Rio de Janeiro, Garnier, 1911, entre outros.

  • Cecília Bandeira de Mello Rebelo de Vasconcelos, nascida no Rio de janeiro em 1870, escreveu mais de vinte livros. Colaborou nos jornais O País, Diários de notícias, nas revistas: O mundo literário, Ilustração brasileira, entre outros títulos.