MOTE

Empunhou cupido as setas,
Dirigiu-as a meu peito,
Obrigou-me a ser amante,
Amei, ficou satisfeito.

GLOSA

I
Nenhum outro mais que eu
Zombou sempre por capricho
Desse formidável bicho,
Ou gigante pigmeu.
Do ardente poder seu
escarneci às secretas;
Mas depois bispando as netas
Do mui famoso Plutarco,
Vibrando mais forte o arco
Empunhou Cupido as setas.

II
Inda assim fugi ao queima,
Pois na verdade não quero,
Como Leandro por Hero,
Fazer outra tal toleima,
Persisti na minha teima
Com manha, cômodo e jeito;
O que vendo o tal sujeito,
Despreza as setas rombudas,
Põe no arco as mais agudas,
Dirigiu-as a meu peito.

X
Qual outro amante mingote
Ardendo de amor na calma
Quase dei ai demo a alma
Na ponta do meu fagote.
Pôs-me logo andar de trote
Sem sossegar um instante;
E com furor incessante
Em tão terrível cuidado,
Depois de trazer-me a nado,
Obrigou-me a ser amante.

XIV
Nisto tanto se interessa,
E me faz tamanho fogo,
Que fiquei amante logo
Desde os pés té a cabeça.
Sucedeu com tanta pressa
Esta caso com efeito,
Que sem mover-se mais pleito
Que o dizer dos Rabolistas,
Me pôs no Rol dos fadistas,
Amei, ficou satisfeito.

 

 

 

Vista do Catete no Rio de Janeiro. Aquarela e lápis de Ender.

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