A partir dos anos 60, sob a influência de
Nietzsche e Heidegger, mais especificamente do primeiro, para
quem "não se pode lidar com o profundo caos da vida
moderna com pensamento racional" a crítica filosófica
voltou-se contra a própria razão. No entender de
Rouanet (1998, pág. 242)
tais críticas buscam
resgatar a razão que não é
denunciada como tal, mas na medida em que perde sua função
subversiva transformando-se em álibi do poder, agente da
heteronomia, adversária do prazer ou instrumento de
repressão".
Conforme Eagleton (1993, pág. 270)
a herança do pensamento de Niestzche marcou o
início de uma contradição embaraçosa entre as bases da sociedade
capitalista e sua "superestrutura". Para o capitalismo tardio tornaram-se
cada vez mais inadequadas as formas de subjetividade que a cultura burguesa
oferecia; entretanto não foi possível deixá-las totalmente de lado. A
noção de um sujeito singular, autônomo, continuou ainda a
se constituir uma necessidade ideológica do sistema porque a
mercadoria e o lucro não geraram por si mesmos mecanismos suficientes
de legitimação. Entretanto o próprio sistema, em seus movimentos apresenta
uma subjetividade descentralizada e difusa, mesmo que enquanto
categoria ética, jurídica e política, o sujeito como agente auto-diretivo continua insistentemente
a persistir.
As manifestações culturais e
estéticas que, no alvorecer do "Modernismo",
representavam uma reação e uma tentativa de buscar
o permanente e o universal contidos no caos e no fragmentário,
característicos do advento da modernidade, como que se
propuseram a adotar e a acolher, de maneira afirmativa, a
fragmentação, a efemeridade, a descontinuidade
contra a totalização e a teleologia das grandes narrativas,
assim também como a visualizar
o particular contra o geral, o corpo contra a razão.
Em seu conjunto, as reflexões sobre tais mudanças
trazem consigo proposições sobre
um saber novo caracterizado, principalmente,
pela constatação do esfacelamento da noção de sujeito
e da filosofia antropocêntrica em geral -
daí sua enorme acolhida por parte
das minorias: mulheres, homossexuais e etnias minoritárias.
Pensadores denominados pós-estruturalistas,
como Foucault, Derrida e Barthes, preocupados em problematizar a
modernidade e a razão, são representativos desta
modalidade de crítica cultural que pode ser entendida como
"rejeição dos dualismos e oposições binárias,
por sua ênfase no texto e no discurso
como elementos constitutivos da realidade e pela
negação de uma concepção representacional
da realidade" (Silva,
1996, pág. 138).
Conforme o mesmo Silva
(1996, pág. 254-255), o sujeito moderno, racional,
centrado e unitário, na avaliação pós-estruturalista e pós-moderna
é uma construção muito particular do projeto iluminista que o
pressupunha como capaz de opções racionais conscientes e autônomas
em relação à sociedade, desde que devidamente educado. Isso o tornava
peça fundamental na organização econômica e social dos estados
modernos. Para o autor, a construção desta idéia de sujeito, universal e atemporal,
só se tornou possível graças aos aparatos discursivos e lingüísticos
que, historicamente, o manufaturaram, daí podermos entender a força
com que a crítica pós-estruturalista centrou seus argumentos na questão
da linguagem.
Para o estudo do
hipertexto algumas de suas formulações se
apresentam como interessante aspecto para reflexão no momento em que se atêm à
idéia de que a obra literária envolve um
"texto", com suas peculiaridades que pode, contudo,
ser comparado ou estar ligado a qualquer outro texto de qualquer
espécie. Para os autores pós-estruturalistas a vida cultural
se constitui em uma série de textos em intersecção
com outros textos. Mensagens ou
significados deixam de ter relação rígida com
significantes ou meios e passam a separar-se
e reunir-se constantemente em novas combinações.
É esta a idéia do "desconstrucionismo",
movimento iniciado por Derrida no final dos anos 60
(Harvey, 1996, pág. 53).
Derrida baseia o seu trabalho em uma crítica ao privilégio concedido à palavra oral,
através do que denomina "logocentrismo ou fonocentrismo" - associação da razão
ao som, em detrimento da escrita visualizada como secundária e artificial em relação
à expressão oral. Propõe a desconstrução - ou "deconstrução" conforme alguns autores -
do mito fonocêntrico da razão ocidental através da gramatologia, ciência da escrita
("ecriture", no sentido amplo) enquanto atividade primordial de diferenciação,
em contraposição ao homogêneo representado pela presença, pela voz, pela consciência
e pelo conceito em que estão embutidos a repressão e a colonização. Daí sua
preocupação incessante de busca do "texto". Para ele não existe fora-texto,
portanto todo texto é texto sobre um texto sob um texto, sem hierarquia estabelecida
(Bennington, 1996).
Foucault não coloca no texto o fulcro central de seus estudos, mas o concebe
como uma rede de referências a outros textos. Com o seu trabalho
busca, principalmente, destruir a razão incorporada na historiografia ocidental, cujas bases
estão na idéia de origem, continuidade e intencionalidade através de uma "anti-história"
da qual se exclui todas as referências a um projeto, a um sujeito e que se funda no
corte, na ruptura, no descontínuo. Para Foucault uma nova ciência, a arqueologia,
deve atuar escavando o subsolo onde atuam as formações discursivas manipuladas
pelo poder, para se construir uma história das descontinuidades, dos retrocessos,
dos ziguezagues, dos recomeços, das lutas intersticiais, dos vazios, dos não-acontecimentos.
Harvey, ao mencioná-lo, afirma:
"[Ele] nos instruiu, por exemplo, a desenvolver a
ação, o pensamento e os desejos através da
proliferação, da justaposição e da
disjunção" e a "preferir o que é
positivo e múltiplo, a diferença à
uniformidade, os fluxos às unidades, os arranjos móveis
aos sistemas. Acreditar que o que é produtivo não é
sedentário, mas nômade" (Harvey,
1996, pág. 49).
Para Eagleton (1993, pág. 279)
Foucault e Derrida representam hoje, no pensamento radical do ocidente
o que denomina "pessimismo libertário" - para ele um paradoxo instrutivo:
"libertário, porque alguma coisa do velho modelo da
expressão/repressão se prolonga no sonho de um significante inteiramente
flutuante, da produtividade textual infinita, e de uma existência abençoadamente
livre dos grilhões da verdade, do sentido e da socialidade. Pessimista,
porque o que quer que bloqueie esta criatividade - a lei, o
sentido, o poder, a clausura - é reconhecido como intrínseco ao seu
movimento, numa aceitação cética da imbricação de autoridade e desejo,
loucura e metafísica; e provém de um paradigma bem diferente do
modelo expressão/repressão."
Para outros autores como Jean François
Lyotard e Frederic Jameson, por exemplo, há em
nossos dias rupturas e mudanças que
caracterizam e constituem a Pós-modernidade, em que se
instauram: para o primeiro uma crise no conceito de racionalidade
inaugurado pela Filosofia das Luzes e para o segundo o capital
multinacional.
Nesta mesma linha se situa o pensamento de
Baudrillard para quem os signos já não têm nenhum referente real, eles se referem a outros
signos que, por sua vez, se referem ainda a outros num processo iterativo e não têm
nunca em algum extremo a realidade. É o reino da hiperrealidade - a aparência é a realidade
(Silva, 1996, pág. 144).
Lyotard, preocupado com as
grandes possibilidades de informação e comunicação
patrocinadas pelas novas tecnologias, que considera uma
importante fonte de produção, procura analisar o
conhecimento à luz destas últimas, relacionando,
com elas, sua produção, disseminação
e uso (Harvey, 1996, pág. 53).
Para Lyotard o saber humano foi sempre envolvido
por narrativas que lhe deram sentido e legitimidade.
Tradicionalmente o saber popular, através de suas fábulas
edificantes ou pragmáticas e tornadas legítimas
pela autoridade do narrador, antigo ouvinte, encontrava em seu
próprio contexto cultural competência e
aplicabilidade.
Posteriormente, o saber (moderno - científico),
foi legitimado pelo discurso científico ou filosófico.
Este mesmo saber, com suas regras de linguagem, seus códigos
inacessíveis, tornou-se, cada vez mais, um componente
social, restrito a pequenos grupos, ao mesmo tempo em que
adquiriu carcterísticas cognitivas ou prescritivas, cuja
aplicabilidade se efetivou através do consenso dos
próprios cientistas.
Hoje, porém, na era
que os pós-modernos definem como pós-industrial,
o interesse da ciência se liga ao ganho e não ao
saber. Para Lyotard ciência e sociedade se constituem, em
nossa contemporaneidade, numa complexa rede de jogos de
linguagem, com seus próprios conteúdos e regras de
legitimação, sem possibilidade de entendimento. A
interpretação homogênea dos acontecimentos,
que, no início da era moderna, se dava através das
narrativas científicas ou filosóficas legitimadoras
do saber, perdeu sua validade.
A conquista de novos conhecimentos no interior
dos "jogos de linguagem" (narrativos) legitimadores
torna-se restrita aos que podem mais, aos que dispõem de
melhores condições financeiras, pois o saber está
diretamente subordinado ao lucro. Assim, embora seu avanço
assuma um caráter interdisciplinar, ele não visa
buscar-se a si mesmo, através da linguagem especulativa,
nem muito menos a emancipação da sociedade, quando
prescritivo. O saber, segundo Lyotard, está sempre em
busca da performance e do aumento de poder de seu usuário,
com novas argumentações, novas regras e jogos de
linguagem em que o consenso se torna inatingível
(Goergen,
1996, pág. 15, 21). Para Lyotard, o conhecimento, hoje, está
sempre se codificando e recodificando, das mais diferentes
maneiras em função da transformação
das condições técnicas e sociais da
comunicação.
Canevacci confirma o pensamento de Lyotard. Para ele há, realmente, em nossos dias, uma descrença
generalizada na inelutabilidade do progresso e um crescente desconforto em relação
à fixidez categórica do pensamento de tradição iluminista. Esta crise no conceito de racionalidade,
instaurado pela filosofia das luzes, vem, sem dúvida, operando transformações no mundo da representação
e do conhecimento. Ainda, segundo ele, as idéias nascem e se reproduzem diretamente das coisas,
das mercadorias produzidas pela tecnologia
(Canevacci, 1988, pág. 14, 34).
O mesmo Canevacci recorre a Berman, que recuperou em Marx e Engels a expressão
"tudo que é sólido se desmancha no ar" para caracterizar a experiência da modernidade,
que tal como em suas origens, impregna o nosso viver de cada dia. A descrição de
Berman nos parece apropriada para nos auxiliar a compreender melhor os fenômenos
de mundialização e globalização, sem sobra de dúvida marcas das mudanças de
nosso tempo.
É importante verificar que os termos
globalização e mundialização vem
sendo empregados indistintamente por vários autores,
entretanto vale dizer que há uma distinção,
embora sensível, entre os dois. Por globalização
entendemos a possibilidade dada pela técnica de sobrepor
tempo e espaço e por mundialização a
dispersão mundial das mercadorias.
Embora esta tenha adquirido
fôlego e se consolidado com o expansionismo europeu dos
fins do século XIX, ambos os fenômenos se tornaram mais amplamente
visíveis nas duas últimas décadas com a
universalização das redes de comunicação
e consumo, tanto de bens materiais como simbólicos.
Diz-nos Berman:
"Existe uma forma de
experiência vital - experiências de espaço e
de tempo, de si próprio e dos outros, das possibilidades e
dos perigos da vida - partilhada, hoje em dia, por homens e
mulheres de todo mundo".
E continua:
"Definirei
esse núcleo de experiência com o termo ´modernidade`.
Ser moderno quer dizer achar-se num ambiente que promete
aventura, poder, alegria, crescimento, transformação
de nós mesmos e do mundo; e que, ao mesmo tempo ameaça
destruir tudo que temos, que conhecemos e que somos. Os ambientes
e as experiências modernas superam todos os confins étnicos
e geográficos, de classe e de nacionalidade, de religião
e de ideologia: em tal sentido, pode-se afirmar, verdadeiramente,
que a modernidade iguala todo gênero humano. Trata-se,
contudo, de uma unidade na separação, que nos
projeta num abismo de desagregação e de renovação
perpétuas, de conflito e de contradição, de
angústia e de ambiguidade. Ser moderno quer dizer ser
parte de um universo em que, como afirmou Marx, tudo o que é
sólido se dissolve no ar"
(Canevacci, 1988, pág. 9).
Mencionamos, aqui, a afirmação de Berman, também
no sentido de avaliar e entender, com ela, a
experiência da modernidade como ambígua,
contraditória e angustiante, e
de verificar, através dela, os reflexos na teoria cultural
de características como: unidade na separação,
possibilidade de desagregação e renovação
perpétuas. Separação, desagregação
e renovação se colocam, a nosso ver, como
componentes inseparáveis da visão de autores que
como Barthes concebem o texto como parte de uma rede, composta de
uma infinidade de outros textos, que, como nós, vão
se entrelaçando em referência uns com os outros.
"... e é bem isto o intertexto: a impossibilidade de
viver fora do texto infinito - que este texto seja Proust, ou o
jornal diário, ou a tela da televisão: o livro faz
o sentido, o sentido faz a vida"
(Barthes, 1987, pág.49).
E ainda, analisando detidamente a afirmação
de Berman, sob outro prisma, no que diz respeito à
partilha da experiência vital da modernidade, podemos
entendê-la, quando, sem ir muito longe, focalizamos
algumas regiões do Brasil. Em se tratando especificamente
de educação e tecnologia, por exemplo, as
desigualdades existentes entre regiões metropolitanas mais
desenvolvidas e outras regiões do interior do país
são gritantes. Em recente projeto de educação
à distância, proposto pelo MEC e avaliado em 1988, destinado à formação
de professores foi constatada uma falha simples no interior do Estado
do Maranhão: o projeto não
decolava não por inadequação do conteúdo
transmitido, mas por dificuldades dos professores em formação,
a maioria leigos, de manusear o aparato tecnológico
enviado pelo ministério da educação - um
aparelho de vídeo-cassete destinado a gravar os programas
televisionados.
Também para explicar a modernidade, porém
com outra ordem de argumentação, Jean Chesneaux,
em seu livro "Modernidade - Mundo", afirma que, graças à
globalização e à mundialização
das mercadorias e da cultura, a modernidade se precipita sobre
nosso mundo e é hoje referência tanto para políticos
do terceiro mundo como para dirigentes da antiga União
Soviética, chineses ou "eurocratas". A ela se
reportam também empresários, especialistas da
mídia, vendedores, urbanistas e, para além de
pequenas especificidades, ela é a mesma em São
Paulo, Hong-Kong, Milão ou Buenos Aires, metrópoles
onde torres verticais se equilibram na perpétua agitação
do mundo financeiro, do rush de pedestres, do trânsito
congestionado. Neste sentido, o conceito de modernidade tende
pois a coincidir com a idéia de "sociedade complexa",
que se refere não só ao Ocidente desenvolvido, mas
envolve a humanidade inteira de maneira ambivalente e paradoxal
(Chesneaux, 1996).
Poderíamos acrescentar a esta afirmação
as mesmas observações feitas àquela de
Berman. Entendemos a visão do autor sobre a
forma ambivalente e paradoxal do envolvimento da modernidade como
sendo a percepção de que a globalização
e a mundialização operam de forma a
"incluir-excluindo", cada vez mais intensamente, as
regiões periféricas, tornando mais agudas as
diferenças entre ricos e pobres.
Dessa forma, o manifesto comunista que, nos
finais do século passado, representou como que um grito de
guerra e ainda na primeira metade deste século alavancou
revoluções, hoje, à força da
evidência de tais diferenças, está
transformado em banal constatação, assim também,
o duplo movimento ideológico de proclamar valores
universais ao mesmo tempo em que se escondiam interesses
particulares, veementemente acusado por Marx, veio se exaurindo e
se desgastando.
Tal como as observações de
Lyotard, relacionadas com o saber na era pós-industrial,
as afirmações de Canevacci sobre as idéias
estão identificadas com a alteração das
condições atuais de comunicação que,
por sua vez, permeiam a globalização e a
mundialização da economia constatadas no "mundo" de Chesneaux.
A grande expansão do número de
computadores conectados em redes exerce, em nossos dias, a exata
função, que, em seu tempo, exerceram as estradas de
ferro, no sentido de anexar territórios ao mundo
capitalista. As pressões financeiras que deslocam o espaço
urbano são as mesmas que alteraram, anteriormente, o
espaço rural e os bolsões de modernidade do
terceiro mundo são retransmissores do capitalismo mundial,
como eram, no passado, as colônias tropicais das potências
européias. Mais do que nunca produções e
trocas servem para reproduzir o capital. A eficiência das
empresas se define pela rentabilidade de seus investimentos e a
competitividade de seus produtos. A interpenetração
do capital industrial e financeiro é a chave do poderio
econômico (Chesneaux,1996).
Dollar Sign, Andy Warhol, 1982
|
Assim a economia gira, hoje, segundo as mesmas
leis, mas os elementos constitutivos de nosso viver quotidiano se
transformam e mudam de aparência. Nas grandes metrópoles
e regiões de intensa concentração
industrial, o espaço, por exemplo, deixou de ser
organizado em relação à diversidade das
distâncias para obedecer a uma lógica técnica
e econômica. O ambiente real, ligado às
características naturais, sociais ou culturais de
determinada região, não representa nada para os
chamados "sistemas fora do chão", segundo
Chesneaux (1996)
e que Augé (1992) define como sendo
"não lugares". São sistemas fora do chão
ou não lugares os freeshops dos aeroportos, as
estações, os supermercados, os estacionamentos
informatizados, os caixas bancários automatizados, as
free-ways e tantas outras instalações
apropriadas à circulação rápida de
pessoas ou de mercadorias, governadas pela presença da
modernidade. Tais instalações propiciam o anonimato
e se vinculam a sistemas mais amplos de transportes,
administrativos ou aos circuitos técnico-financeiros como
é o caso das grandes redes hoteleiras, de algumas cidades
planejadas ou dos grandes bancos internacionais
(Chesneaux,1996).
Ainda nas grandes cidades, as ruas, locais
tradicionalmente dedicados às trocas, à residência,
às relações humanas informais, perderam sua
função, cedendo lugar aos trevos, viadutos,
estacionamentos subterrâneos, pelos quais apenas se passa e
raramente a pé. Estabeleceu-se a prioridade da circulação
rápida em direção aos grandes centros
comerciais, à zona industrial, à região das
grandes escolas, através de largas avenidas em que o
soberano é sempre o automóvel.
Tudo acontece em função de um
tempo limitador que se impõe ao nosso dia a dia: ir rápido
para consumir rapidamente o fast-food sem sabor. A vida
moderna se identifica com a ética do instante
(Chesneaux,
1996, pág. 23) com o culto do descartável, o frenesi da
obsolescência. Assim também a vida pessoal deve ser
programada, agendada, sem que se tenha tempo para imprevistos ou
para o não planejado.
The Persistence of Memory, Salvador Dali, 1931
|
Denomina-se paradoxo espaço - temporal
da modernidade a maneira como as novas tecnologias afetam nossa
relação pessoal com o espaço e com o tempo.
Se em relação ao espaço, a comunicação
telemática e a enorme quantidade de informações
transmitidas pela mídia nos levam a não fazer
distinção entre o aqui e o acolá, entre o
próximo e o distante, dando-nos à impressão
de que o nosso espaço, de certa forma, "esticou",
tendo também aumentado nosso domínio sobre ele, em
relação ao tempo, os progressos técnicos,
aparentemente, nos fazem ganhá-lo, ao mesmo tempo em que
exercem sobre nós a pressão e o imperativo da
rapidez (Chesneaux, 1996, pág. 35).
Viviane Forrester em seu livro "O Horror
Econômico", recentemente publicado observa, com enorme
propriedade e para nossa estupefação que o capital,
no mundo globalizado, se desloca à velocidade da luz, pela
fibra ótica das comunicações internacionais,
em busca de melhor remuneração. As fábricas,
com igual rapidez, podem mudar de país, instalando-se onde
a mão de obra é menos exigente. Para a autora, o
trabalhador, aprisionado a suas restrições e
contingências, não possui esta mesma mobilidade e
vai aceitando condições contratuais cada vez piores
para escapar à perspectiva sombria do desemprego. Assim,
se a mundialização da economia faz a fortuna do
grande capital, ela aumenta, também o número dos
excluídos e marginalizados.
Autores como Paul Virilio
(Virilio, 1999)
fazem, hoje, uma descrição dos indivíduos como programados pelo técno-ciência eletrônica para pensar
os mesmos pensamentos e comprar as mesmas mercadorias que coincide, perfeitamente,
com a descrição dos "mecanismos de unidimensionalização das consciências e com
a moldagem do indivíduo pela indústria cultural" acusados por Adorno, que, por sua
vez, se assemelha às descrições feitas por Stuart Mill sobre os rebanhos humanos
nos primórdios da modernidade
(Rouanet, 1998, pág. 259-263).
Apesar de tudo há que se ter um olhar novo e diferente para se descrever e analisar
as grandes mudanças que as novas tecnologias de informação e comunicação vêm
patrocinando no sentido de produzir novas identidades sociais.
Pierre Lévy, em publicação também
recente, sob o título "Cibercultura"
(Lévy, 1999),
apresenta como essencial para a compreensão das mutações
da civilização contemporânea a reflexão
sobre a passagem das culturas orais para as culturas escritas.
Para Lévy a emergência do espaço virtual
eletrônico, onde o hipertexto se situa mais
especificamente, tem sobre as comunicações um
efeito tão radical quanto na sua época o efeito de
escrita.
Se neste mesmo espaço o capital se
desloca com enorme rapidez, em busca do maior lucro, com relação
à cultura o acontecimento mais significativo anunciado
pelo mundo virtual, segundo Lévy, é a dissociação
entre a universalidade e a totalização, instauradas
e conjugadas pela invenção da escrita no sentido de
desfazer os problemas ocasionados pela descontextualização
dos discursos, ao perderem a igualdade semântica de que
dispunham, enquanto circulavam no mesmo contexto em que eram
oralmente produzidos.
Com o advento da escrita, mensagens produzidas
em épocas passadas, em lugares distantes, cultural e
socialmente distintos, puderam ser transmitidas e recebidas. A
busca de um mesmo sentido para diferentes épocas ou
diferentes lugares, o domínio globalizante do significado,
o anseio pelo todo, seja através de invenções,
ligadas à recepção, como as traduções
e interpretações, seja através de
composições que contivessem em si mesmas a chave
para sua compreensão, estão associados, para nós,
ao universal que a escrita houve por bem instituir.
Neste sentido Lévy atribui à
escrita a mesma função ou o mesmo papel que Lyotard
atribui às narrativas legitimadoras, mas, enquanto Lyotard
acredita na perda de valor de tais narrativas pela existência,
hoje, de jogos de linguagem incomunicáveis entre si e
relacionados ao aumento de poder dos usuários do
conhecimento, Lévy acredita que "seja qual for a
mensagem abordada, ela se conecta a outras mensagens, a
comentários a glosas em constante evolução
... Um texto qualquer é talvez o fragmento ignorado do
hipertexto em constante movimento, que o envolve e o conecta a
outros textos, servindo de mediador ou meio a uma comunicação
recíproca, interativa, ininterrupta"
(Lévy,
1999, pág. 118-119).
Para Lévy o espaço virtual nos
reconduz a uma situação anterior à escrita -
mas numa outra escala e numa outra ordem - na medida em que a
interconexão e o dinamismo em tempo real das memórias
em rede faz com que o mesmo contexto seja partilhado pelos
integrantes da comunicação, independentemente da
diversidade das comunidades a que pertençam. O processo de
interconexão, porém realiza o universal de uma
forma diferente daquela patrocinada pela escrita na medida em que
não reúne pela unidade de sentido, mas pela
interação geral (Lévy, 1999, pág. 118-119).
Assim no cenário da modernidade o
hipertexto, operando como um dos agentes da globalização
e da mundialização da cultura, ao mesmo tempo em
que representa uma parcela dos jogos de linguagem de que nos fala
Lyotard, atua em contrapartida como realizador da nova forma de
universal de que nos fala Lévy no sentido de que, mesmo
desvinculando a mensagem do contexto em que surgiu, permite que
ela seja imediatamente partilhada pelos atores da comunicação.
O universal de que Lévy nos fala não engendra uma unidade semântica, uma
totalização, mas está, para ele, estreitamente ligado à idéia de humanidade.
Poderíamos acrescentar aqui, em relação ao hipertexto, o comentário de Gagnebin
(em Benjamin, 1994, pág. 23) sobre
Kafka: com o hipertexto "não temos nenhuma mensagem definitiva
para transmitir que não existe uma totalidade de sentidos mas somente trechos
de histórias e de sonhos. Fragmentos esparsos que falam do fim da identidade
do sujeito e da univocidade da palavra, indubitavelmente uma ameaça de
destruição, mas também e ao mesmo tempo esperança e possibilidade de
novas significações."