Esta história bem humorada, um pouco pueril, aliás, não tem outro papel que o de introduzir uma outra
mais interessante ou mais curiosa, digamos assim: a história do Memex.
Acalme-se, leitor, Memex não é um herói de cartoon, é uma máquina um tanto
quanto visionária para auxiliar a memória e guardar conhecimentos (daí o nome
Memex - Memory Extension) que foi pensada pelo cientista americano
Vannevar Bush e enunciada em l945, em um célebre artigo intitulado "As We May Think"?
(Bush, 1945)
A partir da idéia de que a soma dos conhecimentos, aumentando em um ritmo prodigioso,
não encontrava contrapartida em relação à evolução dos meios de armazenamento e
acesso aos dados e observando o funcionamento da mente humana, segundo ele,
operando sempre por meio de associações, Bush imaginou e descreveu, de maneira
detalhada, uma máquina capaz de estocar montanhas de informações, fácil e rapidamente
alcançáveis. Tal engenho, concebido para suprir as "falhas da memória humana",
através de recursos mecânicos, é considerado o precursor da idéia de hipertexto.
Segundo Pierre Lévy, Bush, um matemático e físico renomado, havia concebido,
nos anos trinta, uma calculadora analógica ultra rápida, que tinha desempenhado
um papel importante para o financiamento do Eniac, a primeira máquina de
cálculo eletrônica digital. Na época em que o artigo foi publicado pela primeira
vez, nosso autor encontrava-se na chefia do organismo encarregado de
coordenar os esforços de guerra dos cientistas americanos, sob as ordens do Presidente Roosevelt.
Por que "As we may Think"? Segundo Bush, a maior parte dos sistemas de
indexação e organização de informações em uso na comunidade científica
se lhe afiguravam como artificiais, cada item sendo classificado apenas sob
uma única rubrica, sob uma ordenação puramente hierárquica (classes,
sub-classes,etc.). Ora, para Vannevar Bush, a mente humana não funciona
dessa forma, mas sim através de associações. Ela pula de uma representação
para outra ao longo de uma rede intrincada, desenha trilhas que se bifurcam,
tece uma trama infinitamente mais complicada do que os bancos de dados de
hoje ou os sistemas de informação de fichas perfuradas existentes em 1945.
Bush reconhecia não ser possível duplicar o processo reticular que embasa
o exercício da inteligência. Ele propunha apenas que nos inspirássemos nele.
Imaginou então o dispositivo, que denominou Memex, para mecanizar a
classificação e a seleção por associação, paralelamente ao princípio da indexação clássica.
Na época o mecanismo de recuperação (praticamente único) de informações
era baseado em sistemas manuais de indexação a partir de palavras-chave. De acordo com
Bush um mecanismo que registrasse associações tornaria mais fácil a recuperação de
informações já consultadas no passado, não mais com a ajuda de
índices, mas através de associações estabelecidas na ocasião, pois
um estudo, relacionado com qualquer tema, envolve a consulta a numerosas
fontes e a pessoa que realiza tal estudo estabelece, naturalmente, associações
entre fragmentos das obras consultadas. O registro das mesmas associações permitiria uma
rápida recuperação das informações, quando necessário, meses ou anos depois.
Uma coleção de associações entre fragmentos de diversas obras, eventualmente
complementados por comentários pessoais resultantes de reflexões sobre
determinados temas representa um novo documento (meta-documento) para uso
particular. Para Bush meta-documentos já existentes, relacionados a assuntos
específicos, poderiam também ser agregados, como componentes, a meta-documentos
relacionados a temas mais amplos. O Memex, portanto, daria suporte a meta-documentos
hierárquicos (Figueiredo, 1999).
Antes de mais nada, seria preciso criar um imenso reservatório multimídia de
documentos, abrangendo ao mesmo tempo imagens, sons e textos. Certos
dispositivos periféricos facilitariam a integração rápida de novas informações,
outros permitiriam transformar automaticamente a palavra em texto escrito.
A segunda condição a ser preenchida seria a miniaturização desta massa de
documentos, Para tanto Bush previa em particular a utilização do microfilme
e da fita magnética, que acabavam de ser descobertos naquela época.
Tudo isso deveria caber em um ou dois metros cúbicos, o equivalente
ao volume de um móvel de escritório. O acesso às informações seria
feito através de uma tela de televisão munida de alto-falantes. Além
dos acessos clássicos por indexação, um comando simples permitiria
ao feliz proprietário do Memex criar ligações independentes de qualquer
classificação hierárquica entre uma dada informação e outra. Uma vez
estabelecida a conexão, cada vez que determinado item fosse visualizado,
todos os outros que tivessem sido ligados a ele poderiam ser
instantaneamente recuperados, através de um simples toque em botões
e alavancas (Lévy,1993).
Além de buscar e recuperar informações, o Memex também permitiria ao leitor acrescentar notas marginais e comentários pessoais, valendo-se de um possível tipo de reprografia, inclusive usando um sistema de agulhas, semelhante aos sistemas de telégrafo usados nas estações ferroviárias, como se tivesse uma página física diante de si.
Segundo Landow, a concepção do Memex nos leva a duas observações
importantes: em primeiro lugar, ao verificar a necessidade e a possibilidade
do leitor de fazer anotações relativas ao texto, durante o processo de leitura,
em que afloram pensamentos transitórios e reações pessoais aos dados
colhidos, Bush como que redefine o conceito de leitura como um processo
dinâmico e ativo que implica a escritura. Em segundo lugar, a referência
ao leitor ativo, que pode elaborar observações a determinado texto, como
se estivesse diante de uma página física, atesta a concepção de um texto,
de qualquer forma, menos físico e mais virtual. Assim, utilizando as limitações
de uma forma de texto, Bush concebeu uma nova tecnologia e através dela,
nos leva a uma nova concepção do próprio texto
(Landow, 1995, pág. 28).
Bush retrata o usuário de seu dispositivo imáginário traçando trilhas
transversais e pessoais no imenso e emaranhado continente do saber.
Estas conexões, que ainda não se chamavam hipertextuais, materializam
no Memex, espécie de memória auxiliar do cientista, uma parte fundamental
do próprio processo de pesquisa e elaboração de novos conhecimentos.
Bush chegou mesmo a imaginar uma nova profissão, uma espécie de
engenharia civil cuja missão seria a de ordenar redes de comunicação
no centro do corpus imenso e crescente dos sons, imagens e textos gravados
(Lévy, 1993, pág. 28).
A incrivelmente premonitória descrição que Bush traça da maneira como o usuário do Memex cria e segue trajetos de seu interesse, nos faz supor seu reconhecimento fundamental de que estes mesmos trajetos são uma nova forma de textualidade e inclusive de escritura. Para esta nova concepção de textualidade introduz alguns termos como nexos, conexão, trajetos, trama que geram, por sua vez, uma espécie de texto flexível, aberto às demandas do leitor e, possivelmente vulnerável, a elas no sentido de que no mundo do Memex o texto designa tanto as unidades individuais que constituem tradicionalmente uma obra como, também, conjuntos de documentos criados com trajetos e mesmo, talvez, trajetos sem documentos que os acompanhem. Bush mesmo é quem explica:
"Quando se unem numerosos artigos para se formar um trajeto... é exatamente como se artigos de diferentes e distantes fontes fossem reunidos, encadernados juntos, para se formar um novo livro. É possível, ainda, ir mais longe já que cada artigo pode estar unido a numerosos trajetos ao mesmo tempo."
Assim cada texto, cada bloco de textos, imagem ou qualquer tipo de informação pode formar parte de vários livros (Landow, 1995, pág. 29).
O próprio Landow afirma, ainda, que o mais interessante para alguém que considere a existência de relações entre as idéias de Bush, a crítica contemporânea e a teoria cultural é ter ele engendrado suas propostas a partir da recusa de algumas das premissas fundamentais da tecnologia da informação que vêm dominando o pensamento ocidental desde Gutenberg. Bush desejava substituir os métodos puramente lineares que haviam contribuído para o triunfo do capitalismo e do industrialismo por algo, que em essência são "máquinas poéticas" (grifo nosso), máquinas que capturam o brilho anárquico da imaginação humana, como se considerasse que a ciência e a poesia operam da mesma maneira (Landow, 1995, pág. 31).
No hipertexto, os diferentes percursos a serem feitos, livremente, pelo leitor se constituem na possibilidade do mesmo leitor ser, a um só tempo, autor de outro texto e escoliasta daquilo que lê, anotando seus próprios comentários ou escolhendo outros que incorpora ao seu trajeto, como skhólia (comentários) que julga adequados ao texto inicial. A existência de múltiplos trajetos de leitura perturba o equilíbrio entre leitor e escritor e dando ensejo, assim, ao texto de leitor preconizado por Roland Barthes. Possibilita, também, o surgimento de um texto muito menos independente em relação aos comentários, analogias e traduções, próprias do texto impresso, apresentando uma quebra na hierarquia entre texto principal, anotações e comentários, estes constituindo-se por sua vez em novos textos.
Tais percursos ou trajetos, embora tenham sido preconizadas pelo criador do Memex, ainda estão restritos às limitações impostas pela tecnologia de navegação hoje disponível, ou seja, devem sujeitar-se àquelas ligações (links eletrônicos) previamente estabelecidas pelo autor do hipertexto ou, no caso de ligação com a Internet, por qualquer pessoa que tenha disponibilizado o documento hipertextual na rede.
Na verdade o termo hipertexto foi usado pela primeira
vez no início da década de sessenta. Então os primeiros sistemas de tele-informática
militares acabavam de ser instalados, mas os primeiros computadores não evocavam
ainda os bancos de dados, muito menos o processamento de textos. Theodore Nelson,
discípulo de Vannevar Bush, cunhou o termo para exprimir a idéia de escrita/leitura
não linear em um sistema de informática. Concebendo o Projeto Xanadu, Nelson
imaginou uma imensa rede de informações acessível em tempo real, contendo todo
o saber literário e científico do mundo a que milhares de pessoas poderiam
se conectar para ler, escrever, comentar, interagir, estudar, utilizando-se de todos
os recursos nela disponíveis, compostos não só de textos, mas de imagens e sons.
O projeto de Nelson se constitui num avanço considerável em relação ao Memex de Vannevar Bush e, de certa forma, se concretiza com a Internet. Esta última, porém, limitada ainda aos recursos tecnológicos hoje existentes não alcança a amplitude da proposta de Bush no sentido de permitir ao leitor, com o puro e simples aperto de um botão, sobrepor trajetos àqueles já existentes criando associações entre lexias de hipertextos distintos ou não para uso próprio como forma de estruturação assistida do conhecimento adquirido e recuperação posterior.
Assim, ao longo de séculos copistas, escrivãos e posteriormente fabricantes de livros e editores criaram diferentes dispositivos para preservar, armazenar, difundir e tornar mais rápido e eficiente o acesso ao mundo das informações. É claro que a paginação, os índices e a menção da bibliografia tornaram a erudição mais fácil e mais cômoda, mas a ordenação linear e hierárquica própria do livro impresso muitas vezes mostrou-se ou tem se mostrado inadequada às necessidades do pesquisador ou o critério de ordem usado não coincide com aquele de que o pesquisador necessita. Para os idealizadores do hipertexto, os problemas de recuperação da informação, baseados nas manifestações físicas do texto, em seu formato linear e fixo, permaneceram.
A existência do hipertexto, o crescimento da Internet e mais ainda a concretização dos sonhos de Bush através do desenvolvimento destes recursos tecnológicos é que vão permitir ao leitor, à medida que lê, associar rapidamente àquilo que leu outros textos já lidos e de igual interesse, unindo a eles suas próprias observações, de forma a poder recuperar tudo isso mais tarde, como se fosse um novo texto por ele construído, à maneira dos comentaristas antigos cujas skhólia acabaram por incorporar muitas vezes os textos originais.