Intersecção com as teorias do contemporâneo

 

Blauer Vogel, Kurt Schwitters, 1922




Lançando um rápido olhar sobre o hipertexto nós podemos visualizá-lo como: efêmero em suas manifestações, desprovido de limites ou partes definidas, desenvolvido de forma multilinear de maneira a possibilitar a passagem instantânea da parte ao todo e vice-versa, sem que nenhuma das partes se sobreponha às outras.

Um hipertexto apresenta-se composto por textos verbais e não verbais, como imagens e sons, possuindo diversificado aparato paratextual na forma de referências, gráficos, remissões, bancos informacionais, tudo isso demandando um suporte tecnológico cujo acionamento se faz ao simples toque de um elemento eletrônico de ligação. E, embora o alcance desta nova maneira de produção textual não tenha sido amplamente avaliado, os teóricos do hipertexto têm caminhado em tal direção, buscando estabelecer pontos comuns entre realidades que se afiguram como absolutamente distintas quais sejam: o desenvolvimento tecnológico que torna possível a existência do hipertexto e as teorias do texto que já se tornaram clássicas e que atribuem ao texto impresso muitas daquelas características inerentes à textualidade informática.

Entre tais teóricos o trabalho de Jorge Landow ocupa, sem dúvida, um lugar significativo. O autor em seu livro "Hypertext: the Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology" (Landow, 1995) procura desenvolver a tese de que existe uma estreita aproximação entre a experiência da hipertextualidade, possibilitada pelos avanços da tecnologia informática e as reflexões das "teorias críticas pós-estruturalistas" sobre a realidade contemporânea. Landow acredita que o paralelo existente entre o hipertexto e tais teorias é tão forte que chega a existir entre eles uma verdadeira convergência.

Isto porque, para Landow, o hipertexto se apresenta como um laboratório onde as hipóteses sustentadas por alguns teóricos do pós-estruturalismo poderiam ser testadas. Para o autor o hipertexto se afigura como um modo de conceber a produção de significados e a organização do conhecimento, cuja explicitação, proposta através de quadros teóricos se torna, agora, concretamente possível sob a forma de experimentos textuais realizados no computador, acontecendo então aquele ponto de convergência que ele busca apresentar.

Neste sentido Landow acredita que teóricos como Derrida e Barthes poderiam ser colocados lado a lado com Ted Nelson e Andries Van Dam, os primeiros pós-estruturalistas e os segundos ligados à informática, como partilhando de um mesmo espaço onde são contestados paradigmas conceituais fundados em idéias como hierarquia e linearidade, os quais vem sendo substituídos por outros em que se sobrepõem as idéias de multilinearidade, nós, ligações (links) e redes (Landow, 1995, pág. 2).

E mais, para ele, os teóricos contemporâneos, cuja preocupação está centrada em uma revisão das posturas epistemológicas predominantes no pensamento ocidental, estariam, em última análise teorizando, também, sobre o hipertexto. Este seria a concretização daquilo que se produz teoricamente, apresentando-se entre os primeiros e o produto tecnológico nítidos pontos de encontro relativos ao trato dado à textualidade, à narrativa e às fronteiras existentes entre o autor e o leitor.

Embora as propostas e o entusiasmo de Landow devam ser avaliados com cautela, cumpre reconhecer em seu trabalho uma preocupação em verificar, na lógica da experiência hipertextual, em que medida suas características se compõem de elementos novos em relação à lógica da página impressa, de que forma estas mesmas características nos remetem a reflexões anteriores acerca da "textualidade gutenberguiana" e, mais ainda, em que medida este movimento de reflexão pode ser um passo importante para se pensar o "texto" hoje.

É importante, porém, deixar claro que, ao postularmos com Landow, uma espécie de "convergência" entre a crítica pós-estruturalista e a experiência hipertextual não pretendemos atribuir ao hipertexto o condão ou a mágica de revolucionar a escrita relegando à obsolescência e ao passado os recursos de escrita de que dispomos, ou seja as "formas físicas" por meio das quais os textos são transmitidos aos leitores, até porque temos a certeza de que eles têm exercido profunda influência no processo da construção de sentido.

Tampouco temos em mente buscar para o hipertexto e, mais além, para a própria tecnologia um "status" mais palatável às Ciências Humanas ao evocarmos, num exercício comparativo, alguns aspectos teóricos pós-estruturalistas. Este exercício, o que objetiva é abrir outro caminho a ser trilhado por aqueles que se propõem a refletir sobre a tecnologia no que diz respeito ao tratamento que patrocina ao texto.

O hipertexto é uma ferramenta tecnológica avançada, é bem verdade uma outra maneira de disponibilizar o texto aos leitores, e torna possível uma nova forma de veiculação de idéias. Entretanto, as teorias críticas pós-estruturalistas vão mais além: não só desmontam os cânones pelos quais nos regemos habitualmente como, ao fazê-lo, expõem e desnudam os meios que os sacralizaram nos quais estão cristalizadas noções como hierarquia, seqüencialidade e linearidade, também desmontadas nas experiências hipertextuais o que as torna potencialmente capazes de novas construções de sentido.

Num primeiro momento Landow vai buscar, em algumas vertentes do pensamento de autores como Roland Barthes e Michel Foucault, argumentos para ilustrar a idéia de convergência que procura defender. Entretanto acredita ser com Derrida que a teoria contemporânea encontra seu mais completo ponto de encontro com a experiência hipertextual como é concebida hoje.

No que concerne a textualidade, no entender de Landow, Barthes descreve em "S/Z" um texto ideal que coincide exatamente com aquelas características que visualizamos como próprias de textualidade informática.

"S/Z", como o próprio Barthes viria a dizer posteriormente, se constitui de uma "coisa verdadeiramente nova para fazer avançar a análise estrutural da narrativa", uma leitura semiológica da novela "Sarrasine" de Balzac, em que os comentários, a interpretação e as intervenções teóricas, nascidas dos primeiros, vão tecendo um texto descontínuo, porém literariamente composto.

Para Barthes,

"nesse texto ideal as redes são múltiplas e se entrelaçam sem que nenhuma possa dominar as outras, este texto é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não tem início; é reversível e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal; os códigos que mobiliza perfilam-se a perder de vista, eles não são dedutíveis (o sentido nesse texto nunca é submetido a um princípio de decisão e sim por um processo aleatório); os sistemas de significados podem apoderar-se desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito da linguagem." (Barthes, 1992, pág. 39).

Com efeito, o hipertexto eletrônico compõe-se, como já mencionamos, de blocos de palavras, ou mesmo de textos, de imagens ou sons eletronicamente unidos, possibilitando múltiplos trajetos, cadeias ou caminhos em uma textualidade aberta, eternamente inacabada e descrita metaforicamente como rede, trama ou teia.

Landow aponta o paradigma de rede como um dos aspectos conceituais em que teóricos críticos da contemporaneidade e projetistas de hipertextos encontram seu mais completo sinal de convergência.

Para o autor a acepção de rede, enquanto metáfora referente ao hipertexto, pode assumir as seguintes nuances: a primeira se refere ao hipertexto como um conjunto de blocos, nós ou unidades de leitura unidos por uma rede de ligações (links) e trajetórias, um texto de elementos eletronicamente conectados, o equivalente eletrônico do texto impresso.

A segunda que vê a rede como um sistema composto por várias unidades de leitura colocadas juntas por um autor ou a criação de outro texto em que há uma junção de vários autores compilados por alguém.

Uma terceira nuance, mais tecnológica, apresenta a rede como formada por vários computadores e cabos em que podem se conectar várias pessoas e, finalmente, mais próximo da teoria crítica contemporânea, o quarto sentido que toma a rede como uma totalidade de termos não acabados, em relação constante com outros termos num processo contínuo de novas produções discursivas.

O hipertexto tende, pois, a criar um texto aberto, sem fronteiras definidas, que não exclui nem pode excluir outros textos. Também Barthes, ao se referir à noção de intertextualidade afirma:

"Qualquer texto é um novo tecido de citações passadas. Pedaços de código, modelos rítmicos, fragmentos de linguagens sociais, etc, passam através do texto e são redistribuídos dentro dele visto que sempre existe linguagem antes e em torno do texto" (Barthes, 1987, pág. 49).

Assim existem conexões importantes entre a noção de intertextualidade e de hipertexto. A página impressa aponta para a intertextualidade, mas nos encoraja a pensar o texto como uma estrutura orgânica, com significação independente. Entretanto, a experiência hipertextual nos dá a oportunidade de visualizar e explorar a intertextualidade.

A noção de intertextualidade, surgida na década de 60, se constitui em um modo de pensar sobre textos e de ler textos, nascido da proposta desconstrucionista abraçada pelos teóricos e críticos pós-estruturalistas. Para tais autores, escritores ao criar textos ou usar palavras o fazem com base em todos os outros textos e palavras com que deparam e os leitores lidam com os textos da mesma forma. A vida cultural é, pois, entendida como uma série de textos em intersecção com outros textos que possam tê-lo afetado ou que afetam o próprio crítico ao lê-lo.

Para os desconstrucionistas este entrelaçamento intertextual tem vida própria, o que quer que escrevamos transmite sentidos que não estavam ou possivelmente não poderiam estar em nossa intenção e nossas palavras não podem transmitir somente o que queremos dizer. Assim sentimos ser vã a tentativa de dominar um texto, porque o perpétuo entretecer de textos e sentidos está fora de nosso controle; a linguagem como que opera através de quem "escreve" ou "lê". Desconstruir é pois marcar a intertextualidade procurando um texto em outro, dissolvendo um texto em outro ou embutindo um texto em outro.

Referência obrigatória para se pensar a noção de intertextualidade é o trabalho da especialista em semiótica Júlia Kristeva que foi a primeira a empregar a expressão cuja raiz latina, o termo "intertexto", se refere, no ato de tecer, ao entrelaçamento dos fios.

 

Ao mencionar a intertextualidade em um ensaio publicado nos finais da década de 1960 Kristeva provocou uma espécie de ranhura profunda na idéia cristalizada e estabelecida sobre o autor como única fonte do texto, afirmando que tanto uma mesa posta para um jantar como um poema, enquanto sistemas de significantes são constituídos de sistemas significantes anteriores.

 

Uma obra literária sob tal ótica não é simplesmente produto do trabalho de "escritura" de um único autor, ela nasce de seu relacionamento com outros textos e estruturas da própria linguagem.

 

Para Kristeva qualquer texto é construído em termos de um mosáico de citações, qualquer texto é a absorção e a transformação de outro.

Violin, Pablo Picasso

A noção de intertextualidade leva em conta não só o texto literário, mas todo e qualquer texto, verbal ou não, sem recorrer aos conceitos tradicionais de autoria. Subvertendo a idéia do texto como totalidade hermética e auto-suficiente, coloca em seu lugar o fato de que toda obra literária ocorre efetivamente na presença de outros textos à semelhança dos palimpsestos. Torna, também, menos claros os contornos do livro dispersando sua imagem de totalidade em um tecido ilimitado de conexões, associações, fragmentos, textos e contextos.

À luz da intertextualidade o ato de escrever é sempre uma iteração que também é uma re-iteração - uma reescrita que traz ou desloca para o primeiro plano textos ou traços de vários textos de forma consciente ou não.

Também determinantes históricos e sociais são por si mesmos práticas significantes que podem transformar e flexionar práticas literárias. No que concerne ao leitor, leituras prévias, experiências e posições do próprio leitor frente à cultura estabelecem, também, ligações intertextuais.

Landow chama a atenção para um outro aspecto interessante das reflexões teóricas de Barthes em "S/Z" - as unidades de leitura que o autor denomina "lexias".

Barthes se refere à leitura como um trabalho, um ato lexiográfico até, já que, para ele, ao lermos estamos escrevendo nossa leitura, encontrando sentidos que possam nos levar a outros sentidos. Assim, propõe, para a análise do texto classificado por ele de plural, que se trabalhe de forma a estrelá-lo. Estrelar o texto é separá-lo em blocos de significação - as "lexias" - que compreendem ora poucas palavras ora algumas frases - elas são espécies de "envelopes" de volumes semânticos e procuram "esboçar o espaço estereográfico" da escritura (Barthes, 1992, págs. 44 a 47).

Para Landow as "lexias" de Barthes "perturbam o texto" caminhando além da experiência de leitura tal como a conhecemos. As passagens do texto que se sucediam umas às outras numa progressão seqüencial e interrupta assumem com elas maior identidade e individualidade.

No hipertexto as "lexias" podem se ligar a blocos de significação dentro de um mesmo texto, mas também se associar a textos de outros escritores ou mesmo a textos não verbais (Landow, 1995, pág. 74). Este movimento de ligação, marcado na escrita hipertextual, pelas "ligações eletrônicas" (links) torna ainda mais nítida a intertextualidade, que na página impressa é, antes de tudo, captada.

O texto idealizado por Barthes identifica-se com o hipertexto, também, na medida em que se caracteriza pela ausência de um início ou fim determinados, permite um sem número de formas de entrada sem que nenhuma se sobreponha às outras, abolindo-se qualquer forma de organização hierárquica. Lemos menciona mesmo a existência de uma relação estreita entre o clicar o mouse, próprio da experiência hipertextual para se traçar determinados percursos ou trajetos de leitura, e uma espécie de flânerie, o andar daquele que "observa sem julgar", buscando marcar o seu espaço. A metáfora do flaneur associada ao leitor do hipertexto afirma a escrita hipertextual como um outro processo de concepção em que aquele que lê reescreve, gerando um novo texto em seu percurso.

E não é outro o sentido que Foucault atribui ao conceito de homem moderno de Baudelaire:

"O homem moderno não é o homem que sai à procura de si mesmo, de seus segredos, sua verdade escondida: é o homem que busca inventar a si mesmo. A modernidade não 'libera o homem em seu próprio ser'; ela o obriga a enfrentar a tarefa de produzir a si mesmo" (Eagleton, pág. 282).

A multiplicidade das redes que se entrelaçam e a reversibilidade de seus pontos de entrada evocam a possibilidade de uma "flânerie" pelos diversos significados que impregnam este texto que Barthes, como dissemos, define e classifica como plural, e que possibilita ao leitor, homem moderno, a invenção de novos sentidos.

Com relação a esta pluralidade Barthes nos alerta para estarmos atentos a ela, renunciando aos cânones retóricos de construção do texto e às explicações "pedagogisantes", cuja preocupação é sempre o estabelecer conclusões, fechamentos e classificações.

"Se quisermos estar atentos ao plural de um texto (por mais limitado que seja) devemos renunciar a estruturar esse texto em grandes blocos, como fazem a retórica clássica e a explicação escolar: não há construção do texto; tudo significa sem cessar e várias vezes, mas sem delegação a um grande conjunto final, a uma estrutura derradeira" (Barthes, 1992, pág. 45).

Voltando a Landow, ao recorrer a Foucault, ele o faz em função da concepção foucaultiana do texto em termos de redes e interligações. Para Foucault as fronteiras de um livro nunca estão claramente definidas em função das referências a que este mesmo livro está ligado, assim o texto, para ele é preso num sistema de referência a outros livros, outras sentenças como o nó de uma rede - uma rede de referências.

Seu próprio projeto de análise arqueológica do conhecimento foi modelado e executado como uma rede capaz de ligar entre si uma vasta gama de observações, interpretações e análises, muitas vezes contraditórias.

Aliás a idéia do texto como rede é também familiar a Barthes que em "S/Z" faz uma distinção clara entre a literatura como trabalho - objeto de estudo da teoria literária tradicional e o "texto" que ele se propõe a estudar. Para ele o produto do trabalho literário se constitui num corpo de escrita, definido, confinado em um volume, marcado com o nome do autor - um objeto material sancionado, revalidado pela tradição que pode ser adquirido nas livrarias e consultado nas bibliotecas.

O "texto", frente a esta idéia, é uma espécie de rede, de teia de linguagem que interliga o produto do trabalho literário a outros discursos, sejam eles literários, críticos ou outros quaisquer. Nesse sentido o texto, para Barthes, não é um objeto de estudos ou um produto, mas uma nova atitude, uma atitude que vê a leitura como uma experiência que se abre em múltiplas direções a fim de estabelecer ligações com o "mundo de significados sempre em expansão" (Barthes, 1992, pág. 39).

Como Landow, entendemos que a teoria de Barthes sobre o texto abre caminhos para a noção hipertextual, a atividade de leitura que ele preconiza - tal como o hipertexto, adiciona significados em um sistema sempre crescente, em expansão vital.

Barthes executa em seu trabalho de análise de Sarrasine, assim como em outros escritos como "O Prazer do Texto", por exemplo, um movimento de captura do leitor, não só no sentido de que para o leitor é prazeroso ler o que ele escreve, mas também, e sobretudo, no sentido de que transforma o prisioneiro em trabalhador do que lê percorrendo os mesmos ou outros caminhos que, enquanto teórico, ele aponta e abrindo outros.

"O 'Prazer do Texto' é uma coleção de aforismos: texto estilhaçado, fragmentado, oferecendo-se à leitura distraída, que pode escolher múltiplas portas para nela entrar (O texto 'caça' o leitor, diria Barthes, insistindo na metáfora sexual). As dificuldades surgem quando tentamos, como costumávamos fazer na escola, 'resumir as idéias principais'. Pois não se trata de um saber já constituído, mas de um conhecimento que se busca, junto ao leitor.

 

(O objetivo seria o prazer, o gozo comum do texto? De qualquer forma: o prazer não implica facilidade, ele é trabalho e procura construção; o prazer da leitura não se separa do prazer da escritura ...)" (Fontes, 1999, pág. 82).

Em tal aspecto Barthes também é hipertextual, possibilitando, com sua argumentação, novos percursos de leitura que adicionam outros significados aos já conhecidos, o que transforma o leitor em um outro autor, o produtor de texto que a própria reflexão barthesiana preconiza.

A acepção do termo rede que Barthes utiliza, entendendo-a como uma totalidade de termos não acabados em contínua relação com outros, em novas produções discursivas, ele a encontra e nela emaranha seu próprio texto.


Glas, pág. 8

Amostra de página da obra Glas de Derrida

Entretanto, apesar de Barthes ter rejeitado os modos seqüênciais de argumentos, ele os reteve na forma convencional de um livro impresso. Derrida, em contraposição, avançou nesse sentido alterando nossa visão de como o livro deve ser, propondo-nos em "Glas", uma nova maneira de apresentar o texto. Com uma disposição não linear o texto derrideano parece registrar mais adequadamente a experiência do texto contemporâneo, desafiando o leitor a organizar num novo espaço textual seus percursos de leitura e busca dos significados. As idéias, propostas em aparente forma de colagem, se apresentam como que formando uma teia, juntam-se e se separam em diferentes linhas de significados, informando-se reciprocamente umas às outras.

O texto derrideano, nítido precursor da escrita hipertextual, é aquele que oferece o exemplo mais extremo da modalidade crítica pós-estruturalista, deixando tênues todos os limites ou fronteiras criados pela margem que percorre o texto impresso, pelas idéias de início e fim que o caracterizam, abrindo espaço para experiências de leitura através de qualquer direção: intertextuais ou intratextuais, próprias, também, dos sistemas de hipertextos. Ligações com outros textos fazem com que no texto de Derrida, a hierarquia da página impressa seja revertida, também, em sua disposição espacial.

Com efeito Landow vê na obra de Derrida o ponto mais completo de intersecção e de convergência entre a experiência de escrita hipertextual e a crítica cultural contemporânea. No entender de Landow o uso constante que Derrida faz, em seus estudos, de termos como nexo (liaison), trama (taile), rede (reseau) e entretecer (s'y tessent), clama pela hipertextualidade, assim como sua ênfase na abertura textual que torna impróprias as distinções entre o interno e o externo a um texto dado (Landow, 1995, pág. 19).

Segundo Bennington, "em geral Derrida saca seus instrumentos da leitura dos textos que lê, extrai termos que em seguida devolve para o texto mesmo que estes ajudam a ler" (Bennington, 1996, pág. 73). Este movimento "metalingüístico", em que palavras extraídas de um texto se voltam para explicá-lo gerando um texto novo em muito se assemelham à experiência hipertextual em que as ligações eletrônicas (links) permitem este ir e vir explicativo no qual a explicação se constitui na inserção do leitor no contexto do próprio texto.

Derrida concebe o texto como sendo composto de unidades discretas de leitura. Tais unidades, por ele denominadas pedaços (morceaux) estão aparentemente soltas, mas conectam-se umas às outras pelas marcas de pontuação como as aspas, colchetes ou parênteses.

Em "Glas", Derrida busca tal tipo de texto, procura-o, mas face às limitações impostas pela página só pode apresentá-lo recorrendo a tais marcas e a uma disposição peculiar da página que consiste em duas colunas ocupando os lados esquerdo e direito de uma mesma página impressa. Do lado esquerdo da página o autor discute a obra de Hegel e explana temas heglianos. Do outro lado direito o teatro de Jean Genet. Lado a lado, na mesma página, temas da totalidade, do conhecimento, da filosofia e da sexualidade, da castração, do excesso se entrelaçam, se alternam em tipos irregulares e arranjos gráficos especiais. Em "Glas" um texto leva a outro texto, entretecendo significados distintos, num jogo texto comentário texto sem que haja separação entre eles. Não há distância entre o comentário e o texto original, o primeiro está sempre buscando prolongar as energias associativas que agem nos textos originais (Connor, 1996, págs. 176 a 178).

Para Derrida o termo "montagem", próprio do cinema, se apresenta como mais apropriado ao tipo de texto que ele propõe:

Ao apresentar seu texto, com uma espécie de adendo que ele solicita seja incluído ao livro, pois está aparentemente solto em uma folha à parte, Derrida o descreve como duas colunas cortadas pelas margens superiores e inferiores da página. Tais colunas onde estão inscritos: incisos, "tatuagens" e incrustrações, numa primeira leitura se apresentam como que uma contra a outra como se não se comunicassem entre si - e isto de um certo modo é verdadeiro quanto ao objeto, a língua, ao estilo e "à lei".

No entanto, entre os demais textos surge um outro que os penetra, cola e descola, deslocando-se de um para outro, agenciador de um jogo entre o leitor e os autores - Glas em decomposição.

Este jogo, podemos percebê-lo claramente na página que escolhemos para exemplificar a disposição gráfica do texto derrideano e mesmo que não nos aprofundemos na reflexão sobre seu conteúdo, é motivador para nossos olhos e para nossa curiosidade estabelecer ligações entre os diversos fragmentos de textos, dispostos irregularmente nas duas colunas da página.

"La palavra 'montaje' parece más apta para sugerir que el tipo de reunión aquí expuesto presenta una estructura tejida, entremezclada, como una trama, susceptible de permitir a los diferentes hilos de sentido o líneas de fuerza separarse de nuevo o bien establecer nuevas conexiones" (Landow, 1995, pág. 21).

Para Landow Derrida está, dessa forma, inconscientemente teorizando sobre o hipertexto, pois assim como o texto "Glas", a textualidade informática torna obsoleta a convenção linear do texto impresso para substituí-la por uma interligação mais complexa e multilinear. Assim como o hipertexto permite ao leitor escolher múltiplos percursos através de um texto, o texto derrideano de "Glas" abole os argumentos lineares, o olho do leitor é constantemente solicitado a movimentar-se pela página na busca de conexões visuais e verbais aparentes que façam a ligação entre os pensamentos de Hegel e Genet.

Na obra "A Estrutura, o Signo e o Jogo no Discurso das Ciências Humanas" Derrida aborda um outro aspecto, o do descentramento que se apresenta, segundo ele, como fundamental para a reformulação do pensamento ocidental. No que concerne à experiência hipertextual, suas características de mobilidade e instantaneidade incitam também à reflexão sobre a ausência de centro ou mais corretamente sobre seu deslocamento constante:

"No he dicho que no haya centro ni que podríamos sair adelante sin centro. Para mí, el centro es una función, no un ente; una realidad, sí, pero una función. Y ésta es absolutamente indispensable" (Landow, 1995, pág. 25).

Para Derrida a questão que se coloca não é a de que a idéia de centro tenha deixado de existir, mas que este deve ser visto como função e, neste caso, é absolutamente indispensável.

No hipertexto, em razão do espaço aberto de sua textualidade, o centro não pode ser localizado em nenhum ponto exato, mas pode demarcar-se em determinado ponto, entre infinitos, desde que o leitor, em um dado momento, o escolha como tal:

"o centro de coerência hipertextual é o leitor" (Sayeg).

O hipertexto provê, assim, um sistema infinitamente recentrável, porque o foco depende do leitor, sendo uma de suas características fundamentais o fato de ser constituído por vários textos, verbais ou não, ligados entre si, sem um eixo de organização estabelecido a priori; cabe ao leitor emprestar-lhe, segundo seu desejo ou interesse, um princípio ordenador e organizador, especialmente no campo da investigação.

Landow vê, ainda, o hipertexto como capaz de reverter e alterar as noções de hierarquia que separam texto principal de notas de pé de página. Em relação ao hipertexto será sempre principal o texto que se lê em determinado momento. Assim se anula a posição de superioridade do texto principal sobre as notas explicativas ou comentários. Qualquer texto conectado adquire importância total no momento em que é acessado.

Barthes, em "S/Z", como que numa visão premonitória da escrita hipertextual, rompeu com as convenções do uso de notas de pé de página e notas finais, para incorporar informações de difícil inclusão no texto seqüencial. Colocou, assim, em questão a noção hierárquica, entre texto principal em que prevalece o domínio dos argumentos do autor, e os textos subsidiários ou complementares.

Com o hipertexto as anotações ganham nova importância, através de uma experiência textual diferente. As ligações eletrônicas (links) imediatamente destroem esta oposição entre texto e nota, que se manifesta através da aparente supremacia do primeiro em relação à subordinação do segundo, existente no texto impresso. Uma diferença de qualidade, entre os dois tipos de texto, que a página impressa parece realçar, torna-se nula na experiência hipertextual abolindo-se de vez esta relação hierárquica.

Neste sentido, ao ler Foucault, também inferimos sobre o seu posicionamento frente à hierarquia em relação ao texto e seu comentário. Foucault afirma:

"Por ora gostaria de me limitar a indicar que no que se chama globalmente um comentário, o desnível entre texto primeiro e texto segundo, desempenha dois papéis que são solidários. Por um lado permite construir (e indefinidamente) novos discursos: sua permanência, seu estatuto de discurso sempre realizável, o sentido múltiplo ou oculto de que passa por ser detentor, a reticência e a riqueza essenciais que lhe atribuímos, tudo isso funde uma possibilidade aberta de falar. Mas, por outro lado, o comentário não tem outro papel, sejam quais forem as técnicas empregadas, senão dizer enfim o que estava articulado silenciosamente no texto primeiro" (Foucault, 1998, pág. 25).

O hipertexto abala a noção de linearidade, inerente à página impressa. Embora a tendência em relação às estruturas lineares tenha sido menos preponderante na cultura do manuscrito, tornou-se soberana com o advento da prensa. Mesmo que o livro possa ser lido em qualquer ordem, a seqüência linear do texto impresso é sugestiva e controladora e o texto literário, em virtude de sua predisposição para a pluralidade e para o desbordamento, sobejamente pressentidos e amplamente comentados, rompe com tais cânones e outra não é a conclusão que podemos tirar das postulações teóricas pós-estruturalistas no que diz respeito ao mesmo texto. Entretanto, o texto acadêmico assim como a escrita técnica e comercial, têm, ainda, como prevalente, o modelo linear e hierárquico. Acreditamos, porém que, com a difusão, cada vez mais intensa, do uso das redes de computadores estes cânones tendem a perder sua força. À proporção que mais e mais usuários recorram aos textos disponibilizados em rede para efetivar suas consultas, sobre os mais variados assuntos, mais e mais se afirmará a "textualidade informática" como meio de aquisição e estocagem de conhecimentos e é aqui que se situa, em nosso entendimento, o maior potencial do hipertexto, no estágio em que se encontra hoje.