Lançando um rápido
olhar sobre o hipertexto nós podemos visualizá-lo como: efêmero
em suas manifestações, desprovido de limites ou partes definidas,
desenvolvido de forma multilinear de maneira a possibilitar a
passagem instantânea da parte ao todo e vice-versa, sem que nenhuma
das partes se sobreponha às outras.
Um hipertexto
apresenta-se composto por textos verbais e não verbais, como imagens
e sons, possuindo diversificado aparato paratextual na forma de
referências, gráficos, remissões, bancos informacionais, tudo isso
demandando um suporte tecnológico cujo acionamento se faz ao simples
toque de um elemento eletrônico de ligação. E, embora o alcance desta
nova maneira de produção textual não tenha sido amplamente avaliado, os
teóricos do hipertexto têm caminhado em tal direção,
buscando estabelecer pontos comuns entre realidades que se afiguram
como absolutamente distintas quais sejam: o desenvolvimento tecnológico
que torna possível a existência do hipertexto e as teorias do texto que
já se tornaram clássicas e que atribuem ao texto impresso muitas
daquelas características inerentes à textualidade informática.
Entre tais teóricos o trabalho de Jorge Landow ocupa, sem dúvida, um
lugar significativo. O autor em seu livro "Hypertext: the Convergence
of Contemporary Critical Theory and Technology"
(Landow, 1995) procura
desenvolver a tese de que existe uma estreita aproximação entre a
experiência da hipertextualidade, possibilitada pelos avanços da
tecnologia informática e as reflexões das "teorias críticas pós-estruturalistas" sobre a realidade
contemporânea. Landow acredita que o paralelo existente entre o hipertexto
e tais teorias é tão forte que chega a existir entre eles uma
verdadeira convergência.
Isto porque, para Landow, o hipertexto se apresenta como um laboratório
onde as hipóteses sustentadas por alguns teóricos do pós-estruturalismo
poderiam ser testadas. Para o autor o hipertexto se afigura
como um modo de conceber a produção de significados e a organização do conhecimento,
cuja explicitação, proposta através de quadros teóricos se torna,
agora, concretamente possível sob a forma de experimentos textuais
realizados no computador, acontecendo então aquele ponto de
convergência que ele busca apresentar.
Neste sentido Landow acredita que
teóricos como Derrida e Barthes poderiam ser colocados
lado a lado com Ted Nelson e Andries Van Dam, os primeiros pós-estruturalistas
e os segundos ligados à informática, como partilhando de
um mesmo espaço onde são contestados paradigmas conceituais fundados
em idéias como hierarquia e linearidade, os quais vem sendo
substituídos por outros em que se sobrepõem as idéias de
multilinearidade, nós, ligações (links) e redes
(Landow, 1995, pág. 2).
E mais, para ele, os teóricos contemporâneos, cuja preocupação está
centrada em uma revisão das posturas epistemológicas predominantes
no pensamento ocidental, estariam, em última análise teorizando,
também, sobre o hipertexto. Este seria a concretização daquilo que se
produz teoricamente, apresentando-se entre os primeiros e o produto
tecnológico nítidos pontos de encontro relativos ao trato dado à
textualidade, à narrativa e às fronteiras existentes entre o autor
e o leitor.
Embora as propostas e o entusiasmo de Landow devam ser avaliados
com cautela, cumpre reconhecer em seu trabalho uma preocupação em
verificar, na lógica da experiência hipertextual, em que medida suas
características se compõem de elementos novos em relação à lógica da
página impressa, de que forma estas mesmas características nos remetem
a reflexões anteriores acerca da "textualidade gutenberguiana" e, mais
ainda, em que medida este movimento de reflexão pode ser um passo
importante para se pensar o "texto" hoje.
É importante, porém, deixar claro que, ao postularmos com Landow, uma espécie
de "convergência" entre a crítica pós-estruturalista e a experiência
hipertextual não pretendemos atribuir ao hipertexto o condão ou a mágica de revolucionar
a escrita relegando à obsolescência e ao passado os recursos de escrita
de que dispomos, ou seja as "formas físicas" por meio das quais os textos são transmitidos
aos leitores, até porque temos a certeza de que eles têm exercido profunda
influência no processo da construção de sentido.
Tampouco temos em mente buscar para o hipertexto e, mais além, para a própria tecnologia um
"status" mais palatável às Ciências Humanas ao evocarmos, num exercício comparativo, alguns
aspectos teóricos pós-estruturalistas. Este exercício, o que objetiva é abrir outro caminho a ser
trilhado por aqueles que se propõem a refletir sobre a tecnologia no que diz respeito ao tratamento
que patrocina ao texto.
O hipertexto é uma ferramenta tecnológica avançada, é bem verdade uma outra maneira de
disponibilizar o texto aos leitores, e torna possível
uma nova forma de veiculação de idéias. Entretanto, as teorias críticas pós-estruturalistas
vão mais além: não só desmontam os cânones
pelos quais nos regemos habitualmente como, ao fazê-lo, expõem e desnudam os meios
que os sacralizaram nos quais estão cristalizadas noções como hierarquia,
seqüencialidade e linearidade, também desmontadas nas experiências
hipertextuais o que as torna potencialmente capazes de novas construções de sentido.
Num primeiro momento Landow vai buscar, em algumas vertentes do
pensamento de autores como Roland
Barthes e Michel Foucault, argumentos para ilustrar a idéia de
convergência que procura defender. Entretanto acredita ser com
Derrida que a teoria contemporânea encontra seu mais completo ponto
de encontro com a experiência hipertextual como é concebida hoje.
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No que concerne a textualidade, no entender de Landow, Barthes descreve
em "S/Z" um texto ideal que coincide exatamente com aquelas
características que visualizamos como próprias de textualidade
informática.
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"S/Z", como o próprio Barthes viria a dizer posteriormente, se constitui de uma
"coisa verdadeiramente nova para fazer avançar a análise estrutural da narrativa",
uma leitura semiológica da novela "Sarrasine" de Balzac, em que os comentários,
a interpretação e as intervenções teóricas, nascidas dos primeiros, vão tecendo um
texto descontínuo, porém literariamente composto.
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Para Barthes,
"nesse texto ideal as redes são múltiplas e se entrelaçam
sem que nenhuma possa dominar as outras, este texto é uma galáxia de
significantes e não uma estrutura de significados; não tem início;
é reversível e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma
delas possa qualificar-se como principal; os códigos que mobiliza
perfilam-se a perder de vista, eles não são dedutíveis (o sentido nesse
texto nunca é submetido a um princípio de decisão e sim por um
processo aleatório); os sistemas de significados podem apoderar-se
desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua
medida é o infinito da linguagem."
(Barthes, 1992, pág. 39).
Com efeito, o hipertexto eletrônico
compõe-se, como já mencionamos,
de blocos de palavras, ou mesmo de textos, de imagens ou sons
eletronicamente unidos, possibilitando múltiplos trajetos, cadeias ou
caminhos em uma textualidade aberta, eternamente inacabada e descrita
metaforicamente como rede, trama ou teia.
Landow aponta o paradigma de rede como um dos aspectos conceituais em que
teóricos críticos da contemporaneidade e projetistas de hipertextos encontram
seu mais completo sinal de convergência.
Para o autor a acepção de rede, enquanto metáfora referente ao hipertexto, pode
assumir as seguintes nuances: a primeira se refere ao hipertexto como um conjunto
de blocos, nós ou unidades de leitura unidos por uma rede de ligações
(links) e trajetórias, um texto de elementos eletronicamente conectados,
o equivalente eletrônico do texto impresso.
A segunda que vê a rede como um sistema composto por várias unidades de leitura
colocadas juntas por um autor ou a criação de outro texto em que há uma junção
de vários autores compilados por alguém.
Uma terceira nuance, mais tecnológica, apresenta a rede como formada por vários
computadores e cabos em que podem se conectar várias pessoas e, finalmente,
mais próximo da
teoria crítica contemporânea, o quarto sentido que toma a rede como uma totalidade
de termos não acabados, em relação constante com outros termos num processo
contínuo de novas produções discursivas.
O hipertexto tende, pois, a criar um texto aberto, sem fronteiras definidas, que
não exclui nem pode excluir outros textos.
Também Barthes, ao se referir à noção de intertextualidade afirma:
"Qualquer texto é um novo tecido de citações passadas. Pedaços de código, modelos
rítmicos, fragmentos de linguagens sociais, etc, passam através do texto e são
redistribuídos dentro dele visto que sempre existe linguagem antes e em torno
do texto" (Barthes, 1987, pág. 49).
Assim existem conexões importantes entre a noção de intertextualidade e de
hipertexto. A página impressa aponta para a intertextualidade, mas nos
encoraja a pensar o texto como uma estrutura orgânica, com significação
independente. Entretanto, a experiência hipertextual nos dá a oportunidade de
visualizar e explorar a intertextualidade.
A noção de
intertextualidade, surgida na década de 60, se constitui em um
modo de pensar sobre textos e de ler textos, nascido da proposta desconstrucionista
abraçada pelos teóricos e críticos pós-estruturalistas. Para tais autores,
escritores ao criar textos ou usar palavras o fazem com base em todos os outros
textos e palavras com que deparam e os leitores lidam com os textos da mesma
forma. A vida cultural é, pois, entendida como uma série de textos em intersecção com
outros textos que possam tê-lo afetado ou que afetam o próprio crítico ao lê-lo.
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Para os desconstrucionistas este entrelaçamento intertextual tem vida própria, o que quer que
escrevamos transmite sentidos que não estavam ou possivelmente não poderiam estar em
nossa intenção e nossas palavras não podem transmitir somente o que queremos dizer. Assim
sentimos ser vã a tentativa de dominar um texto, porque o perpétuo entretecer de textos e
sentidos está fora de nosso controle; a linguagem como que opera através de quem "escreve"
ou "lê". Desconstruir é pois marcar a intertextualidade procurando um texto em outro,
dissolvendo um texto em outro ou embutindo um texto em outro.
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Referência obrigatória para se pensar a noção de intertextualidade é o trabalho da
especialista em semiótica Júlia Kristeva que foi a primeira a empregar a expressão cuja
raiz latina, o termo "intertexto", se refere, no ato de tecer, ao entrelaçamento dos fios.
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Ao mencionar a intertextualidade em um ensaio publicado nos finais da década de 1960
Kristeva provocou uma espécie de ranhura profunda na idéia cristalizada e estabelecida
sobre o autor como única fonte do texto, afirmando que tanto uma mesa posta para
um jantar como um poema, enquanto sistemas de significantes são constituídos de
sistemas significantes anteriores.
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Uma obra literária sob tal ótica não é simplesmente produto do trabalho de "escritura"
de um único autor, ela nasce de seu relacionamento com outros textos e estruturas
da própria linguagem.
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Para Kristeva qualquer texto é construído em termos de um mosáico de citações,
qualquer texto é a absorção e a transformação de outro.
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Violin, Pablo Picasso
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A noção de intertextualidade leva em conta não só o texto literário, mas todo e qualquer
texto, verbal ou não, sem recorrer aos conceitos tradicionais de autoria. Subvertendo
a idéia do texto como totalidade hermética e auto-suficiente, coloca em seu lugar o fato
de que toda obra literária ocorre efetivamente na presença de outros textos à
semelhança dos palimpsestos. Torna, também, menos claros os contornos do
livro dispersando sua imagem de totalidade em um tecido ilimitado de conexões,
associações, fragmentos, textos e contextos.
À luz da intertextualidade o ato de escrever é sempre uma iteração que também
é uma re-iteração - uma reescrita que traz ou desloca para o primeiro plano textos
ou traços de vários textos de forma consciente ou não.
Também determinantes históricos e sociais são por si mesmos práticas significantes
que podem transformar e flexionar práticas literárias. No que concerne ao leitor, leituras
prévias, experiências e posições do próprio leitor frente à cultura estabelecem, também,
ligações intertextuais.
Landow chama a atenção para um outro aspecto interessante das reflexões teóricas de
Barthes em "S/Z" - as unidades de leitura que o autor denomina "lexias".
Barthes se refere à leitura como um trabalho, um ato lexiográfico até, já que, para ele, ao
lermos estamos escrevendo nossa leitura, encontrando sentidos que possam nos levar
a outros sentidos. Assim, propõe, para a análise do texto classificado por ele de
plural, que se trabalhe de forma a estrelá-lo.
Estrelar o texto é separá-lo em blocos de significação - as "lexias" - que compreendem ora poucas
palavras ora algumas frases - elas são espécies de "envelopes" de volumes semânticos e
procuram "esboçar o espaço estereográfico" da escritura (Barthes,
1992, págs. 44 a 47).
Para Landow as "lexias" de Barthes "perturbam o texto" caminhando além da experiência
de leitura tal como a conhecemos. As passagens do texto que se sucediam umas às outras
numa progressão seqüencial e interrupta assumem com elas maior identidade e individualidade.
No hipertexto as "lexias" podem se ligar a blocos de significação dentro de um mesmo texto,
mas também se associar a textos de outros escritores ou mesmo a textos não verbais
(Landow, 1995, pág. 74). Este movimento de ligação,
marcado na escrita hipertextual, pelas "ligações eletrônicas" (links) torna
ainda mais nítida a intertextualidade, que na página impressa é, antes de tudo, captada.
O texto idealizado por Barthes identifica-se com o hipertexto, também, na medida em
que se caracteriza pela ausência de um início ou fim determinados,
permite um sem número de formas de entrada sem que nenhuma se
sobreponha às outras, abolindo-se qualquer forma de organização
hierárquica.
Lemos
menciona mesmo a existência de uma relação estreita entre o
clicar o mouse, próprio da experiência hipertextual para se
traçar determinados percursos ou trajetos de leitura, e uma espécie de
flânerie, o andar daquele que "observa sem julgar", buscando
marcar o seu espaço. A metáfora do flaneur associada ao
leitor do hipertexto afirma a escrita hipertextual como um outro processo
de concepção em que aquele que lê reescreve, gerando um
novo texto em seu percurso.
E não é outro o sentido que Foucault atribui ao conceito de homem moderno de
Baudelaire:
"O homem moderno não é o homem que sai à procura de si mesmo,
de seus segredos, sua verdade escondida: é o homem que
busca inventar a si mesmo. A modernidade não 'libera o homem em seu próprio
ser'; ela o obriga a enfrentar a tarefa de produzir a si mesmo"
(Eagleton, pág. 282).
A multiplicidade das redes que se entrelaçam e a reversibilidade
de seus pontos de entrada evocam a possibilidade de uma
"flânerie" pelos diversos significados que impregnam este
texto que Barthes, como dissemos, define e classifica como plural, e que
possibilita ao leitor, homem moderno, a invenção de novos sentidos.
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Com relação a esta
pluralidade Barthes nos alerta para estarmos atentos a ela, renunciando
aos cânones retóricos de construção do texto e às explicações
"pedagogisantes", cuja preocupação é sempre o estabelecer conclusões,
fechamentos e classificações.
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"Se quisermos estar atentos ao plural de um texto (por mais limitado
que seja) devemos renunciar a estruturar esse texto em grandes blocos,
como fazem a retórica clássica e a explicação escolar: não há
construção do texto; tudo significa sem cessar e várias vezes, mas sem
delegação a um grande conjunto final, a uma estrutura derradeira"
(Barthes, 1992, pág. 45).
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Voltando a Landow, ao recorrer a Foucault, ele o faz em função da
concepção foucaultiana do texto em termos de redes e interligações.
Para Foucault as fronteiras de um livro nunca estão claramente
definidas em função das referências a que este mesmo livro está
ligado, assim o texto, para ele é preso num sistema de referência
a outros livros, outras sentenças como o nó de uma rede - uma
rede de referências.
Seu próprio projeto de análise arqueológica do conhecimento foi
modelado e executado como uma rede capaz de ligar entre si uma vasta
gama de observações, interpretações e análises, muitas vezes
contraditórias.
Aliás a idéia do texto como rede é também familiar a Barthes que em
"S/Z" faz uma distinção clara entre a literatura como trabalho - objeto
de estudo da teoria literária tradicional e o "texto" que ele se
propõe a estudar. Para ele o produto do trabalho literário se
constitui num corpo de escrita, definido, confinado em um volume,
marcado com o nome do autor - um objeto material sancionado,
revalidado pela tradição que pode ser adquirido nas livrarias e
consultado nas bibliotecas.
O "texto", frente a esta idéia, é uma espécie de rede, de teia de
linguagem que interliga o produto do trabalho literário a outros
discursos, sejam eles literários, críticos ou outros quaisquer.
Nesse sentido o texto, para Barthes, não é um objeto de estudos ou
um produto, mas uma nova atitude, uma atitude que vê a leitura
como uma experiência que se abre em múltiplas direções a fim de
estabelecer ligações com o "mundo de significados sempre em
expansão" (Barthes, 1992, pág. 39).
Como Landow, entendemos que a teoria de Barthes sobre o texto abre caminhos para a
noção hipertextual, a atividade de leitura que ele preconiza - tal
como o hipertexto, adiciona significados em um sistema sempre crescente,
em expansão vital.
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Barthes executa em seu trabalho de análise de Sarrasine, assim como em outros escritos como
"O Prazer do Texto", por exemplo, um movimento de captura do leitor, não só no sentido
de que para o leitor é prazeroso ler o que ele escreve, mas também, e sobretudo, no sentido
de que transforma o prisioneiro em trabalhador do que lê percorrendo os mesmos ou
outros caminhos que, enquanto teórico, ele aponta e abrindo outros.
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"O 'Prazer do Texto' é uma coleção de aforismos: texto estilhaçado, fragmentado,
oferecendo-se à leitura distraída, que pode escolher múltiplas portas para nela
entrar (O texto 'caça' o leitor, diria Barthes, insistindo na metáfora sexual).
As dificuldades surgem quando tentamos, como costumávamos fazer na escola,
'resumir as idéias principais'. Pois não se trata de um saber já constituído,
mas de um conhecimento que se busca, junto ao leitor.
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(O objetivo seria o prazer, o gozo comum do texto? De qualquer forma: o
prazer não implica facilidade, ele é trabalho e procura construção; o prazer
da leitura não se separa do prazer da escritura ...)" (Fontes, 1999, pág. 82).
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Em tal aspecto Barthes também é hipertextual, possibilitando, com sua argumentação,
novos percursos de leitura que adicionam outros significados aos já conhecidos,
o que transforma o leitor em um outro autor, o produtor de texto que a própria reflexão
barthesiana preconiza.
A acepção do termo rede que Barthes utiliza, entendendo-a como uma totalidade
de termos não acabados em contínua relação com outros, em novas produções
discursivas, ele a encontra e nela emaranha seu próprio texto.
Amostra de página da obra Glas de Derrida
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Entretanto, apesar de Barthes ter rejeitado os modos seqüênciais de argumentos,
ele os reteve na forma convencional de um livro impresso.
Derrida, em contraposição, avançou nesse sentido alterando nossa
visão de como o livro deve ser, propondo-nos em "Glas", uma
nova maneira de apresentar o texto.
Com uma disposição não linear o texto derrideano parece registrar mais
adequadamente a experiência do texto contemporâneo, desafiando o
leitor a organizar num novo espaço textual seus percursos de leitura
e busca dos significados. As idéias, propostas em aparente forma de
colagem, se apresentam como que formando uma teia, juntam-se e se
separam em diferentes linhas de significados, informando-se reciprocamente
umas às outras.
O texto derrideano, nítido precursor da escrita hipertextual, é aquele que oferece o
exemplo mais extremo da modalidade crítica pós-estruturalista, deixando tênues todos os limites ou
fronteiras criados pela margem que percorre o texto impresso, pelas idéias de início
e fim que o caracterizam, abrindo espaço para experiências de leitura através
de qualquer direção: intertextuais ou intratextuais, próprias, também, dos sistemas
de hipertextos. Ligações com outros textos fazem com que no texto de Derrida, a
hierarquia da página impressa seja revertida, também, em sua disposição espacial.
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Com efeito Landow vê na obra de Derrida o ponto mais completo de
intersecção e de convergência entre a experiência de escrita
hipertextual e a crítica cultural contemporânea. No entender de Landow
o uso constante que Derrida faz, em seus estudos, de termos como
nexo (liaison), trama (taile), rede (reseau)
e entretecer (s'y tessent), clama pela hipertextualidade,
assim como sua ênfase na abertura textual que torna impróprias as
distinções entre o interno e o externo a um texto dado
(Landow, 1995, pág. 19).
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Segundo Bennington, "em geral Derrida saca seus instrumentos da leitura
dos textos que lê, extrai termos que em seguida devolve para o texto
mesmo que estes ajudam a ler" (Bennington,
1996, pág. 73). Este movimento
"metalingüístico", em que palavras extraídas de um texto se voltam para
explicá-lo gerando um texto novo em muito se assemelham à experiência
hipertextual em que as ligações eletrônicas (links) permitem
este ir e vir explicativo no qual a explicação se constitui na
inserção do leitor no contexto do próprio texto.
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Derrida concebe o texto como sendo composto de unidades discretas
de leitura. Tais unidades, por ele denominadas pedaços
(morceaux) estão aparentemente soltas, mas conectam-se umas
às outras pelas marcas de pontuação como as aspas, colchetes ou
parênteses.
Em "Glas", Derrida busca tal tipo de texto, procura-o, mas face às
limitações impostas pela página só pode apresentá-lo recorrendo a tais
marcas e a uma disposição peculiar da página que consiste em duas
colunas ocupando os lados esquerdo e direito de uma mesma página
impressa.
Do lado esquerdo da página o autor discute a obra de Hegel e explana
temas heglianos. Do outro lado direito o teatro de Jean Genet. Lado
a lado, na mesma página, temas da totalidade, do conhecimento, da
filosofia e da sexualidade, da castração, do excesso se entrelaçam, se
alternam em tipos irregulares e arranjos gráficos especiais. Em "Glas"
um texto leva a outro texto, entretecendo significados distintos, num
jogo texto comentário texto sem que haja separação entre eles.
Não há distância entre o comentário e o texto original, o primeiro
está sempre buscando prolongar as energias associativas que agem nos
textos originais (Connor, 1996, págs. 176 a 178).
Para Derrida o termo "montagem", próprio do cinema, se apresenta como mais
apropriado ao tipo de texto que ele propõe:
Ao apresentar seu texto, com uma espécie de adendo que ele solicita seja
incluído ao livro, pois está aparentemente solto em uma folha à parte, Derrida o
descreve como duas colunas cortadas pelas margens superiores e inferiores
da página. Tais colunas onde estão inscritos: incisos, "tatuagens" e incrustrações,
numa primeira leitura se apresentam como que uma contra a outra como se
não se comunicassem entre si - e isto de um certo modo é verdadeiro quanto ao
objeto, a língua, ao estilo e "à lei".
No entanto, entre os demais textos surge um outro que os penetra, cola e descola,
deslocando-se de um para outro, agenciador de um jogo entre o leitor e os autores -
Glas em decomposição.
Este jogo, podemos percebê-lo claramente na página que escolhemos para
exemplificar a disposição gráfica do texto derrideano e mesmo que
não nos aprofundemos na reflexão sobre seu conteúdo, é
motivador para nossos olhos e para nossa curiosidade estabelecer
ligações entre os diversos fragmentos de textos, dispostos
irregularmente nas duas colunas da página.
"La palavra 'montaje' parece más apta para sugerir
que el tipo de reunión aquí expuesto presenta una estructura tejida,
entremezclada, como una trama, susceptible de permitir a los
diferentes hilos de sentido o líneas de fuerza separarse de nuevo
o bien establecer nuevas conexiones" (Landow,
1995, pág. 21).
Para Landow Derrida está, dessa forma, inconscientemente teorizando
sobre o hipertexto, pois assim como o texto "Glas", a textualidade
informática torna obsoleta a convenção linear do texto impresso
para substituí-la por uma interligação mais complexa e multilinear.
Assim como o hipertexto permite ao leitor escolher múltiplos percursos
através de um texto, o texto derrideano de "Glas" abole os argumentos
lineares, o olho do leitor é constantemente solicitado a movimentar-se
pela página na busca de conexões visuais e verbais aparentes que
façam a ligação entre os pensamentos de Hegel e Genet.
Na obra "A Estrutura, o Signo e o Jogo no Discurso das Ciências Humanas"
Derrida aborda um outro aspecto, o do descentramento
que se apresenta, segundo ele, como fundamental para a reformulação
do pensamento ocidental. No que concerne à experiência hipertextual,
suas características de mobilidade e instantaneidade incitam também
à reflexão sobre a ausência de centro ou mais corretamente sobre seu
deslocamento constante:
"No he dicho que no haya centro ni que podríamos sair adelante sin
centro. Para mí, el centro es una función, no un ente; una realidad,
sí, pero una función. Y ésta es absolutamente indispensable"
(Landow, 1995, pág. 25).
Para Derrida a questão que se coloca não é a de que a idéia de
centro tenha deixado de existir, mas que este deve ser visto como
função e, neste caso, é absolutamente indispensável.
No hipertexto, em razão do espaço aberto de sua textualidade, o centro
não pode ser localizado em nenhum ponto exato, mas pode demarcar-se
em determinado ponto, entre infinitos, desde que o leitor, em
um dado momento, o escolha como tal:
"o centro de coerência hipertextual é o leitor" (Sayeg).
O hipertexto provê, assim, um sistema infinitamente recentrável,
porque o foco depende do leitor, sendo uma de suas
características fundamentais o fato de ser constituído por vários
textos, verbais ou não, ligados entre si, sem um eixo de organização
estabelecido a priori; cabe ao leitor emprestar-lhe, segundo seu
desejo ou interesse, um princípio ordenador e organizador, especialmente
no campo da investigação.
Landow vê, ainda, o hipertexto como capaz de reverter e alterar as
noções de hierarquia que separam texto principal de notas de pé de
página.
Em relação ao hipertexto será sempre principal o texto que se lê
em determinado momento. Assim se anula a posição de superioridade
do texto principal sobre as notas explicativas ou comentários.
Qualquer texto conectado adquire importância total no momento em
que é acessado.
Barthes, em "S/Z", como que numa visão premonitória da escrita hipertextual, rompeu com
as convenções do uso de notas de pé de página e notas finais, para
incorporar informações de difícil inclusão no texto seqüencial. Colocou,
assim, em questão a noção hierárquica, entre texto principal em que prevalece
o domínio dos argumentos do autor, e os textos subsidiários ou complementares.
Com o hipertexto as anotações ganham nova importância, através de uma
experiência textual diferente. As ligações eletrônicas (links)
imediatamente destroem esta oposição entre texto e nota, que se
manifesta através da aparente supremacia do primeiro em relação à
subordinação do segundo, existente no texto impresso. Uma diferença de
qualidade, entre os dois tipos de texto, que a página impressa parece
realçar, torna-se nula na experiência hipertextual abolindo-se de vez esta
relação hierárquica.
Neste sentido, ao ler Foucault, também inferimos sobre o seu posicionamento
frente à hierarquia em relação ao texto e seu comentário. Foucault afirma:
"Por ora gostaria de me limitar a indicar que no que se chama globalmente
um comentário, o desnível entre texto primeiro e texto segundo, desempenha dois
papéis que são solidários. Por um lado permite construir (e indefinidamente) novos
discursos: sua permanência, seu estatuto de discurso sempre realizável, o
sentido múltiplo ou oculto de que passa por ser detentor, a reticência e
a riqueza essenciais que lhe atribuímos, tudo isso funde uma possibilidade aberta
de falar. Mas, por outro lado, o comentário não tem outro papel, sejam quais
forem as técnicas empregadas, senão dizer enfim o que estava articulado
silenciosamente no texto primeiro"
(Foucault, 1998, pág. 25).
O hipertexto abala a noção de linearidade, inerente à página
impressa. Embora a tendência em relação às estruturas lineares tenha
sido menos preponderante na cultura do manuscrito, tornou-se
soberana com o advento da prensa. Mesmo que o livro possa ser lido em
qualquer ordem, a seqüência linear do texto impresso é sugestiva e
controladora e o texto literário, em virtude de sua predisposição para a pluralidade
e para o desbordamento, sobejamente pressentidos e amplamente comentados,
rompe com tais cânones e outra não é a conclusão que podemos
tirar das postulações teóricas pós-estruturalistas no que diz respeito
ao mesmo texto. Entretanto, o texto acadêmico
assim como a escrita técnica e comercial, têm, ainda, como prevalente, o modelo
linear e hierárquico. Acreditamos, porém que, com a difusão, cada vez mais intensa,
do uso das redes de computadores estes cânones tendem a perder sua força.
À proporção que mais e mais usuários recorram aos textos disponibilizados em rede para
efetivar suas consultas, sobre os mais variados assuntos, mais e mais se
afirmará a "textualidade informática" como meio de aquisição e estocagem de
conhecimentos e é aqui que se situa,
em nosso entendimento, o maior potencial do hipertexto, no estágio em que se
encontra hoje.