Labirintos, é claro, não têm
saída, a menos que encontremos o seu segredo, reconheçamos
as suas encruzilhadas e tenhamos o fio que nos conduza por seus
trajetos. Ao usarmos a metáfora do labirinto para
introduzir nosso estudo sobre o hipertexto temos como objetivo
desvendar os segredos, percorrer os trajetos, marcar
encruzilhadas e confluências de uma linguagem nascente,
aquela usada na comunicação, através do
hipertexto disponível na Internet, tendo como fio condutor
uma reflexão que nos permita encontrar saídas sem
que nos percamos em críticas estabelecidas a priori
ou em deslumbramento equivocado, mapeando as suas possibilidades
e limitações.
Entendemos que esta nova linguagem propicia uma
nova maneira de escrever e ler, abre caminhos para uma
escritura-leitura não linear em que, à maneira das
histórias de As 1001 Noites, na verdade infinitas,
cada palavra pode ser o elo para um novo texto ou imagem, para
uma nova história sobre o mesmo assunto, sob outro
enfoque. Assim infinitas portas vão se abrindo no sentido
de se aprofundar ou se ampliar conhecimentos sobre determinado
tema à semelhança de um labirinto que se abre em
novas salas e estas, por sua vez, conduzem a passagens que se
abrem em outras, à semelhança, também, de um
contador de histórias ou uma Princesa Sherazade que se
dispõem a "contar outra" a cada "link"
(interconexão ou nexo) ou palavra motivadora.
As razões que direcionaram nosso
interesse para este tema se relacionam à visão de
que cabe, não só àqueles envolvidos com as
áreas tecnológicas, mas a todos aqueles
que se dedicam à produção e transmissão do conhecimento,
até porque este se encontra, hoje, no cerne das discussões,
reconhecer a existência desta nova linguagem, refletir
sobre ela, analisando-a sob os mais diversos aspectos e
procurando verificar as mudanças que pode acarretar para o
mundo do conhecimento, seja para sua transmissão, aquisição ou geração.
Sabe-se que a partir da segunda metade da década
de sessenta, com a expansão do uso dos eletro-eletrônicos
e sua conseqüente aplicação no ensino, alguns
educadores se apresentaram, inicialmente, otimistas e
entusiasmados para manuseá-los em sala de aula, entretanto
por despreparo para enfrentar a mediação dos
áudio-visuais, pela ausência de uma análise
crítica que avaliasse seu alcance, problemas, limitações
e, sobretudo, imposições mercadológicas não
colheram os resultados esperados. Outros, exageradamente céticos,
até mesmo preconceituosos, se postaram absolutamente
contrários a quaisquer outros recursos que não o
livro e a lousa.
Estas posturas, uma e outra, de forma bastante
significativa no caso brasileiro, postergaram, com raras exceções
por parte dos educadores, a discussão sobre as denominadas
"tecnologias educacionais", na qual se insere o
trabalho a que nos propomos.
Hoje, quando o tema volta a ocupar o centro das atenções,
não há como deixar de tomar
uma posição frente à aplicação,
cada vez mais ampla, de uma enorme gama de recursos eletrônicos
na educação, sejam eles da eletrônica
espetáculo como a televisão, o cinema, a música,
os jogos, sejam eles da eletrônica informática como
os computadores, cuja tecnologia possibilita o hipertexto a que
nos dedicaremos, as calculadoras e aparelhos programados.
Tais recursos, com enorme rapidez, vêm
ocupando mais e mais espaço dentro da sala de aula e fora
dela no intuito de fornecer informações cada vez
mais completas e abrangentes num espaço de tempo cada vez
mais reduzido, superando distâncias cada vez maiores entre
aquele que ensina e aquele que aprende.
Os programas de educação
continuada e à distância, por exemplo, até
algum tempo atrás, dependentes de postagem, por isso mesmo
lentos e complexos, em nossos dias, graças à
televisão, aos aparelhos de vídeo e, mais
recentemente, graças aos computadores conectados em rede,
possibilitam aos alunos acessar, quase que instantaneamente, um
sem número de conhecimentos.
É importante anotar, ainda, que a
tendência dos recursos da eletrônica espetáculo
e informática é uma intercomplementariedade cada
vez mais intensa, adequando ao texto sons, imagens e animações,
configurando-se, hoje, o que se prenunciava nos anos 80, pois a
Informática, até então restrita aos usos
técnicos e industriais, passou a fundir-se com as
telecomunicações, a editoração, o
cinema e a televisão.
Assim as tecnologias eletrônico-digitais
colocam-se em nossos dias como infra-estrutura do ciberespaço
- novo espaço de comunicação, de
sociabilidade, de organização e de transação,
mas, ao mesmo tempo, novo mercado de informação e
de conhecimento (Lévy, 1999).
Não há, porém, porque
deslumbrar-se com o nível de sofisticação
das modernas tecnologias em um país como o Brasil que, em
plena virada do milênio, apresenta, lado a lado,
computadores de alta geração e um elevado índice
de analfabetismo. Considerações como esta merecem e
estão clamando por uma discussão mais aprofundada,
pois, se não temos como nos impedir de constatar que a
eletrônica, de uma maneira geral, vem moldando, em parte
desta geração, um novo padrão de
comportamento cultural, enorme parcela da população
se encontra completamente alijada das ações
educativas. Mais ainda, diante dos avanços tecnológicos,
é necessário e urgente repensar a própria
educação tendo presentes as mudanças,
redimensionando, mesmo, os limites e formas do saber que a ela
compete estimular e transmitir.
Sem sombra de dúvidas, a grande
disseminação da tecnologia está alterando,
de modo impressionante, nosso modus-vivendi. Postula-se até
a necessidade de uma verdadeira "alfabetização
áudio-visual" a ser ministrada pela escola, tal a
carga de comunicação,
a que estão expostos crianças e jovens. Entretanto,
como afirmamos anteriormente, há que se pensar a questão,
também, sob outro prisma: no que diz respeito à
tecnologia, nossa história de colonizados nos situa, por
um lado, numa posição de dupla subordinação,
enquanto consumidores e usuários de produtos prontos,
acabados, dos quais, a maioria das vezes, desconhecemos os
princípios básicos. Por outro lado, o aumento e o
uso pouco crítico, quase que desenfreado, do aparato
tecnológico em projetos educacionais, em nosso país,
evidencia, ainda mais intensamente, o contraste entre bolsões
altamente desenvolvidos, onde a sofisticação
tecnológica se impõe em níveis de primeiro
mundo e regiões em que a pobreza clama pelo mais básico.
É importante, sim, que a tecnologia seja
tema de debates, mas que, ao mesmo tempo, se encaminhe, também,
uma discussão sobre os problemas existentes em lugares
onde ela não está, estes talvez mais angustiantes
e, porque não dizer, relacionados à supremacia dos
lugares onde ela está.
O que nos cabe é procurar pensar o
hipertexto, enquanto recurso ligado às novas tecnologias
aplicadas à educação, deixando
claro, porém, o seguinte: por parte daqueles envolvidos de
forma mais direta no processo educacional, proclamar os avanços,
cada vez mais rápidos, das novas tecnologias e de suas
implicações, cada vez maiores, no campo pedagógico,
em detrimento da discussão de problemas candentes como o
analfabetismo, por exemplo, é impedir uma reflexão
mais abrangente no que diz respeito à educação
brasileira.
Neste sentido, ao assumirmos o estudo do
hipertexto como tema de nosso trabalho temos presente a
possibilidade de, através dele, acrescentar um dado
àquele debate realizando um movimento que busque situar o
avanço tecnológico em nosso contexto educacional.
Sabemos, porém, que uma das grandes
dificuldades de se escrever sobre hipertexto, além do
ainda limitado número de estudos existentes sobre o
assunto em nosso país, é transpor a sua
característica virtual, sua escrita não seqüencial,
vinculada a um recurso tecnológico específico - o
computador, ao formato linear da página convencional.
Desta forma, com o intuito de adentrar o labirinto hipertextual,
para explorá-lo, desvendando seus segredos, optamos por
elaborar um hipertexto sobre o hipertexto em que
conteúdo e forma, tema e seu tratamento se
intercomplementam e se constituem num todo em mútua
explicitação, à luz de uma abordagem de
caráter recursivo. Tal abordagem se nos afigura como das
melhores para orientar nossa reflexão frente às
indagações de diferentes ordens que o próprio
hipertexto nos coloca:
- indagações de ordem técnica,
para as quais as respostas são, a nosso ver, mais
facilmente encontradas, posto que a informática vem sendo
o objeto sobre o qual se debruçam um sem número de
pesquisas;
- indagações de ordem
pedagógica, cujas respostas se relacionam à
mediação do computador para a transmissão e
aquisição de conhecimentos e, neste sentido, está
a preocupação com o "saber usar", o
conhecer o meio tecnológico estabelecendo os seus limites
e possibilidades;
- indagações relacionadas à
sua natureza enquanto produto cultural. Indagações
desta ordem situam-se no campo do "saber fazer" e nos
levam a verificar o hipertexto no momento em que se apresenta
como uma nova forma de escrita e de leitura patrocinada pelo
recurso à tecnologia informática.
É, pois, no estabelecimento de uma
confluência entre as possíveis respostas às
indagações do "saber usar" que se
relaciona com o conhecimento e a aplicabilidade de uma outra
linguagem - a linguagem hipertextual - e do "saber fazer",
estas últimas centradas em suas possíveis relações
com a teoria cultural, especialmente postulações de
autores que enfatizaram a idéia de "texto" que
nosso trabalho se situa.
Pretendemos com esta confluência elaborar
uma reflexão e uma conseqüente discussão que
caminhem no sentido de verificar realmente as possibilidades de
relacionamento entre a existência e natureza do hipertexto
e as propostas de alguns dos teóricos pós-estruturalistas.
Tal relacionamento pode, conforme estudos recentes sobre os quais
tecemos considerações em nosso trabalho, imprimir
ao hipertexto o caráter de concretização de
algumas das formulações teóricas dos
pós-estruturalistas em relação ao texto
impresso e ainda auxiliar a compreensão, principalmente
por parte dos estudantes e interessados em trabalhos sobre a teoria do texto,
daquelas mesmas formulações.
Pretendemos, também, que tal reflexão
avance para uma análise cuidadosa das postulações
daqueles autores e de outros que trabalharam com a noção
de entrelaçamento intertextual, buscando esclarecer as
razões pelas quais tanto teorias informáticas, como
teorias culturais se posicionam no sentido de que se deve deixar
de lado sistemas conceituais baseados nas noções de
centro, hierarquia e linearidade e substituí-los por
outros baseados na multilinearidade, nos nexos e redes. Esta
mudança de paradigmas terá, segundo Landow,
profundas repercussões tanto na literatura como no ensino
(Landow, 1995, p. 14).
Há, pois, muitos pontos de interesse que
justificam o estabelecimento de paralelismos entre a teoria
cultural e o hipertexto, como vários trabalhos na área
vêm atestando. O mais importante deles, em nossa forma de
entender, é o surgimento de um novo enfoque para o estudo
e a compreensão do texto contemporâneo.
Quanto às possíveis respostas de
ordem pedagógica, buscamos avaliar o hipertexto, em sua
aplicabilidade para o campo do ensino e da aprendizagem, enquanto
criador de oportunidades para que o estudante descubra, em um
assunto a ser estudado, aquilo que mais lhe interessa, escolhendo
seu próprio trajeto hipertextual, pois é
sobejamente conhecido o papel fundamental do envolvimento do
aluno no processo de aprendizagem. Quanto mais ativamente uma
pessoa participar da aquisição de um conhecimento,
mais ela irá reter aquilo que aprender. O hipertexto,
graças à sua dimensão reticular, não
linear, favorece uma atitude exploratória, ou mesmo
lúdica, face ao conteúdo a ser assimilado, suas
possibilidades interativas convidam à ação e
à participação de quem aprende através
dele e, no caso específico do planejamento didático, motiva
e demanda a ação interdisciplinar e o trabalho cooperativo pois envolve diferentes
áreas para um esforço conjunto de troca de experiências.
Voltando à metáfora do labirinto,
para estabelecermos aquele ponto de encontro entre o "saber
fazer" e o "saber usar" o hipertexto, lançamos
mão de alguns recursos:
-
a noção de
trajetos que, tanto para o labirinto, como para a natureza do
hipertexto, tem sentido essencial;
-
a edição de texto no padrão html
que faculta ao leitor usuário o acesso aos primeiros;
-
a justaposição de textos afins, lado a lado em
algumas páginas, no texto impresso, à semelhança do texto
derrideano "Glas".
Os trajetos, segundo teóricos do
hipertexto, se constituem em diferentes possibilidades de
ligações, entre blocos de textos, gráficos,
sons ou imagens interligados, através de links
eletrônicos, de que o leitor pode fazer uso, de acordo com
seu interesse, para acessar as informações que mais
lhe convenham, criando, dessa forma, seu próprio texto
(Snyder, 1996, 9).
A edição deste estudo no padrão
html - o hipertexto sobre o hipertexto -
tornará mais visível aquela intercomplementariedade
entre forma e conteúdo, a que fizemos menção,
permitindo ao leitor, ao mesmo tempo que lê "sobre",
vivenciar a experiência hipertextual a que se referem os
trajetos que porventura escolher. A opção do leitor
por um determinado trajeto supõe seu interesse ou
envolvimento por este ou aquele tema, por este ou aquele aspecto
de um determinado assunto. Por sua vez este interesse intelectual
ou afetivo é que orientará as escolhas feitas e
dará origem a um novo texto - o texto do leitor.
Ao organizarmos nossos trajetos, cujas ligações
nos parecem melhor responder às indagações
do hipertexto, nós os apresentamos como sugestão ao
leitor que poderá segui-los na ordem que melhor lhe
convier ou mais lhe interessar, acionando as palavras ou
expressões-âncora correspondentes.
Em uma versão impressa o trabalho assume
a feição de pequenos ensaios, de certa forma,
independentes. Entretanto, o recurso aos trajetos de livre
escolha do leitor imprimem ao estudo realizado o caráter
de experiência hipertextual que se constitui um de nossos
objetivos.
Os trajetos que procuramos apresentar refletem
os rumos que nossos estudos sobre o hipertexto foram tomando à
medida que buscávamos respostas às indagações
que nos fizemos e que o próprio tema nos colocou. Assim
traçamos um percurso dos aspectos tecnológicos do
hipertexto retrocedendo às pesquisas e propostas que estão
em suas origens. Procuramos mapear as características de
nossa contemporaneidade em que o hipertexto se insere, enquanto
produto cultural, para tanto percorremos os caminhos da
modernidade até o Iluminismo, cujos princípios
regem ainda, em muitos aspectos, nosso viver.
Traçamos, também, um
percurso sobre a própria idéia de texto, desde
sempre um espaço de desbordamento em que, muitas vezes,
comentários se incorporaram ao texto original. Alcançamos
o texto, hoje, à luz da noção de
intertextualidade,
como em constante entrelaçamento com
outros textos, relacionando a noção de hipertexto
com as postulações de alguns teóricos
pós-estruturalistas.
Finalmente traçamos um
percurso sobre as tecnologias educacionais relacionadas à
sua aplicabilidade partindo da perspectiva de que o hipertexto
pode ser um dos caminhos para se repensar a educação à
luz da teoria cultural que coloca em questão, não só
o conhecimento que cabe à escola transmitir, mas todos
os princípios sobre os quais a instituição escolar foi montada.