Escrita e tecnologia

 




Difícil, quase impossível, refletir sobre escrita e tecnologia sem nos remontarmos ao texto clássico, aos Diálogos de Platão, mais especificamente ao Fedro.

Em uma das passagens do diálogo, descrita pelo filósofo, Sócrates narra ao discípulo a visita de Theuth, o deus das invenções, a Thamus, rei do Egito. Dentre suas numerosas invenções, das quais expõe as vantagens ao rei, que as vai aprovando ou não, Theuth fala sobre a escrita, para ele uma receita segura para a memória e a sabedoria dos egípcios. O faraó posiciona-se contrário à invenção argumentando:

"Theuth, meu exemplo de inventor, o descobridor de uma arte não é o melhor juiz para avaliar o bem ou o dano que ela causará naqueles que a pratiquem. Portanto, você, que é pai da escrita, por afeição ao seu rebento, atribui-lhe o oposto de sua verdadeira função. Aqueles que a adquirem vão parar de exercitar a memória e se tornarão esquecidos; confiarão na escrita para trazer coisas à sua lembrança por sinais externos, em vez de fazê-lo por meio de seus recursos internos. O que você descobriu é a receita para a recordação, não para a memória ..." (Platão).

Entre os gregos combinar os termos téchne (arte, destreza) e logos (palavra) orientava o discurso sobre o sentido e a finalidade das artes - técnica e arte no mundo grego possuíam apenas uma pequena distinção, a téchne não era uma habilidade qualquer e requeria o uso de certas regras. Heródoto, o primeiro a definir o termo téchne, apresenta-o como um "saber fazer de forma eficaz" e, segundo Platão, seu sentido diz respeito à "realização material e concreta de algo". A natureza inteligente do homem permite-lhe transformar pela téchne a realidade natural em uma realidade artificial com a finalidade de sua subsistência e proteção. Conforme Aristóteles, a téchne é superior à experiência, mas inferior ao raciocínio. Entretanto demanda este último. Em relação ao conhecimento, enquanto a epistéme era para os gregos um conhecimento teórico a téchne era um conhecimento prático, com vistas a um objetivo concreto.

Na Idade Média o termo ars era empregado com a mesma acepção da téchne grega, porém a ars mechanica foi aos poucos assumindo as características do termo técnica tal como o entendemos hoje.

Na Idade Moderna a técnica foi incorporada ao saber (ciência). Esta fusão abriu um novo espaço de conhecimento - a tecnologia - uma técnica que emprega conhecimentos científicos e que, por sua vez, fundamenta a ciência, quando lhe dá uma aplicação prática. A tecnologia é então o conhecimento aplicado.

O grande debate que se trava hoje em relação à tecnologia diz respeito, especificamente, às distorções que a institucionalização da ciência moderna impôs ao distinguir a ciência pura da ciência aplicada, facultando a esta última o uso benigno ou perverso do conhecimento. Esta distinção além de reafirmar a falácia da "neutralidade científica" ignora que a tecnologia, independetemente dos benefícios ou malefícios que acarreta, vai criando um novo ambiente humano, mudando a própria sociedade. Neste sentido a tecnologia é um processo "ambivalente" de desenvolvimento suspenso entre duas possibilidades. Esta ambivalência distingue-se da neutralidade pelo papel que atribui aos aspectos sociais e não somente ao simples uso dos sistemas técnicos (Sancho, 1998, pág. 29-33). E, avançando mais ainda deve-se entender que a interação dos indivíduos com a tecnologia tem transformado profundamente os próprios indivíduos, produzindo novos sujeitos com novas e diferentes capacidades e habilidades. Entretanto, estas trasnformações precisam ser focalizadas dentro de sua própria lógica e não como desvios ou carências no que diz respeito às tecnologias que as precederam. No caso das novas tecnologias de comunicação não podem ser vistas como regressão em relação a outras formas históricas de produção e transmissão cultural (Silva, 1996, pág. 194-195).

O temor em relação ao novo faz parte da história do homem, pois o surgimento de qualquer dispositivo tecnológico tende a ameaçar de destruição e desuso competências adquiridas, descobertas anteriores ou objetos existentes a que são atribuídos valores sagrados e insubstituíveis e, sob tal prisma, a preocupação do faraó em relação à escrita, conforme o ensinamento de Sócrates a seu discípulo, parece compreensível.

Para Thamus a escrita se apresentava como perigosa, pois poderia diminuir os poderes da mente, patrocinando aos homens um arremedo de memória, uma memória cristalizada. Como se, pensando na mente em exercício e olhando para uma superfície escrita o faraó dissesse: "isto vai matar aquilo".

O texto de Platão é evidentemente irônico e atribui a Sócrates argumentos contra a escrita que, de certa forma apresentam dela uma visão unilateral, pois toda e qualquer inovação tecnológica, como Postman afirma, tanto é um fardo como uma benção: não uma coisa ou outra, mas sim isto e aquilo (Postman, 1994, pág. 14). Assim compete-nos refletir não somente sobre malefícios ou benefícios que acarreta, mas, particularmente, sobre as mudanças que ocasiona na percepção que passamos a ter da realidade e, no caso específico do computador, nas modificações, entre outras, que tem acarretado seja em nossa maneira de pensar seja em nossa forma de aprender.

Segundo Perrone Moysés (Apêndice "Lição de Casa" da tradutora in Barthes, 1980), "o francês tem uma única palavra para representação da fala ou do pensamento por meio de sinais: écriture. Assim, em expressões como apprentissage de l'écriture ou écriture cunéiforme, aparece a mesma palavra que Barthes usa para se referir a algo particular: "L'écriture est ceci: la science des juissances du langage, son Kamasutra." Evidentemente, na frase barthesiana, não se trata da mesma écriture que as crianças aprendem na escola, ou daquele que os grafólogos estudam" (a escrita a que nos referimos aqui em termos de tecnologia).

 

"Ora, em português, dispomos de duas palavras: escrita e escritura. E podemos aproveitar essa riqueza léxica traduzindo as expressões do parágrafo anterior, respectivamente 'aprendizagem da escrita', 'escrita cuneiforme', e 'a escritura é isto: a ciência dos gozos da linguagem, seu Kamasutra'. ... Toda escritura é portanto uma escrita: mas nem toda escrita é uma escritura, no sentido barthesiano do termo.

 

Usamos aqui o termo escrita para designar palavras usadas como instrumento e não no sentido barthesiano de escritura em que ele se refere à 'escrita' do escritor em que as palavras são 'postas em evidência, encenadas, teatralizadas como significantes'" (Perrone Moisés in Barthes, 1980, pág. 75).

 

É interessante salientar que Derrida referindo-se ao termo "écriture" afirma: "On tend maintenant à dire 'écriture' pour ... désigner non seulment les gestes physiques de l'inscription littérale, pictographique ou ideographique, mais aussi la totalité de ce qui la rend possible; puis aussi, au dela de la face signifiante, la face signifiée elle même; par la tout ce que peut donner lieu a une inscription en général, qu'elle soit ou non littérale et même si ce qu'elle distribue dans l'espace est étranger à l'ordre de la voix: cinématographie, chorégraphie, certes, mais aussi 'écriture' picturele, musicale, sculpturale, etc" (Derrida, 1967, pág. 19).

 

Neste texto em que relacionamos escrita e tecnologia, tomamos como acepção do termo o sentido a que Perrone Moisés faz referência: a escrita para designar palavras usadas como instrumento.

Absolutamente distante em tempo e espaço do universo platônico, no romance "O Corcunda de Notre Dame", cuja história se passa no século XV, pouco tempo depois da invenção da prensa, Victor Hugo, apresentou um dos personagens o sacerdote Claude Frollo, apontando seu dedo primeiro para um livro e a seguir para as torres da catedral dizendo: "ceci tuera cela" - o livro vai matar a catedral - o alfabeto vai matar as imagens. O gesto de Frollo torna evidente a estreita e indissolúvel relação existente entre a história do desenvolvimento da escrita - dos dispositivos através dos quais um texto é proposto - e as mudanças ocorridas, através dos tempos, nas práticas de leitura e apreensão dos sentidos posto que estas últimas é que dão sentido e razão àquele.

Ora, na época medieval a catedral era, através de suas imagens, a maneira de transmitir às massas as histórias bíblicas, a vida de Cristo e dos santos, os princípios morais, bem como fatos históricos e noções elementares de Geografia e Ciências Naturais, pois os manuscritos raros e dispendiosos destinavam-se somente a uma pequena elite alfabetizada geralmente ligada ao clero e à nobreza. As catedrais, com suas imagens imutáveis, ensinavam ao povo as noções indispensáveis à vida cotidiana e à salvação eterna.

O medo de Frollo, personagem de Hugo, em relação aos livros era que estes encorajassem a curiosidade e a difusão de informações não essenciais, patrocinando livre interpretação das escrituras e alterando os valores estabelecidos. Isto realmente aconteceu: a invenção dos tipos móveis de Gutenberg produziu a livre interpretação da Bíblia, arruinou os calígrafos e causou a aparição de uma nova pedagogia fundada sobre os livros, objeto de temor do personagem do romancista francês.

Voltando à história recente, nos anos 60 o livro "Galáxia de Gutenberg" de Marshall McLuhan parecia anunciar, de forma profética, o fim do pensamento linear inaugurado pela invenção da imprensa. Segundo o autor esta forma de pensar seria substituída por outra, mais global, estimulada pelas imagens da TV ou outros dispositivos eletrônicos.

Seus leitores provavelmente apontaram para a TV e, a seguir, para o livro dizendo: isto vai matar aquilo. A mídia celebrou, então, o fim da alfabetização funcional. Muitos autores, entre os integrados de Umberto Eco, chegaram mesmo a preconizar a necessidade urgente de uma alfabetização para a imagem tal a carga de informações meramente visuais que passou a ser veiculada através dos diferentes meios de comunicação. Mas a televisão não apagou o alfabeto e nem mesmo o computador, muito mais elaborado em termos de tecnologia e que a sucedeu no centro das atenções, foi agente de tal façanha.

Certamente o computador é um instrumento através do qual podemos editar imagens e, na maioria das vezes, suas instruções são fornecidas por ícones, mas é também certo que o computador se constitui, antes de tudo, num meio alfabético - na sua tela aparecem linhas com palavras e para usá-lo você deve ser capaz de escrever e ler.

Assim, se a tela da TV se apresenta como uma janela para o mundo em forma de imagens, a tela do computador se apresenta como "um livro" no qual se lê o mundo na forma de palavras e páginas, seqüenciais nos computadores clássicos, mas multidimensionais com a escrita hipertextual.

Apesar de tudo, até bem pouco tempo, antes da difusão dos computadores, ao uso da escrita, e estamos aqui atribuindo ao termo o sentido instrumental das palavras, emprestávamos muito mais as características de habilidade da téchne grega do que da tecnologia como a entendemos hoje, embora a prensa mecânica, absolutamente revolucionária em seu tempo e a máquina de escrever, bem mais recente, sejam facilmente identificáveis como instrumentos tecnológicos de escrita em função dos artefatos mecânicos que as impulsionam.

A tradição, como sabemos, aprisionada aos rolos de papiro e aos pergaminhos manuscritos eles também tecnologias de escrita, mas exigentes em termos do domínio de determinados processos, demandando enorme conhecimento na manipulação e manuseio de produtos derivados de plantas e animais como as tintas, as penas e o próprio papiro, contribuiu para sacralizar como habilidade de poucos a tarefa de desenhar caracteres e produzir os textos que viriam a constituir os livros. Da mesma forma a expressão "sagradas escrituras", referente aos textos bíblicos, estes durante longo tempo posse exclusiva da igreja, se apresenta como manifestação deste ofício tido como sagrado a que apenas alguns escolhidos tinham acesso. Esta sacralização também se fazia presente na plasticidade e beleza das iluminuras, componente essencial das transcrições das Sagradas Escrituras e Livros de Horas.


Megillat Esther, Itália, século XV

E, mesmo que a prensa mecânica da qual "conhecemos as gigantescas transformações que provocou" (Benjamin, 1994, pág. 66) tenha tornado possível a duplicação e produção de múltiplas cópias idênticas aos melhores manuscritos e que este processo tenha, no século XX, atingido o máximo de rapidez com a impressão automática, foi o computador, através dos processadores de texto e editores de hipertexto, que adicionou à tecnologia da escrita maior flexibilidade e eficiência individual na maneira de gerar e imprimir textos. Os processadores tornaram, então, mais nítida a visão da escrita em termos de tecnologia, facultando a muitos o que era restrito a um pequeno número de "competentes técnicos", como os tipógrafos, impressores e encadernadores: a capacidade de gerar e duplicar, rapidamente, experiências textuais.

Com efeito, o aparecimento do hipertexto na vida cultural torna mais claro e evidente o fato de que muitos dos aspectos que consideramos "naturais" nos textos impressos a que estamos habituados são fruto da tecnologia que os torna possíveis, pois grande parte das características e condicionamentos da técnica de impressão se aderiram de maneira tão forte ao estritamente literário (no sentido de escrita do escritor) que literatura e página impressa chegam a constituir-se um amálgama dificilmente diferenciável. O que permanecia oculto, sob os condicionamentos patrocinados pelo meio, agora se revela em uma faceta tecnológica, ao passar para uma nova forma - a hipertextual - e para um novo meio - o digital. Quer dizer, os limites que os textos literários, em sua grande maioria, respeitam como previamente traçados não são, em sua totalidade, absolutos mas determinados pelo meio em que os mesmos textos são processados (Aguirre). Neste sentido, a escrita eletrônica representa o maior avanço na tecnologia da escrita desde a invenção dos livros impressos.

É interessante observar que os estudos sobre a história do livro (que é também a história da escrita) têm privilegiado a visão de suas técnicas e descobertas sem levar em conta a influência e a relação destas últimas com o produtor do texto, com seu autor, cuja história, quando não é ignorada, é deixada sob a responsabilidade de outros especialistas - os críticos literários. Em contraposição é importante verificar que poucos teóricos da literatura refletiram, ou mesmo enfrentaram o mais importante modo de produção literária, aquele que depende das tecnologias de escritura e impressão até porque, se a imprensa não criou escritores, eruditos, críticos e historiadores da literatura, redefiniu seus papéis e aumentou seu número e importância.

Entre as mudanças patrocinadas pela invenção da imprensa diferentes investigadores assinalam a produção, nas disciplinas humanísticas, do que entendemos hoje por erudição e crítica. Com efeito, com o invento de Gutenberg estudiosos, que se dedicavam às artes de copiar e comentar os textos antigos, foram liberados de sua função principal de preservação das informações, estas facilmente sujeitas a se perderem pelo uso e deterioração dos frágeis manuscritos. Ao lidar com os livros aqueles mesmos estudiosos e os que os sucederam puderam desenvolver novos modos de trabalho e propriedade intelectual, já que os livros permitiam clara distinção entre autor, leitor e comentarista, este último, no que diz respeito aos textos antigos, muitas vezes anônimo.

A tecnologia do livro impresso e seus parentes mais próximos, entre os quais se incluem a página impressa ou datilografada, engendraram, então, certas noções de propriedade e unicidade do escritor-autor e do texto fisicamente ilhados, separados de seus leitores e eventuais estudiosos ou comentaristas, a quem, hoje, denominamos críticos. Tais noções com a existência do hipertexto tornam-se insustentáveis. O hipertexto data na história muitos dos nossos pressupostos mais arraigados e idéias até muito queridas em relação às posições de autor e leitor, fazendo-os aparecer como conseqüência de uma tecnologia dada, em um tempo e um lugar, também determinados.

A introdução de uma nova tecnologia não torna automaticamente obsoletas as tecnologias anteriores e, na maioria das vezes, as tecnologias mais avançadas incorporam aquelas que as precederam, nas quais estão virtualmente contidas. No caso da escrita, a folha impressa não implicou no fim da página manuscrita. Caneta e papel têm, ainda hoje, seu charme e função para anotações e comunicações pessoais. Assim a história da escrita não se constitui num movimento progressivo em que novas tecnologias foram assumindo e usurpando o lugar das precedentes, as formas emergentes envolveram e cresceram com aquelas que já existiam.

Entretanto, a cada nova tecnologia de escrita nossa forma de pensar e ver o mundo sofre, a grosso modo, uma séria influência pois o ambiente criado por cada nova maneira de escrever patrocina novas formas de leitura e torna outras menos operantes, mudando a maneira como entendemos o conhecimento e alterando hábitos de pensamento profundamente enraizados.

No caso do computador temos uma outra forma de pensar mais telegráfica e modular, não linear e maleável, que torna menos nítidos os limites entre o pensar e o escrever, já que através dos processadores o ato mecânico de digitar um texto tende a acompanhar a criação e a elaboração deste mesmo texto acrescentando, interrompendo ou eliminando frases num ritmo muito próximo ao ritmo do ato de pensar.

O processamento eletrônico de texto, segundo Landow, representa a mudança mais importante na tecnologia da informação desde o desenvolvimento do livro impresso. Carrega a promessa ou a ameaça de produzir mudanças em nossa cultura tão radicais como aquelas produzidas pelos tipos móveis de Gutenberg (Landow, 1995, pág. 32).

Para Bolter (1991), o computador oferece um meio para se escrever que ele denomina "espaço de escrita", em que se situam a tela, onde o texto se desenrola e a memória onde ele é estocado. Este meio, eletronicamente acionado, se caracteriza sobretudo pela fluidez e flexibilidade envolvendo também uma relação de interação entre quem escreve e quem lê.

Olhando de forma retrospectiva, no espaço de conhecimento da antigüidade a escrita era igualmente flexível, os textos eram acontecimentos em andamento, consertados pelos leitores, revisados pelos discípulos, constituindo-se verdadeiros foruns de discussão. Tomás de Aquino, por exemplo, em seus escritos ou rastros (conforme Derrida), colocava e respondia questões, citando e interpretando textos da antiguidade clássica, recontava pontos de vista opostos aos seus arguindo deles e criando um diálogo constante com a cultura de seu tempo.

Conforme Foucault (1995), o Renascimento detinha-se diante do fato de que havia linguagem nas siglas depositadas nos manuscritos ou nas folhas dos livros, mas tais marcas estavam sempre a exigir uma linguagem segunda, a do comentário da exegese, da erudição para fazê-las despertar tornando móvel a linguagem que nelas dormitava. Assim a linguagem no século XVI encontra-se permanentemente na demanda de comentários e estes, é claro, só poderiam existir em função de uma linguagem silenciosa preexistente a eles.

 

"Para comentar", afirma Foucault, "é preciso a antecedência absoluta do texto: e inversamente se o mundo é um entrelaçamento de marcas e de palavras, como falar dele senão a forma do comentário?" (Foucault, 1995, pág. 94)

Na página impressa, ao contrário, as idéias tornaram-se monumentais e fixas. O leitor perdeu seu papel na formação do texto, cujas idéias numa progressão não alterável, ao longo das páginas do livro, concederam ao trabalho de escrita uma autoridade, de certa forma, imponente e incontestável.

Em "Eros, Tecelão de Mitos" (Fontes, 1991), no texto intitulado "Ad Umbilicos", em que à guisa de prefácio, para apresentar seu trabalho sobre a poesia de Safo de Lesbos, propõe um estudo interessantíssimo sobre os comentários explicativos aos manuscritos antigos.

 

Fontes nos informa que, na antiguidade, copistas e comentadores dos poetas e filósofos, ao lidar com os manuscritos, para estudá-los ou copiá-los, obedecendo um ritual que para nós, hoje, tem muito de poético, pois envolvia o ato de desenrolar, cuidadosamente, o rolo de papiro, transcreviam nas margens dos textos as observações de seus predecessores, geralmente anônimos, e anotavam, da mesma maneira, suas próprias observações. Tais observações ou comentários eram chamados skólia! As palavras estrangeiras ou insólitas, chamadas glosas tinham também suas explicações (glossemas), geralmente concisas acima dos termos a que se referiam.

 

No decorrer da história comentários e glosas, muitas vezes, foram se confundindo e mesclando com o texto original, que a crítica moderna procura "deliciada", segundo Fontes, redescobrir.

 

Skólia quer dizer: "um texto paralelo aos discursos do leitor (e do autor)" (Fontes, 1991, pág. 26). Assim, como o próprio Fontes nos afirma, os comentários são um texto paralelo ao discurso e não só daquele que escreve, mas sobretudo daquele que lê.

O "espaço de escrita" patrocinado pelo computador recupera para o leitor as chances de dialogar com o escritor, criando entre eles, uma relação interativa. Se na época dos manuscritos, a maioria dos copistas e comentaristas, ao exercerem suas tarefas de reprodução e de exegese dos documentos acrescentavam a eles suas próprias idéias, tornando tênue e pouco significativa a separação entre autor e leitor, a escrita eletrônica também altera estas fronteiras na medida em que permite ao leitor interferir facilmente sobre o texto que lê.

A noção de autoria, absolutamente consolidada com o advento da imprensa, tornou aquele que escreve possuidor de um produto para ser reproduzido e lido, sendo importante realçar além da habilidade requerida para a escrita a complexidade inerente à tarefa de escrever. Ficou, pois, reservada a poucos leitores a possibilidade de alcançar o posto de autores o que tem conferido a estes últimos poder e celebridade.

Graças à tecnologia da imprensa, o autor, assessorado pelo editor, passou a exercer sobre seu texto total domínio, sendo vedado ao leitor acrescentar-lhe qualquer coisa.

Barthes nos diz que "o que está em jogo no trabalho literário (da literatura como trabalho) é fazer do leitor não mais um consumidor, mas um produtor do texto" (Barthes, 1992, pág. 38) e ainda há "um divórcio impiedoso que a instituição literária mantém entre o fabricante e o usuário do texto, seu proprietário e seu cliente, seu autor e seu leitor" (Barthes, 1992, pág. 38).

A escrita patrocinada pelo computador, através dos processadores de texto e editores de hipertexto, altera de maneira profunda a noção de autoridade, como a própria expressão define: a ação do leitor ou de vários leitores torna-se não só possível, mas inerente à própria experiência hipertextual - o leitor ao ler traça o seu caminho, ele mesmo um texto sobre o texto.