Configurando uma "outra" textualidade
Zett, Victor Vasarely
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A reflexão sobre o uso do hipertexto é um convite para se repensar e redefinir não só algumas das
noções que temos sobre como adquirir, organizar e estocar o conhecimento, nossa maneira de
"ler o mundo", mas também para se pensar à luz de um novo enfoque
a textualidade e, com ela, a narrativa, os limites
fronteiriços entre as posições autor-leitor, a própria noção de autoria e, mais ainda, a relação que,
enquanto leitores de textos, temos mantido com estes últimos como produtos culturais ligados
a uma tecnologia - a imprensa.
Tal relação, segundo Chartier (1998, pág. 7) tem sido
marcada por um movimento extremamente contraditório. Por um lado se encontram
conjuntos de regras que objetivam direcionar o leitor garantindo ao texto uma produção
invariável de sentido. Nesta tarefa estão o autor, o livreiro-editor, o comentador, o
censor cujas vontades prescritivas se destinam a controlar a leitura. Por outro lado esta última
é rebelde, e anseia pelo proibido, pelas entrelinhas, num movimento de subversão às
imposições através dos mais diversos artifícios. Por estas razões uma reflexão
sobre o hipertexto tende a levar em conta,
além dos pressupostos teóricos que envolvem o recurso
tecnológico informático, algumas das postulações que têm norteado as teorias do texto sobretudo
aquelas das últimas décadas, tangenciando também as condições históricas de produção,
de disseminação e apropriação dos textos de particular importância para se compreender
a possível emergência de uma nova definição de livro que, desde Gutenberg, vem associando
de forma indissolúvel um objeto, um texto e um autor.
Vale salientar, também, que, para a história da escrita e conseqüentemente para a história da
leitura, o relacionamento entre os conjuntos de mutações ocorridos nas técnicas de produzir textos
como a passagem da forma manuscrita para a impressa, a substituição do livro em rolo
(volumen) pelo livro em cadernos (codex), por exemplo, tem se mostrado
fundamental para o entendimento do significado da expressão "cultura", tanto no sentido
de "obras e gestos que numa dada sociedade justificam a apreensão estética e
intelectual" como no sentido de "práticas comuns que exprimem a maneira através da
qual uma comunidade vive e pensa a sua relação com o mundo, com os outros e com ela mesma"
(Chartier, 1998, pág. 9).
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Hoje poderíamos retomar a querela descrita por Eco em seu conhecido texto
"Apocalípticos e Integrados", publicado no final da década de 70,
colocando lado a lado visões antagônicas da tecnologia informática:
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"A idéia da realidade virtual é proporcionar a sensação do 'estar lá'
oferecendo pelo menos ao olho o que ele teria visto se estivesse lá e mais importante que
isto, fazendo com que a imagem mude instantaneamente de acordo com o ponto de vista"
(Negroponte, 1995, pág. 115).
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"... essa visualização generalizada é o espaço marcante daquilo que
atualmente recebe o nome de virtualização. A famosa realidade virtual não é tanto
a navegação no ciberespaço das redes, mas antes a 'ampliação da espessura ótica'
das aparências do mundo real" (Virilio, 1999, pág. 21).
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A postura de Negroponte, um entusista da "vida digital", se opõe de maneira frontal à
posição extremamente crítica de Virilio, para quem, à força de ver através da
realidade virtual, o homem acaba por não enxergar a não ser aparências.
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Adicionar o conceito de hipertexto àquelas teorias do texto se constitui assim, a nosso
ver, no acréscimo de um dado significativo ao debate sobre as possibilidades de mudanças
que a escrita hipertextual, ligada ao advento de uma nova tecnologia tende a patrocinar.
Indica, também, retomando a oposição entre apocalípticos e integrados descrita por
Umberto Eco, a adoção de um olhar mais realista em relação ao recurso à
informática, que pode se traduzir em uma postura analítica e conseqüente frente
às "textualidades contemporâneas" (Santos).
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Em "O Prazer do Texto", Roland Barthes (1987)
nos desperta para o entendimento de que texto
quer dizer "tecido", buscando acentuar, em contraposição à noção de produto acabado, sob o qual
se oculta (mais ou menos) o sentido, uma idéia gerativa. O entrelaçamento perpétuo por meio do
qual o "tecido" de Barthes adquire vida, pelo fato de que se faz e se trabalha num "gerar-se
permanente", relacionado a uma textualidade captada na folha impressa de papel é certamente
ponto de partida dos mais interessantes para se iniciar nossa reflexão sobre o
hipertexto, espécie de labirinto em que conjuntos de palavras, imagens e sons se entrelaçam uns aos
outros ao simples toque de um elemento eletrônico, independentemente de uma porta de entrada
principal ou de um ponto de chegada, num movimento, tal como o do
texto barthesiano, também vivo, de construção,
desconstrução, reconstrução, através do qual o leitor/usuário percorre
determinado trajeto, de sua escolha pessoal, buscando significados existentes ou produzindo outros.
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"O texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo"
(Barthes, 1987, pág. 82).
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Recorrer a Barthes, que próximo em se tratando da teoria do texto, guarda considerável distância
dos meandros dos recursos informáticos, ajuda-nos a superar, num primeiro momento, um certo
desconforto em relação a uma das maiores dificuldades de se escrever ou mesmo teorizar sobre o
hipertexto, sem dúvida aquela de tentar, através das limitações impostas pela escrita linear,
característica da página impressa, visualizar e nos apropriar de uma textualidade,
em muitos aspectos, diferente daquela que emerge, num passar de olhos, da folha impressa de papel.
A trama do "tecido" barthesiano em muito se aproxima das características da escrita
hipertextual e esta sim, não só por ser texto mas também por estar condicionada a uma
tecnologia que faculta o movimento e a textura, apresenta de maneira mais evidenciável o
entrelaçamento que Barthes capta ao ler, pensar e discorrer sobre a página impressa.
Santos denomina "textualidade informática" a esse espaço de
significação que se abre e se anuncia através dos computadores e
redes. Referindo-se a ele grande número de teóricos, faz menção a
algo absolutamente novo como um paradigma de produção de
significados que ultrapassa tudo que se conhece até o momento presente.
Esta novidade existe (e existe numa enorme gama de aspectos) porém
só podemos confirmá-la em relação às formas precedentes e esta mesma
relação vem se constituindo no fio condutor de uma vertente
significativa no campo das pesquisas sobre o hipertexto. O resultado
de tais pesquisas patrocina a visão de que o "novo", inerente ao
paradigma hipertextual, que além de sua característica de virtualidade
se baseia, principalmente, na ausência de linearidade e hierarquia,
pode ser melhor evidenciado, quando cotejado com paradigmas anteriores,
no sentido de se verificar em que os prolonga, em que os ultrapassa
e, especialmente em que se identifica às postulações que os contestam,
isto porque teorias do texto, sobretudo as mais recentes, jamais atribuíram
a este último uma imagem de seqüencialidade estrita e de produção unívoca
de significados.
O hipertexto, por sua vez, altera fundamentalmente
nossa noção de textualidade, pois se constitui num texto plural,
sem centro discursivo, sem margens, sendo produzido por um ou vários autores
e, como texto eletrônico, está sempre mudando e recomeçando, de forma
associativa, cumulativa, multilinear e instável.
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Nesta linha de raciocínio vale lembrar que, debruçados sobre o texto
literário, vários teóricos inferiram sua predisposição para abertura,
através da noção de intertextualidade em que expressões metafóricas,
como rodopio de textos, rede, trama e teia, tentam capturar esta
espécie de propriedade do texto literário de se ligar a mil outros
textos que a ele dizem respeito, tanto no sentido de que os evoca
ou inversamente no sentido de que é evocado, num ir e vir de
significados plurais em que um deles faz aflorar mil outros e este
outros tantos.
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Para Kristeva o texto "é uma permutação de textos, uma
intertextualidade: no espaço de um texto, vários enunciados, vindos
de outros textos, cruzam-se e neutralizam-se". A autora designa como
ideologama a função intertextual que determina, em cada texto,
coordenadas históricas e sociais. Tal acepção, aplicada ao texto, é
o foco através do qual o conhecimento se utiliza da transformação dos
enunciados num todo - o texto - e da inserção deste mesmo todo
no texto histórico e social (Barthes
et al., 1968, págs. 143 e 144).
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Baktin, por exemplo, cuja releitura foi introduzida nos meios
acadêmicos franceses por Kristeva, na década de 1970, já havia
mencionado a noção plural de polifonia de vozes a partir da leitura
de Dostoievsky.
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A noção de polifonia se constitui num conceito instigante e original encontrado
na obra de Bakhtin, formulado a partir de seus estudos da obra de Dostoievsky,
considerada por ele como polifônica por excelência.
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Segundo sua concepção, a verdade não se encontra no interior de uma
única pessoa, mas está no processo de interação dialógica de pessoas
que se procuram coletivamente.
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Aplicada à teoria da literatura, a noção de polifonia modifica radicalmente
a posição do autor em relação à sua obra e, mais além, se estende para a
discussão do conhecimento nas ciências humanas, pois nesse sentido
cada enunciado faz parte de um encadeamento mais amplo e sem fim,
oposto à noção dogmática ligada à monologização do pensamento.
Pensando a linguagem como uma diversificada gama de práticas sociais,
para ele, ignorar a natureza social e dialógica do enunciado é ignorar
o eterno movimento do mundo e seu permanente estado de inacabamento
(Jobin e Souza, 1994, pág. 104).
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Landow (1995) vê nesta concepção
de polifonia apresentada através da obra
de Dostoievsky, que Bakhtin descreve como: "construída, não como
o conjunto de uma única consciência que absorvesse em si mesma,
como objetos as outras consciências, mas como um conjunto formado
pela interação de várias consciências, sem que nenhuma delas se converta
em objeto da outra, uma característica hipertextual".
Vejamos por que:
Bakhtin atribui ao poder uma força que exclui as vozes excêntricas ou
não ortodoxas da linguagem e que a obriga a seguir regras unificadas
e dominantes. Como forma de resistência cultural, a esta força o
autor apresenta a conversação dialogística polifônica nos moldes
de Dostoievsky.
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Em termos de hipertextualidade,
Landow atribui ao hipertexto a característica de não permitir uma só voz
tirânica, abrindo espaço para que enorme multiplicidade de vozes se
manifestem e tendo como voz que se sobressai aquela do enfoque do momento,
fruto de uma associação, ligada a um trajeto de leitura.
(Landow, 1995, pág. 23).
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Mais recentemente, Gerard Genette introduziu a imagem do palimpsesto para definir o
fugaz e o provisório que desde sempre tem acompanhado o texto
literário.
A imagem do palimpsesto foi utilizada pela crítica literária pós-estruturalista para
colocar em primeiro plano o fato de que todo ato de escrever ocorre na presença de outros
- textos falam através de outros textos.
Palimpsestos subvertem o conceito do autor como única fonte geradora de sua obra, assim
o significado da obra é atribuído a uma cadeia interminável de significações.
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Palimpsesto [do gr. palímpsestos,
'raspado novamente', pelo lat. palimpsestu.]. S.m. 1. Antigo material de escrita,
principalmente o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou
três vezes, mediante raspagem do texto anterior. 2. Manuscrito sob cujo texto se descobre
(em alguns casos a olho desarmado, mas na maioria das vezes recorrendo a técnicas
especiais, a princípio por processo químico, que arruinava o material, e depois por meio
da fotografia, com o emprego de raios infravermelhos, raios ultravioletas ou luz
fluorescente) a escrita ou escritas anteriores: "Inutilizei um caderno de papel
almaço, e o primeiro rascunho, à força de rasuras, emendas, ... chamadas,
interversões, acabou por ser para mim próprio o mais impenetrável palimpsesto."
(Aquilino Ribeiro, Lápides partidas, p.120). Dicionário Eletrônico Aurélio, Nova Fronteira. |
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O uso de palimpsestos era uma prática comum particularmente nos círculos
eclesiásticos e se constituía na lavagem ou raspagem de um manuscrito para
que o pergaminho, onde fora fixado, fosse reutilizado para outro texto.
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Tal prática se deveu provavelmente a motivos econômicos, sendo menos caro
reutilizar um pergaminho do que preparar um outro. Entretanto também o desejo
da igreja de "converter" antigos escritos pagãos, sobrepondo a eles a palavra de Deus,
pode ter orientado a difusão dos palimpsestos.
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Historiadores modernos muito mais interessados nos textos anteriores têm empregado
técnicas sofisticadas para recuperar os manuscritos originais com resultados notáveis.
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A imagem acima é de um palimpsesto em que estava originalmente registrado
um antigo manuscrito correspondente à obra do matemático Arquimedes, produzido em Constantinopla
no século X (na imagem abaixo o texto original é ressaltado com técnicas digitais) e posteriormente
sobreposto no sentido transversal, no século XII, por um texto religioso produzido por um monge inglês.
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Ainda anteriormente Walther Benjamin, ao discorrer sobre a narrativa,
referiu-se à idéia da rede intertextual como que tecida pela
reminiscência, ao escrever: "... Ela tece a rede que em última
instância todas as histórias constituem entre si. Uma se articula na
outra, como demonstraram todos os narradores, principalmente os
orientais. Em cada um deles vive uma Sherazade que imagina uma nova
história em cada história que está contando" (Benjamin,
1994, pág. 211).
O mesmo autor, em seu ensaio "A Imagem de Proust" evocou a
idéia de "tecido" relacionada ao texto reafirmando que "se texto significava para
os romanos, aquilo que se tece nenhum texto é mais 'tecido' que o de Proust e de forma mais
densa". Recorrendo ainda uma vez à reminiscência acrescentou: "... acontecimento
vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento
lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes
e depois. Num outro sentido, é a reminiscência que prescreve, com rigor,
o modo de textura". E mais adiante completou:
"a eternidade que Proust nos faz vislumbrar não é a do tempo infinito, e sim a
do tempo entrecruzado. Seu verdadeiro interesse é consagrado ao fluxo do tempo sob
a sua forma mais real e por isto mesmo mais entrecruzada ...
(Benjamin, 1994, pág. 37-45).
No universo de pensamento de Benjamin a reminiscência, associada à narrativa, ocupa
um lugar de absoluto destaque. Para o autor é com ela e através dela que a narrativa
popular ou o texto proustiano se constrói. No que diz respeito à experiência hipertextual
as expressões "acontecimento lembrado" e
"tempo entrecruzado" a que ele faz alusão ao se referir à obra de Proust,
poderiam, num esforço comparativo, definir as expressões ou palavras-âncora
que estabelecem ligações entre os diferentes fragmentos de um texto-eletrônico
e que fazem aflorar, aparecer na tela, tal como a reminiscência proustiana,
informações que se entrelaçam.
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Gagnebin acredita que o leitor atento de Benjamin descobrirá, em
seu texto "O Narrador", "... uma teoria antecipada da obra aberta".
Para a autora "... na narrativa tradicional essa abertura se apóia
na plenitude do sentido e, portanto, em sua profusão ilimitada".
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Poderá "identificar esse movimento de abertura na própria estrutura
da narrativa tradicional. Movimento interno representado na figura
de Sherazade, movimento infinito da memória notadamente popular"
(Benjamin, 1994, pág. 12).
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Mesmo nossos processos mecânicos de leitura, introjetados a partir
da página impressa, não estão inteiramente aprisionados à linearidade
autoritária da folha de papel. Numa página escrita, nossos olhos,
subordinados ao acaso, ao gosto ou à vontade, podem saltar linhas,
voltar ao começo ou correr ao fim, criando um outro texto paralelo ao
original, sem que nada ou ninguém a isso nos desautorize. Conforme
Chartier, "a leitura é, por definição, rebelde e vadia. Os artifícios de
que lançam mão os leitores para obter livros proibidos, ler nas entrelinhas
e subverter as lições impostas são infinitos"
(Chartier, 1998, pág. 7).
No que diz respeito à narrativa as discussões sobre o impacto do
hipertexto, especialmente na narrativa de ficção, têm merecido especial
atenção por parte daqueles que dedicam ao tema. Segundo Snyder (1996) a noção de hipertexto
tende a revelar, em obras que lutam contra o meio em que são
produzidas, obras que resistem à linearidade imposta pela página
impressa, ângulos novos que desvelam aspectos comuns entre
o primeiro e estas últimas.
Segundo a autora características como: a não-linearidade, a multivocalidade
ou a interatividade podem ser melhor compreendidas quando se aborda
a teoria do hipertexto. Alias leitores familiarizados com o hipertexto
se permitem observar que a resistência de determinados autores à
ditadura da página impressa tem muito em comum com o movimento
hipertextual.
Ao dizermos que o hipertexto reconfigura a narrativa temos como primeiro
ponto o fato de que a ficção hipertextual se caracteriza pela intangibilidade
do texto, pois hipertextos, pelo fato de serem apresentados de forma
virtual só se tornam possíveis sob demanda, não são manipuláveis, não
se conhecendo de antemão seu começo, meio ou fim, o que torna a sua
"escritura" fundamentalmente flexível.
Neste sentido os leitores podem, dentro de uma narrativa hipertextual,
escolher a sua própria aventura, interagindo com a história.
Obras que tentaram, apesar de impressas, fugir dos cânones retóricos
postos pela página são consideradas pelos teóricos do hipertexto, como
a própria Snyder e Landow, precursoras da ficção hipertextual. Este é
o caso da obra "Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy"
do escritor irlandês Laurence Sterne, publicada em 1759, em que o escritor,
através de uma narrativa carregada de digressões, fantasia e humor convida o
leitor a participar da história abrindo, mesmo, espaço na página para que
este emita as suas opiniões. É curioso saber que Sterne exerceu notável
influência sobre a obra machadiana.
Em 1922 foi publicado o "Ulisses" de James Joyce, considerado
o romance mais revolucionário do século em termos de rompimento com as estruturas
estabelecidas pela técnica literária. O movimento do romance de Joyce
traz também características que podem ser hoje melhor entendidas se
pensarmos em termos hipertextuais.
Manifestações literárias ligadas ao Dadaismo de Tristan Tzara, obras
pertencentes ao nouveau roman francês e produções
textuais que se utilizam da técnica da colagem, assim como produções
cinematográficas como a "Rosa Púrpura do Cairo" de Woody
Allen de 1985, também patrocinam uma narrativa que se aproxima da
ficção hipertextual.
Embora a ficção interativa exista há tempos no livro e no cinema foi a partir
dos anos 60 que os jogos apresentados no computador de forma textual passaram a despertar
interesse e exigir de seus participantes total envolvimento. O jogo "Adventure"
inspirado da obra "The Lord of the Rings" com seu ambiente de calabouços
e dragões motivava os leitores/jogadores a explorar este espaço através de comandos
simples e negociar possibilidades de superação de uma série de obstáculos
narrativos. Este jogo durante tempos se constituiu em diversão para programadores
e pesquisadores com versões cada vez mais desafiadoras.
Nos anos 70 os mesmos jogos interativos na forma de texto, passaram dos grandes computadores
para os computadores domésticos, envolvendo também jogos de encenação em que
o jogador assumia papéis. Estes jogos uniam ficção popular e resolução dos obstáculos
do "Adventure" original. Os anos 80 trouxeram as redes de narrativa capazes
de se modificar significativamente, a cada leitura, possibilitando múltiplas saídas em que
o leitor determina o seu ponto de saída da história ao controlar o desdobramento dos
eventos.
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Conforme Santos, também no que diz respeito aos
aspectos espacial e de iterativadade, outra de suas características,
o hipertexto não se constitui uma novidade absoluta. Nos textos do Renascimento,
séculos XVI e XVII, por exemplo, imagens e elaboração visual dos caracteres
(iluminuras) adicionavam às palavras enorme vigor poético, mais recentemente
os acrósticos comuns na literatura ocidental e os hai-kais da tradição oriental,
assim como o poema concreto brasileiro do século XX, quebram o aspecto
bidimensional da folha de papel.
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Quanto à iteratividade, outra característica do hipertexto, Santos
também rastreou referências literárias que a punham
em prática: no século XVIII o maquinismo descrito por Swift nas viagens de Gulliver
propõe justamente a criação de frases a partir de uma máquina geradora de
significações e no século XVII o poeta Quirinus Khulman elaborou um molde
poético capaz de originar milhares de outros poemas.
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Alguns pesquisadores encontraram uma origem ainda mais remota para o
hipertexto, observando uma gravura renascentista atribuída ao Capitão Agostina
Ramelli (Paris, l588), intitulada A Nova e Engenhosa Máquina, que tinha por função
facilitar os estudos.
A gravura (clique na gravura para obter uma imagem maior)
apresenta um consultor frente a uma roda,
semelhante a uma roda d'água, onde estão fixados vários e diferentes
manuscritos. Simplesmente girando a roda, o pesquisador poderia saltar de uma
informação a outra, informações essas relativas ao tema de seu interesse, sem
sair do lugar. O conjunto de dados obtidos seria reagrupado por um assistente.
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Em nossos dias, retomando Swift, Umberto Eco em seu romance "A Ilha do Dia Anterior" apresenta, como
personagem, um jesuíta, construtor de um mecanismo capaz de gerar significações
a partir das classificações aristotélicas.
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Da mesma forma, o poeta contemporâneo Raimond Queneau retomou os moldes
de Khulman em seus "Cent Mille Millards de Poèmes" (Santos).
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Assim, ao tratarmos da "textualidade informática" e do "novo" que ela
representa ou possa representar, cabe-nos vê-la como mais sutil do que
se acredita ou que se postula nas discussões levadas a cabo pelos
entusiastas de primeira hora, mesmo porque o texto sempre se
apresentou como um espaço de desbordamento (Derrida) de "significações" e
"re-significações", não tendo sido nunca linear, mesmo que apresentado
sobre a planura autoritária e margeada da folha de papel.
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Snyder (1996), pesquisando as relações da narrativa
literária com o hipertexto,
foi buscá-las na obra de Borges, no conto a "Biblioteca de Babel" em que o
escritor argentino imagina uma biblioteca de incompreensível imensidade,
constituída de um número infinito de galerias hexagonais, com cinco longas prateleiras
de cada lado, cada prateleira contendo trinta e cinco livros, cada livro com
quatrocentas e dez páginas, cada página com quarenta linhas e cada linha, contendo,
oitenta letras. Nenhum livro possui título, mas todos estão organizados de maneira a formar
coleções de símbolos, com inúmeras possibilidades de combinações das letras
do alfabeto. Isto faz com que a biblioteca seja tão imensamente vasta e que contenha
infinitas possibilidades de texto.
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O narrador descreve a louca e muitas vezes desesperada reação dos personagens, a
quem Borges denomina bibliotecários, ao entenderem as implicações de viverem numa
biblioteca de tão vastas proporções, contendo todos os textos possíveis e estes
aguardando leitores. Como habitantes de tal mundo, muito têm a descobrir
procurando livros que supostamente guardam significado entre as milhares de
combinações possíveis, pois muitos são os livros que não contém significado
algum.
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Neste conto de Borges sente-se que a tradição literária baseada na linearidade
e no compromisso com os fins conclusivos, está num impasse. Para renová-la
é necessário, aos escritores, escrever de forma a oferecer mil possibilidades de
significados.
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Conforme Snyder (1996), John Barth caracteriza
o conto borgeano de literatura de exaustão,
mas a própria autora vê nesta exaustão como que o efeito de uma tecnologia, cujos
limites já foram ultrapassados pelo meio eletrônico do hipertexto.
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Sob esta ótica os autores mencionados patrocinam uma
leitura do hipertexto que toma como referência, entre outras,
estratégias de análise que, sobre e a partir da "textualidade
gutenberguiana" estabelecem concepções teóricas portadoras de
embriões da "textualidade informática". Estas mesmas concepções têm
permitido abordagens extremamente válidas do hipertexto informático,
podendo estabelecer o verdadeiro espaço de sua novidade, que não é
absoluto, porém fundamental para se pensar o "texto contemporâneo".
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