Até bem pouco tempo atrás era simples e lógico pensar que, exceção feita
às obras de referência, como enciclopédias ou dicionários por exemplo,
livros são escritos para serem lidos na ordem e seqüência estabelecidos pelo autor.
Entretanto, crítica contemporânea e hipertextos nos levam a rever nosso
entendimento de conceitos, aparentemente despidos de problemas, como
aqueles de autor, leitor e, por que não, de "livros".
No período dos manuscritos, quando escribas e exegetas freqüentemente alteravam os textos
que transcreviam e copiavam a separação entre autores e leitores não era tão significativa,
vale lembrar que a visão expressa por Sto. Tomás de Aquino e Sto. Agostinho de que
não eram autores, mas realizadores da palavra de Deus consolidou a metáfora bíblica
das duas leituras: a leitura do livro da natureza - obra de Deus - e a leitura da palavra
revelada, também obra divina, que lhes conferia autoridade.
Mais tarde os autores
profanos que não mantinham a mesma relação com a palavra divina assumiram,
também, o papel de criadores. Entretanto sua autoridade provinha das próprias
histórias que compunham.
As palavras e histórias criadas serviam para avalizar sua individualidade e reconhecimento.
Esta autoridade foi, com o passar do tempo, se consolidando pelo fato de que
imprimir representava uma tarefa complexa podendo poucos leitores se
transformarem em autores. O texto impresso distanciava o autor de seu
leitor tornando suas palavras dificilmente contestáveis ou passíveis de
alteração, a cópia impressa, graças à sua simplicidade visual e
a garantia de reprodução, estendia e ampliava a autoridade adquirida, assim, também como a
organização e efetivação de um mercado editorial em tudo concorriam para fortalecê-la.
Hoje, autores de sucesso são celebridades, cuja "autoridade" se baseia
no seu poder de entretenimento e em sua "supostamente" melhor compreensão
da condição humana. Além disso, graças à avançada tecnologia de impressão e imposições mercadológicas, autores,
respaldados por editores e agentes publicitários, exercem um controle absoluto sobre
os textos que produzem - nada pode neles ser alterado, após sua publicação,
sem prévia autorização de editores e códigos de direitos autorais sendo tudo
organizado em função de um autor e de um mercado "dominantes". Os desejos do autor são expressos na obra
e os leitores, de forma mais ou menos passiva, devem (supostamente)
e tendem a respeitá-los.
Assim, embora carregados de uma visão romântica como frutos e resultado de um processo
de criação, os livros enquanto objetos manuseados, quantificados, classificados
podem ser não só lidos como consumidos. São, em última instância, produzidos pelo autor para serem
adquiridos pelos seus leitores. Neste sentido, se constituem produtos culturais, como
pinturas, peças, filmes, construções e parte de um pacto que envolve
autores, pintores, diretores, arquitetos de um lado e leitores, ouvintes,
platéia, moradores de outro - produção de um lado e consumo do outro.
Com a reflexão elaborada pela crítica contemporânea ao se debruçar sobre o texto
e o desenvolvimento das experiências hipertextuais
esta distinção autor-leitor, produtor/consumidor
começa a perder validade.
Foucault (1992), em seu texto "O que é um autor?",
comenta que, historicamente, os textos passaram
a ter autores na medida em que os discursos se tornaram transgressores com
origens passíveis de punições, pois, na antigüidade, as narrativas, contos, tragédias,
comédias e epopéias - textos que hoje chamaríamos literatura - eram
colocados em circulação e valorizados sem que se pusesse em questão
a autoria - o anonimato não constituía nenhum problema, a sua própria antigüidade era
uma garantia suficiente de autenticidade. Os textos científicos, ao contrário,
deveriam ser avalizados pelo nome de um autor, como os tratados de medicina, por exemplo.
Nos séculos XVII e XVIII os mesmos textos científicos passaram a ter validade em
função de sua ligação a um conjunto sistemático de "verdades" demonstráveis.
No final do século XVIII e no correr do século XIX, com a instituição do sistema
de propriedade, possuidor de regras estritas sobre direitos do autor e relações
autor/editor, é que o gesto carregado de riscos da autoria, enquanto transgressão,
segundo Foucault,
passou a se constituir um bem, preso àquele sistema.
Para Foucault, o que denomina como "função-autor", dispensada nos discursos
científicos pela sua pertença a um sistema que lhe confere garantia,
permanece nos discursos literários. A "função-autor" não se constrói simplesmente
atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador, mas se constitui como
uma "característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento
de alguns discursos no interior de uma sociedade"
(Foucault, 1992, pág. 46), ou seja, indica
que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa
determinada cultura, receber um certo estatuto. O que faz de um indivíduo
um autor é o fato de, através de seu nome, delimitarmos, recortarmos e
caracterizarmos os textos que lhes são atribuídos.
Em seu polêmico estudo "A Morte do Autor" mencionado por
Snyder (1996) Barthes enfatiza
a questão da não existência do autor fora ou anterior à linguagem. Procurando
apresentar a idéia do autor como sujeito social e historicamente constituído,
Barthes o vê como um produto do ato de escrever - é o ato de escrever que faz
o autor e não o contrário.
Para ele um escritor será sempre o imitador de um gesto ou de uma palavra
anteriores a ele, mas nunca originais, sendo seu único poder mesclar
escritas.
Barthes retira a ênfase de um sujeito que tudo sabe, unificado, intencionado
como o "lugar" de produção da linguagem, esperando assim libertar a escrita do
despotismo da obra - o livro.
O hipertexto, de certa forma, vai ao encontro das postulações de Barthes:
libertando a escrita da "tirania do autor" pela facilidade que dá a cada leitor de
adicionar, alterar ou simplesmente editar um outro texto, abrindo possibilidades
de uma autoria coletiva e quebrando a idéia da "ecriture" como originária
de uma só fonte.
Nesse sentido hipertexto e teoria contemporânea, reconfiguram o autor sob diversos aspectos -
tanto na teoria do hipertexto como na teoria literária as funções do escritor e do leitor
tornam-se profundamente entrelaçadas.
Por um lado hipertextos transferem parte do poder do escritor para o leitor
pela possibilidade e habilidade que este último passa a ter de escolher
livremente seus trajetos de leitura elaborando o que poderíamos denominar
"meta-texto", anotando seus escritos junto a escritos de outros autores e estabelecendo
links (nexos ou interconexões) entre documentos de diferentes
autores de forma a relacioná-los e acessá-los rapidamente.
Os recursos tecnológicos hoje disponíveis facultam, com um mínimo de conhecimentos
técnicos, o estabelecimento de tais ligações e, cada vez mais, a intervenção do
leitor, através da visualização das associações e dos comentários que elabora
se torna mais e mais concreta (Figueiredo, 1999).
Por outro lado as experiências com hipertexto estreitam a distância que separa
documentos individuais - uns dos outros - no mundo da impressão e pelo fato de
reduzirem a autonomia do texto, reduzem também a autonomia do autor. O
leitor pode, por sua vez, tornar-se um construtor de significados ativo,
independente e autônomo (Snyder, 1996).
As chances de traçar padrões pessoais de leitura, de mover-se de forma aleatória
de maneira não linear servem para destacar a importância do leitor na "escrita"
de um texto.
Cada leitura não muda fisicamente as palavras, mas reescreve o texto, simplesmente
através de sua reorganização enfatizando diferentes pontos que podem, de forma sutil,
alterar seu significado.
Barthes sugere que os leitores criam suas próprias interpretações independentemente
das intenções do autor.
Um outro aspecto a se observar é que na tradição da história social da impressão
os livros sempre possuíram autores, os leitores ficavam restritos aos estudos
de teoria literária. Mais recentemente, com a estética da recepção a significação do texto
como historicamente construída, e produzida no interstício existente entre
a proposição da obra - leia-se a vontade do autor - e as respostas dos leitores,
estes últimos passaram a ser levados em conta em função das atenções se
voltarem para a maneira como as formas físicas, com que o texto é apresentado,
afetam a construção do sentido.
Benjamin, referindo-se à imprensa russa, fez alusão ao desaparecimento da distinção
convencional entre autor e público. Ao afirmar que leitores estavam sempre prontos
"a escrever, descrever e prescrever," nos jornais soviéticos, fazendo
com que o mundo do trabalho tomasse a palavra e transformasse a literatura em
direito de todos, atribuiu ao jornal, uma outra forma de apresentar o texto, a
função de redenção da palavra (Benjamin,
1994, pág. 125).
Sob esta ótica também se pode entender melhor a atribuição de uma nova autoria
ao leitor do hipertexto. Ao elaborar seu trajeto de leitura, tal como o meio eletrônico
lhe possibilita, o leitor/usuário constrói um novo sentido ao texto proposto - um
sentido pessoal que poderíamos até denominar como "leitura-escritura".
A reflexão sobre o hipertexto
recoloca, também, em debate a questão da propriedade intelectual. Aliás o texto eletrônico
e as leis de direitos autorais estão na rota de colisão em muitos pontos e quer
nos parecer que as soluções para o problema estão longe de ser encontradas.
De um lado se situam autores, editores e distribuidores de livro, bem como
desenvolvedores de software zelosos de seus direitos, preocupados em que se
cumpram as leis que punem as cópias não autorizadas. Do outro todos os leitores
usuários reproduzindo "bits" sem citar fontes.
Para Landow (1995, pág. 243) as concepções
de autoria mantém uma relação estreita com a forma de tecnologia de informação
que prevalece em um dado momento, entretanto quando esta perde o seu posto
ou o compartilha se modificam, também, as interpretações culturais de autoria.
Baseando-se em Heim completa que: "à medida que se vai desfazendo o modelo
de personalidade integrada e individual do autor, os direitos de autor como entidade
permanente também se tornam mais evanescentes e difíceis de definir"
(Heim, "Electric Language", pág. 221, citado por Landow,
1995, pág. 243).
A questão que se coloca é pois a seguinte: se o autor e texto se dispersam e se este último adquire
uma multiplicidade de vozes, através dos sistemas de hipertexto, como preservar de forma
equitativa os direitos legais dos múltiplos autores? A resposta à questão é ainda objeto
de busca e o debate sobre o tema palpitante, haja visto os interesses que envolve. O que
se pode definir é que os sistemas de hipertexto deslocam o poder de controle do texto do
autor para o leitor, o que demanda novas políticas na orientação da propriedade intelectual.