O autor

 

The Inspiration of Saint Matthew, Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1602




Até bem pouco tempo atrás era simples e lógico pensar que, exceção feita às obras de referência, como enciclopédias ou dicionários por exemplo, livros são escritos para serem lidos na ordem e seqüência estabelecidos pelo autor.

Entretanto, crítica contemporânea e hipertextos nos levam a rever nosso entendimento de conceitos, aparentemente despidos de problemas, como aqueles de autor, leitor e, por que não, de "livros".

No período dos manuscritos, quando escribas e exegetas freqüentemente alteravam os textos que transcreviam e copiavam a separação entre autores e leitores não era tão significativa, vale lembrar que a visão expressa por Sto. Tomás de Aquino e Sto. Agostinho de que não eram autores, mas realizadores da palavra de Deus consolidou a metáfora bíblica das duas leituras: a leitura do livro da natureza - obra de Deus - e a leitura da palavra revelada, também obra divina, que lhes conferia autoridade.

Mais tarde os autores profanos que não mantinham a mesma relação com a palavra divina assumiram, também, o papel de criadores. Entretanto sua autoridade provinha das próprias histórias que compunham. As palavras e histórias criadas serviam para avalizar sua individualidade e reconhecimento. Esta autoridade foi, com o passar do tempo, se consolidando pelo fato de que imprimir representava uma tarefa complexa podendo poucos leitores se transformarem em autores. O texto impresso distanciava o autor de seu leitor tornando suas palavras dificilmente contestáveis ou passíveis de alteração, a cópia impressa, graças à sua simplicidade visual e a garantia de reprodução, estendia e ampliava a autoridade adquirida, assim, também como a organização e efetivação de um mercado editorial em tudo concorriam para fortalecê-la.

Hoje, autores de sucesso são celebridades, cuja "autoridade" se baseia no seu poder de entretenimento e em sua "supostamente" melhor compreensão da condição humana. Além disso, graças à avançada tecnologia de impressão e imposições mercadológicas, autores, respaldados por editores e agentes publicitários, exercem um controle absoluto sobre os textos que produzem - nada pode neles ser alterado, após sua publicação, sem prévia autorização de editores e códigos de direitos autorais sendo tudo organizado em função de um autor e de um mercado "dominantes". Os desejos do autor são expressos na obra e os leitores, de forma mais ou menos passiva, devem (supostamente) e tendem a respeitá-los.

Assim, embora carregados de uma visão romântica como frutos e resultado de um processo de criação, os livros enquanto objetos manuseados, quantificados, classificados podem ser não só lidos como consumidos. São, em última instância, produzidos pelo autor para serem adquiridos pelos seus leitores. Neste sentido, se constituem produtos culturais, como pinturas, peças, filmes, construções e parte de um pacto que envolve autores, pintores, diretores, arquitetos de um lado e leitores, ouvintes, platéia, moradores de outro - produção de um lado e consumo do outro.

Com a reflexão elaborada pela crítica contemporânea ao se debruçar sobre o texto e o desenvolvimento das experiências hipertextuais esta distinção autor-leitor, produtor/consumidor começa a perder validade.

Foucault (1992), em seu texto "O que é um autor?", comenta que, historicamente, os textos passaram a ter autores na medida em que os discursos se tornaram transgressores com origens passíveis de punições, pois, na antigüidade, as narrativas, contos, tragédias, comédias e epopéias - textos que hoje chamaríamos literatura - eram colocados em circulação e valorizados sem que se pusesse em questão a autoria - o anonimato não constituía nenhum problema, a sua própria antigüidade era uma garantia suficiente de autenticidade. Os textos científicos, ao contrário, deveriam ser avalizados pelo nome de um autor, como os tratados de medicina, por exemplo.

Nos séculos XVII e XVIII os mesmos textos científicos passaram a ter validade em função de sua ligação a um conjunto sistemático de "verdades" demonstráveis. No final do século XVIII e no correr do século XIX, com a instituição do sistema de propriedade, possuidor de regras estritas sobre direitos do autor e relações autor/editor, é que o gesto carregado de riscos da autoria, enquanto transgressão, segundo Foucault, passou a se constituir um bem, preso àquele sistema.

Para Foucault, o que denomina como "função-autor", dispensada nos discursos científicos pela sua pertença a um sistema que lhe confere garantia, permanece nos discursos literários. A "função-autor" não se constrói simplesmente atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador, mas se constitui como uma "característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade" (Foucault, 1992, pág. 46), ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, delimitarmos, recortarmos e caracterizarmos os textos que lhes são atribuídos.

Em seu polêmico estudo "A Morte do Autor" mencionado por Snyder (1996) Barthes enfatiza a questão da não existência do autor fora ou anterior à linguagem. Procurando apresentar a idéia do autor como sujeito social e historicamente constituído, Barthes o vê como um produto do ato de escrever - é o ato de escrever que faz o autor e não o contrário.

Para ele um escritor será sempre o imitador de um gesto ou de uma palavra anteriores a ele, mas nunca originais, sendo seu único poder mesclar escritas.

Barthes retira a ênfase de um sujeito que tudo sabe, unificado, intencionado como o "lugar" de produção da linguagem, esperando assim libertar a escrita do despotismo da obra - o livro.

O hipertexto, de certa forma, vai ao encontro das postulações de Barthes: libertando a escrita da "tirania do autor" pela facilidade que dá a cada leitor de adicionar, alterar ou simplesmente editar um outro texto, abrindo possibilidades de uma autoria coletiva e quebrando a idéia da "ecriture" como originária de uma só fonte.

Nesse sentido hipertexto e teoria contemporânea, reconfiguram o autor sob diversos aspectos - tanto na teoria do hipertexto como na teoria literária as funções do escritor e do leitor tornam-se profundamente entrelaçadas.

Por um lado hipertextos transferem parte do poder do escritor para o leitor pela possibilidade e habilidade que este último passa a ter de escolher livremente seus trajetos de leitura elaborando o que poderíamos denominar "meta-texto", anotando seus escritos junto a escritos de outros autores e estabelecendo links (nexos ou interconexões) entre documentos de diferentes autores de forma a relacioná-los e acessá-los rapidamente.

Os recursos tecnológicos hoje disponíveis facultam, com um mínimo de conhecimentos técnicos, o estabelecimento de tais ligações e, cada vez mais, a intervenção do leitor, através da visualização das associações e dos comentários que elabora se torna mais e mais concreta (Figueiredo, 1999).

Por outro lado as experiências com hipertexto estreitam a distância que separa documentos individuais - uns dos outros - no mundo da impressão e pelo fato de reduzirem a autonomia do texto, reduzem também a autonomia do autor. O leitor pode, por sua vez, tornar-se um construtor de significados ativo, independente e autônomo (Snyder, 1996).

As chances de traçar padrões pessoais de leitura, de mover-se de forma aleatória de maneira não linear servem para destacar a importância do leitor na "escrita" de um texto.

Cada leitura não muda fisicamente as palavras, mas reescreve o texto, simplesmente através de sua reorganização enfatizando diferentes pontos que podem, de forma sutil, alterar seu significado. Barthes sugere que os leitores criam suas próprias interpretações independentemente das intenções do autor.

Um outro aspecto a se observar é que na tradição da história social da impressão os livros sempre possuíram autores, os leitores ficavam restritos aos estudos de teoria literária. Mais recentemente, com a estética da recepção a significação do texto como historicamente construída, e produzida no interstício existente entre a proposição da obra - leia-se a vontade do autor - e as respostas dos leitores, estes últimos passaram a ser levados em conta em função das atenções se voltarem para a maneira como as formas físicas, com que o texto é apresentado, afetam a construção do sentido.

Benjamin, referindo-se à imprensa russa, fez alusão ao desaparecimento da distinção convencional entre autor e público. Ao afirmar que leitores estavam sempre prontos "a escrever, descrever e prescrever," nos jornais soviéticos, fazendo com que o mundo do trabalho tomasse a palavra e transformasse a literatura em direito de todos, atribuiu ao jornal, uma outra forma de apresentar o texto, a função de redenção da palavra (Benjamin, 1994, pág. 125).

Sob esta ótica também se pode entender melhor a atribuição de uma nova autoria ao leitor do hipertexto. Ao elaborar seu trajeto de leitura, tal como o meio eletrônico lhe possibilita, o leitor/usuário constrói um novo sentido ao texto proposto - um sentido pessoal que poderíamos até denominar como "leitura-escritura".

A reflexão sobre o hipertexto recoloca, também, em debate a questão da propriedade intelectual. Aliás o texto eletrônico e as leis de direitos autorais estão na rota de colisão em muitos pontos e quer nos parecer que as soluções para o problema estão longe de ser encontradas.

De um lado se situam autores, editores e distribuidores de livro, bem como desenvolvedores de software zelosos de seus direitos, preocupados em que se cumpram as leis que punem as cópias não autorizadas. Do outro todos os leitores usuários reproduzindo "bits" sem citar fontes.

Para Landow (1995, pág. 243) as concepções de autoria mantém uma relação estreita com a forma de tecnologia de informação que prevalece em um dado momento, entretanto quando esta perde o seu posto ou o compartilha se modificam, também, as interpretações culturais de autoria. Baseando-se em Heim completa que: "à medida que se vai desfazendo o modelo de personalidade integrada e individual do autor, os direitos de autor como entidade permanente também se tornam mais evanescentes e difíceis de definir" (Heim, "Electric Language", pág. 221, citado por Landow, 1995, pág. 243).

A questão que se coloca é pois a seguinte: se o autor e texto se dispersam e se este último adquire uma multiplicidade de vozes, através dos sistemas de hipertexto, como preservar de forma equitativa os direitos legais dos múltiplos autores? A resposta à questão é ainda objeto de busca e o debate sobre o tema palpitante, haja visto os interesses que envolve. O que se pode definir é que os sistemas de hipertexto deslocam o poder de controle do texto do autor para o leitor, o que demanda novas políticas na orientação da propriedade intelectual.