Editar
Camilo Pessanha
Questões
de método e de princípios[1]
No final do ano de 1995, quando foi lançada a edição portuguesa dos
versos de Pessanha por mim organizada, iniciei a apresentação afirmando
que Clepsydra é o nome de um livro que não existe.[2]
Não existe como desenho seqüencial significativo, e nem sequer existe como
conjunto avalizado por uma clara assunção autoral. Essa é a tese defendida ao
longo das setenta páginas de introdução ao volume então apresentado ao público,
e fundamentada também ao longo das outras setenta em que nele vêm dispostas as
variantes e as considerações sobre o texto escolhido como base para o registro
das anotações.
Em decorrência, os critérios para a ordenação seqüencial dos poemas e
fragmentos nessa edição são propositadamente fluidos, já que não pretendi dotar
o conjunto dos textos de uma ordem significativa. Daí que os tenha alinhado
apenas de forma cronológica, segundo a data da primeira notícia que temos
deles, seja autógrafo datado, referências de terceiros ou primeira versão
impressa.
Já no que diz respeito ao texto de cada um dos poemas, o procedimento
adotado, em consonância com esses princípios gerais, foi apresentar no corpo do
volume, como referência para a anotação das variantes, a versão que parecesse
representar a última intervenção consistente do autor. Isto é: escolhi como
textos-base, além do conjunto mais recente de autógrafos, que é o de 1916, os
que traziam a indicação “limpa” ou “definitiva”, com que o poeta marcou várias
versões existentes em seu caderno de trabalho. O objetivo desse procedimento
não era, está claro, o de fixar um texto, mas apenas o de eliminar,
tanto quanto possível, dos textos que até então
líamos como canônicos, as variantes introduzidas pelos editores. Por
outro lado, assumindo que o texto de Pessanha é melhor compreendido quando
entendido como work in progress, tratei de listar, no aparato crítico,
todas as versões correntes dos poemas de Pessanha ao longo do tempo da sua
vida, bem como todas as intervenções do poeta, nos vários manuscritos e
recortes de jornal, facultando ao leitor a escolha de versões e leituras que
melhores lhe parecessem.
No que diz respeito à adoção do nome Clepsydra para denominar o
conjunto dos textos recolhidos no livro, as considerações foram de outra ordem.
O mais simples seria denominar o conjunto apenas de modo geral: versos ou
poemas de Camilo Pessanha. Duas considerações me levaram a utilizar o nome para
todo o conjunto. A primeira foi a de que a edição de 20 de forma alguma me
parece ter sido concebida, supervisionada ou mesmo claramente sancionada por
Camilo Pessanha. Por isso, não parecia razoável denominar Clepsydra
apenas aquele conjunto e ajuntar os demais sob a denominação ‘outros’. Não vou
repetir aqui todos argumentos que desenvolvi na introdução ao volume há pouco
mencionado, embora mais adiante os deva retomar de modo sumário. Registro, por
agora, apenas que as primeiras edições foram feitas com material de vária
procedência, e que o conjunto dos autógrafos que serviu de base à edição de 1920
continha apenas dezoito dos trinta poemas que integraram o volume. O próprio
A segunda consideração foi esta: não podendo, por tudo que acabo de
dizer, denominar Clepsydra apenas uma parte dos versos de Pessanha, e
sendo o nome tradicionalmente, por obra das edições sucessivas, associado ao
conjunto dos seus versos, e uma vez que não parecia advir daí maior mal,
pareceu-me razoável manter o título e explicar, como o fiz, que ele não
indicava qualquer desejo de ordenação temática ou formal na apresentação dos
poemas. Não escapou essa oscilação à inteligência de
As razões que me levaram a esse esforço de restituir aos versos de
Pessanha e ao conjunto tradicionalmente denominado Clepsydra o seu
caráter movente, fluido e incerto, estão dadas na já referida “Introdução” e
também numa história breve da construção da imagem de Pessanha como poeta e
como personagem literária, publicada em 1993, numa revista acadêmica
brasileira.[6]
Consistem, basicamente, no desejo de desmontar uma certa tradição de autoria e
de eliminar, mesmo que em prejuízo eventual do acabamento do texto corrente de
alguns poemas, as interferências dos primeiros editores da Clepsydra,
Ana e
Uma primeira tarefa que urgia realizar era, assim, a eliminação dessas
interferências. E como elas fossem muitas e os argumentos que as embasassem
fossem precários, e também porque o editor disputava ferrenhamente a outros
estudiosos o direito exclusivo de publicação e decisão sobre versões
concorrentes de poemas ou versos, produzindo argumentos ad hoc e ad
hominem, o princípio que me impus foi a dúvida metódica: a menos que outros
testemunhos corroborassem, não aceitaria o simples argumento de autoridade, que
é o mais freqüente na maior parte das disputas que atravessam as dúzias de
páginas introdutórias e de comentários presentes nas suas edições. Isso não
significa, é claro, desmerecer o papel de
Para atender ao mesmo objetivo de rigor, e para permitir aos
interessados o acesso a todas as fontes de que dispus graças à pesquisa
realizada em Lisboa, no Porto e em Macau, e graças especialmente à ajuda de
amigos que me auxiliaram com fotocópias e transcrições de documentos que não
estavam disponíveis para a consulta direta, tratei de colocar ao alcance do
leitor, de forma clara e organizada, a maior soma possível de informações
sobre a produção poética de Camilo Pessanha. Nos comentários extensos que
constituem a terceira parte do volume, apresentei, assim, todas as
informações textuais disponíveis sobre cada poema: autógrafos existentes,
publicações, trechos de cartas e outros escritos de Pessanha que poderiam
iluminar de alguma forma a gênese de algumas passagens etc. No registro das
variantes, além das impressas, apresentei ainda a leitura de todas as versões
autógrafas que pude compulsar, transcrevendo os trechos cancelados e os trechos
substitutos, anotando ainda os gestos textuais do poeta, principalmente os que
dizem respeito à forma e à ordem das substituições. Nesse trabalho, a não ser no
caso de evidente má leitura de autógrafos que eu mesmo pude consultar (como se
dá, por exemplo com os fragmentos que Castro Osório denominou “Roteiro da
vida”), ou no caso de comprovada interferência do editor, não propus, por todas
as razões que acabo de apresentar, que o texto oferecido à leitura no corpo
principal do volume fosse exclusivo em relação a outras versões, ou mesmo o
único aceitável em publicações com outro escopo ou outros pressupostos. Já no
que diz respeito à apresentação dos poemas em ordem cronológica, e não segundo
a ordem em que apareceram na edição de 1920 ou na de 1969, julguei mesmo
necessário registrar: “A partir deste trabalho poder-se-á proceder, na leitura
ou em publicações de diferente natureza, a novas ordenações e seleções,
temática ou formalmente mais significativas, que pessoalmente não me julgo
capaz de fazer, nem me sinto tentado a experimentar”.[7]
Causou-me, pois, algum espanto a leitura da edição crítica que dos
mesmos textos – sem acrescentar qualquer informação nova ou documento que já
não estivesse ali relacionado – fez,
dois anos depois, Barbara Spaggiari.[8]
Proveio esse espanto de ver a autora referir-se à minha escolha do texto-base
de alguns poemas como “erro grosseiro” e às divergências entre os critérios
dela e os meus como erros “nem sempre veniais” em que eu teria incorrido. De
fato, da apresentação do volume às notas aos poemas, esse é o tom com que se
refere às divergências editoriais: uma opção entre o certo, que é o que ela
propõe, e o errado, que é o que eu propus ou ela julga que eu propus. Mesmo que
os dois trabalhos tivessem os mesmos pressupostos, o mesmo objetivo e os mesmos
critérios, como não temos a mesma avaliação do valor dos testemunhos, nem da
confiabilidade de alguns deles, creio que sempre sobraria margem para
divergências e para escolhas diferentes, sem que essas divergências e escolhas
tivessem de ser submetidas a uma dicotomia primária de certo ou errado. Não
têm, entretanto, de modo algum, nem os mesmos pressupostos, nem os mesmos
critérios, nem o mesmo objetivo; e isso torna ainda mais inaceitável que o
olhar crítico e a apresentação de argumentos cedam lugar a postulações
dogmáticas, ou ao furor religioso que se vaza na linguagem do pecado e da
salvação.
Antes de passar ao exame das afirmações da editora italiana, devo
referir que, em tudo o que vai abaixo, fez ela escola em Portugal. Se não
escola, ao menos um aluno, o Sr. António Barahona.[9]
Trata-se de uma figura curiosa. Epígono deslumbrado e autoproclamado editor
crítico, levou ao paroxismo não só o vezo religioso da sua mestra, mas ainda a
sua fé de ser o escolhido – por, como Pessanha, também ele publicar versos –
para a tarefa de edição. Tarefa essa, diga-se, para a qual lhe parecem faltar,
em doses iguais, o preparo e a seriedade intelectual, além de discernimento.
Por isso mesmo a sua edição é uma espécie de tributo cego à de Barbara
Spaggiari. Tributo fatal, é certo, dadas as suas qualificações; mas tributo
também conveniente, pois o andar colado à sombra da mestra lhe poupou a ele,
como antes poupara a ela, quando andou colada a mim, o duro trato com os
autógrafos de Pessanha e com quaisquer questões que exigissem reflexão e
raciocínio aturado. Sendo assim, tudo o que eu poderia dizer sobre o seu
trabalho fica dito ao tratar da sua fonte e matriz. E ganhamos todos: ele por
apanhar menos, e o leitor – especialmente o português – por não ter de
contemplar a que tem descido o rigor crítico no campo da edição de um dos
principais poetas da língua e o que tem podido o oportunismo, mesmo em editoras
sérias e de expressão no mercado livreiro, na área da poesia.
Vejamos agora em que consistem os vários tipos de diferença entre a
edição de Barbara Spaggiari e a minha, e qual a importância dessas diferenças.
Em primeiro lugar, há uma divergência de fundo: Spaggiari acredita que errei
redondamente ao considerar que a edição de 1920 não pode ser tomada como
definitiva e consoante à vontade do autor. Segundo ela, é possível afirmar que
sim por um conjunto de razões de ordem diversa, que podem agrupar-se em dois
arrazoados, que passo a expor.
O primeiro começa com uma argumentação de fundo psicológico. Camilo
Pessanha pertenceria a um “tipo de poeta desistente”. Poetas dessa espécie “não
conseguem vigiar totalmente a edição da sua obra; nem mostram interesse
bastante por esse aspecto da própria actividade poética, que consideram ao
mesmo tempo com indiferença e aborrecimento. O texto continua vivendo com o
poeta, e modificando-se no tempo, como se, depois da composição, os poemas
nunca acabassem de obsidiar o seu autor.” Por isso mesmo, o texto de Pessanha
“é um continuum, em que a fluidez da matéria poética tarda a fixar-se na
sua forma definitiva”. Nesse quadro, que me abstenho de comentar, a publicação
em livro vai aparecer como uma necessidade ou quase como um alívio: “Nesse
sentido, a primeira publicação dos poemas em volume orgânico, com a autorização
do autor, constitui a etapa fundamental da sua história, pois interrompe o
fluxo da elaboração e confere, enfim, autonomia aos textos”.[10]
A notar apenas que aqui ainda não se afirma, antes pelo contrário, que Pessanha
supervisionou a preparação do volume. A “autorização” a que se refere a autora
é ou a de publicarem-se os seus poemas ou a sanção posterior, em carta de 1921,
na qual Pessanha agradece a edição e os “cuidados da disposição ( que é como eu
próprio a faria)”. Spaggiari conclui, entretanto, que a carta de 1921 “equivale
ao imprimatur do autor” à edição de 1920. Até aqui não há, como se vê,
qualquer postulação de que a escolha dos poemas, ou o texto com que vieram em
20 ou ainda a sua divisão em “sonetos” e “poesias” possam ser atribuídos a
Pessanha. A idéia é que, mesmo que não o sejam, podem ser tomados como tal, já
que acredita que o poeta tenha concordado com a idéia da recolha e já que ele
sancionou posteriormente a edição. O que não está dito aqui é, primeiro, que
Pessanha fez questão de anotar, nos autógrafos datados de 1916, que eram
transcritos “de memória”; segundo, que o editor recolheu no livro, a partir de
publicações várias em jornais, uma dúzia de outros textos; terceiro, que os
autógrafos traziam indicações claras de que alguns sonetos formavam conjuntos e
que essas indicações não foram respeitadas pelo editor; quarto, que não há
qualquer indicação, nem nos autógrafos, nem em qualquer outro documento, de que
os poemas deviam ser divididos, na publicação em livro, em dois blocos,
conforme fossem sonetos ou textos de forma variada; quinto, que a própria
Resta, assim, desse primeiro arrazoado, um único ponto de apoio para a
afirmação de que a primeira edição da Clepsydra é um “volume orgânico”:
a carta de Camilo Pessanha de 1921. É um apoio frágil. Considerando os dados
acima e também a relação entre o poeta e a família Osório, considerando
atentamente o tom do texto e ainda o fato de que é apenas no bojo de uma carta
de apresentação de um companheiro de maçonaria que o poeta dedica dois parágrafos
à edição do volume , e considerando, acima de tudo, que Pessanha ali declara
não só a sua “comoção” – que tanto se refere à publicação, quanto à notícia que
teve de uma conferência realizada por
O segundo arrazoado de Spaggiari pode ser resumido assim: a escolha e a
ordem dos poemas são de autoria de Pessanha, porque ele transcreveu um conjunto
de 18 poemas expressamente para a publicação do livro – são os autógrafos da
Biblioteca Nacional, em que se lê a data “janeiro, 15, 916"; porque “a
lista autógrafa, encontrada por Franchetti no mesmo espólio [...] contém os
primeiros versos de 10 poemas, todos incluídos na edição de 1920"; e
porque “uma análise da estrutura do livro revela que a Clepsydra de
1920 é construída segundo parâmetros comuns às teorias literárias da época, que
ficam evidentes e estruturam solidamente o livro”.[13]
Quanto ao primeiro argumento, o que importa registrar, além do que já foi há
pouco arrolado, é que mesmo esse conjunto, embora seja a versão mais recente
que nos restou desses poemas, não tem o caráter que lhe quer atribuir a autora,
pois ali se lê claramente a indicação “de memória”, como em tantos outros
documentos distribuídos por Pessanha a amigos de Lisboa; isto é: o registro
impede que atribuamos a esses textos o mesmo estatuto daqueles que, no seu
caderno de Macau, o poeta identificava como versão “Limpa” ou “definitiva” e
impede também que consideremos outras versões concorrentes, anotadas da mesma
maneira, como versões abandonadas em favor de uma versão “definitiva”,
produzida expressamente para a publicação do livro.[14]
Isso é tudo o que se pode concluir objetivamente. Não imagino como se possa, da
sua consideração, extrair a prova de que eles sancionam a edição de 20 seja na
escolha dos poemas, seja na ordem em que eles ali vêm. Quanto ao segundo
argumento, a lista por mim encontrada, devo dizer que sequer entendo que a
tenha mencionado em apoio às suas teses. Só a pôde mencionar, na verdade,
porque não a transcreveu. Se o tivesse feito, o leitor veria claramente que os
poemas aparecem ordenados de forma muito diferente daquela em que vieram na
edição de 20, que a sucessão dos poemas não parece ter ali nenhum desenho e,
por fim, que a lista alterna, de modo assistemático, sonetos e poemas de forma
variada. Já quanto ao terceiro argumento, depois de tudo o que vem aqui
exposto, faz ainda menos sentido, porque o que ele diz é: o livro foi publicado
em 1920 e apresenta uma dada divisão e ordem interna; a análise do livro
demonstra que ele, de fato, corresponde à época em que foi publicado. Creio que
esse volteio tautológico é uma resposta a um passo em que escrevi que “com
exceção de Castro Osório, a crítica não tem achado muito sentido na divisão do
livro
Até aqui, discuti as divergências reais, de princípio, entre as duas
edições, e os argumentos que as embasam. Outras há, e, embora não sejam muitas,
dividem-se em duas espécies, que merecem comentários separados.
Um primeiro bloco, que é pequeno, contém as divergências que são justas
achegas à minha edição e fico feliz de poder consignar aqui. Spaggiari notou
que transcrevi incorretamente uma palavra no verso 12 do soneto “Quando voltei
encontrei os meus passos” transcrevi “esta”, por “essa”; notou também que, na
segunda vez que me referi ao ano de publicação do poema que começa “Não sei se
é amor...”, enganei-me e grafei 1899 por 1889; finalmente, notou que me escapou
uma variante em relação ao texto, por mim adotado, do poema “Na cadeia os
bandidos presos”. Por elas só posso agradecer e garantir que esses problemas
serão eliminados numa futura edição.[17]
Já o segundo bloco é aparentemente mais numeroso, e diz respeito a
divergências na leitura dos autógrafos e na escolha do texto-base de um poema
importante.
Na escolha do texto-base, encontramos o que Spaggiari considera o meu
erro maior – “um dos erros mais grosseiros”, escreve ela, na p. 128 – que julga
seu dever “corrigir”: o caso do Violoncelo. Ao invés de anotar as
variantes a partir da versão que veio na Clepsydra de 1920, eu o fiz a
partir do autógrafo que julguei mais recente, que é o que pertence ao espólio
de Carlos Amaro. Spaggiari anota que se trataria de uma versão mais antiga do
que a da Clepsydra e que a inversão da rima nos últimos versos “apenas
sugere que Pessanha, como lhe era freqüente, escreveu de memória o texto
dedicado ao seu amigo Carlos Amaro, equivocando-se no final do poema, cujo
esquema é bastante artificioso para ser facilmente retido”. No afã de corrigir
o meu “erro”, por fim, escreve que aceito a versão Carlos Amaro “como texto
‘definitivo’”.
Em primeiro lugar, é preciso registrar que o texto não traz a anotação
“de memória” com que Pessanha de regra marcou os poemas que assim transcreveu;
inclusive, como vimos, os autógrafos produzidos
Uma última consideração se faz necessária, no que diz respeito a esse
poema: já chamei a atenção, tanto na edição brasileira, quanto na portuguesa,
para o fato de que a ortografia adotada no autógrafo pertencente ao espólio de
Carlos Amaro é já moderna, sem consoantes dobradas. Spaggiari não parece
avaliar corretamente esse dado, que a impediria de supor que está frente a uma
versão muito antiga do poema. De fato, a ortografia indica que o texto é
posterior a 1911, pois é de setembro desse ano a portaria governamental que
atualiza o sistema ortográfico. Como sabemos que Pessanha deixou Portugal em
fevereiro de 1909 e só retornou a esse país no final de 1915, temos três
situações possíveis: ou o poeta, entre 1911 e 1915, remeteu o poema a Carlos
Amaro, de Macau, onde tinha o caderno e por isso não o anotou como transcrito
“de memória”; ou lhe deu o autógrafo quando estava em Lisboa, na mesma ocasião
em que produziu os autógrafos hoje depositados na Biblioteca Nacional; ou o
enviou de Macau, depois de chegar de Portugal, em maio de
No que toca à leitura do caderno de Macau, temos poucos desacordos, e é
fácil verificar que os reparos agressivos de Spaggiari se devem menos a uma
real divergência do que a uma estratégia de
valorização do seu trabalho, e de diferenciação em relação ao meu, pois
é claro à análise que Spaggiari dele se vale todo o tempo, inclusive e
principalmente quando não o confessa, o que várias vezes me fez passar do
estado de espanto inicial para outro, de indignação. Para que se possa aferir a
qualidade científica do trabalho da autora – que, na “Nota introdutória”, o
opõe ao meu com a justificativa que o dela “reclama a sua origem na escola
filológica italiana” –, basta verificar que Spaggiari não teve acesso aos
autógrafos de Macau
Na p. 284 o caso é simples: fiando-se numa reprodução muito ruim, anota
simplesmente “a segunda palavra fica ilegível; PF, p. 198, propõe
‘constellação’. Nem seria preciso ir ao original. Bastaria aqui a consulta à Revista
de Cultura para ver que a palavra se
Como também sai maltratada a mesma tradição, quando se evidencia – nos dois últimos casos daquela série exemplar de divergências (p. 290, nota 287; e 166-7) – o procedimento pouco ortodoxo dessa sua
autoproclamada representante, que consiste em fazer de conta que leu o que não
pôde ler e que julgou com propriedade o que não tinha elementos para poder
avaliar. De fato, não é preciso aqui longa demonstração: basta que o leitor
compare, no tocante aos poemas que comparecem nessas páginas, as leituras que
vêm nas duas edições e que verifique depois a ilegibilidade da reprodução
utilizada por Spaggiari. Desmascarar-se-á, com este simples recurso às fontes,
o artifício e revelar-se-ão afinal ridículas as passagens em que a autora,
sobranceiramente, ajuíza e sentencia sobre a exatidão ou a propriedade das
minhas leituras.
O caso mais grave de má utilização de anotações de terceiros e de
leviandade ao fazê-lo ainda não é nenhum desses, mas o da anotação do aparato
genético e dos comentários estilísticos ao soneto que começa “Quando voltei
encontrei os meus passos”.
Já na edição de 1983, Spaggiari se confundira totalmente na análise das
versões deste texto. O caso é o seguinte: temos três versões do soneto. A
primeira é o texto do jornal O
Progresso, de 22/1/1898; a segunda é uma versão manuscrita que resulta de
uma série de intervenções do poeta sobre o texto do jornal; a terceira integra
o conjunto de manuscritos de 1916, depositados hoje na Biblioteca Nacional.
Quando
Pois bem, Spaggiari, que realizou a sua primeira edição contando
exclusivamente com as informações de Castro Osório, incorre no mesmo engano. De
fato, naquela época não tinha como não o fazer, uma vez que os autógrafos não
estavam disponíveis e ela, por princípio, em 1983 como em 1997, não duvidava
das informações de Castro Osório. Como Spaggiari, além de buscar a fixação do
texto, também procedeu à análise estilística das variantes, acabou produzindo
uma análise equivocada do sentido das alterações, cuja leitura é hoje
divertida. Foi por compreender as contingências daquele seu primeiro trabalho
de edição de Pessanha que não fiz menção direta, nem na edição brasileira, nem
na portuguesa, a esses e outros enganos da autora. Mas agora a situação é muito
diferente. Depois de acessíveis os autógrafos, e depois da leitura que eu mesmo
fiz do caderno de Macau, não é aceitável que enganos desse tipo continuem a
ocorrer. Principalmente não é aceitável que o aparato crítico seja correto, as
leituras das correções autógrafas e do manuscrito sejam registradas na ordem em
que de fato ocorreram e que, na análise estilística, os comentários da autora
reproduzam, com pequenas modificações, os da edição de 1983, invertendo a ordem
das versões e procedendo como se o registro das variantes e versões já não
estivesse corrigido. Nesse sentido, a leitura da p. 100 do volume de 1997, é um
tanto desnorteante: contra as próprias anotações a autora sistematicamente
entende que a ordem das versões é ainda a que consignou, em 1983, segundo a
informação distorcida de
Não vou me deter em todos os exemplos, mas creio que é necessário fazer
uma análise deste caso, já que é bastante ilustrativo do nível de rigor
analítico da autora, bem como da natureza e embasamento dos seus argumentos
filológicos.
Vamos considerar aqui, portanto, apenas um pequeno conjunto: a primeira
quadra do soneto, com as sucessivas versões autógrafas dos três últimos versos
dela, e, por fim, os comentários de Spaggiari. Na primeira versão, a do jornal,
vinha:
1 Quando voltei encontrei os
meus passos
2 Ainda vivos sobre a húmida
areia.
4 E reviveu sob os meus olhos
baços.
Na segunda versão, que é uma intervenção manuscrita sobre o texto do
jornal, lemos:
1 Quando voltei encontrei os
meus passos
2 Ainda vivos sobre a humida
areia.
4 Tão rediviva, em fugitivos
traços.
Essa versão do v. 3 foi cancelada, e uma nova foi escrita à direita do
texto impresso:
1 Quando voltei encontrei os
meus passos
2 Ainda vivos, sobre a húmida
areia.
4 Tão rediviva, em fugitivos
traços,.
Finalmente, no manuscrito de 1916, lemos:
1 Quando voltei encontrei os
meus passos
2 Ainda frescos sobre a húmida
areia.
4 – Tão rediviva!, nos meus
olhos baços...
Spaggiari comenta assim: “No v. 3, tão antiga é abandonado em
favor de fugitiva, conforme a tendência usual em Pessanha para
substituir tão + adjetivo por uma só forma adjetival, de medida silábica
equivalente (aqui Tão + adj.
trissilábico ® um só adjetivo quadrissilábico). No caso vertente, o quadrissílabo fugitiva
é extraído do v. 4 da redação mais antiga (em fugitivos traços) e
produz, no v.
Esse comentário é, em linhas gerais, o mesmo que encontramos na edição
de 1983 (p. 321-2), quando a autora ainda acreditava que a ordem das versões
era outra. É fácil ver a confusão. Só invertendo a ordem dos testemunhos é
possível dizer que “fugitiva” vem substituir “tão antiga”, quando só a versão
intermediária traz essa última forma. E só a ignorância da ordem das
intervenções poderia permitir a formulação da hipótese de que nestes versos e
versões se constata uma tendência estilística de Pessanha, que consistiria em
evitar a forma tão+adjetivo, quando é justamente essa forma que é introduzida
no verso 4 da segunda versão para persistir até a de 1916. É porque ainda está
lendo na cronologia inversa, e desprezando uma versão intermediária, que pode
pensar que o adjetivo fugitiva “é extraído do v. 4 da versão mais
antiga” (que é: “E reviveu sob os meus olhos baços”), ou que seja a sua
introdução que tenha “produzido” a forma aliterante frescos (sem entrar
no mérito das questões implicadas por essa forma de conceber a composição
poética), quando, na verdade o adjetivo já está nessa posição nas duas
primeiras versões. É também por julgar que a cópia manuscrita é a primeira versão,
como o fazia em 1983, que pode dizer que reevoquei-a é a lição original.
E é também por isso que pode, finalmente, pensar que e reviveu foi uma
versão intermediária, isto é, que veio depois de tão rediviva, talvez
consoante à lei, por ela descoberta, de eliminação da forma tão+adj. Dessa
trapalhada, creio que só se pode concluir que, embora na edição de 1997,
Spaggiari transcreva no aparato genético as minhas leituras dos autógrafos, nem
por isso dá conta de que essa transcrição invalida a sua análise da ordem e do
sentido das intervenções de Pessanha.[22]
Se Spaggiari, assim, contra a evidência dos dados que ela mesma aceita, exibe
conclusões tão disparatadas, o que dizer dos casos em que raciocina apenas a
partir das anotações de Castro Osório, ou daqueles em que a pesquisa não
revelou ainda elementos que permitam invalidar as fortes indicações de que os
primeiros editores da Clepsydra se valeram de fontes não confiáveis ou
introduziram alterações significativas no texto dos poemas? Nesses momentos,
seu discurso abandona mais decididamente o registro analítico e se transforma
em protesto de fé e afirmação de escolhas fundamentadas apenas por algum tipo
de convicção íntima. É o caso da opção por manter, no soneto que começa “Ó meu
coração, torna para trás.” a pontuação deficiente e a hipometria do verso 4,
“Queimou... Voltai horas de paz.” sem que haja nenhum autógrafo que embase a
sua opção, e ainda contra o próprio Castro Osório, que o corrigiu nas edições
posteriores. Que o faça, considerado o conjunto dos seus procedimentos, não
causa espécie. Mas não deixa de ser interessante observar como, mesmo dispondo
já das minhas anotações do caderno, e sem dispor de documento autógrafo que
confirme o texto de 20, tenha tanta certeza dos desígnios do poeta: “o poeta
tem, aparentemente, dificuldade na construção da similitude: ‘cismai, meus
olhos, como [cismam] os velhinhos / como os [olhos] dos velhinhos’; e propõe
várias soluções, para fluidificar o nexo sintático. [...] Na versão final,
porém, insatisfeito com o resultado, Pessanha prefere manter a hipometria.” (p.
83) Devo ser um empedernido e frio racionalista, pois nem sequer compreendo que
grande comunhão anímica com o poeta poderia produzir uma certeza assim
inabalável sobre quais seriam as suas dificuldades e escolhas, mesmo quando não
haja nenhum documento que as fundamente (muito pelo contrário). A autora, que
anuncia a sua edição como o “signo tangível de uma longue fidelité” (p.
5), parece acreditar que daí lhe advém alguma especial identificação com a
vontade inexpressa do poeta. Talvez por isso sinta ser sua missão empreender o
ataque frontal a qualquer heresia, a cavaleiro da filologia italiana, e
brandindo as suas certezas e as edições canônicas da Clepsydra.
Principalmente quando julga que o herético não tem a mesma fidelidade ao poeta
ou não percebe tão bem a sua psicologia. Nesse sentido, é realmente uma
herdeira à altura da tradição editorial da Clepsydra. E também, por ironia,
daqueles “lidadores”, que no poema Quando?, Pessanha nos apresenta
envoltos “nas prolixas e vãs contendas,/ lançando juras, impropérios,/ pelas
divisas e legendas”.
Não creio que seja útil continuar a desenvolver outras reflexões que
mostrem pontos em que, afinal, a utilização dos dados da minha edição não
produziu divergências, mas apenas incoerência no discurso da autora.[23]
Mas há, por outro lado, que comentar, mesmo brevemente, algumas questões de
método e de princípio que produzem as restantes diferenças entre as edições, e
com elas creio que será possível encerrar estas notas.
Trata-se de dois procedimentos, de duas opções práticas que contrariam
frontalmente os princípios de edição que a autora estabelece na sua Introdução.
O primeiro diz respeito ao texto de poemas publicados sob a supervisão
do autor e que têm versão diferente em alguma das edições póstumas, organizadas
por Castro Osório. Na p. 28, quando estabelece os princípios que deveriam guiar
a escolha do texto-base dos poemas que não figuraram na Clepsydra de
1920, escreve Spaggiari: “Faltando indicações específicas, o ‘original’
coincide ali com a versão mais recente publicada pelo poeta, ou em vida dele, e
não – como pretende Franchetti – com a última versão conhecida, manuscrita ou
impressa que seja”. E completa, mais abaixo: “Portanto, a prudência exige
aceitarmos, como definitiva, apenas a versão mais recente que tenha sido
publicada pelo poeta, ou em vida do poeta” (grifos da autora).
Registrando, mais uma vez, que nunca pretendi estabelecer o “original” , e
muito menos afirmei que a última versão impressa (postumamente, subentende-se,
eu creio) tivesse prevalência sobre autógrafos ou versões publicadas pelo
poeta, e, finalmente, que por certo têm estatuto diferente as publicações
feitas pelo poeta e as feitas em vida do poeta, sem a sua participação efetiva,
examinemos um caso específico em que Spaggiari discorda da minha leitura.
Trata-se do díptico San Gabriel, publicado por Pessanha no Jornal
Único, de Macau, em 1898. Esses sonetos não vieram na primeira edição.
Foram introduzidos na Clépsidra de 1945, isto é: 19 anos depois da morte
do poeta, que não os publicou
O segundo princípio violado pela autora é o que se encontra expresso na
p. 16, quando ela se pergunta, à guisa de síntese da seção 2 da sua Introdução:
“Aqui se detém o filólogo, enfrentando a eterna questão: será preciso perseguir
um original que nunca existiu, senão na imaginação, e até na potencialidade do
autor (Ur-Text)? Ou será melhor editar o texto que realmente existe (Text),
procurando eliminar apenas as intervenções alheias (do editor, neste caso)?”.
Ora, a resposta a esta pergunta, além de valer para o caso de San Gabriel
e de Paisagens de Inverno, por exemplo, também vale, sem dúvida, para os
títulos dos poemas, acrescentados ou suprimidos pelo editor. Aliás, apresso-me
a declarar que, do meu ponto de vista, o melhor é mesmo seguir o segundo
princípio, que é o que autora professa: editar o texto, eliminando as
intervenções dos editores. Foi o que tratei de fazer, no que diz respeito à
totalidade dos poemas. Daí que não apresentasse, no texto-base, os títulos
acrescentados pelo editor, e daí também que os repusesse, quando o editor os
eliminara.
Spaggiari dedica uma seção da Introdução ao problema dos títulos, e ali
registra, na p. 31: “Os títulos com certeza atribuídos por Castro Osório são os
seguintes: 11 No claustro de Celas, 17 Castelo de Óbidos, 18 Interrogação,
29 Na cadeia, 37 Olvido, 39-44-45 Roteiro da vida, 42 Madalena,
46 Água morrente, 52 Numa despedida, 53 Fragmento de um hino,
54 Imagem noturna da cidade, vista do alto.” Creio que há outros, mas
não vem ao caso discutir isto aqui.[24]
Importa, sim, observar que, tanto na edição brasileira, quanto na portuguesa,
por aceitar o critério de eliminar as intervenções de terceiros, não consignei
nenhum dos títulos atribuídos por Castro Osório. E como se comportou Barbara
Spaggiari? Sem lógica. Suprimiu o título
dos poemas acima identificados pelos números 11, 17, 18, 29, 37, 39-44-45; mas
manteve o título dado por Castro Osório aos poemas 42, 46, 52, 53 e 54. O caso
mais grave é o do soneto que, na sua edição, tem o número 42, porque aí
Spaggiari infringe simultaneamente os dois critérios que defende, já que desse
soneto não há autógrafo e ele foi publicado apenas uma vez, em vida do poeta, e
sem título.[25]
Por outro lado, julga que é “com certeza” de
Um último comentário deve ser dedicado aos famosos autógrafos de 1916,
que serviram de base à edição de 1920, e que fornecem, segundo indicação de
Spaggiari, o texto da sua edição. Duas questões merecem atenção aqui, além das
que já implicaram referência a esses documentos. No tocante ao texto, quando há
divergência entre o que neles vêm e o que veio na Clepsydra de
O caso mais grave dos autógrafos de 1916 é, porém, outro. Diz respeito
às marcações claras de seqüência para a formação de três dípticos de sonetos,
que não foram obedecidas pelo editor de 1920. É importante esse ponto, porque
utilizei a existência dos dípticos como mais um argumento contra a tese de que
a Clepsydra de 20 é um livro idealizado por Pessanha. A filóloga
italiana reconhece que existe aí um problema, e dedica aos dípticos e trípticos
uma seção do seu texto introdutório. Nela, as indicações de seqüência são
encaradas em dois momentos e com duas funções argumentativas. Por um lado, são
uma “prova ulterior da vontade de Pessanha para reunir, organizar e publicar os
seus poemas” (p. 12-13) – ou seja, são indicações significativas e de autoria
do poeta. Já em nota de rodapé a essa frase, Spaggiari afirma que essa mesma
ordem poderia ter sido abandonada em função de uma ordenação mais ampla (nota
12, p. 256-7). Mas, pergunto, feita por quem? Spaggiari também se fez essa
pergunta, e admite que, muito provavelmente, a ordenação foi feita pelos
editores. Eis o que escreve na p. 15: “Concluindo, a Clepsidra de 1920 não
corresponde, por certo, em todos os detalhes, à que ele próprio faria; nem é,
tão-pouco, totalmente confiável, pois existe uma margem de intervenção (mais ou
menos relevante) do editor”, acrescentando na respectiva nota de rodapé: “O que
verosimilmente acontece na ordenação dos poemas dentro das duas seções SONETOS
e POESIAS. Na Clepsidra de 1920, o critério adotado parece temático,
buscando a analogia dos textos, enquanto, a partir da segunda edição, visa a
uma ordem cronológica (ainda que aproximativa)” (nota 16, p. 257). Ora, é
justamente a ordenação dos poemas dentro das duas seções que fica afetada pelas
indicações autógrafas de seqüência que não foram respeitadas pelo editor de 20,
nem por Spaggiari, que desenvolve três argumentos para justificar-se por seguir
novamente a intervenção do primeiro editor contra a indicação expressa nos
autógrafos que diz reproduzir como texto. O primeiro é frágil: porque Pessanha,
em dois sonetos satíricos, anotou a ordem de modo reversível (I ou II, escreveu
num deles; II ou I, escreveu no outro), pretende que aqui também é possível a
inversão efetuada pelo editor de 20; mas Pessanha num caso marcou a
reversibilidade e, nos outros três, não. O segundo é de caráter metodológico, e
faz apelo à prudência, critério que já vimos em pleno uso no caso do díptico San
Gabriel: “quanto às indicações nos autógrafos do espólio da Biblioteca
Nacional, também é preciso encará-las com muita prudência, antes de as aceitar
como prova cabal da última vontade do autor”. O terceiro argumento é um
desenvolvimento do segundo, e vem em nota, na p. 257: “Cumpre também precisar,
após uma cuidadosa leitura dos autógrafos, que os sinais de seqüência foram
acrescentados posteriormente, com tinta mais clara e traço mais grosseiro
relativamente à caligrafia habitual de Pessanha”. Quando comparamos essas marcações com as que
vieram nos dois sonetos satíricos, não resta dúvida sobre a autoria; e a tinta
mais clara e o traço mais grosseiro realmente não nos parecem existir. Nem parece
a própria Spaggiari duvidar da sua autenticidade quando, além da passagem acima
referida, também na p. 34, ao notar que,
num dos casos, a seqüência indicada por Pessanha é a mesma que foi seguida na
edição de 1920, sem que se mantivesse, entretanto, a numeração, escreve: “A
indicação de seqüência, presente nos autógrafos do espólio da BN, confirma
agora a ordem de Cl1.” Resumindo: há indicações autógrafas que me parecem
indubitáveis, e que Spaggiari ora reconhece como tais, ora parece não
reconhecer, e que finalmente despreza em nome de uma assunção que ela mesma, em
outro momento, põe em dúvida, a saber, que é de autoria de Pessanha, em momento
posterior ao da produção dos autógrafos de 1916, o arranjo “vagamente temático”
da primeira edição de 20. Quanto a mim, abdico inteiramente de especular sobre
a última vontade íntima do autor ou sobre até que ponto a vontade dos primeiros
editores coincidiu com essa vontade perdida ou não expressa materialmente pelo
autor, por conta de alguma abulia crônica ou outro fator dessa espécie. Penso
que os documentos disponíveis devem fornecer as versões que devemos consignar e
que, nem por freqüentar continuamente o universo textual de Pessanha, um editor
possa sentir-se ungido de algum poder ou faculdade especial, além dos limites
da razão. É uma diferença
Entretanto, em 2004 veio à luz uma nova edição da poesia de Camilo
Pessanha, na qual se reproduzem documentos até então inéditos. Realizada por
Já agora, a publicação de Macau seguramente exigirá, além da anotação
das variantes, reflexão sobre pontos mais importantes e, talvez, alterações
maiores no meu texto, quando republicar a edição de 1995.
Existe, pois, um fato novo na história da edição dos versos de Pessanha.
Há agora o que de fato debater. Para preparar o terreno, julguei que valia a
pena afastar desde logo os empecilhos à reflexão séria e conseqüente que a
revelação dos novos documentos exige. Daí que me tenha sentido na obrigação de
me debruçar mais demoradamente sobre esses dois monumentos de intolerância, de
presunção e de ausência de seriedade filológica ou boa-fé que precederam o
livro simples e honesto de Macau. Este, reproduzindo franca e generosamente documentos
de enorme interesse, por certo permitirá em breve que a bibliografia das
[1] A primeira versão deste artigo foi redigida em 1999.
Destinava-se a um número especial da revista Colóquio/Letras,
dedicado a Macau, que nunca foi publicado. Quando recebi um
convite de Luiz Fagundes Duarte para partipar de um número da revista Veredas dedicado à crítica textual, pensei que seria uma boa oportunidade de divulgar estas reflexões. Eis a referência da publicação. Veredas, n.8. Porto Alegre: Associação Internacional de Lusitanistas, 2007, pp. 215-243.
[2] Pessanha, Camilo. Clepsydra (Estabelecimento de texto,
notas e comentários por
[3] A seção “Outros poemas (não
indicados para a Clepsydra)”, da edição de 1969, é composta pelos
seguintes textos, agrupados em três subseções: a) “Poemas iniciais”,
contendo Lúbrica (e a versão posterior, denominada Desejos), Madrigal
e o Soneto de Gelo; b) “Poemas de ocasião e fragmentários”, contendo Rosas
de Inverno, Numa despedida, “Fragmento de um hino” e “Imagem
nocturna da cidade vista do alto”; e c) “Dois sonetos de satírica imitação”: A
miragem e Transfiguração. O critério utilizado para a exclusão de
alguns textos do corpo principal do volume revelará toda a sua inconsistência
se considerarmos aqui unicamente dois casos: Lúbrica e Roteiro da
Vida. Lúbrica aparecera, como parte do núcleo denominado Clépsidra,
nas edições de 45 e 56, sendo daí excluído em 69; já o conjunto que Castro
Osório denominou Roteiro da Vida e incluiu no núcleo denominado Clepsydra
foi composto pelo editor, da seguinte forma: a primeira parte ficou sendo
um poema já publicado na Clépsidra de 1945; a segunda e a terceira parte
resultaram do agrupamento de três conjuntos encontrados no caderno de Macau,
que não tinham indicação de seqüência, nem de formarem conjunto entre si ou com
o poema já publicado em 1945, e que vinham, no mesmo caderno, numa ordem
diferente daquela em que vieram na edição de Castro Osório.
[4] Julguei por bem, por outro
lado, manter à parte dois fragmentos de poemas reproduzidos de memória por
terceiros, dos quais não há autógrafo ou publicação
[5] Rubim, Gustavo. O livro de
água. In: O Público. Lisboa, 10/2/1996.
[6] Camilo Pessanha – algumas
considerações em contributo à sua biografia. In: Estudos Portugueses e
Africanos, n° 21. Campinas: Instituto de
Estudos da Linguagem/Universidade Estadual de Campinas, 1993.
[7] Op. cit., p. 47.
[8] Pessanha, Camilo. Clepsidra
e outros poemas. Edição crítica, fixação do texto, introdução e notas de
Barbara Spaggiari. Porto: Lello Editores, 1997. Embora a autora escreva, na Advertência,
que “são pela primeira vez aqui utilizados documentos inéditos da Biblioteca
Nacional de Lisboa e da Biblioteca Pública Municipal do Porto”, isso não é
verdade.
[9] Pessanha, Camilo. Clepsydra. Lisboa: Assírio e Alvim,
2003.
[10] Op. cit., p. 10-11.
[11] A entrevista foi publicada no
Diário de Lisboa, em 21 de abril de 1921, e reproduzida, um ano depois,
num jornal de Macau: O Liberal, nº 34, de 30 de abril de 1922. Não temos
registro da reação de Pessanha a tais afirmativas, e não há correspondência
conhecida entre o poeta e
[12] A reprodução completa da
carta pode ser consultada em: Pessanha, C. Cartas a Alberto Osório de
Castro,
[13] Op. cit., p. 15.
[14] Ou seja, só o critério de
consignar a última intervenção consistente do autor é que pode embasar
rigorosamente a escolha desses textos como texto-base para a anotação das
variantes. Foi por isso que assim o fiz.
[15] A frase vem na p. 42 da
edição de 1995. Na seqüência, transcrevia este comentário de Esther de Lemos:
‘A Clepsidra não constitui um todo organizado; é, sob aquele título, uma
colectânea de poemas de Camilo Pessanha [...]”.
[16] “Clepsydra: poemas de Camilo
Pessanha - reflexões para uma história de leitura e uma proposta de edição.”
Quinto Império - Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa, nº
7. Salvador: Gabinete Português de Leitura, agosto-dezembro de 1996.
[17] Os textos a retificar
encontram-se nas p. 103, 93 e 153, respectivamente.
[18] Mesmo não tendo acesso aos autógrafos ou à reprodução
deles na Revista de Cultura de Macau, a autora poderia fugir à afirmação
enganosa: bastava-lhe olhar a reprodução do recorte do jornal que apareceu na
revista Persona, que ela refere na sua bibliografia. Cf. Persona,
n° 10. Porto: Centro de Estudos
Pessoanos, Julho de 1984, p. 65. Além da reprodução da Revista de Cultura
e da Persona, também estava disponível, desde 1991, uma
reprodução bastante legível desse documento no catálogo da Exposição
Bibliográfico Itinerante em Portugal: 70° aniversário da primeira edição da Clepsidra (org. por
[19] Este é um dos casos em que
[20] Tampouco parece muito precisa
em outros aspectos, mais propriamente históricos, quanto à introdução ou origem
do vocabulário poético em língua portuguesa, como se pode ver nesta afirmação,
em comentário ao poema “Eu vi a luz em um país perdido.”: “il sintagma minha
alma, calco del francese mon âme e imperversante nella poesia
portoghese fim-do-século, [...]” In: Pessanha, Camilo. Clepsidra
(a cura di Barbara Spaggiari). Bari: Adriatica Editrice, 1983, p. 64, p. 66 e
p. 245, respectivamente.
[21] Op. cit., p.
[22] A propósito das versões desse
soneto e do seu sentido, consultar o meu ensaio “Uma poética da nostalgia -
Notas sobre a temática do exílio na obra de Camilo Pessanha”. In VV.AA. Sentido que a vida faz - estudos para Óscar
Lopes. Porto: Campo das Letras, 1997. Esse texto, algo desenvolvido,
integra, junto com alguns outros ensaios, inéditos até então, o volume Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de
Camilo Pessanha, que publiquei em São Paulo, pela Editora da Universidade
de São Paulo, em 2001.
[23] Fico, aqui, com apenas mais
um, que se encontra nas suas notas e no texto que nos dá do poema que começa
“Depois das bodas de oiro”. Lemos na p. 120: “Texto da presente edição:
Cl1". Isto é: a autora estaria propondo, como texto-base, o da edição de
1920 e não o que eu propus. Quando cotejamos os textos, porém, vemos que ela
simplesmente adotou, sem nenhum registro, a pontuação que eu transcrevera e que
é diferente da edição de 1920. É claro que a editora sabe que não utilizou a
versão de 1920, com a sua pontuação excessiva de reticências. Tanto que anota,
contraditoriamente, no aparato de variantes, todas as diferenças entre o texto
que nos apresenta como o de 1920 e o que efetivamente veio naquela publicação.
Só se esqueceu de registrar que ele coincide exatamente com a minha leitura do
autógrafo publicado no número 10 da revista Persona.
[24] Não temos nenhuma prova de
que foi Pessanha que intitulou um tríptico de sonetos “Caminho”; tampouco temos
por certa a atribuição do título “Inscrição” e do título “Final”, com que vêm
identificados, nas edições Osório, o primeiro e o último poema do conjunto que
os editores entenderam como o núcleo da Clepsydra. Na edição de 1920,
aliás, “Inscrição” e “Final” não ocupam o lugar tipográfico de título de poema,
mas de seções do livro, que, assim, teria quatro: “Inscrição”, “Sonetos”,
“Poesias” e “Final”. Spaggiari, na edição de 83, incorporou os nomes
“Inscrição” e “Final” (no caso, mais exatamente, seguindo as edições
posteriores: “Poema final”) aos poemas, como títulos. Na edição de 97, esses
nomes vêm como na edição de 1920, abrindo seções.
[25] Trata-se do soneto que
começa: “Ó Madalena, ó cabelos de rastos,”. Spaggiari parece não perceber também
que, neste caso específico, talvez mais até do que em outros, atribuir um
título dirige fortemente a leitura do poema.
[26] Pessanha,
Camilo. A poesia de Camilo Pessanha. Coordenação,
lição e apresentação de