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Qual o público da dança?



Muito se especulou a respeito do público que frequenta espetáculos de dança, contudo ainda não havia uma resposta consensual sobre o seu perfil. Mas recentemente a publicitária Isaíra Maria Garcia de Oliveira conseguiu fazer uma caracterização desse público em sua pesquisa de doutorado, defendida no Instituto de Artes (IA). A conclusão foi que os espectadores de dança são essencialmente do sexo feminino, numa faixa de 21 a 30 anos, têm curso superior, na maioria provenientes do interior de São Paulo, pertencentes à classe C e amigos ou parentes de bailarinos. O estudo foi desenvolvido sob orientação de Cássia Navas Alves de Castro, docente do IA.

A autora da tese apurou questionários respondidos por 259 espectadores e seis programadores de dança da cidade de São Paulo. Foi a 67 espetáculos – de balé clássico, contemporâneo, sapateado, entre outros, nacional e internacional. Sentou-se inclusive na plateia para vivenciar as emoções de público. Frequentou as exibições de quinta-feira a domingo (os espetáculos, nos dias de semana, ocorrem normalmente às 21 horas, nos sábados às 20 horas e nos domingos às 18 horas).

Além de ser traçado esse perfil, foram analisadas as relações entre o público e os programadores de dança – um estudo de caso do Teatro de Dança (TD) de São Paulo. A doutoranda trabalhou com oito casas de espetáculos e colheu dados de 15 apresentações a fim de avalizar somente o TD, que se constituiu o seu objeto de estudo. As entrevistas com espectadores foram feitas de outubro a novembro de 2010 e, com programadores de dança, de abril de 2010 a fevereiro de 2011.

O Teatro de Dança, definiu a autora da tese, é o único espaço na capital especializado inteiramente em programação de dança, o qual mantém atividades diárias. Trata-se de um lugar público vinculado à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, fundado em 2006 e gerenciado pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA). Apesar de ter a sua programação encerrada no dia 23 de maio de 2011, nas dependências do Terraço Itália, reabriu suas portas num programa dessa mesma Secretaria, situado na Sala Paschoal Carlos Magno do Teatro Sérgio Cardoso.

Ela buscou primeiramente reconhecer os códigos de recepção do público, além do seu comportamento, porém, na literatura, se deparou mais com os processos de criação do artista, do performancer, do bailarino. E, pelo que notou, ainda não havia sido estudado o comportamento do consumidor de arte. Por isso, teve como pergunta de pesquisa “quem era esse consumidor de arte e como ele reagia frente ao espetáculo”.

Isaíra Oliveira relata que tem investigado há anos a temática dos espectadores de arte, tendo, no seu mestrado, avaliado espectadores de música. Mas como quisesse aprofundar o entendimento sobre o assunto no doutorado, quando trouxe este projeto para a Unicamp, a professora Cássia Navas sugeriu-lhe algumas mudanças para a área de Dança. A isso veio se somar a sua experiência, sobretudo pela atuação no Sindicato de Dança e em alguns eventos.

No TD, a autora da tese assistiu a espetáculos como Cara pálida, de Umberto da Silva; Carta ao pai, da Companhia Borelli; Conceição, do Grupo Experimental de Recife, Pernambuco; Gisele, da Cia. Brasileira de Danças Clássicas de São Paulo; e Adoniran do Ballet Stagium, de Marika Gidali e de Décio Otero, exemplifica. “Consegui mapear os códigos de recepção e a questão do julgamento e do gosto por meio do cruzamento das opiniões entre os programadores de dança e dos espectadores, bem como mediante análise do comportamento do consumidor nas áreas de Marketing e Psicologia.”

A publicitária também confrontou o conhecimento que tinha e constatou que o público tanto de música quanto de dança tem características distintas, a despeito das notórias similaridades. Uma diferença é que o público de dança não admite atrasos, ao passo que o de música é capaz de esperar horas sem reclamar.
Isaíra Oliveira notou ainda que o público de dança não sabe o exato momento de aplaudir.

“Alguns usam como subterfúgio esperar as primeiras manifestações para em seguida fazer o mesmo”, comenta. Isso porque hoje, justifica, os espetáculos de dança contemporâneos em geral são produzidos sob muita pesquisa e processos de reflexão. “Assim, se o público não tem em seu repertório os códigos, a sua compreensão, ele acaba não captando o espetáculo em sua plenitude. Ainda assim, mesmo não reconhecendo em profundidade os códigos e a linguagem, determinados espetáculos tocam muito as pessoas com emoção e contentamento.”

Outra reação do público de dança, ao final das apresentações, isso em todos os espetáculos, é que ele aplaude em pé, gostando ou não, e procura saber mais informações sobre aquela performance para responder à sua inquietação. Muitas pessoas, recorda a doutoranda, saíam no meio dos espetáculos porque se sentiam incomodadas com alguma coisa. “A sua linguagem corporal revelava claramente, durante o espetáculo, aceleração dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas e movimentação do corpo na poltrona.”

Aplausos
A pesquisa de Isaíra Oliveira foi densa, municiada de quase 700 páginas de conteúdo informativo. Com ela, comprovou que, no vasto universo da dança, tanto o espectador quanto o programador necessitam de material explicativo sobre o espetáculo (programas, textos ou livretos que expliquem o que é ou que lhes forneça pistas do tema), para que haja registro dele.

Ficou visível no trabalho a preferência dos espectadores pelas exibições aos sábados e à facilidade de acesso ao teatro. “A localização é item fundamental pois, se não houver este elemento, eles não chegam”, expõe a publicitária. E o local foi mencionado a priori por quem reside fora de São Paulo. Trinta cidades diferentes assistiram aos espetáculos na capital. Com isso, foi possível mapear as suas reações, explorando conceitos do que é palco, plateia, a relação do público e o aplauso.

Particularmente o aplauso, salientou a autora, segue um amplo gestual e cada qual remete a diferentes tipos de situação. A sua origem, segundo informou, já estava em manifestações antigas como os ritos religiosos. Esses rituais compreendem um fenômeno universal que registra a reação física dos espectadores após uma imobilidade forçada. “É quando se rompe com a ilusão apresentada”, traduz.

O aplauso no estudo representou emoção, explosão de raiva, contentamento e ironia. Entretanto, a pesquisadora esclarece que ele sempre teve uma função fática, denotando: ‘eu os recebo’, ‘eu os aprecio’. Quando não se aplaude, o recado é: ‘não gostei’. Tal manifestação esteve presente em todos os momentos da literatura, acrescenta.

Programador
A publicitária entrevistou programadores de dança do TD, da Galeria Olido, do Teatro Alfa, do Teatro Sesc de SP e do Centro Cultural SP. Para Isaíra Oliveira, ficou evidente que eles não fazem a programação sozinhos. “Fazê-la requer trabalhar com pontos de vista diferentes, públicos diferentes, artistas diferentes, produtores diferentes; é apresentar coisas novas e fatos intrigantes o tempo todo”, descreveu um entrevistado.

Os programadores não souberam dizer qual era o público de um determinado espetáculo. No máximo, identificaram tendências – o tipo de espetáculo. Para a pesquisadora, o ideal é que esse profissional o diversifique para agradar a distintos públicos. Há espaços, por exemplo, que têm dança no período da manhã, à tarde e à noite; têm no vídeo e no celular, numa tentativa de conquistar um público fiel. Existem programas ligados às ONGs e a escolas do Estado que levam às apresentações o espectador de baixa renda.

No Centro Cultural São Paulo, não havia uma pesquisa do programador, porém tomava-se por base o público passante, que vai lá para visitar a biblioteca ou a videoteca e se depara com uma programação de dança. Conforme a pesquisadora, na Galeria Olido, quase todos os espetáculos são gratuitos e frequentados por pessoas ligadas de algum modo à dança. Ao mesmo tempo, o público mostrou desconhecer o programador, indo ao espetáculo mais movido pela curiosidade.

Ao expressar a contribuição de sua tese, a autora descreveu que foi caracterizar o espectador e o programador de dança de São Paulo, capital. A sua ideia foi desviar o foco do palco, da performance e do artista, voltando-se mais ao público e aos bastidores, tarefa que desempenha há cerca de 25 anos, para verificar quem está programando e quem está assistindo, afirma Isaíra Oliveira, que também é professora universitária e produtora de espetáculos. Seu plano no momento é cursar o pós-doutorado na Unicamp e cumprir um módulo no Canadá no segundo semestre de 2012.

Publicação

Tese: “As relações entre os programadores e espectadores de dança na cidade de São Paulo: o caso do TD – Teatro de Dança”

Autora:
Isaíra Maria Garcia de Oliveira

Orientadora:
Cássia Navas Alves de Castro

Unidade:
Instituto de Artes (IA)






 
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