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Uma nova aplicação para a celulose

Procedimento em leito fluidizado reduz o
tempo de granulação em até uma hora

ISABEL GARDENAL

O químico industrial Roberto Luís Gomes da Cunha: equipamento de leito fluidizado mostrou-se viável para aplicação (Foto: Antonio Scarpinetti)Fazer a granulação de materiais como a celulose microcristalina permite hoje aumentar em laboratório o tamanho das suas partículas. A celulose, que é um polímero, revela-se interessante para a indústria farmacêutica, pois serve como matéria-prima para a confecção de comprimidos e, para a indústria alimentícia, a fim de reduzir o teor calórico dos alimentos. Ao estudar o assunto em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp, o químico industrial Roberto Luís Gomes da Cunha fez alguns achados. Tendo começado a trabalhar com a celulose no seu mestrado, observou a formação de vários aglomerados, em geral desprezados nas indústrias, mas que no seu doutorado ganharam destaque. O próximo passo foi aglomerar o material em patamares cada vez mais desejáveis empregando pioneiramente o equipamento de leito fluidizado para a granulação. O resultado foi certeiro. “Conseguimos fazer a granulação no leito e, para isso, empregamos uma solução a 35% de maltodextrina, que foi adicionado como ligante”, revela Cunha. “Descobrimos uma nova aplicação.”

O químico industrial, que nesta pesquisa foi orientado pela professora da FEQ Sandra Cristina dos Santos Rocha, conta que testou várias alternativas para granular o material em leito fluidizado. Primeiramente testou uma solução contendo 1% de amido. Em seguida, aumentou a concentração para 5%. Em nenhum dos casos foi obtido o resultado esperado: a formação dos grânulos. Em uma nova etapa, foi testada uma solução contendo 5% de carboximetilcelulose. Essa solução apresentou uma alta viscosidade, porém novamente não produziu os grânulos. Com base na literatura, foi realizada uma outra tentativa ainda, desta vez empregando uma solução com maltodextrina testada com 35% em massa, por meio da qual então o experimento foi bem-sucedido.

Posteriormente, diante da dificuldade encontrada para confeccionar pastilhas, a partir do material granulado no leito, o pesquisador buscou até recursos em materiais de uso cotidiano, como a adaptação de uma peça usada pelas costureiras para forrar botões, que serviu de base para a compactação dos grânulos e para a formação dessas pastilhas.

O especialista não poupou esforços para melhorar o aspecto, o manuseio, a compactação e o transporte do produto, conseguindo chegar finalmente à granulação no leito fluidizado. Esta foi a novidade, relata Cunha, pois esses leitos são em geral usados na indústria para os processos de secagem – do cloreto de sódio e carbonato de sódio –, tratamento de resíduos industriais, queima de enxofre na produção de ácido sulfúrico, queima de biomassa e carvão mineral, e gaseificação de carvão.

Normalmente, leito fluidizado refere-se a um leito de sólidos finamente divididos através dos quais passa ou um gás ou um líquido. A formação do leito fluidizado acontece quando um fluxo adequado de gás inicia o percurso por entre um leito de partículas, acarretando a fluidização. Primeiro, bolhas deste gás passam por entre o leito de material, criando uma turbulência.

Amostra de celulose granulada: Material é umedecido e secado ao mesmo tempo.(Foto: Antonio Scarpinetti)Esses leitos, conta Cunha, possuem aparência similar à de um líquido em fervura vigorosa. O fenômeno coloca as partículas em contato mútuo, assegurando uma mistura completa. Com isso, fornece condições uniformes que proporcionam altas taxas de transferência de calor e massa.

Processo
Depois de pôr em execução, por repetidas vezes, esse minucioso processo, o pesquisador ainda perseguia a viabilidade da granulação ao mesmo tempo que procurava diminuir o tempo de processamento e tratar as partículas finas. Cunha recorda que o processo de granulação surgiu por volta da década de 50. À época, ele foi iniciado com areia em granuladores cilíndricos. Desde então, outros equipamentos foram utilizados como granuladores: os tambores rotatórios, os esferonizadores e as extrusoras, etc.

Com a aplicação no leito fluidizado, objeto desta investigação, tem sido possível reduzir o tempo de granulação em até uma hora em relação aos equipamentos convencionais, que podem demandar até duas horas. “A granulação facilita a compactação deste material, sobretudo para a confecção das drágeas e dos comprimidos, servindo também para a feitura de novas formulações de sopas, bolos e mesmo para alguns produtos instantâneos”. Em adição, como diluente, a celulose microcristalina também pode ser empregada como agente lubrificante e desintegrante, propriedades indispensáveis numa formulação, e como base para produtos cosméticos.

A granulação, informa o especialista, é obtida da seguinte forma: a celulose é colocada dentro do equipamento de leito fluidizado, onde é aspergida uma solução de maltodextrina através de um bico atomizador. A celulose é suspensa por uma corrente de ar ascendente e a aspersão, que vem no sentido contracorrente, é feita em cima do material. Esta solução aglutina partícula por partícula, formando um grânulo maior. O equipamento é regulado numa temperatura adequada, para facilitar a secagem, enquanto o material está sendo umedecido. “Uma coisa interessante ocorre: ele é umedecido e secado ao mesmo tempo”, salienta.

Cunha notou que o material analisado é granulável e que o tubo interno utilizado na pesquisa foi uma das modificações que ajudou a incrementar a fluidização deste material, que consiste na movimentação das partículas dentro do leito. Subsequentemente à etapa de confecção das drágeas ou dos comprimidos, ele apontou que esses grânulos foram bastante compressíveis e que somente assim adquiriram facilmente a forma de pastilha.

Outras aplicações
O pesquisador aproveita para esclarecer que o equipamento de leito fluidizado se mostrou perfeitamente viável para aplicação nas indústrias farmacêutica e alimentícia, isso mais no sentido de aprimorar o processo de granulação e de diminuir custos, contribuições presentes claramente em sua tese. Além disso, Cunha declarou-se favorável à pesquisa de outros materiais, não somente da celulose. “É possível empregar, por exemplo, complexos vitamínicos adicionados a algum outro tipo de alimento sólido e agregar os princípios ativos através da técnica de leito fluidizado, nos comprimidos, nas drágeas ou no pó.”

Há muitos estudos sendo efetuados em torno dessa nova técnica, relata Cunha, mas muitas indústrias ainda não utilizam os equipamentos de leito fluidizado em suas unidades de trabalho. Apesar disso, algumas já começam a se decidir pela sua aquisição, com a finalidade de fazer a secagem de material. O químico industrial acredita que, com o investimento no leito para a granulação, o produto final poderá tornar o processamento mais barato, com redução de custos em torno de 50%, “isso porque o equipamento já é capaz de trabalhar na granulação com a metade do tempo de um equipamento tradicional”. Há algumas décadas o leito já foi adotado pelas indústrias de petróleo e, recentemente, em outros segmentos: de minérios, agrícola, detergentes, alimentos, químico e, especialmente, farmacêutico. O novo experimento deve entrar em escala industrial em breve.

Na indústria agrícola, esclarece ele, existe um grande problema com certos tipos de sementes, em sua semeadura, pois o equipamento utilizado para tal tarefa promove muitas perdas. “Então, granulando este material, que na indústria agrícola recebe o nome de ‘peletização’, o aumento do tamanho destas sementes seria fundamental para que o equipamento ideal conduzisse a plantação e conseguisse implantar uma sementinha em cada ponto”, afirma.

Na indústria de cerâmica, o mesmo leito seria utilizado na granulação do pó fino (argila), que também pode apresentar perdas em seu manuseio. “Neste caso, a granulação, além de eliminar a perda, diminuiria a emissão de pó”, comenta Cunha. “Com esta técnica, o material é granulado, armazenado, transportado e, a posteriori, processado.” Na opinião do pesquisador, o equipamento demonstra grande potencial para outras explorações em trabalhos futuros.


 
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