Leandro Tessler derruba alguns mitos sobre o ensino superior nos EUA

12/05/2011 - 08:42

Com intuito de derrubar alguns mitos correntes no Brasil em relação às universidades norte-americanas, o professor Leandro Tessler, coordenador de Relações Internacionais da Unicamp, concedeu palestra sobre “O sistema de ensino superior nos Estados Unidos – O que podemos aprender?”, no final da tarde de quarta-feira. O evento fez parte da série de seminários organizada pelo Grupo de Estudos em Ensino Superior (GEES) do Centro de Estudos Avançados (CEAv) da Universidade.

Entre os pontos destacados por Leandro Tessler estão a dimensão e a complexidade do sistema norte-americano, a sua forte desregulamentação e o fato de ser majoritariamente público e beneficiado por grande investimento do governo federal, quando muitos brasileiros pensam exatamente o contrário. “O ensino superior nos Estados Unidos, tanto público quanto privado, é pago. Mas a chamada propina dos alunos não cobre os custos e, em alguns casos, nem chega perto disso. Apesar de não haver um sistema de educação nacional, o governo federal é a maior fonte de recursos das instituições”.

Números apresentados pelo coordenador da Cori mostram que as escolas de ensino superior dos EUA receberam, em 2009, 153 bilhões de dólares do governo federal e 78 bilhões dos estados, na forma de auxílio estudantil, financiamento de pesquisa e benefícios fiscais. “É uma cifra astronômica, considerando que a Unicamp, por exemplo, recebe um bilhão de dólares em um ano normal. Além disso, as instituições americanas, públicas ou privadas, possuem outra fonte muito importante, que são as dotações, com as quais podem se financiar. É comum que ex-alunos vitoriosos na vida façam uma grande doação como retribuição”.

No ano passado, segundo Tessler, o sistema apresentava 4,5 mil escolas de ensino superior, 20,5 milhões de matrículas (no Brasil são 5,5 milhões), 3,2 de diplomas concedidos, 1,5 milhão de professores e 3,8 milhões de funcionários (incluindo os docentes). Ele explica que no sistema existem instituições que oferecem cursos de dois anos nos community colleges (ou junior colleges, equilentes privados); de quatro anos nos state colleges e liberal arts colleges; e de doutorado nas universidades.

“Os community colleges são profissionalizantes e geridos pela comunidade onde se encontram, tendo por isso uma forte ligação com o sistema produtivo local. Os state colleges, em sua maioria, só oferecem cursos até o mestrado, enquanto os liberal arts college são muito importantes na formação norte-americana, voltadas para educar os jovens nas artes liberais – filosofia, literatura, artes, música. É comum que presidentes dos Estados Unidos tenham passado por esses colégios de artes”.

Tessler observa que, assim como não existe o conceito de universidade federal, não há um ministério da educação para regular o ensino superior nos EUA, o que implica em um processo seletivo de estudantes igualmente desregulamentado. “Cada universidade seleciona os alunos da maneira que julgar mais conveniente, com uma exceção determinada pela Suprema Corte, que proíbe sistemas de cotas ou bônus fixos por conta da raça – o que temos aqui, lá é ilegal. Outra exceção importante é o Masterplan da Califórnia, que norteia o sistema naquele estado”.

Em relação às universidades, que oferecem doutorado e atividades de pesquisa, o palestrante informa que 168 são públicas (com 21% dos estudantes de ensino superior) e 112 privadas (que recebem 8% dos alunos). Ele acrescenta que, em 2009, 43% dos estudantes estavam nas escolas públicas de curta duração, 16% nos state colleges (4 anos) e 13% nos colégios de artes liberais. “Trata-se, portanto, de um sistema de ensino superior majoritariamente público (embora não gratuito), ainda que muitos daqui o vejamos como privado”.

Outro aspecto salientado por Leandro Tessler é a inexistência de isonomia salarial para os professores, seja em instituições públicas ou privadas. “Não se faz concursos e os salários são negociados, havendo alguns astronômicos. Desde que Steven Weinberg, Nobel de Física, se transferiu para a Universidade do Texas para estabelecer um grupo de altas energias em Austin, nunca divulgaram o seu salário, mas foi provavelmente a maior negociação desta área nos Estados Unidos”.

Entretanto, afirma Leandro Tessler, a crise econômica vem tendo efeitos pesadíssimos sobre o sistema de ensino superior dos EUA, havendo grande preocupação com sua perda de competitividade diante de países como Canadá, Coreia do Sul, Israel e vários da Europa. “Tem gente achando que o sistema já se perdeu e está se degradando. Os salários estão congelados na maior parte das universidades, contrata-se menos, adiam-se investimentos em infraestrutura e aumenta-se o valor das propinas. Barack Obama tem um projeto para que o país volte a ser o primeiro em graduação até 2020”.
 
 

Adicionar comentário