Greg Woolf elogia ênfase dada pelos pós-graduandos do IFCH à revisão crítica
23/02/2011 - 08:25
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Uma referência em história e arqueologia do mundo romano, o professor Greg Woolf, da University of Saint Andrews (Escócia), começou a ministrar na terça-feira (22) o curso “A Origem do Pluralismo Religioso no Império Romano e Posteridade”, dentro do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp. Perto de 50 inscritos estão frequentando o auditório do IFCH, inclusive alunos e docentes de outras universidades, como USP, Unesp e federais do Rio de Janeiro e do Paraná.
Em Campinas desde o dia 12, Greg Woolf já tinha mantido contatos informais com pós-graduandos da Unicamp, conhecendo e comentando seus projetos de pesquisa, e se diz impressionado. “Há uma ênfase muito grande à crítica de opiniões e tradições científicas. Isto se contrapõe aos estudantes europeus, que possuem séculos de erudição por trás e tendem a seguir o pensamento do orientador, que por sua vez seguiu a do orientador anterior...”.
Pedro Paulo Funari, professor do Departamento de História, informa que a vinda de Greg Wolf foi viabilizada pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), por meio do Fundo de Apoio ao Ensino e à Pesquisa (Faepex), no âmbito do programa Professor-Visitante. “Este projeto visa trazer professores estrangeiros para estabelecer cooperação com pesquisadores da Unicamp, sejam docentes, pós-graduandos ou mesmo graduandos. É uma forma de a Universidade intensificar o contato internacional”.
A intermediação junto ao pesquisador escocês foi feito pela professora Renata Garraffoni, da UFPR, que tem graduação, mestrado e doutorado pelo IFCH e recebeu uma bolsa da prestigiosa British Academy para passar três meses na Universidade de Brighton (Reino Unido). “Dei palestras na Universidade de Saint Andrews e, como o professor Woolf trabalha com questões do Império Romano e da identidade romana, temas que interessavam dentro do meu projeto, acabamos estreitando contato”.
O curso que Greg Woolf está dando aos brasileiros deriva de um estudo da relação entre imperialismos antigos e mudanças religiosas, em projeto de três anos (2009-2012) financiado pela Leverhulme Trust. O professor edita o Journal of Roman Studies e é membro dos conselhos editoriais da Classica et Mediaevalia, American Journal of Archaeology, Internacional Journal of Euro-Mediterranean Studies e New Voices in Classical Reception Studies. Na entrevista que segue, ele fala um pouco sobre seu trabalho.
Portal da Unicamp – É a primeira vez que vem ao Brasil? O senhor mantém relações com pesquisadores daqui?
Greg Woolf – É a primeira vez que estou aqui, mas tive oportunidade de entrar em contato com estudiosos brasileiros na Europa (tanto na Grã-Bretanha quanto no continente) em ocasiões específicas, particularmente com a professora Renata Garraffoni.
P – Que atividades o senhor preparou para os pós-graduandos brasileiros?
R – Venho fazendo contatos formais e informais aqui no Brasil, primeiramente junto a estudiosos que lidam com temas semelhantes aos meus. Mas nesta primeira semana também mantive atividades com alunos de graduação, mestrado e doutorado, ouvindo e comentando sobre os projetos que desenvolvem. O curso que vou ministrar é da Unicamp, mas ele está aberto a alunos e professores de outras universidades.
P – Gostaria que discorresse um pouco sobre o tema do curso: “A Origem do Pluralismo Religioso no Império Romano e Posteridade”.
R – Estou com um projeto sobre este tema financiado por três anos. Há uma relação entre o que eu estudo e o mundo contemporâneo, à medida que o Império Romano foi o primeiro momento da história em que houve, assim como há hoje, uma grande diversidade religiosa num mesmo território. Veja, por exemplo, que os atenienses tinham a sua religião e os judeus, na Palestina, a religião judaica – são grupos religiosamente fechados. Enquanto isso, no Império Romano, esta convivência foi muito ampla, o que tem muito a ver com o momento que vivemos no mundo atual.
P – O senhor estuda outros temas que chamam a atenção do leigo, como os “feitos da economia romana” e o “lazer na Grécia sob o domínio romano”. Poderia discorrer também sobre eles?
R – Fiquei muito interessado pela economia romana já na época de estudante na Universidade de Cambridge. Lá, chamavam atenção para o fato de que se tratou de uma economia muito diferente: que não era primitiva (baseada na troca, no escambo); ao contrário, era avançada na comercialização de grãos e na sua capacidade de alimentar um exército de 500 mil pessoas. No entanto, não havia bancos e uma série de outras características da modernidade, tratava-se de uma economia em estágio intermediário entre a primitiva e a capitalista. Achei que era um aspecto importante a ser estudado e me dediquei a isso.
Havia duas motivações para este estudo: a facilidade de acesso às fontes e outra de cunho intelectual. Em relação às fontes, a arqueologia foi bastante importante nas últimas décadas para que tenhamos muitos dados sobre a economia romana. Como por exemplo, as ânforas usadas para transportar azeite, vinho e outros produtos, que foram encontradas em quantidade e permitem fazer análises econômicas a partir deste material arqueológico.
A segunda motivação é que houve um grande avanço intelectual na compreensão de que as sociedades podem ser muito complexas, como no caso da economia romana, mas diferentes da nossa em diversos aspectos. Isso é importante por mostrar que podemos organizar a sociedade de maneira mais variada, não havendo um único caminho. É importante inclusive para pensar modelos alternativos de economia visando à sustentabilidade.
P – E quanto ao lazer na Grécia sob domínio romano?
R – Fui levado ao tema, primeiramente, pela ideia generalizada que temos de que os romanos gostavam da boa vida, de festas e gladiadores, o que é bem conhecido tanto pela literatura como pelas fontes arqueológicas (edifícios, pinturas). Tentei integrar este conhecimento geral sobre o lazer naquela época com o conceito de hoje, do lazer como categoria, em contraposição ao trabalho.
Lá também havia festas, quando se fechava tudo, numa espécie de feriado. Ocorre que originalmente estas festas eram feitas no fórum, como atividades lúdicas temporárias. A partir de determinado momento, começou-se a construir edifícios próprios para isso, como anfiteatros e teatros, marcando a mudança para algo permanente. Mais que isso: os edifícios são monumentais, a tal ponto que qualquer pessoa que chegue a Roma hoje, como há dois mil anos, fixa os olhos no Coliseu.
Achei interessante esta mudança de comportamento, a importância que o lazer ganhou no ambiente antigo. Ressalto que ainda não escrevi muito sobre isso. O tema surgiu de perguntas que os alunos me faziam e acabei montando um curso. Desta interação com os alunos, fui desenvolvendo o tema para mim mesmo. Espero produzir um livro, mas estou ainda na fase de cursos e de reflexão. Este fato mostra como é importante a pedagogia, nas salas de aula também surgem muitas ideias e aprendemos com os alunos.
P – Nas conversas que já manteve com pós-graduandos, qual foi sua impressão dos projetos que eles desenvolvem?
R – Tive a oportunidade de interagir com uma dúzia alunos, da graduação ao pós-doutorado, e gostaria de ressaltar dois aspectos. Em primeiro lugar, que há uma grande diversidade de temas, desde os específicos da arqueologia até os ligados ao pensamento intelectual. O segundo aspecto é uma ênfase muito grande à crítica de opiniões e tradições científicas, uma revisão do que foi discutido anteriormente. Isso se contrapõe aos estudantes europeus, que possuem muitos séculos de erudição por trás e têm forte tendência a seguir o orientador, que por sua vez havia seguido o seu orientador, de tal forma que estão muito centrados na tradição. E fiquei muito bem impressionado, também, com o fato de que quase todos os alunos, apesar de alunos, têm contatos e estágios no exterior, onde realizaram trabalhos de campo ou pesquisas bibliográficas.
P – O que o senhor pretende levar de volta para a Escócia?
R – A primeira coisa que gostaria de levar é a luz do sol que estou tomando aqui e que lá faz bastante falta. Foi minha primeira vez não só no Brasil como na América Latina, uma visita muito instrutiva. Vou levar principalmente os contatos, que espero que continuem, tanto com os jovens estudantes como com aqueles nem tão jovens assim.
Em Campinas desde o dia 12, Greg Woolf já tinha mantido contatos informais com pós-graduandos da Unicamp, conhecendo e comentando seus projetos de pesquisa, e se diz impressionado. “Há uma ênfase muito grande à crítica de opiniões e tradições científicas. Isto se contrapõe aos estudantes europeus, que possuem séculos de erudição por trás e tendem a seguir o pensamento do orientador, que por sua vez seguiu a do orientador anterior...”.
Pedro Paulo Funari, professor do Departamento de História, informa que a vinda de Greg Wolf foi viabilizada pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), por meio do Fundo de Apoio ao Ensino e à Pesquisa (Faepex), no âmbito do programa Professor-Visitante. “Este projeto visa trazer professores estrangeiros para estabelecer cooperação com pesquisadores da Unicamp, sejam docentes, pós-graduandos ou mesmo graduandos. É uma forma de a Universidade intensificar o contato internacional”.
A intermediação junto ao pesquisador escocês foi feito pela professora Renata Garraffoni, da UFPR, que tem graduação, mestrado e doutorado pelo IFCH e recebeu uma bolsa da prestigiosa British Academy para passar três meses na Universidade de Brighton (Reino Unido). “Dei palestras na Universidade de Saint Andrews e, como o professor Woolf trabalha com questões do Império Romano e da identidade romana, temas que interessavam dentro do meu projeto, acabamos estreitando contato”.
O curso que Greg Woolf está dando aos brasileiros deriva de um estudo da relação entre imperialismos antigos e mudanças religiosas, em projeto de três anos (2009-2012) financiado pela Leverhulme Trust. O professor edita o Journal of Roman Studies e é membro dos conselhos editoriais da Classica et Mediaevalia, American Journal of Archaeology, Internacional Journal of Euro-Mediterranean Studies e New Voices in Classical Reception Studies. Na entrevista que segue, ele fala um pouco sobre seu trabalho.
Portal da Unicamp – É a primeira vez que vem ao Brasil? O senhor mantém relações com pesquisadores daqui?
Greg Woolf – É a primeira vez que estou aqui, mas tive oportunidade de entrar em contato com estudiosos brasileiros na Europa (tanto na Grã-Bretanha quanto no continente) em ocasiões específicas, particularmente com a professora Renata Garraffoni.
P – Que atividades o senhor preparou para os pós-graduandos brasileiros?
R – Venho fazendo contatos formais e informais aqui no Brasil, primeiramente junto a estudiosos que lidam com temas semelhantes aos meus. Mas nesta primeira semana também mantive atividades com alunos de graduação, mestrado e doutorado, ouvindo e comentando sobre os projetos que desenvolvem. O curso que vou ministrar é da Unicamp, mas ele está aberto a alunos e professores de outras universidades.
P – Gostaria que discorresse um pouco sobre o tema do curso: “A Origem do Pluralismo Religioso no Império Romano e Posteridade”.
R – Estou com um projeto sobre este tema financiado por três anos. Há uma relação entre o que eu estudo e o mundo contemporâneo, à medida que o Império Romano foi o primeiro momento da história em que houve, assim como há hoje, uma grande diversidade religiosa num mesmo território. Veja, por exemplo, que os atenienses tinham a sua religião e os judeus, na Palestina, a religião judaica – são grupos religiosamente fechados. Enquanto isso, no Império Romano, esta convivência foi muito ampla, o que tem muito a ver com o momento que vivemos no mundo atual.
P – O senhor estuda outros temas que chamam a atenção do leigo, como os “feitos da economia romana” e o “lazer na Grécia sob o domínio romano”. Poderia discorrer também sobre eles?
R – Fiquei muito interessado pela economia romana já na época de estudante na Universidade de Cambridge. Lá, chamavam atenção para o fato de que se tratou de uma economia muito diferente: que não era primitiva (baseada na troca, no escambo); ao contrário, era avançada na comercialização de grãos e na sua capacidade de alimentar um exército de 500 mil pessoas. No entanto, não havia bancos e uma série de outras características da modernidade, tratava-se de uma economia em estágio intermediário entre a primitiva e a capitalista. Achei que era um aspecto importante a ser estudado e me dediquei a isso.
Havia duas motivações para este estudo: a facilidade de acesso às fontes e outra de cunho intelectual. Em relação às fontes, a arqueologia foi bastante importante nas últimas décadas para que tenhamos muitos dados sobre a economia romana. Como por exemplo, as ânforas usadas para transportar azeite, vinho e outros produtos, que foram encontradas em quantidade e permitem fazer análises econômicas a partir deste material arqueológico.
A segunda motivação é que houve um grande avanço intelectual na compreensão de que as sociedades podem ser muito complexas, como no caso da economia romana, mas diferentes da nossa em diversos aspectos. Isso é importante por mostrar que podemos organizar a sociedade de maneira mais variada, não havendo um único caminho. É importante inclusive para pensar modelos alternativos de economia visando à sustentabilidade.
P – E quanto ao lazer na Grécia sob domínio romano?
R – Fui levado ao tema, primeiramente, pela ideia generalizada que temos de que os romanos gostavam da boa vida, de festas e gladiadores, o que é bem conhecido tanto pela literatura como pelas fontes arqueológicas (edifícios, pinturas). Tentei integrar este conhecimento geral sobre o lazer naquela época com o conceito de hoje, do lazer como categoria, em contraposição ao trabalho.
Lá também havia festas, quando se fechava tudo, numa espécie de feriado. Ocorre que originalmente estas festas eram feitas no fórum, como atividades lúdicas temporárias. A partir de determinado momento, começou-se a construir edifícios próprios para isso, como anfiteatros e teatros, marcando a mudança para algo permanente. Mais que isso: os edifícios são monumentais, a tal ponto que qualquer pessoa que chegue a Roma hoje, como há dois mil anos, fixa os olhos no Coliseu.
Achei interessante esta mudança de comportamento, a importância que o lazer ganhou no ambiente antigo. Ressalto que ainda não escrevi muito sobre isso. O tema surgiu de perguntas que os alunos me faziam e acabei montando um curso. Desta interação com os alunos, fui desenvolvendo o tema para mim mesmo. Espero produzir um livro, mas estou ainda na fase de cursos e de reflexão. Este fato mostra como é importante a pedagogia, nas salas de aula também surgem muitas ideias e aprendemos com os alunos.
P – Nas conversas que já manteve com pós-graduandos, qual foi sua impressão dos projetos que eles desenvolvem?
R – Tive a oportunidade de interagir com uma dúzia alunos, da graduação ao pós-doutorado, e gostaria de ressaltar dois aspectos. Em primeiro lugar, que há uma grande diversidade de temas, desde os específicos da arqueologia até os ligados ao pensamento intelectual. O segundo aspecto é uma ênfase muito grande à crítica de opiniões e tradições científicas, uma revisão do que foi discutido anteriormente. Isso se contrapõe aos estudantes europeus, que possuem muitos séculos de erudição por trás e têm forte tendência a seguir o orientador, que por sua vez havia seguido o seu orientador, de tal forma que estão muito centrados na tradição. E fiquei muito bem impressionado, também, com o fato de que quase todos os alunos, apesar de alunos, têm contatos e estágios no exterior, onde realizaram trabalhos de campo ou pesquisas bibliográficas.
P – O que o senhor pretende levar de volta para a Escócia?
R – A primeira coisa que gostaria de levar é a luz do sol que estou tomando aqui e que lá faz bastante falta. Foi minha primeira vez não só no Brasil como na América Latina, uma visita muito instrutiva. Vou levar principalmente os contatos, que espero que continuem, tanto com os jovens estudantes como com aqueles nem tão jovens assim.



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