Livro aborda futuro
do bioetanol no Brasil

02/02/2015 - 12:32

O livro

Dezessete especialistas ligados ao Nagise (Núcleo de Apoio à Gestão da Inovação do Setor Sucroenergético) da Unicamp lançam no dia 25 deste mês, na Livraria Cultura, Conjunto Nacional, em São Paulo, às 18h30, o livro Futuros do Bioetanol: O Brasil na Liderança?, que tem como organizador o professor Sergio Salles Filho, docente do Instituto de Geociências (IG) e coordenador do núcleo. O livro aborda o desenvolvimento do setor no Brasil, desde a evolução de indicadores econômicos, ambientais, sociais e científicos e tecnológicos até a análise sobre como vem se conduzindo o tema da inovação. O título Futuros do Bioetanol, no plural, vem justamente da incerteza sobre como o etanol ocupará a matriz energética brasileira e global. Segundo Salles Filho, para o Brasil assumir a liderança mundial, a primeira coisa a fazer é eliminar as ineficiências operacionais e ampliar a sua visão estratégica. “Além da adoção de uma diretriz clara de inovação tecnológica, e não tecnológica para o setor de etanol, é preciso investir pesado na expansão do mercado internacional desse produto”, afirma. “O etanol somente sairá do atual patamar de produção e consumo se ele se transformar em commodity. E isto não é tarefa simples”, garante. Em entrevista concedida ao Portal Unicamp, o coordenador do livro discute os desafios que o país terá e como está se saindo nesse mercado.

PU – O que esse livro aborda?
Sergio Salles Filho – Ele resulta de um amplo estudo e de um trabalho de capacitação de pessoal do setor sucroenergético nos temas de inovação e de gestão da inovação. Fizemos, dentro do Nagise, um trabalho de treinamento nesses temas, juntamente com um diagnóstico da situação da inovação no setor e com a elaboração de planos de inovação e de gestão da inovação para as empresas envolvidas. Este trabalho foi conduzido entre 2013 e 2014, contando com a participação de mais de 80 profissionais de 50 empresas que, juntas, representam cerca de 1/3 da produção nacional de etanol. O Nagise é apoiado pela Finep e foi desenvolvido e implementado por uma rede de instituições lideradas pela Unicamp e envolvendo a Embrapa Agroenergia, a UNICA, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a FEA/USP-Ribeirão Preto. O livro trata de vários temas do desenvolvimento do setor no Brasil, desde a evolução de indicadores econômicos, ambientais, sociais e científicos e tecnológicos até a análise sobre como o setor vem conduzindo a abordagem da inovação.

PU – Os autores da obra empregam o título Futuros do Bioetanol no plural. O que foi pensado?
Sergio - O título Futuros do Bioetanol, no plural, vem justamente do fato de haver incerteza sobre como o etanol ocupará a matriz energética brasileira e global. Apesar dos vários atributos favoráveis, como por exemplo ser fonte renovável e ter balanço energético e de carbono positivos, o etanol está ocupando espaço de matrizes energéticas de forma desigual e oscilante. Os investimentos ampliaram, a produção aumentou, mas ainda não se configura como uma commodity energética. Os países buscam alternativas ao petróleo, é verdade, porém essas alternativas são variadas. E conquistar um "lugar ao sol", dentre as novas fontes de energia, é um esforço e tanto. Não basta ser renovável. Tem que lutar para ocupar posições contra alternativas cujas vantagens variam aos olhos dos países, segundo conveniências de toda ordem. O jogo, neste assunto, é bruto.

PU – Gostaria de destacar algum capítulo do livro?
Sergio – O conjunto da obra é o mais interessante. Conta com 17 autores, pesquisadores qualificados que convivem com o tema da inovação, criam conceitos, têm experiência prática e formulam metodologias. Esses autores trabalharam juntos e o livro é uma obra coletiva. As partes estão impregnadas com o espírito do Nagise e creio que todos "beberam" nas fontes de todos.

PU – Qual o contexto atual do bioetanol no Brasil? O investimento nesse combustível seria vantajoso nesse momento?
Sergio - Esta é uma pergunta difícil, por uma razão simples: o contexto atual muda com uma força e velocidade que assustam. Entregamos o manuscrito à Editora em agosto de 2014. Nas revisões que fizemos até a prova editorada final, posso dizer que alguns aspectos de conjuntura mudaram tanto que nos forçaram a rever conclusões. É o caso da queda brusca do preço do petróleo, que justamente neste período mudou o cenário de tal forma que algumas das inferências pensadas em agosto já não tinham base factual em novembro. Uma loucura. Os dois últimos anos foram de insatisfação por parte das empresas: as promessas de governo, a liderança do Brasil, os investimentos crescentes, a segunda geração. Tudo isso que foi alimentado durante os seis ou oito anos precedentes sumiu do discurso e entrou em cena uma dura disputa. Afinal, o etanol é ou não é prioridade nacional? Políticas e estratégias mudaram, e a análise do futuro somente pode mesmo ser feita por meio de cenários alternativos, que é o que fazemos no livro. Quer dizer, discutir o futuro do setor só mesmo com diferentes cenários. Se ocorrer tal coisa, então o futuro será "x"; se ocorrer diferente, então o futuro será "y". Em anos de trabalho sobre estudos prospectivos, creio não ter visto mudanças tão radicais em tão pouco tempo como as que vêm ocorrendo com o etanol no Brasil. Haja capacidade de previsão! De toda forma, e respondendo à questão, a conjuntura do etanol sempre estará presente – e de alguma forma sempre será mais ou menos favorável. O álcool fermentado de cana-de-açúcar é parte de nossa história e, como tal, é um daqueles casos em que o Brasil mais avança do que retrocede, a despeito da história de ciclos alternados de crescimento.

PU – O bioetanol é produzido usualmente a partir de quais matérias-primas? E as principais alternativas futuras?
Sergio - Fundamentalmente, é produzido a partir de duas matérias-primas: do milho e da cana-de-açúcar. Mas é mais o primeiro que o segundo, porque os Estados Unidos produzem cerca de 50 bilhões de litros de etanol de milho enquanto o Brasil produz pouco mais da metade disso. Recentemente, entra em cena a celulose, obtida de cana energia, palha ou qualquer outra fonte de biomassa. Contudo, embora existam algumas plantas industriais operando com este tipo de matéria-prima, milho (ou outra fonte de amido) e cana prevalecem. No Brasil, é a cana. No futuro, as tendências, como mostramos no livro, apontam para a biomassa celulósica. As condições e iniciativas atuais servem para despertar a dúvida. Várias empresas estão pagando para ver. As apostas, ainda que com viabilidade técnica, situam-se no conjunto de incertezas que hoje contêm o setor.

PU – Como anda a produtividade da cana-de-açúcar? A inovação tecnológica caminha no mesmo passo? 
Sergio – A produtividade da cana no Brasil é historicamente baixa, pelo menos na média. Temos menos de 70 toneladas por hectare. Foi uma surpresa para nós verificarmos que esta é ainda uma das principais preocupações das empresas: elevar a produtividade para 80, 100 t/ha. Do ponto de vista da viabilidade técnica, isto é totalmente factível, ou seja, há variedades e tecnologia disponíveis para isso. O Brasil deve ser o país no mundo com o maior contingente de pesquisadores em melhoramento genético de cana. Deve ser também o que mais oferece variedades de alta produtividade adaptadas às condições climáticas tropicais como as nossas. Ainda que algumas empresas tenham patamares elevados de produtividade, a média é baixa e, pior, evoluiu pouco nas últimas duas décadas. É algo difícil de aceitar. De um lado, pesquisa de ponta e oferta de variedades, de outro, baixa adoção e baixa produtividade. Achávamos que isso havia mudado no Brasil, justamente por conta dos capitais que entraram no setor na última década. Há empresas que investiram, mas a média continua baixa.

PU – Quando ocorreu o maior impulso na produção do bioetanol e quanto se produz hoje?
Sergio – Na segunda metade dos anos 2000, o Brasil saltou de 18 bilhões de litros para 26 bilhões, recuando para algo em torno de 24 bilhões e estagnando a produção nos últimos anos. Estamos patinando na casa dos 25 bilhões de litros. O mais impressionante é que os Estados Unidos, entre 2006 e 2012, mais que dobraram sua produção e hoje produzem algo em torno dos 48 bilhões de litros. É impressionante porque lá uma medida de incentivo para adição de etanol à gasolina tem resultado imediato. A resposta é muito rápida, mesmo considerando-se que o etanol de amido de milho é mais caro: primeiro tem que se quebrar o amido em glucose, depois levar a glucose ao etanol. Se fosse assim no Brasil, é possível que estivéssemos dizendo que ficamos para trás porque nosso etanol é mais caro e tecnicamente mais complexo que o etanol de cana... A recíproca não faria o menor sentido...
 
PU – O apelo ambiental ainda é um dos maiores atrativos desse tipo de combustível?
Sergio – Sim e não. Sim, porque continua sendo um elemento de desenvolvimento humano “em progresso”. Quer dizer, a questão da sustentabilidade ambiental está longe de ser resolvida e continuará fazendo parte das agendas políticas, com força crescente, salvo eventos disruptivos que possam tirar o tema da pauta (guerras, racionamentos etc.). Não, porque as forças econômicas que conformam a evolução da matriz energética são tão predominantes que definem ou restringem o passo da força ambientalista. Veja-se por exemplo o caso do gás de xisto nos EUA. Foi impressionante o que ocorreu. Em muito pouco tempo, o “Shale gas” passou de fonte inexpressiva de energia para mais de 20% do fornecimento de gás natural no país. Mudou a matriz energética em menos de meia década. Como já disse, os EUA são ágeis em responder a oportunidades. Nós, infelizmente, não.

PU – O que falta para o país assumir de vez a liderança nessa área? O principal concorrente ainda são os Estados Unidos?
Sergio – O ponto de interrogação no título do livro destaca exatamente o foco de sua pergunta: o que falta ao Brasil para ter liderança no etanol global. Como sempre, há fatores que controlamos e outros que não. O problema não são os fatores que não controlamos, mas os que controlamos. Óbvio. O livro aborda isso. A lição de casa foi apenas parcialmente feita pelas empresas. Como mencionei, há várias delas que hoje têm níveis de produtividade agrícola e industrial elevados, e compatíveis com a pressão de preços. Entretanto, a maioria não está nesta situação. Então, a primeira coisa a fazer é eliminar as ineficiências operacionais e ampliar a visão estratégica. Inovação, por mais básica que seja – como a adoção de tecnologias disponíveis que elevem a produtividade agrícola – é um caminho inequívoco para tempos de crise (e de bonança). Do lado das políticas, de fato o setor energético tem sido alvo de ações contraditórias por parte do governo. Seja no setor elétrico, no de óleo e gás, ou no de etanol, para citar os mais óbvios, os últimos anos têm testemunhado desencontros nas políticas. O Brasil não tem rumo claro nessa questão e isso é o pior dos mundos para quem precisa de horizontes de longo prazo.

PU – Quais são os próximos desafios do Brasil para manter um preço competitivo? A crise financeira pode interferir nesse processo? E a falta de água?
Sergio – Além da adoção de uma diretriz clara de inovação tecnológica, e não tecnológica para o setor de etanol, é preciso investir pesado na expansão do mercado internacional desse produto. Tal investimento tem natureza econômica e política, e portanto tem relação direta com o esforço nacional de comércio internacional, ligado por natureza à ação diplomática. Digo isso porque os grandes mercados para nosso etanol precisam ser desenvolvidos. Há um espaço econômico e diplomático que precisa ser ocupado de forma ativa e isso obviamente depende das políticas para o setor energético. Então, as ações estão nas duas pontas: no setor privado, que precisa reverter índices históricos de baixa produtividade e baixo investimento em inovação, e no setor público, que precisa agir com coerência no mercado interno e investir no desenvolvimento dos mercados internacionais. A questão energética não é uma questão apenas de forças de mercado, de preços. É também uma questão de estado e de relações internacionais. O etanol somente sairá do atual patamar de produção e consumo se ele se transformar em commodity. E isso não é tarefa simples. O nosso livro aborda o tema e mostra que temos um caminho importante a trilhar, que as “lições de casa” estão por ser cumpridas e que as forças envolvidas são contraditórias. Governança e coordenação são, portanto, exigências para o futuro do setor. É isto que definirá os futuros hoje plausíveis.

Comentários

Muito interessante e importante essas abordagens relacionadas ao futuro da matéria prima e o produto. Acrescento ainda que temos também que concentrar esforços na melhoria do processo, exemplo: precisamos melhorar o tratamento do mosto recebido na fermentação, pois imagine que este é o alimento de células microscópicas, e a dificuldade das mesmas em assimilar este alimentos devido a presença de impurezas, pois ainda se trabalha com processos em que partículas obstruem a eficiência da fermentação. Ou seja seria necessária uma malha de maior retenção de impurezas no processo anterior a alimentação, facilitando a vida das células para que a mesma possa ter maior desprendimento no processo fermentativo; meu ponto de vista!

Email: 
zetilima@hotmail.com