Som alto em balada pode
"viciar", avisa especialista

07/06/2013 - 11:49

A fonoaudióloga Keila Knobel

O som intenso não provoca somente reações dentro do ouvido, mas no corpo também. Pupilas se dilatam. Os músculos ficam mais contraídos. Despeja-se adrenalina no sangue. E essa adrenalina é viciante, com efeitos semelhantes aos produzidos em quem consome energéticos. Foi o que afirmou a fonoaudióloga Keila Knobel, pós-doutora pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em entrevista ao Portal Unicamp. Ela falou dos malefícios resultantes do som alto. E Keila garantiu que os estudantes não frequentam as baladas apenas uma vez por semana. Todo dia é dia de comemorar. A especialista lida com muitos casos de perda auditiva e enfatiza que os efeitos colaterais pela exposição ao som intenso começam às vezes no mesmo dia.

Portal Unicamp - Numa balada, que hoje tem ocorrido não só no fim de semana, também em outros dias, principalmente entre estudantes, qual seria o ideal em termos de som?
Keila – Depende da balada. Podemos imaginar um bar com música ao vivo, um rodeio, uma boate. Em algumas boates, por exemplo, há sons que chegam a 108 decibéis (dB). É um volume muito alto. A exposição ideal para um frequentador seria por minutos, não por horas. Mas é óbvio que ninguém paga ingresso para ficar pouco tempo na balada. Anteriormente se dizia que, para cada 5 dB a mais, o tempo de exposição caía pela metade. Se a pessoa estivesse exposta a 90 dB, podia ficar exposta durante quatro horas com segurança. É a lei trabalhista do Brasil para o ambiente ocupacional, que foi feita pensando-se no trabalhador. Na verdade, hoje sabemos que não é a cada 5 dB a mais que cai pela metade o tempo de exposição. É a cada três (Confira tabela do National Institute of Occupational and Safety Healthy ao final do texto).

Portal Unicamp - Quais seriam os efeitos “nefastos” para uma superdosagem?
Keila – Os efeitos colaterais para exposição ao som intenso começam às vezes no mesmo dia. A pessoa sai da balada sentindo que os seus ouvidos estão tampados e com um zumbido parecido com um “piii”, um apito dentro do ouvido. Geralmente, esse zumbido é contínuo. Ou pode ser um som do tipo “pipi” (barulho de ocupado). Isso acontece porque foram provocadas pequenas lesões na cóclea, onde há algumas células muito delicadas e também líquido. A intensidade sonora é uma vibração que chega aos tímpanos e, ao chegar no líquido, realizam algumas ondinhas que vão movimentar essas células. Se o som é muito intenso, essas ondinhas vão ser igualmente intensas, quase como tsunâmis dentro da cóclea. Com isso, acabam entortando as células.

Portal Unicamp - O sono pós-balada pode ser reparador?
Keila – Não pelo sono. É mais pelo descanso que se dá aos ouvidos - de seis, oito a 12 horas, quando ficarão em silêncio. No dia seguinte, a pessoa de fato se sente melhor, e o apito vai embora. Agora, se a exposição for contínua, a tendência é que essas células não se desentortem mais. Aí haverá uma lesão. Chega mesmo a ter uma morte celular. E não há remédio, cirurgia ou tratamento para reconstituir essas células. Deste modo, a pessoa pode ter que conviver com esse zumbido constantemente. Por outro lado, mesmo que não tenha um zumbido intermitente, terá uma perda auditiva.

Portal Unicamp - O que isso significa?
Keila - Que essa perda auditiva é progressiva. No começo é muito pequena - mais para os sons agudos. A pessoa não se dá conta de que está perdendo a audição aos poucos. Somente saberá que as exposições fizeram mal depois que já houve a perda.

Portal Unicamp - Quando essa perda ainda não foi total, a pessoa precisa cada vez mais escutar sons mais intensos porque já não começa mais a ouvir?
Keila – Não só por esse motivo. O som intenso não provoca só reações dentro do nosso ouvido. Gera outras reações no corpo. Uma delas é o despejo da adrenalina no sangue. A propósito, essa adrenalina é viciante. A pessoa sente prazer pela exposição ao som elevado. Quando chega a uma boate e o som ainda não está tão alto, ninguém se arrisca a dançar. Quando o som está "bombando", todo mundo acha aquilo muito animado. Há nesse episódio inclusive uma questão cultural de que o som intenso é sinal de diversão, de alegria. Seu estado de consciência fica um pouco alterado em decorrência dessa adrenalina. Pupilas se dilatam. Os músculos ficam mais contraídos. A pessoa sente como se tivesse tomado um energético. Isso é sobremodo prazeroso e viciante.

Portal Unicamp - Quais os problemas mais graves que podem ser desencadeados, além dessa lesão, e que levam à perda da audição?
Keila – Nesse caso, não chegam a causar uma perda total, mas a pessoa pode ter um grau de perda auditiva em que ela passe a ter dificuldade de compreender a fala, principalmente quando existe algum ruído ambiental ou duas a três pessoas conversando ao mesmo tempo.

Portal Unicamp - Qual é a dica para a pessoa que deseja ir à balada, mas com segurança?
Keila – A ideia é que não sofra lá nenhum tipo de comprometimento. Isso é ponto pacífico. A primeira dica então é abaixar o som, se a pessoa for a dona da balada. Se não for o caso, uma boa medida é ficar longe da caixa de som. O mesmo acontece quando a situação é um casamento. Sente-se à mesa longe de uma fonte sonora. Ao dançar, saia um pouco daquele ambiente. Dê um descanso para os ouvidos. A cada hora de música, fique fora do salão por cerca de dez minutos. Agora, é sempre desejável usar protetores auditivos em lugares barulhentos. Esses protetores podem ser comprados em farmácias e até em lojas de material para construção. Têm um preço acessível. Aproveitando a oportunidade, compre um par a mais de protetores e leve no bolso para presentear alguém na balada, como forma de prevenção da perda auditiva.

Portal Unicamp - O que é cômodo em termos de som?
Keila – Se aquele ambiente requer uma proteção auditiva ou não. Isso serve também para certas academias de ginásticas, cujo som já se mostrou prejudicial, com volume superior a 100 dB. Outra coisa: se a pessoa está num ambiente em que é preciso gritar para ser ouvida (a um braço de distância) ou ter que se aproximar muito da boca de quem está falando para entender, este é um indicativo de que o som está de fato muito elevado. É preciso colocar o protetor auditivo e procurar se afastar do som.

Portal Unicamp - Uma casa noturna lançou moda e promoveu a primeira balada silenciosa em São Paulo. Nada de som na caixa. As pessoas só ouviam a música nos fones de ouvido. Esta pode ser uma saída?
Keila – Pode ser uma saída para não ficar exposto, não ser um ouvinte passivo, se puder controlar o volume do som. Mas o ideal seria que todo mundo reduzisse-o. Não dá para garantir que não haja barulho excessivo, mesmo a pessoa controlando-o.

Portal Unicamp - O som intenso pode até matar?
Keila – O que sabemos é que o ruído em excesso, durante um período prolongado, pode sim mudar a pressão arterial da pessoa. Pode trazer problemas cardiovasculares, gástricos, comprometer a memória e a aprendizagem. Então, por extrapolação, pode-se dizer que o ruído contribui para um infarto, por exemplo, o qual pode causar a morte. Mas não dá para dizer que apenas pelo fato da pessoa se expor ao ruído ela pode morrer. É difícil separar unicamente essa variável. Contudo, é um fator de risco. Não há dúvida disso. 
 

 

Comentários

Muito pertinente esta matéria. Tenho uma irmã que trabalha como cozinheira numa escola pública da prefeitura e a cozinha fica justamente no térreo onde as crianças se juntam para fazer suas refeições. Estas crianças grintam muito, gritos muitos altos e ensurdecedor, chega ao insuportável. Minha irmã perdeu audição, precisamos gritar para que ela possa ouvir. Está complicado conversar com ela. Minha pergunta é: Já existe alguma pesquisa com relação a este tipo de comportamento das crianças nas escolas? Elas também podem sofrer algum tipo de dano na audição? Como lidar com esta questão nas escolas?Temos notícias de várias professoras que perderam em algum grau a audição. Gostaria de mais informações. Um grade abraço. Obrigada pelo espaço.

Obrigado por esse artigo. Sou aluno do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida, e acrescentou muito em meus estudos seu trabalho.

Estou pedindo ha mais de 2 anos para que o som da Academia do Sesi conscientize seus monitores sobre o prejuizo do som alto primeiramente aos funcionarios e depois aos frequentadores que vao la para "cuidar" da saude. Parece que ninguem lah leu alguma coisa sobre isso.
Achei q tivesse um orgao responsavel pela saude dos funcionarios, mas pelo visto nao ha. Obrigada pela oportunidade.

Email: 
mazefrasier@gmail.com

Posso confirmar tudo o que a fonoaudióloga Keila Knobel afirmou a respeito dos malefícios do som alto...sou vizinho de uma igreja que, diariamente, "explode" um sino de 110db nos ouvidos da vizinhança...é um verdadeiro inferno patrocinado pela igreja...isto que a região só permite, por lei, a existência de ruídos no local em um máximo de 80db de dia e 70db a noite...
A pergunta que fica:

Isto não é pecado - agredir o próximo com um sino destes ???

O Papa prega tanto contra guerras, fome, violências, mas, e quanto a este tipo de violência vinda da própria Igreja - isto pode perante Deus ??? Por acaso - isto é divino ???
Por acaso - isto não rouba a dignidade dos irmãos, a saúde deles ???

Cada vêz que a igreja flagela um irmão deste jeito, flagela também o próprio CRISTO que este mesmo irmão comunga...é muita maldade !!!

Email: 
jomario7@bol.com.br

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