Descoordenação econômica perpetua crise e intensifica conflitos de gênero

A conclusão é da UNCTAD em seu último relatório, que foi apresentado no Brasil por docente da Unicamp

O relatório da UNCTAD mostra aumento da fração de mulheres efetivamente empregada, mas relegadas às categorias profissionais caracterizadas por longas jornadas e baixos salários.
O relatório da UNCTAD mostra aumento de mulheres efetivamente empregadas, mas relegadas às categorias profissionais caracterizadas por longas jornadas e baixos salários.

A persistência da desaceleração da economia mundial após a crise de 2008 deve-se principalmente à incapacidade de atuação coordenada das principais lideranças econômicas mundiais. O momento atual seria o ideal para a retomada coordenada de políticas fiscais expansionistas visando ressuscitar os mecanismos de crescimento, com o investimento privado crescendo na esteira do investimento público em infraestrutura física e social. Essa retomada deveria ser acompanhada de políticas econômicas que abordem as assimetrias nacionais e internacionais em termos de mobilização de recursos, know-how tecnológico e influência política.

O diagnóstico acima consta da edição de 2017 do relatório da UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, que é aqui comentado pelo professor Antonio Carlos Macedo e Silva, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, ex-pesquisador sênior em Assuntos Econômicos da agência da ONU e a quem coube representar o documento no Brasil (a divulgação mundial ocorreu simultaneamente em setembro). “Com a combinação apropriada de recursos, políticas e reformas, a comunidade internacional tem os instrumentos necessários para conseguir o empurrão de investimento necessário para promover resultados inclusivos e sustentáveis em nível global e nacional. Um país que tentasse fazer isso sozinho, no entanto, correria riscos como de fuga de capitais e colapso da moeda, com impactos financeiros e inflacionários”, explica o professor.

Antonio Macedo e Silva trabalhou na divisão sobre estratégias de globalização e desenvolvimento da UNCTAD e atuou diretamente na redação do relatório  de 2016, cujo tema foram as transformações estruturais necessárias para um crescimento econômico sustentável e inclusivo. Nos 37 anos de publicação anual do relatório, iniciados em 1980, a edição de 2016 foi a primeira a abordar diretamente a questão do gênero e suas implicações para as políticas trabalhistas. Já o “Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2017: para além da austeridade – rumo a um novo pacto global” aborda a desigualdade socioeconômica e reserva um capítulo inteiro para a discussão da desigualdade de gênero.

Criada em 1964 pelo economista argentino Raul Prebisch, a UNCTAD propõe-se desde então a pensar os problemas econômicos dos países integrantes sob uma visão holística, na qual inexiste oposição absoluta entre Estados e mercados – que atuam em conjunto com diferentes instituições na organização da economia capitalista. A agência teve seu papel de instância de negociação diminuído com o surgimento da OMC (Organização Mundial do Comércio), mas mantém-se relevante em sua dimensão de pesquisa e assessoria para países em desenvolvimento.

Para os pesquisadores da agência da ONU, a integração comercial tem benefícios e custos para os países envolvidos e por isso deve ser pensada com cautela. Como alternativa a essa denominada “hiperglobalização” executada e promovida pelas principais potências econômicas nos últimos 30 anos, eles defendem uma abertura comercial e financeira lenta e controlada, protegendo-se assim a capacidade de cada nação de implementar políticas na esfera nacional – e permitindo-lhes também recolher os benefícios dessa integração econômica. "Abrir mão da soberania em prol dos mercados, na visão da UNCTAD, não tem dado resultados muito positivos", observa Macedo e Silva.

O relatório aborda também outros desafios e tendências atuais da economia global, como os problemas relacionados ao crescimento inclusivo, a relação entre comércio e tecnologia e entre renda e rentistas, os robôs e efeitos distributivos das mudanças tecnológicas e a dinâmica de inclusão e exclusão de gênero. Sobre este último aspecto, o professor da Unicamp defende que ele deve aparecer cada vez mais nas análises macroeconômicas – e não poderia ser diferente. “Quando a gente finalmente se dá conta da questão de gênero, não se pode mais ignorá-la”, alerta.

Trabalho feminino cresce,
mas em setores precários

O relatório apresenta a perspectiva macroeconômica da influência do gênero sobre o emprego e indica que a taxa de participação feminina está aumentando, com crescimento da fração de mulheres efetivamente empregada. No entanto, esse crescimento não tem contribuído para diminuir a desigualdade de gênero, porque a participação da mulher em empregos considerados dignos é ainda baixa. Elas são subrepresentadas em empregos considerados de qualidade, relegadas às categorias profissionais caracterizadas por longas jornadas e baixos salários. Dessa forma, o emprego feminino cresce principalmente em países que buscam produtividade e ganham competitividade em setores de baixa remuneração e que tendem a empregar majoritariamente mulheres. Assim, esses setores fomentam a exportação desses países e consequentemente seu crescimento econômico – baseado, porém, em trabalho predominantemente feminino e mal remunerado.

Mas por que as mulheres são as principais empregadas nesses setores? Por que não há maior participação feminina em trabalhos considerados dignos e de alta remuneração? “No passado remoto, a justificativa da maior participação dos homens nos bons empregos era o maior acesso masculino à educação”, explica o professor Macedo, “mas hoje, embora a desigualdade no acesso feminino à educação tenha diminuído, o acesso delas aos bons empregos continua baixo. A persistência dessa diferença não tem fundamentação ou explicação econômica. A explicação deve ser buscada na persistência de preconceitos”.

A busca acirrada pelo dinamismo no comércio internacional, intensificada nos últimos dez anos, tem provocado também um processo de “desindustrialização precoce” de diversos países em desenvolvimento, prejudicando particularmente o emprego feminino. “A contração da indústria parece prejudicar mais o trabalho feminino, e em países como o Brasil, em que a taxa de participação feminina no mercado tem aumentado, enquanto a masculina, diminuído. Cria-se um potencial ainda maior para o conflito de gênero”, observa o pesquisador.  Após a crise de 2008, a maioria dos países adotou padrões muito conservadores de política econômica, critica o relatório, e o baixo crescimento aliado à desigualdade tem intensificado conflitos sociais, inclusive de gênero.

O professor Antonio Carlos Macedo e Silva, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, apresentou  o documento da agência da ONU no Brasil
O professor Antonio Carlos Macedo e Silva, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, apresentou  o documento da agência da ONU no Brasil

A coordenação de políticas como
alternativa à desigualdade e crises

Para a UNCTAD, a exclusão por gênero é mais um dos problemas intensificados pelo movimento descoordenado dos países no combate à crise. Mas é realista pensarmos num pacto global contra a crise se os países mais ricos são os mais beneficiados pelas assimetrias de renda? Para a agência da ONU, mais do que realista, é necessário propor alternativas. “Levantar bandeiras que em certa medida sejam utópicas não é necessariamente uma perda de tempo”, opina Macedo. “É importante se contrapor à tese dominante de que não existem alternativas além da austeridade, mesmo que se proponham estratégias que dificilmente serão aceitas rapidamente”.

A própria criação de organismos multilaterais como a ONU e UNCTAD nos anos 1940, no cenário politicamente fragmentado do período pós-guerra, parecia utopia – até ser realizada. A regulação de renda, poder e riqueza e aumento da voz dos sindicatos que sucederam a implantação do New Deal pelo presidente norte-americano Franklin Roosevelt, na década de 30, também. “A lição a ser extraída desses precedentes é que condições históricas muito específicas têm que existir para que essas reformas sejam estabelecidas – e é uma pena que a crise de 2008 não tenha sido aproveitada nesse sentido”, reflete o docente do IE, relembrando a reunião do G20 em 2008, que marcou tentativa pouco duradoura de coordenação de políticas econômicas dos países integrantes, no pós-crise.

“Na nossa visão, a política fiscal pode voltar a ser empregada, com o mesmo sucesso que teve no período de Bretton Woods, como estímulo à produção e mecanismo de geração de superávits financeiros do setor privado. Porém, esse movimento traz riscos – de fuga de capitais, por exemplo – e por isso demanda coordenação dos países”, afirma Antonio Carlos Macedo e Silva. Embora diferentes vertentes da economia proponham diferentes caminhos para a superação da crise, há uma proposição de alcance geral que norteia o relatório de 2017: a desigualdade, inclusive de gênero, é o principal empecilho atual para o crescimento. 

Imagem de capa JU-online

O professor Antonio Carlos Macedo e Silva, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, apresentou  o documento da agência da ONU no Brasil