‘Terapia’ com células-tronco cega três mulheres nos EUA

Foto: sxc.hu
Vista lateral de olho humano 

Três mulheres que pagaram milhares de dólares para participar do teste clínico de uma suposta “terapia com células-tronco” nos Estados Unidos ficaram cegas como resultado do experimento, denuncia artigo publicado no periódico New England Journal of Medicine (NEJM).

De acordo com nota sobre o artigo divulgada pelo Centro Médico da Universidade Stanford, onde leciona um dos coautores, as três pacientes, com idades de 72 a 88 anos, sofriam de degeneração macular. Antes do tratamento elas ainda tinham alguma visão, mas após a cirurgia para o implante das células-tronco experimentais ficaram cegas e com chances quase nulas de recuperação, diz um dos autores do artigo no NEJM, Thomas Albini, professor de oftalmologia da Universidade de Miami, e que atendeu a duas das vítimas.

O estudo do qual as mulheres participaram estava registrado como “avaliação da segurança e dos efeitos de células injetadas intravitralmente em degeneração macular seca”, e as pacientes acreditavam estar participando de um teste clínico legítimo, embora, segundo o artigo assinado por Albini, Jeffrey Goldberg, de Stanford, e Ajay Kuriyan, do Centro Médico da Universidade de Rochester, os termos de permissão assinados por elas não fossem realmente claros a respeito. Cada uma pagou US$ 5 mil pelo procedimento.

“Há muita esperança nas células-tronco, e há clínicas que apelam para pacientes desesperados (.,..) mas neste caso as mulheres participaram de uma iniciativa clínica que era incrivelmente perigosa”, disse Albini, por meio de nota, acrescentando que testes que pedem dinheiro dos participantes devem ser vistos com desconfiança.

O procedimento, tal como descrito no NEJM, envolvia a remoção de células de gordura do abdome das pacientes, e também de amostras de sangue. A gordura era então tratada com enzimas, supostamente para gerar células-tronco, e as células eram depois misturadas ao plasma extraído do sangue. A mistura foi injetada em ambos os olhos das pacientes mesmo tempo, outro sinal de perigo e falta de controle no experimento, de acordo com os autores.

A clínica, que não é identificada no “paper”, parece ter se beneficiado de brechas na regulamentação americana de testes clínicos, que até outubro de 2015 era mais leniente com experimentos envolvendo células originadas no corpo do próprio paciente e “minimamente processadas”.  

Referência:

Vision Loss after Intravitreal Injection of Autologous “Stem Cells” for AMD

[N Engl J Med 2017; 376:1047-1053 March 16, 2017 DOI: 10.1056/NEJMoa1609583]