Maio de 1968 – ‘a imaginação no poder’

LUIZA BRAGION MORETTI

Efeméride já abordada em diversos meios de comunicação neste mês, o “maio francês” foi um movimento de esquerda, desconectado do então Partido Comunista, dentro de um país essencialmente de direita. A partir da divulgação de um pacote de reformas educacionais conservadoras imposta pelo governo, o movimento teve origem dentro das universidades e chegou à classe operária. Cerca de um milhão de pessoas foram às ruas contra o militarismo da era Charles de Gaulle. A difusão foi severamente reprimida pela polícia. Conduzida pelo estudante Daniel Cohn-Bendit, amparados por apoios plurais, a mobilização anunciou greve geral para o dia 13 de maio. Houve mais repressão, convocação de novas eleições e vitória da chapa do mesmo presidente. Porém, o legado de um dos maiores acontecimentos do século XX é estudado, atualizado e discutido em diversos espaços acadêmicos, políticos e culturais, cinco décadas depois.

O colóquio “Maio de 68: depois da primavera”, de 22 a 24 de maio, no auditório do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp, foi um dos eventos que tratou o levante sob diversos aspectos e com convidados de diferentes instituições. A proposta é “mais do que uma “memória da mobilização: buscamos compreender os desdobramentos ainda presentes nas lutas políticas contemporâneas”, define Gabriel Zacarias, professor do departamento de História e organizador do evento. A equipe de reportagem da TV Unicamp (SEC) acompanhou algumas conferências.O vídeo que compõe a matéria inclui, além de Zacarias, entrevistas com Olgária Matos, da Unifesp e USP, Marcelo Ridenti, professor do IFCH da Unicamp e José Fernando Azevedo, da ECA-USP, este último abordando especificamente o movimento negro antes e após 68 a partir de manifestações culturais.

“Maio de 68” indicava a necessidade de uma nova ordem mundial, voltada à igualdade entre os sexos, do respeito à vida e ao meio ambiente, do planejamento ecológico e da defesa dos direitos das minorias. “O progresso não poderia ser meramente econômico, mas afetivo, de mudanças na ocupação urbana e no modo de vida. Diversos acontecimentos simultâneos conduzem o mundo todo em semelhante direção”, explica Zacarias. Nos Estados Unidos, o então recém assassinato de Martin Luther King – em abril – sucedido por manifestações em favor dos direitos dos negros e contra a Guerra do Vietnã. No Brasil, a rebeldia estudantil já notável nos anos anteriores, explode no mesmo ano com a morte do estudante Edson Luis Souto, no Rio de Janeiro. Eclodia um movimento jovem e ainda esperançoso pelo fim do poder ditatorial, mas sufocado pelo AI-5 (Ato Institucional), em dezembro. Esse deslocamento leva às forças identitárias que pautarão os anos seguintes: feminismo, revolução sexual, fortalecimento do movimento antirracista, ecológico e contra a intolerância em geral. “Ascensão da ética da revolução, negação da sociedade de consumo, crescente relação entre arte e política são algumas características das contestações de 1968, que marcaram a História contemporânea mas com interrogações ainda em aberto”, explica Marcelo Ridenti.

A arte foi definitivamente incluída nesse novo processo do “fazer político”: música, cinema, literatura, cartazes, grafites até a participação ativa dos artistas nas manifestações. Em âmbito brasileiro, a emersão da Tropicália, o Teatro Oficina, Teatro Opinião e influência da pop art são alguns exemplos. E o que fica disso tudo nos dias de hoje? “A mensagem libertária de 68 vai encontrar, 50 anos depois, um retorno forte do conservadorismo, mas com lutas emergentes por demandas progressistas mais avançadas”, comenta Zacarias.

Veja vídeo produzido pela TV Unicamp: 

 

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Leia mais sobre o colóquio na reportagem do Jornal da Unicamp:

Maio de 68: depois da primavera

 

ReproduçãoPlaylist

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