A capoeira e o encontro da vida no centro de Campinas

Evento de rua, que ocorre espontaneamente aos sábados no Centro de Convivência, apresenta características que fogem da roda em ambientes fechados

Pesquisa realizada pelo educador físico Renan Almeida Barjud e orientada pelo professor Odilon José Roble, do Departamento de Educação Física e Sociedade da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, teve como objetivo estudar a Roda da Feira, uma atividade de capoeira que acontece aos sábados durante a feira de artesanato, conhecida como “Feira Hippie”, que se realiza aos sábados no Centro de Convivência de Campinas. Com características que fogem ao tradicional, não institucionalizada nem previamente combinada, essa roda de capoeira forma-se marcada pela espontaneidade ao lado de berimbaus expostos e vendidos pelo artesão e capoeira mestre Bill.

A presença da capoeira em Campinas, onde predominou o trabalho escravo, remonta à antiga Vila de São Carlos, em cujo código constava: “Qualquer preto que for pego jogando capoeira nas ruas, praças, ou qualquer outro lugar, sofrerá uma pena de 35 açoutes em público e oito dias de prisão”. Um recorte de anúncio sobre um escravizado foragido, publicado em 1870 na Gazeta de Campinas, é o documento mais antigo encontrado pelo autor na hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que menciona a capoeira na cidade. Chama a atenção na descrição do jovem que “anda muito ligeiro indicando ser capoeira”, a falta da necessidade de qualquer explicação do termo, o que indica que o uso da palavra capoeira era de comum entendimento para descrever um tipo social portador de certas habilidades corporais. Essa prática, perseguida nas ruas, passa a ser aceita em locais fechados a partir do segundo quarto do século passado. Isso garantiu sua sobrevivência e levou-a a atingir dimensão globalizada, mas criou um distanciamento entre a capoeira e a rua, afastando a diversidade de movimentos que dela advinha.

Reprodução
Recorte de anúncio sobre escravizado foragido, publicado em 1870 na Gazeta de Campinas

Com efeito, manifestação cultural marcada pela ancestralidade africana de escravizados e libertos, o principal local de vivência da capoeira foi no início o espaço público, com as rodas de rua. Mas a capoeira foi perseguida tanto no Brasil Império quanto no Brasil República. Segundo historiadores, essa prática escrava representava um dos maiores problemas à ordem social. Depois de séculos de proibição e perseguição, a capoeira ganha grande visibilidade nos anos 30 do século XX, na Bahia. Sob novas ordens de valores ela começa a ser praticada por grupos em ambientes fechados.


Motivações

Envolvido com a capoeira desde 1999, Renan Almeida Barjud começou a praticá-la aos 14 anos em uma sede de bairro da periferia da Campinas, orientado pelo mestre Bill, capoeira e artesão, que vendia berimbaus na “Feira Hippie”. Nessa época, ele passou a frequentar o local onde acontecia o que os adeptos chamam da vadiação, ocasião em que conversam, cantam e jogam capoeira.

Ele interrompeu esse convívio mais sistemático no período em que cursou educação física, mudou para Sorocaba, onde deu aulas de capoeira na Secretaria de Cultura, e enfrentou problemas médicos, mas o retomou dez anos depois. É quando começa a vivenciar a conhecida e informalmente denominada Roda da Feira, encontro que acontece aos sábados junto ao mestre Bill, que continua vendendo e tocando seus berimbaus, e que há cerca de 30 anos atrai capoeiras dos mais diferentes grupos e pessoas interessadas que passam pela feira, que se reúnem para conversar e, ao som do instrumento, e de cantorias jogam capoeira.

Foto: Perri
O educador físico Renan Almeida Barjud, autor da tese: “O mestre deixa as coisas fluírem, sem a preocupação de distinguir o seu grupo de origem e sem controlar o berimbau que é inclusive tocado por outras pessoas”

Depois de certo tempo, Renan se deu conta de que se tratava de um espaço muito rico de possibilidade de expressão. A sua grande singularidade era o encontro espontâneo, informal e não institucionalizado entre capoeiras de grupos e estilos diferentes, capoeiras sem grupo, pessoas que se aproximavam e até jogavam provocadas pela energia da roda. “Trata-se de um espaço em que o mestre deixa as coisas fluírem, sem a preocupação de distinguir o seu grupo de origem e sem controlar o berimbau que é inclusive tocado por outras pessoas. Ele está lá como mais um capoeira. É raro encontrar no Brasil rodas de capoeira que não vinculadas a um grupo, em que os participantes possam se expressar de maneira mais autêntica e não precisem de trajes padronizados. Isso chamou minha atenção”, explica o autor da pesquisa.

De todas essas observações surgiram muitos questionamentos para os quais ele não tinha respostas: “Eu não conseguia, por exemplo, entender porque as coisas eram diferentes quando mudavam os espaços. Notei que os lugares mais bonitos que encontrei na atividade de educador físico estavam relacionados com a cultura popular, muito rica de expressão. Olhando para a Roda da Feira me deparava com uma situação semelhante, de extrema potência, ou seja, a transformação de um grupo de indivíduos em roda”.


Fundamentações teóricas      

Estas circunstâncias o motivaram à investigação de suas causas. Para tanto, procurou a orientação do professor Odilon José Roble, com formação em educação física e filosofia, do Departamento de Educação Física e Sociedade da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. Como referencial teórico ele adotou uma das primeiras obras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “O Nascimento da Tragédia”, que faz uma análise estética da tragédia grega. Nela, o filósofo apresenta a dualidade Apolo e Dionísio, que Renan utilizou para uma leitura dos movimentos de forças presentes na capoeira e lhe permitiram reflexões mais específicas sobre a Roda da Feira em que os capoeiras, mobilizando e mobilizados constantemente por forças apolíneas e dionisíacas, em um jogo ininterrupto entre as duas divindades, buscam a ampliação da potência da vida. Daí o título da dissertação: “Roda da Feira e o sim à vida: inspirações dionisíacas sobre uma roda de rua de capoeira”.

Nietzsche utiliza essas duas divindades para fazer análise da tragédia, atribuindo a Dionísio uma força mais instintiva, uma energia desmedida, sem controle, enquanto Apolo, deus solar, dá a forma das coisas, representa aquilo que pode ser entendido, explicado. Através da dinâmica dessas duas divindades, o filósofo mostra o arrefecimento da potência de Dionísio à medida que cresce a potência de Apolo. Para o filósofo, a força do povo grego manifestou-se no período em que houve o constante jogo entre as forças dos dois deuses.

Foto: Perri
Mestre Bill: ancestralidade na região central de Campinas

O autor explica que os rituais antigos tinham muita relação com a mitologia e deles se origina a tragédia grega que com o passar do tempo foi progressivamente institucionalizada.  O filósofo mostra então que uma manifestação espontânea que tinha relação com o sagrado vai perdendo espaço para o movimento racional.  A tragédia vai progressivamente perdendo seu caráter dionisíaco, mais instintivo, menos formatado, e vai adquirindo características predominantemente apolíneas, com um desenvolvimento mais linear, que começa a ser pensado para as pessoas mais entenderem e do que sentirem.

Estabelecendo um paralelo com a capoeira, o autor considera que ela se manifestava como um ritual sem forma padronizada, sensível à espontaneidade, mais vivo porque acontecia na rua, em momentos de festa, praticada por escravizados e ex-escravizados, cujas concepções estão muito mais afetas ao pensamento estético, artístico, religioso ligados às raízes africanas. A partir dos anos 30 do século passado, a capoeira deixa a rua e vai para as escolas, para os ambientes fechados, com uma nova roupagem e engessada por regulamentos. E de lá para cá, cada vez mais, vai se padronizando, envolvida pelos vieses esportivos, científicos, pedagógicos, mercadológicos e parece expressar o excesso de forças apolíneas em detrimento do dionisíaco.


Considerações                                                                                            

Com base nas observações realizadas o pesquisador destaca três aspectos vitais: 1) a existência de um espaço não institucionalizado; 2) a consolidação de um espaço em que as pessoas encontram oportunidade de manifestar o que sentem e querem, em que o dever cede espaço à vontade; 3) a possibilidade do exercício da vadiação, ou seja, da conversa, da música e do jogo solto, sem tempo determinado. Estabelece-se assim um local sem lógica formal e um ambiente que favorece movimentos da ordem do dionisíaco. Essas constatações levam a refletir sobre outras formas de capoeira e inclusive sobre outros movimentos estéticos ritualísticos, de dança, de música que permeiam a cultura popular brasileira.

Para o autor, o trabalho oferece ainda a possibilidade de refletir sobre as direções em que a capoeira tem caminhado nas últimas décadas, o que permite reflexões críticas sobre os movimentos que a compõem, mesmo porque hoje, face aos imperativos da vida moderna, a capoeira desvinculada de retorno financeiro perdeu espaço. Ele se pergunta então: não estaria a capoeira indo por caminhos que a fazem perder elementos muito ricos, potentes à vida?

Foto: Perri
 

Foto: Perri
A roda em diferentes momentos: “espaço não institucionalizado”


 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: foto preto e branco, área externa, imagem de corpo inteiro e frontal, oito pessoas em pé, próximas uma da outra, sendo que três delas, ao fundo, tocam instrumentos, sendo dois berimbaus e um pandeiro. À frente deles, dois homens parecem dançar, enquanto outros os observam. À esquerda na imagem, há um grande e alto paredão, e ás costas dessas pessoas, unida ao muro, extensa escadaria com sete degraus, cerca de dez grades de proteção móveis, de ferro, altas palmeiras e prédios. Imagem 1 de 1.