Um ano todo vestido de rosa

Campanha contra câncer de mama atrai voluntários permanentes

 

Foto: Reprodução A coloração rosa pode remeter à representação do feminino, em muitas culturas, ou à delicadeza das pétalas de uma das flores mais desejadas, mas em outubro, ela sugere alerta, cuidado, coragem e generosidade. A campanha Outubro Rosa desperta, cada vez mais, em algumas pessoas o desejo de aliviar o tratamento contra o câncer de mama e outros tipos de câncer feminino ao longo de todo o ano. Algumas dessas ações voluntárias são abraçadas pelo Hospital da Mulher José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, que atende cerca de 500 casos novos de câncer de mama por ano. Entre elas, está a confecção de perucas pelas ONGs Fio Solidário, de Boituva, e Anjos das Perucas, de Itu, ambas do Estado de São Paulo, a partir de cabelos doados por pessoas da sociedade. Para a psicóloga do Caism Laíse Potério, o acolhimento das pacientes por parte da família, amigos e voluntários faz muita diferença no tratamento.

A cabeleireira Wadelma Alcalá tornou-se voluntária depois de receber cartinhas de pacientes do Caism pedindo perucas.  Disse à mãe que nunca mais venderia uma peruca e que a partir daquele momento, somente doaria as próteses gratuitamente, e assim nasceu a ONG Anjos das Perucas, em Itu. Ao ser diagnosticada com câncer de mama, no Caism, em 2012, “Telma”, como é conhecida, decidiu doar cerca de 80 perucas remanescentes do fechamento de uma loja de sua propriedade ao hospital.  “Eu doei as perucas porque pensei que iria morrer; este é o primeiro pensamento que temos quando sabemos que estamos com câncer. Ao verem as perucas, as assistentes sociais disseram que precisavam de meu serviço, mas eu não queria, estava desanimada, porém, as cartinhas me fizeram repensar.”

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A cabeleireira Wadelma Alcalá: começando do nada

A primeira costureira da organização Anjos das Perucas foi a mãe de Telma, Ester Coraini, que sempre motivou os filhos a realizarem ações solidárias. “Ela falou: ‘nunca mais venderei um fio de cabelo, somente trabalharei para servir o próximo’. E eu falei: ‘Pois então, eu estou junto’. A gente começou do nada. Ela comprava cabelos, eu fazia as perucas e ela vendia. Mas desde que ela decidiu que queria doar a vida dela para as pessoas, nunca mais vendemos. Ela, doente, fraca, atendia as pessoas na porta à noite.” Hoje, as tarefas vão além de tecer. A ONG é reconhecida pela organização de eventos e participação em iniciativas de outras instituições, como o Caism. “A Unicamp é minha casa. Eu passava os meus dias lá. Hoje, além de buscar os cabelos e entregar as perucas, ainda sou paciente, pois meu câncer foi de alta complexidade e preciso fazer acompanhamento.”

A união familiar também tem sido essencial na família do casal Eliana da Silva e Adenilson da Silva, desde que o pedreiro Benedito de Oliveira, pai de Eliana, decidiu criar a projeto Fio Solidário. Uma visita ao Hospital do Câncer Infantil em Sorocaba o motivou a começar a tecer perucas para as crianças pacientes, orientado pela esposa, Maria de Lourdes Oliveira, hoje uma das coordenadoras da organização. “A iniciativa deles inspirou eu e minha esposa e fomos tomando gosto, o projeto foi crescendo, isso trouxe foi muito beneficente. Preencheu um espaço vaio que tínhamos. É muito prazeroso. A gente senta na máquina e começa a pensar no próximo. A gente não consegue parar mais. É uma necessidade nossa fazer isso hoje”, acrescenta Silva.

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Adenilson e Eliana da Silva, mentores do projeto Fio Solidário

Há três anos, ao chegar ao Caism, Eliana percebe que o apoio pode ir além da confecção e doação. No hospital, ela orienta pacientes que não sabem colocar a peruca e explica sobre cuidados com o produto. “É possível recuperar a autoestima de uma pessoa, pois uma das coisas mais tristes para uma mulher é perder os cabelos. Eles têm de ser bonitos, saudáveis para deixar a paciente feliz.”

Thais Olmos Pereira Borson não costura e não pode doar sangue nem medulas, mas sabe que seus fios de cabelos crescerão rápido se decidir cortá-los para doação. Ela é uma das pessoas que contribuem para que as costureiras voluntárias produzam uma quantidade de perucas que atenda as pacientes. Também sabe que somente o seus fios não serão suficientes para uma peruca nova. Moradora recente em Campinas, decidiu doar a cabeleira a hospitais de câncer infantil ou de atenção a mulheres. “A sensação foi maravilhosa por saber que meus cabelos poderão alegrar uma pessoa. Isso me deixa muito feliz e pretendo continuar.”

No dia de receber sua peruca na Anjos Solidários, Karina Arruda disse que estava vivendo a mesma sensação das pessoas que um dia receberam seus cabelos como doação. “Quando eu descobri a doença, eu tinha doado três vezes meus cabelos por uma boa causa. Quando vi, estava cortando meus próprios cabelos porque eu estaria precisando. Cortei antes de iniciar a quimioterapia. Um mês depois, perdi todo o cabelo. É triste, sim, a gente sabe que crescerá novamente, mas para nós mulheres que temos autoestima é difícil encarar. Esses voluntários devolvem a autoestima. Mas a pessoa tem de saber se se sentirá bem com a peruca, com o lenço ou o turbante.”

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Karina Arruda, que doou cabelo três vezes: boa causa

Para a professora, bailarina e aluna de doutorado da Unicamp Keyla Ferrari, apesar de das dificuldades desde o diagnóstico até o final do tratamento, é possível passar pelo câncer e tudo passa rápido quando o paciente se cerca de coisas que gosta de fazer e de pessoas que gostam de ter por perto. “O custo de uma peruca é muito caro e eu vejo que para algumas mulheres é muito importante colocar alguma coisa na cabeça. Vejo este trabalho das pessoas que doam seus cabelos, das que arrecadam os fios, formidável porque faz falta porque quando a gente se vê sem fisionomia sem sobrancelha e sem os cabelos é muito difícil, pelo menos para mim foi, para outras, não. Valorizo muito essas pessoas que buscam fazer os sutiãs, as perucas, os lencinhos, maquiagem, design da sobrancelha, tudo isso é importante para que a gente consiga se olhar com um pouco  mais de dignidade e autoestima. Só o carinho de receber uma peruca, já é muito importante no tratamento”.

O trabalho voluntário de modelo para o protótipo de um sutiã é de uma pedagoga de Campinas que venceu o câncer de mama. Disposta, Débora Marques dos Santos Kern aceitou prontamente desviar o radar da agenda para falar com a equipe da Diretoria de Comunicação da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Unicamp porque para ela, participar das provas da lingerie que elevará a autoestima de outras mulheres é gratificante. “Este projeto beneficia não só as mulheres mastectomizadas, mas todas que participam da produção desta maravilhosa peça fundamental na vida de uma mulher: o sutiã. Eu, pessoalmente, fazendo parte deste projeto deste modelo tenho intenção de apoiar estas mulheres.”

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A professora e bailarina Keyla Ferrari: “Só o carinho de receber uma peruca, já é muito importante no tratamento”

O protótipo de um sutiã capaz de atender todas as necessidades de pacientes submetidas a mastectomia envolve jovens entre seus 18 e 21 anos, alunos de diferentes cursos da Unicamp do projeto Madre Pérola, uma das raízes do Enactus. O grupo é coordenado pelo professor da Unicamp e oncologista Cássio Cardoso Filho. As mãos “arteiras” que confeccionarão os sutiãs são da Madre Pérola, que também festejam a oportunidade de participar do projeto. De acordo com a aluna da FEQ Jade Almeida Gomes, o objetivo do Madrepérola é possibilitar independência financeira a mulheres em áreas de vulnerabilidade.

As colaborações agregam valor ao trabalho das voluntárias do Caism, que iniciaram as atividades há quase 30 anos, com o Centro de Repouso, que acolhia pacientes com câncer. Os trabalhos começaram com aulas e vendas de artesanato para oferecer qualidade de vida durante o período talvez mais difícil na vida das pacientes. “Com a venda do artesanato, podemos fazer os bojos, toucas para os bebês carentes e comprar remédios, por exemplo.”

As lições de generosidade e cuidado também partem da família das pacientes. Seo Osvaldo Donse Júnior, de Itu, sofre de Mal de Parkinson, mas as dificuldades com a doença não o impedem de acompanhar a esposa tanto no tratamento quanto em momentos alegres, como o dia de experimentar a peruca. “Muitas mulheres que consultam em Jaú são abandonadas pelos maridos; eles não dão atenção a elas. Isso é conivência, não é mais amor. Eu, com 30 anos de casado, tenho muito amor na minha mulher, mas dou este depoimento para os maridos, para que eles tenham mais paciência e carinho porque nessas horas é que elas precisarão deles, e nessas horas precisa ter mais amor numa mulher.

Renata Oliveira Silva atribui a sua força, mas também à atenção da família e do marido o sucesso no tratamento. Segundo a funcionária pública, o apoio do marido foi fundamental, assim como a compreensão da equipe de trabalho do Fórum de Campinas. Ainda em acompanhamento no Caism e com a reconstituição da mama agendada para 2019, ela montou um grupo com as pacientes que se trataram no mesmo período que ela para “alegrar mais as pessoas” porque acredita que é preciso sair um pouco do ambiente de casa e hospitalar para se distrair, festejar, acreditar na cura. “Eu arrumei uma chácara e nós sempre nos reunimos para falar de outras coisas, dar força umas às outras. Infelizmente, algumas não resistiram, mas tiveram momentos felizes no grupo.”

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A funcionária pública Renata Oliveira Silva: apoio do marido

A verdade é que os voluntários sempre circularam entre nós, mas campanhas como o Outubro Rosa vêm iluminar e coroar estas atitudes em nome do conforto e, na maioria dos casos, da cura. O mês, segundo o assistente de direção Adriano Gozzi, é sempre aquecido com debates, orientações, mas também com atividades que promovam alegria às pacientes, como maquiagem e apresentações culturais.

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O mastologista Cesar Cabello dos Santos: enfatizando a importância da camapanha

Para o mastologista do Caism Cesar Cabello dos Santos, o papel da família e dos voluntários é muito importante na fase de tratamento, mas é preciso saber que o câncer de mama é o mais importante para a população feminina no mundo inteiro. “São esperados cerca de 2 milhões de novos casos, para 2018, no mundo e, no Brasil, de mais de 60 mil novos casos. É o câncer que mais mata a mulher no mundo inteiro e, infelizmente, também no Brasil.” Ele acrescenta que o Outubro Rosa tem papel importante, por levar em conta a conscientização de todas as mulheres em relação ao risco da doença, pois a principal forma de prevenção do câncer é pelo rastreamento da mamográfico e da consciência mamária, a partir da qual se observa as alterações na mama.”


Assista ao vídeo especial Rosa Forte, produzido pela Proec em parceria com a Comunicação do Caism:

 

 

Imagem de capa JU-online

Fachada do Caism com iluminação que remete à campanha Outubro Rosa | Foto: Reprodução