‘Aqui se respira pesquisa e inovação’

Aos 15 anos da Inova, reitor diz que pretende consolidar a Unicamp como um hub de inovação e empreendedorismo

À frente da Reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) há pouco mais de um ano e com muitos desafios a enfrentar, o reitor Marcelo Knobel tem claro que o setor empresarial é um dos grandes aliados que a instituição dispõe para superar sua crise financeira, firmar parcerias sólidas para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, e ir além: consolidar-se como um hub de inovação e empreendedorismo referência no Brasil e no mundo.

Na visão do reitor, projetos em colaboração, licenciamento de tecnologias, empresas em processo de incubação ou ainda com seus laboratórios de pesquisa instalados no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp resultam, entre outros benefícios, em alunos, pesquisadores e docentes mais atentos às demandas de mercado; mais recursos para os grupos de pesquisa e para melhorias na infraestrutura dos laboratórios; royalties para a Universidade; e a possibilidade de unir fisicamente o mercado e a academia.

Reconhecida pelo segundo ano consecutivo pela THE (Times Higher Education) como a mais prestigiada da América Latina, a Unicamp comprova por meio de seus indicadores o quanto o novo modelo de universidade proposto pelo professor Zeferino Vaz em 1966 gerou bons frutos. “A Unicamp nasceu com esse DNA”, salienta Knobel.

Foto: Antonio Perri
O reitor Marcelo Knobel: “A Unicamp sempre buscou aliar ciência básica à ciência aplicada e tecnologia”

Ao longo dos anos, à medida que a Unicamp participava de projetos de pesquisa e desenvolvimento de impacto, com a criação de novas tecnologias, e que seus alunos passaram a enxergar no mercado oportunidades para começar seus próprios negócios, a vertente da inovação e do empreendedorismo ganhou ainda mais força, conforme destaca o reitor Marcelo Knobel. Até a chegada da Agência de Inovação Inova Unicamp, em 2003, vários foram os órgãos criados e aperfeiçoados para que a Universidade conseguisse acompanhar esse movimento, que seguiu seu curso natural. A Unicamp nasceu inovadora. E cresceu empreendendo.

Confira a seguir a entrevista concedida pelo reitor Marcelo Knobel sobre a colaboração da Universidade para a consolidação de um ecossistema de excelência e as perspectivas de futuro para a Unicamp nessa área.


Por que a inovação e o empreendedorismo são veias tão fortes na Unicamp?

Diversos fatores colaboraram para a consolidação da Unicamp como uma universidade inovadora e empreendedora. Em primeiro lugar, há o DNA da Universidade. A Unicamp sempre buscou aliar ciência básica à ciência aplicada e tecnologia. Isso lhe permitiu participar de diversos projetos importantes para o País e contribuiu para a formação de um ecossistema de inovação e empreendedorismo na região de Campinas, que adquiriu o cunho de “Região do Conhecimento”. Há também o fato de muitas empresas terem suas bases na região. Outro fator importante foi a instalação do Aeroporto de Viracopos, um terminal de conexões importantes não só no Brasil como fora dele. Ou seja, temos todas as condições de ser um hub de inovação e empreendedorismo. E a Inova Unicamp veio consolidar o papel da Universidade Estadual de Campinas nessa área.


De acordo com o ranking divulgado pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), a Unicamp foi a maior depositante nacional de patentes em 2017. Foram 81 depósitos no Brasil. Neste mesmo ranking, entre as dez primeiras colocadas, só há uma empresa. Qual a leitura o senhor faz desse cenário?

Por um lado, claro, é motivo de orgulho ter a Unicamp como líder do ranking do INPI, dos maiores depositantes nacionais. Nosso portfólio é composto hoje por mais de mil patentes. Porém, é preocupante ver que há tão poucas empresas no topo da lista. Isso demonstra que as empresas do Brasil precisam começar a atuar de maneira mais agressiva e efetiva, buscando trazer inovações para o mercado. Esse movimento é fundamental para que o País progrida nessas áreas e tenha empresas que possam competir no mercado global com soluções de impacto.


O Prêmio Inventores é um demonstrativo de que a cada ano cresce o número de profissionais da Universidade envolvidos com proteção e licenciamento de tecnologias. Como o senhor avalia a cultura de inovação dentro da Universidade?

A Agência de Inovação Inova Unicamp contribui muito para a promoção dessa cultura dentro da Universidade, com vários tipos de incentivos, premiações, encontros, palestras. Ainda temos um passo importante a dar no que se refere à inserção da inovação na graduação, em especial, mas também na pós-graduação. Ou seja, precisamos atuar diretamente nas atividades acadêmicas. Além disso, precisamos ter cada vez mais maneiras de incentivar nossos professores, estudantes e todos os demais envolvidos a patentear suas invenções e a pensar, também, na possibilidade de criarem startups. Queremos cada vez mais facilitar todos esses processos ligados tanto à propriedade intelectual, quanto ao empreendedorismo.


A Unicamp é reconhecia por, desde a sua fundação, ter estabelecido uma relação próxima com o setor empresarial, dado atenção às demandas tecnológicas do mercado e também por ter muitos projetos de pesquisa em colaboração. Por que essa relação próxima é tão importante para a Universidade?

Só temos ganhadores nessa relação. A Unicamp participa de projetos de pesquisa aplicada com empresas, o que as ajuda a sanar demandas tecnológicas e problemas específicos. As empresas ganham porque podem ter a tecnologia de ponta e os melhores pesquisadores participando e colaborando em seus projetos. Do nosso lado, fazemos pesquisa de ponta, formamos melhor os profissionais que vão ser contratados por essas empresas e participamos ativamente dessas atividades. Temos outro ganho importante, que é a entrada de recursos para ajudar na manutenção da infraestrutura dos laboratórios e dos grupos de pesquisa. Ou seja, trata-se de um ecossistema que se retroalimenta e funciona cada vez melhor. Isso naturalmente gerará mais parcerias, mais startups, mais empresas-filhas. Os alunos, por sua vez, saem daqui conscientes de que essa interação com a Universidade é possível e traz resultados positivos. Quando se forma, o aluno retorna para cá para trabalhar em conjunto depois de ter ingressado na empresa. Ou mesmo já garante um emprego em uma companhia depois de trabalhar em um desses projetos.


Ponto que chama bastante atenção é realmente o número de alunos da Unicamp que se tornam empreendedores. O senhor acredita que há um diferencial na formação na Unicamp para tornar esse estudante tão norteado às oportunidades?

O diferencial é o ambiente e a cultura em que se vive na Universidade. Aqui se respira pesquisa e inovação, e há muitas iniciativas que fomentam ainda mais o empreendedorismo, como palestras, eventos e competições com esse tema. Essas atividades despertam a atenção das pessoas, principalmente a dos alunos. As empresas juniores também são fundamentais para que o interesse pelo tema cresça ainda mais, assim como as empresas-filhas, que naturalmente atraem esses jovens para uma carreira nessa área. Ou seja, é toda uma cultura propícia que se forma em torno da Universidade. Isso não é fácil de atingir. Creio que a Unicamp seja a única no País e uma das poucas universidades no mundo com essas características.


A Agência de Inovação Inova Unicamp completa 15 anos, mas, antes de ela existir, outras iniciativas se encarregaram da gestão da propriedade intelectual, de parcerias e, mais recentemente, do empreendedorismo dentro da Universidade. O que significa para o senhor ter um Núcleo de Inovação Tecnológica que é referência no Brasil?

Ser referência hoje é fruto do processo que iniciamos quando pouco se falava de inovação. A Unicamp foi pioneira. Nós conseguimos evoluir muito. A criação da Inova foi um marco importante para isso. Foi um diferencial. Hoje nós realmente temos um processo consolidado, com as atividades cada vez mais crescentes. A Inova Unicamp é um grupo muito bem estruturado, que tem nos rendido bons frutos. O ranking da Times Higher Education valida isso, colocando a Unicamp como a primeira da América Latina e destacando a questão da inovação. Certamente, a Unicamp é a primeira por causa da Inova Unicamp.


O Parque Científico e Tecnológico da Unicamp é uma das grandes apostas para o futuro que o senhor tem. Por quê? Como o senhor vislumbra a Universidade nesse caminho?

Esse é um modelo importante no mundo inteiro. As empresas estarem junto da universidade em um mesmo espaço, o campus universitário, é fundamental. O Parque permite que a Unicamp se conecte às empresas de uma maneira mais próxima. Facilita para os estudantes, que ficam mais próximos do local de estágio ou de trabalho. As empresas também têm a proximidade dos pesquisadores e dos grupos de pesquisa aqui disponíveis. A Universidade também ganha diretamente com isso, pois recebe pelo uso do espaço e é capaz de diversificar seus recursos, fazendo com que o próprio sistema seja autossustentável.


Há algum parque em que o senhor se inspire?

Há diversos. Gosto muito do modelo de Waterloo, no Canadá. É fantástico.


Por fim, se o senhor pudesse imaginar a Inova Unicamp e o ecossistema de inovação e empreendedorismo da universidade nos próximos 15 anos, como eles seriam?

Boa pergunta. É difícil dizer, mas temos o sonho de criar um hub de desenvolvimento sustentável na Fazenda Argentina, que é a nova área adquirida pela Unicamp. Esse espaço, integrado ao Parque Científico e Tecnológico, com um grande museu de ciências acoplado e mais empresas participando do ecossistema, fazendo pesquisa de ponta e inovando, é o modelo ideal. Meu desejo é que possamos ser um local de referência no mundo para a inovação e o empreendedorismo.

 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: Em área interna, imagem frontal e em plano médio, homem sentado em sofá, ao centro da imagem, com olhar voltado para a câmera fotográfica. Ele mantém o braço direito erguido e apoiado na parte superior do encosto do sofá, e o esquerdo apoiado sobre o próprio colo, com as mãos unidas. Ao fundo, à direita na imagem, há um desenho de parede de tijolinhos brancos. O homem usa óculos e veste camisa social de mangas compridas, com listas verticais estreitas, em rosa e branco. Imagem 1 de 1.