Estudo indica idioma mais adequado para compartilhar ciência nas redes sociais

Pesquisadora da Unicamp é coautora de paper sugerindo o inglês para o Twitter e línguas locais para o Facebook

Editores de revistas científicas e autores de artigos socialmente relevantes devem fazer uso das redes sociais para compartilhar resultados de pesquisa, mas de formas diferentes: para o Facebook, na língua das populações mais interessadas nesses resultados, como português e espanhol; e para o Twitter, o inglês, para atingir público mais amplo ou falar aos pares. É o que sugere um paper publicado na PLOS One analisando artigos sobre Zika vírus publicados no primeiro semestre de 2016, assinado por Germana Barata (Brasil), Kenneth Shores (EUA) e Juan Pablo Alperin (Canadá).

“Queríamos investigar como um tema de pesquisa relevante tanto em nível nacional como internacional teria sido compartilhado nas redes sociais, a fim de entendermos o impacto junto ao público da pesquisa científica publicada na forma de artigos”, explica Germana Barata, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp, e pesquisadora visitante da Universidade Simon Fraser (Canadá).

Germana considera o Zika vírus um exemplo interessante pela importância que ganhou em fevereiro de 2016, quando foi considerado uma emergência internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Na época o Brasil hospedaria os Jogos Olímpicos e milhares de estrangeiros, ao passo que os casos da doença se multiplicavam no país desde o ano anterior. Também queríamos um tema em que o Brasil tivesse protagonismo no desenvolvimento científico – somamos grande expertise e bom volume de publicações científicas sobre doenças negligenciadas, caso da Zika.”

Foto: Curiosity Collider
A pesquisadora Germana Barata: “Também queríamos um tema em que o Brasil tivesse protagonismo no desenvolvimento científico” 

Segundo a pesquisadora, ela e seus parceiros fizeram uma busca por artigos cuja palavra chave era “zika” de janeiro a junho de 2016, mesmo período em que a doença atingiu seu pico e o interesse público estava no auge. “Pesquisamos documentos acadêmicos no banco de dados da Altmetric, empresa britânica que produz dados de altmetria (métricas alternativas que medem como documentos científicos são compartilhados no universo online, como redes sociais, blogs, wikipedia, sites de notícias jornalísticas, etc.). Os artigos identificados são aqueles compartilhados nas redes sociais de nosso interesse, Twitter e Facebook.”

Germana Barata justifica que o Twitter tem sido a rede social mais estudada do ponto de vista da altmetria. “Os dados do Twitter são mais fáceis de acessar, mais transparentes e, por isso, ele acaba atraindo mais a atenção de estudiosos deste campo de pesquisa; também é considerado uma rede social mais profissional. Já o Facebook ainda é a rede social mais popular no mundo, embora extrair dados nele seja mais complicado e limitado. Em geral temos acesso (via Altmetric) apenas a postagens que compartilharam o link para um artigo social a partir de grupos ou páginas institucionais públicas. Mesmo assim, tenho a percepção de um uso crescente do Facebook de forma profissional e não apenas pessoal, como mostram alguns estudos (vide Noorden, 2014).”

Entre as principais constatações, a pesquisadora da Unicamp ressalta que apesar de o inglês ser a língua mais utilizada por pessoas que compartilham artigos e documentos científicos sobre o Zika vírus, há pouca chance de que essas informações cheguem às populações mais atingidas. “No período estudado, as mais atingidas eram populações do Brasil e de países da América Latina, por exemplo. É certo que no Facebook o percentual de inglês cai consideravelmente, com 24% de postagens em outras línguas, indicando a preocupação de compartilhar notícias em idiomas locais. Sabemos que as relações sociais no Facebook são mais estreitas.”

O Twitter, finaliza Germana Barata, é reconhecido por quem compartilha artigos sobre Zika como um ambiente mais internacional. “Mas tivemos um resultado interessante quando relacionamos os autores dos artigos com seu país de origem e as línguas utilizadas: mesmo que a maioria das publicações tenha sido em inglês, no caso de autores brasileiros, por exemplo, há maiores chances de compartilhamento em português, indicando que o artigo é relevante para o país ou a preocupação de fazê-lo circular no próprio círculo social.”

 

 

Imagem de capa JU-online

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