Uso de toxina botulínica atenua efeitos de doença neurológica rara

Aplicação melhora quadro clínico de pacientes com paraparesia espástica

O uso de toxina botulínica em pacientes com paraparesia espástica – doença hereditária rara que causa fraqueza e espasmos musculares nas pernas pode melhorar a fadiga e o cansaço ao caminhar. É o que tem sinalizado um estudo de doutorado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), com resultados ainda preliminares, mas que já vem se mostrando promissor para tratar pacientes com esse quadro.

Segundo o orientador do estudo, professor Marcondes Cavalcante França Jr., essa toxina (popularmente conhecida por botox) já é empregada em outras situações, mas não havia ainda investigação sólida abordando a sua aplicação na paraparesia espástica. “Não estava claro se ela ajudaria na velocidade da marcha e em quais aspectos contribuiria”, conta ele, que é docente da FCM e neurologista do HC.

Cinquenta e cinco pacientes receberam toxina botulínica e injeções de placebo (soro fisiológico) no Ambulatório de Neurologia do HC. O desenho de estudo foi cross over, ou seja, o paciente recebeu num primeiro momento injeção de toxina botulínica e, num segundo momento, placebo (e vice-versa). Todos receberam ao menos uma aplicação de toxina e outra de placebo, com intervalo de quatro meses entre uma administração e outra. Depois foram avaliados.

Além da percepção de fadiga e de cansaço, foi investigada uma série de parâmetros. O estudo indicou que alguns pacientes diminuíram o seu quadro de dor sensivelmente, quando administrada a toxina botulínica. Em relação à velocidade da marcha, alguns pacientes também tiveram um bom resultado, tornando-se mais rápidos. Outros, porém, não foram responsivos à intervenção. Para os que foram, a ideia é que se dê continuidade a pesquisas nessa direção.

Foto: Antoninho Perri
O professor Marcondes Cavalcante Franla Jr.: “Temos procurado desenvolver novas ferramentas de análise para facilitar a interpretação da ressonância magnética cerebral” 

Hoje em dia, o tratamento de escolha é o não farmacológico. E todos os casos têm indicação de fisioterapia e de reabilitação motora. O tratamento medicamentoso ainda é limitado. Para paraparesia espástica, em geral são prescritos relaxantes musculares de uso oral, como o baclofeno e a ciclobenzaprina. Mas na prática eles têm efeito discreto. “Os relaxantes musculares de ação sistêmica sedam e causam sonolência. Logo, é preciso identificar novos tratamentos”, ressaltou o neurologista.

Paraparesia espástica é uma doença rara e subnotificada, descreve ele. Não há dados brasileiros sobre o assunto. Dados europeus sugerem a ocorrência de cinco a seis casos para cada 100 mil pessoas. No Ambulatório de Neurologia do HC, cerca de 200 casos estão sendo atendidos, de todo Brasil.


Evolução

Marcondes comentou que as doenças degenerativas progridem inexoravelmente, não sendo possível atuar na sua progressão. A maior parte dos portadores de paraparesias sofre mais com a morbidade do que com a mortalidade. Assim, a morbidade afeta muito a sua qualidade de vida: sua perspectiva de longo prazo.

Em termos psicológicos, muitos deles lidam com uma percepção de culpa, por ser uma doença genética transmitida aos filhos. Além disso, essas doenças também carregam grande estigma social. É o caso das ataxias, que interferem na coordenação motora e no equilíbrio. Alguns pacientes já foram barrados em restaurantes, por acharem que eles estavam embriagados, lamentou o neurologista.

Até pouco tempo, não se podia fazer muito pelos pacientes com quadro degenerativo. “Isso tem mudado com as muitas novidades que têm sido alcançadas. Algumas inclusive envolvem medicamentos já aprovados para uso clínico ou em vias de aprovação”, informou Marcondes.

Em grande parte das pesquisas para entender o mecanismo das doenças que leva à morte dos neurônios, já foram identificados possíveis alvos de terapia. A Neurologia da Unicamp está participando de testes de novos medicamentos. Um deles é um ensaio clínico multicêntrico em ataxia. “Fomos o único centro convidado a participar dessa pesquisa, fora do circuito Europa e EUA, porque somos referência no assunto”, relatou. 

Já houve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e agora o processo está tramitando na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). A expectativa é que os estudos iniciem em meados desse ano, já tendo o aval do órgão Food and Drug Administration (FDA).

A Unicamp também foi escolhida para esse ensaio por ter uma produção consistente e um grande número de pacientes. “Temos procurado desenvolver novas ferramentas de análise para facilitar a interpretação da ressonância magnética cerebral, por exemplo. Acabamos de criar uma ferramenta para análise de imagens de medula cervical. Os resultados têm sido muito interessantes, tanto que ela já está sendo utilizada fora do país”, expõe o docente.

No Laboratório de Neuroimagem, através de ressonância magnética, são feitas análises quantitativas e medidos parâmetros como volume de estruturas, espessura de córtex e grau de integridade dos tratos de substância branca. Isso leva a uma maior acurácia do exame, não apenas a uma análise visual, a uma impressão.

Também foi desenvolvido um software aberto que permite fazer a análise quantitativa da medula cervical. A técnica já está validada e já gerou uma série de trabalhos. A intenção, conforme o docente, é acompanhar os pacientes com uma medida mais refinada.

Em breve, ainda, será iniciado outro ensaio clínico em paraparesia com nova droga para uso terapêutico, produzida por um laboratório brasileiro. Trata-se de um fitoterápico extraído de uma planta medicinal e com efeito local, de uso tópico.

 

Prática

Marcondes coordena a área de doenças neuromusculares e neurogenéticas do HC. Ele relata que estas doenças têm em comum o fato de interferirem na coordenação motora dos pacientes. Nessa linha, vêm sendo pesquisadas doenças do neurônio motor, que incluem sobretudo a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e as paraplegias espásticas hereditárias, além das ataxias, que afetam o cerebelo essencialmente.

“Temos procurado fazer o diagnóstico precocemente, visto que muitas doenças são difíceis de serem decifradas. Também temos buscado novas técnicas”, afirmou o orientador. “Mas, para esses três grupos de doenças, infelizmente não existem tratamentos efetivos até o momento. Novos caminhos precisam ser buscados.”

São feitas hoje diferentes abordagens mediante técnicas de imagens e marcadores que podem ser dosados no sangue periférico e no líquor. Uma segunda frente consiste em compreender os mecanismos que essas doenças têm por meio de diferentes avaliações. A terceira frente envolve explorar novos tratamentos para os pacientes no curto prazo.

As paraplegias, por exemplo, têm causa genética e levam a uma alteração na medula espinhal. O paciente desenvolve fraqueza, perda de movimento e hipertonia (endurecimento) nas pernas. Muitos ficam restritos à cadeira de rodas. Esse tipo de patologia acomete mais o adulto jovem. Mas, quando atinge as crianças, é de modo mais severo, por ainda estarem em formação.

Para esse grupo de doenças, não existe tratamento bem-estabelecido, nem pesquisa padronizada. O ensaio clínico, do ponto de vista experimental, seria a maneira mais robusta de verificar a eficácia e a segurança de determinada droga e de determinada doença.

Todas estas doenças avaliadas são progressivas e merecem abordagem específica. A ELA, que é a mais prevalente na população brasileira, pode levar a óbito em apenas dois anos. Sua progressão continua sendo rápida e com maior impacto para o paciente e a família. Desta forma, há urgência no desenvolvimento de pesquisa e inovação. Outras doenças degenerativas podem levar de dez a 15 anos para evoluírem.

Marcondes enfatizou que a pesquisa em doenças raras pode servir como importante modelo de estudo (em termos de mecanismo da doença e de tratamento) e pode ser extrapolada para outros distúrbios. Na paraparesia espástica, os sintomas são semelhantes àqueles de quem teve traumatismo na medula. O local de lesão é praticamente o mesmo. Sintomas como fraqueza na perna são praticamente os mesmos. O que difere é o mecanismo, que é o degenerativo por trauma.

O diagnóstico assertivo, a qualificação profissional, a busca de infraestrutura adequada e o acesso a tratamento são, junto com novos estudos, novos medicamentos e novas técnicas, condições que contribuem para melhorar muito a qualidade de vida dos pacientes com essas doenças, acredita o neurologista. 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição:Em sala, imagem lateral, homem sentado em cadeira à esquerda na imagem, com olhar voltado à esquerda, aponta com braço esquerdo para monitor de lcd tocando a tela com dedo indicador, enquanto mantém o braço direito erguido e encostado lateralmente na barriga. À frente dele, há uma mesa de madeira em formato l, sobre a qual está esse monitor que exibe dezoito pequenas imagens de cérebros, agrupados um ao lado do outro formando três fileiras. As imagem parecem exame de tomografia. Imagem 1 de 1