Unicamp inova com programa ‘Virando Mestre’

Iniciativa do CIS-Guanabara insere alunos de graduação em atividade educativa, com oficinas de rap e de malabares

Foto: ReproduçãoNo alto da escadaria da Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, na Vila Castelo Branco, em Campinas, o aluno de Geografia da Unicamp Guilherme Veronezzi de Souza observa os garotos Kauã e Adeir. Em meio a passos elementares do ídolo Michael Jackson e trocas de bolinhas e argolas, eles arriscam movimentos primários durante a oficina de malabares. Enquanto isso, na oficina de rap, numa sala do Projeto Gente Nova (Progen), a garota Mariana tem o olhar fixo no flip chart em que o aluno de Ciências Sociais da Unicamp Fábio Danillo Nascimento dos Santos, acompanhado ao violão pelo seu colega de curso, Djakson Cleber Gonçalves Filho, passa noções de rima e métrica cujo conteúdo fala da realidade desses garotos. É nesse ambiente que o CIS-Guanabara desenvolve, semanalmente no Progen, o programa “Virando Mestre”, iniciativa que permite a aluno de graduação da Unicamp, por meio de oficinas, ter a oportunidade de iniciar atividades com caráter didático.

Foto: Scarpa
O estudante Guilherme Veronezzi em atividade na oficina de malabares: socialização que reflete num melhor desenvolvimento da criança

O sociólogo e diretor do CIS-Guanabara, Marcelo Rocco, explica que o programa “Virando Mestre” consiste em estimular o estudante-bolsista a converter parte do conhecimento obtido em sala de aula em oficinas, produzindo assim a experimentação prática desse saber: “A presença do estudante é imprescindível na realização dos projetos desenvolvidos do centro cultural, pois esses jovens, sedentos pela experimentação, têm a possibilidade de pôr em prática parte do saber assimilado nas salas de aula. Essa liberdade intelectual é o estímulo necessário para a criação, e é no cotidiano acadêmico, no exercício do fazer e refletir científico que ele encontra as ferramentas necessárias para atuar em nossos projetos”, afirma. 

  • programa desenvolvido no âmbito do Progen ocorre no campo da educação não-formal, área do conhecimento que se caracteriza por atividades que ocorrem paralelamente à escola e fora do horário escolar. Segundo Izabel Cristina Santos Almeida, coordenadora geral do Progen, os espaços de educação não-formal que dão um diferencial à SC (Organização da Sociedade Civil) seguem alguns princípios básicos. “Entre eles estão as práticas para a socialização, o desenvolvimento social e a quebra de formalidades e hierarquias. “Somos pautados pelo estímulo à participação coletiva de forma descentralizada”, afirma a diretora da OSC que responde por quatro unidades distribuídas em Campinas e que atendem diretamente 2.581 educandos, adultos e idosos e, indiretamente, cerca de 10 mil pessoas,  entre pais e responsáveis pelas crianças e jovens.

As atividades das oficinas de rap e de malabares ocorrem em formato de roda. Diferentemente daquele modelo tradicional visto de sala de aula, normalmente marcado pela falta de liberdade, repreensão, cobrança e avaliação, em um ambiente hierarquizado onde há uma mesa que separa o professor dos alunos, no modelo de educação não-formal, oficineiros e educandos se organizam em círculos. “Essa maneira de trabalhar elimina as barreiras, quebra hierarquias e, consequentemente, facilita o diálogo”, esclarece Izabel com a segurança de quem adota esse modelo desde a sua chegada ao Progen, há 27 anos.

Foto: Sérgio Souza Silva
Marcelo Rocco, diretor do CIS-Guanabara: programa “Virando Mestre” proporciona aos bolsistas liberdade intelectual como estímulo necessário para a criação  | Foto: Sérgio Souza Silva

Para a pedagoga do Progen, Silvânia Fernandes do Nascimento, profissional com 17 anos de experiência em educação não-formal, esse encontro entre o CIS-Guanabara e a OSC é a ponte que interliga a academia, espaço caracterizado pela teoria e reflexão, e o Progen, recinto que possibilita testar e colocar em prática esse conhecimento. “O trabalho feito pelos alunos da Unicamp nessas oficinas é importante porque, por meio da prática, eles se deparam com a realidade. Na academia a gente vê muita teoria, mas como podemos transformar esse conteúdo em ação? Os alunos da Universidade têm a oportunidade de ver de perto o jovem da periferia, o jovem excluído”. Silvânia acrescenta que “a maioria dos alunos da Unicamp não conhece essa grave realidade socioeconômica dos jovens da Vila Castelo Branco”. Ela salienta a importância desse programa para estreitar relações: “A experiência que eles ganham trabalhando na periferia é uma ação efetiva da Unicamp para diminuir esse fosso. Vou além: a universidade deveria estimular mais alunos, de outras áreas, a fazerem o mesmo.” Nessa linha de pensamento, Rocco ressalta que os resultados positivos dessa relação Universidade-OSC faz do programa um sucesso, pois atende a sociedade, que tem desse modo uma devolutiva dos seus impostos convertidos em serviços dessa natureza e responde também ao ideário do CIS que necessita ampliar suas atividades nos eixos que representam as ações extensionistas da Unicamp. “Também responde a uma agenda social e viabiliza uma devolutiva à sociedade com serviços dessa natureza, além de ampliar seu campo de ação na chamada área cultural, missão do CIS-Guanabara”, ressalta Rocco. Para a artista-plástica Elizabeth Piva, agente cultural do CIS e coordenadora do projeto “Incluir com Arte”, o objetivo é fortalecer ainda mais a participação dos bolsistas SAE nas ações previstas:  “estamos estruturados para orientar os alunos na concepção das oficinas que pretendem realizar. Orientamos estudantes na realização de atividades de artes visuais, como fotografia e desenho artístico, além disso, eles também apoiam na execução das oficinas aplicadas por nós”.

Foto: Perri
A pedagoga do Progen, Silvânia Nascimento: a experiência vivida pelos universitários é uma ação efetiva da Unicamp para se aproximar da realidade da periferia

É com essa orientação prévia que Guilherme, Djakson, Fábio realizam as oficinas de malabares e de rap. Eles procuram mostrar aos educandos que a Unicamp não é um reduto em que jamais terão acesso. Ao contrário, os três tiveram experiências em escolas públicas, local de aprendizado de todas as crianças do Progen, prova viva de que nada é inatingível. Eles consideram esse momento na OSC uma oportunidade ímpar para testarem seus conhecimentos. Djakson avalia: “É algo muito rico para mim. Essa vivência me permite pensar a educação de um ponto de vista diferente, não tão tradicional. Acredito que vivo momentos de grande relevância em minha formação pessoal que contribuirão para minha formação profissional”, afirma um dos responsáveis pela oficina de rap.

Fábio endossa esse pensamento e vai além ao afirmar que embora esteja cursando Ciências Sociais, essa experiência permite que se identifique muito mais como arte-educador do que como um professor em sala de aula. “Acho que essa quebra da formalização, algo que me agrada muito, é uma alternativa para ajudar essa juventude, porque permite, de maneira mais ampla, um trabalho coletivo. Mostra que eles podem assimilar conhecimento em qualquer lugar. Eles estão na rua ouvindo rap e ao mesmo tempo absorvendo mensagens, adotando novos comportamentos e ampliando sua consciência social”, acredita. O educando Sílvio diz que quer aproveitar as oficinas para musicar, com a ajuda dos alunos da Unicamp, composições de sua autoria que falam de preconceito. Mariana e João Vítor acreditam que as oficinas podem ajudar nas aulas de português e literatura. Rimas, versos e métricas já não são termos desconhecidos. Guilherme vê na prática de malabares mais que um aprendizado, mas algo que permite uma socialização que vai refletir num melhor desenvolvimento dessa criança não apenas nas atividades inerentes à sala de aula, mas, principalmente, em sua formação pessoal, conforme avalia a educanda Rebeca: “Esse tipo de aprendizado, de convivência e de respeito com os colegas, a gente leva não só para a casa e para escola, mas também para a rua”.  

Foto: Perri
Os alunos Fábio dos Santos (ao violão) e Djakson Gonçalves (à direita) durante a oficina de RAP: retratar a realidade da população com música e poesia

A breve atuação de Fábio nesse programa foi suficiente para que ele vislumbrasse na experiência a oportunidade de alçar um voo mais alto: iniciar formatação de projeto de mestrado. “Estou documentando tudo que está acontecendo nas oficinas. Com base nos conhecimentos obtidos na disciplina Metodologia de Pesquisa, estou aprendendo a estruturar minha pesquisa, perceber as inquietações e interesses. Já estou fazendo meu trabalho de campo e quando eu finalizar a graduação, estarei preparado para participar do processo seletivo para o mestrado. Pretendo ter meu diário de campo nas mãos para poder terminar a pós-graduação em menos tempo. É uma espécie de um ensaio etnográfico em que anoto minúcias, todos os dias, para realizar minha reflexão”, vislumbra. “O sonho de Fábio é a maior mostra que o programa “Virando Mestre” está atingindo seus objetivos”, afirma Marcelo Rocco. “É uma maneira de estimular o estudante ao exercício da docência, pois sua missão é estruturar, planificar um saber a ser compartilhado e construído para e com o outro. Essa experimentação provoca repercussões várias, podendo levá-lo ao mundo da pesquisa ou até mesmo da educação social, mas imaginemos que ele não percorra nenhum destes caminhos, ainda assim ele terá tido uma experiência que certamente contribui na sua formação como indivíduo”, afirma. Esse programa terá continuidade no próximo ano com novos alunos de graduação da Unicamp e novas entidades e instituições. 


VEJA ALGUMAS DAS ATIVIDADES DO “VIRANDO MESTRE”