Atlas abre caminho para ensino bilíngue em escola indígena

Grupo envolvido em projeto de extensão da Unicamp produz também materiais didáticos complementares para aldeia paulista

Foto: ReproduçãoEquipe multidisciplinar coordenada pelo professor Vicente Eudes Lemos Alves, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, está produzindo um Atlas didático bilíngue, redigido em guarani e português, para escolas públicas situadas na Terra Indígena Rio Silveira, localizada entre os municípios de Bertioga, Salesópolis e São Sebastião, no litoral paulista. A produção do material de apoio didático é uma etapa de projeto de extensão comunitária desenvolvido com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC) desde outubro de 2013. Alves, que também é diretor da seção de Campinas da AGB (Associação dos Geógrafos Brasileiros), estabeleceu contato com a aldeia indígena do povo Guarani Mbyá e, desde as primeiras conversas com os membros da comunidade, surgiu o interesse comum em produzir materiais que pudessem ser utilizados pelos alunos da Escola Estadual Indígena Txeru Bá é Kua-i e da Escola Municipal Indígena Nhenmo `E ́ Á Porã, ambas situadas na aldeia.

Para o coordenador do projeto de extensão, a reivindicação dos moradores da Terra Indígena Rio Silveira surgiu de um descompasso entre suas tradições e o conteúdo pedagógico até então oferecido nas escolas da aldeia. Embora a Constituição Brasileira garanta aos povos indígenas o direito de terem acesso a um modelo educacional bilíngue, nas escolas da comunidade o material didático oferecido aos estudantes é todo redigido em português e não possui nenhum conteúdo voltado ao ensino dos saberes tradicionais do povo guarani. Com o objetivo de solucionar esta divergência entre a realidade dos índios Guarani Mbyá e o conteúdo pedagógico oferecido nas escolas de Rio Silveira, duas lideranças da aldeia, o karaí (líder espiritual) Sérgio Macena e o professor Antônio Macena, solicitaram à equipe coordenada por Vicente Alves que produzisse materiais didáticos que pudessem ser adotados na educação das crianças da comunidade.

Foto: Perri
A pesquisadora Cíntia dos Santos Pereira da Silva e o professor Vicente Eudes Lemos Alves, coordenador do projeto | Foto: Antoninho Perri

Além do Atlas que retrata a história do povo guarani, sua cosmologia e o processo de construção da reserva indígena reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), os membros do projeto de extensão da Unicamp também elaboraram um material de apoio à alfabetização em guarani para as crianças da aldeia (intitulado Mbyá Ayvu), um glossário de plantas e animais representativos da região (nomeado Ka’aguy Regua Kuaxia), e também estão elaborando um calendário escolar com as datas comemorativas e ritualísticas dos Guarani Mbyá e mapas com os pontos territoriais de referência para a comunidade, desenvolvidos a partir das indicações dos próprios indígenas – o método utilizado na elaboração desses mapas é conhecido como cartografia social participativa. O material de alfabetização já é usado na educação infantil nas escolas da aldeia e a equipe do projeto espera entregar até o início de janeiro o glossário sobre a flora e fauna da região.   

Espaços de diálogo

Para Cíntia dos Santos Pereira da Silva, doutoranda em Geografia pela Unicamp e integrante da equipe do projeto de extensão, a experiência de convivência com a população de Rio Silveira durante a preparação dos materiais de apoio didático propiciou um aprendizado significativo. “O grupo de extensão aprendeu muito com eles. Aprendemos outras formas de enxergar o cotidiano e o mundo”, afirma.

Para a pesquisadora, o diálogo com o povo Guarani Mbyá também permitiu que a equipe do projeto refletisse sobre a qualidade do ensino público oferecida aos jovens indígenas. O fato de os alunos das escolas localizadas na aldeia não terem acesso a um ensino bilíngue dificulta não só o aprendizado de sua cultura, como inviabiliza sua própria permanência no sistema educacional. Cíntia observa, por exemplo, que o calendário indígena possui datas ritualísticas que não são compatíveis com o calendário adotado pelas escolas estaduais paulistas. Por esta razão muitos jovens abandonam os estudos ainda no Ensino Médio caso queiram seguir as tradições do povo Guarani Mbyá.

O professor Vicente Alves complementa que o que os indígenas buscam harmonizar o modelo escolar convencional com seus saberes tradicionais. Segundo o professor do IG, “esses alunos também têm o desejo de entrar na Universidade”. A função social do projeto de extensão coordenado por ele é colaborar para que a sinergia de sistemas de ensino aconteça na prática. Vicente destaca que o material de apoio didático desenvolvido por sua equipe em parceria com a comunidade de Rio Silveira foi entregue pelos membros da aldeia à Secretaria Municipal de Bertioga, que se dispôs a incorporá-lo nas escolas indígenas da região. “Esse é um projeto piloto, mas, assim que o finalizarmos, temos a pretensão de reproduzir a experiência em outras comunidades indígenas no Estado de São Paulo”.

A equipe do projeto de extensão coordenada por Alves é atualmente composta por alunos da graduação e da pós-graduação em Geografia, Geologia, Artes e Linguística, além dos professores e líderes da Terra Indígena Rio Silveira. A tradução dos materiais de apoio didático para a língua guarani é realizada por Ivana Pereira Ivo, docente na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e doutoranda em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. O coordenador do projeto enfatiza que todo o material produzido pelos pesquisadores é revisado pelos membros da aldeia.

Na sequência de fotos, aspectos da Terra Indígena Rio Silveira

 

Imagem de capa JU-online

Sala de aula na Terra Indígena Rio Silveira | Foto: Divulgação