Tragédia ocorre em momento de crise na mineração

Preço do minério de ferro acumulou queda de cerca de 70% nos últimos anos

O rompimento da barragem de Fundão da Samarco, em Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG), aconteceu em meio a uma das mais severas crises enfrentadas pelo segmento da mineração no Brasil e no mundo. O fim do ciclo de alta das commodities, puxado especialmente pelo freio no crescimento econômico da China, resultou numa queda acumulada em quatro anos de quase 70% no preço do minério de ferro, no mercado internacional. Como reflexo disso, a mineração brasileira fechou 2015 com um crescimento de apenas 6%. No ano anterior, o segmento já tinha registrado também uma pequena expansão de 8%.

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Mina da Vale em Carajás, Pará | Foto Agência Brasil | EBC

Esse não era o comportamento até então. No início deste século, no ano 2000, o setor era responsável por 0,59% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A produção mineral saltou 550% entre 2001 e 2011, saindo de U$$ 7 bilhões para R$ 50 bilhões, como mostram dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em 2013, a participação do setor no PIB chegou a 5%.

Com a redução da demanda nos mercados internacionais, o valor do volume de produção – cerca de 400 milhões de toneladas anuais – caiu 20%, passando de R$ 99,4 bilhões apurados em 2014 para R$ 78,7 bilhões, segundo dados do relatório anual do Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério de Minas e Energia. O minério é um dos principais produtos de exportação da balança comercial brasileira.

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Mina da Vale em Itabiritu (MG) | Foto: Marcelo Araújo | VALE

O gráfico abaixo mostra a variação da produção mensal de minério no segundo semestre de 2015 contra o mesmo mês do ano anterior. É possível observar que o crescimento da produção estava oscilando entre 9,1% (julho) e 5,7% (novembro), resultado desse cenário pouco favorável para vendas externas e baixa atividade econômica no mercado interno. Em dezembro, o indicador caiu para o nível do mesmo período do ano anterior (0,04%) em decorrência principalmente da paralisação das atividades da Samarco.

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Recuperação lenta

O fim do superciclo global das commodities se arrasta há mais de dois anos (desde 2014), e a expectativa de analistas dos principais bancos e consultorias internacionais consultados por veículos especializados é de que essa retração nos preços ainda persistirá até 2020. O valor da tonelada do minério de ferro – usado para fabricar aço – foi um dos que mais caiu: despencou abaixo dos US$ 40,00 em dezembro de 2014, seu nível mais baixo desde maio de 2009, e depois de ter começado aquele ano custando US$ 128,00.

Para os analistas, no caso específico do minério de ferro, o excesso de otimismo do empresariado também levou à atual situação: as mineradoras pediram empréstimos demais e superestimaram o crescimento da demanda. “Aumentaram muito sua capacidade de produção e agora temos excedentes que derrubam as cotações. Acho que é, sem dúvida, um dos anos mais difíceis que a indústria mineradora já enfrentou”, afirmou Daniel Morgan, analista do setor no banco UBS, em entrevista à agência de notícias Reuters.

A queda de preços e, consequentemente, de receitas do setor, também já se traduz em retração de investimentos. O Relatório da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) sobre investimento estrangeiro em outubro de 2015 mostrava que a queda dos preços dos minérios começou em 2012 – dois anos antes da queda dos preços do petróleo –, e que isso resultava em investimentos menores a partir de 2014.

No primeiro semestre de 2015, ainda segundo a Cepal, a América Latina viu a entrada de investimentos estrangeiros diretos cair 21%, depois de uma redução de 16% em 2014, o que mostra não se tratar de um declínio conjuntural. E, ainda de acordo com o mesmo relatório, o Brasil concentrava o maior recuo nesses investimentos (-36%), em grande medida em razão da crise que afeta seu mercado interno desde 2013. Os setores mineradores do Chile, da Colômbia e do Peru também estavam no ranking das maiores perdas de investimentos.

 

Corte de gastos e empregos

Diante desse cenário de retração dos investimentos externos e de preços em baixa, as empresas mineradoras do Brasil vinham num processo de redução de gastos e enxugamento do quadro de funcionários. Somente no primeiro trimestre de 2015, foram fechadas 1,5 mil vagas na região de Minas Gerais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), fornecido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com base formada apenas pelos trabalhadores com carteira assinada.

O segmento de extração de minério tem um fator multiplicador de 3,6 postos de trabalho sobre a indústria de transformação mineral, como mostram dados do Departamento Nacional de Produção Mineral. Isso significa que, para cada vaga fechada no setor, pelo menos outras três ficam ameaçadas de corte. Outro reflexo da crise foi a redução do salário, que apresentou perda nominal de 20,1% em 2015, e o crescimento do número de funcionários terceirizados. A Samarco, por exemplo, tinha em seus quadros, em 2014, 3.117 trabalhadores celetistas e 3.517 terceirizados. Após a tragédia em novembro de 2015, a companhia abriu um programa para a demissão voluntária dos funcionários, que tinha como objetivo reduzir em 40% sua força produtiva.


Liderança do setor

Seis empresas lideravam o ranking de receitas, lucro líquido e Ebitda (indicador de lucro antes da redução de obrigações fiscais) do setor de mineração e metalurgia brasileiro até 2014, de acordo com o levantamento “1.000 maiores empresas” do jornal Valor Econômico. São elas: Vale, Gerdau, ArcelorMittal, CSN, Usiminas e Samarco (veja quadro abaixo).

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Mas, diante do hostil cenário do mercado de commodities e do desastre em Mariana, em 2015, os resultados das empresas mudaram bastante. A Vale, por exemplo, líder do segmento no País e segunda maior mineradora do mundo, registrou pela primeira vez em toda sua história prejuízo. Foram R$ 44,2 bilhões de prejuízo, o pior resultado de uma empresa brasileira em toda a história. A Usiminas teve um prejuízo de R$ 3,2 bilhões em 2015. Em 2014, a empresa havia registrado lucro de R$ 129,6 milhões.

Protagonista da maior tragédia ambiental brasileira, a Samarco havia investido, em 2014, R$ 6 bilhões em suas áreas de exploração, e registrado um lucro de R$ 2,8 bilhões. Ela também figurou naquele ano como a 12ª maior exportadora do País, e foi eleita pela quinta vez a melhor mineradora brasileira pelo levantamento das “500 maiores e melhores” da revista Exame. Em 2015, amargou prejuízo de R$ 5,8 bilhões, afetada especialmente pelas provisões de R$ 9,8 bilhões para a reparação de danos, o pagamento de multas e exigências feitas pelo governo frente ao rompimento da barragem de Fundão.

O cenário econômico do setor de mineração não projeta otimismo nem recuperação nos próximos anos, acreditam os especialistas. Os preços no mercado internacional devem seguir em patamares baixos, as economias dos países consumidores não devem ter crescimento acelerado e os investimentos seguirão retraídos. O maior acidente ambiental da história brasileira trouxe ainda mais incertezas, e aumentou a conta das empresas que vivem da exploração de minério de ferro no Brasil.
 

O Quadrilátero Ferrífero

Em Minas Gerais, Estado rico em quantidade e diversidade de minérios, destaca-se uma área quase quadrangular, circundada, grosso modo, pelas cidades de Belo Horizonte (a noroeste), Itabira (a nordeste), Ouro Preto (a sudeste) e Congonhas (a sudoeste). Essa formação geológica que engloba o município de Mariana é chamada de Quadrilátero Ferrífero, devido às imensas jazidas de ferro. Entretanto, não é esse o único mineral lá encontrado em abundância. Há também jazidas importantes de manganês, ouro, bauxita, além de topázio, esmeralda e outras pedras preciosas. Desde o final do século 17, quando ali chegaram os bandeirantes e encontraram ouro à flor do solo, a mineração tem sido uma atividade econômica central dessa região de aproximadamente 7.000 km2.

A descoberta do ouro atraiu inúmeros aventureiros. A população se adensou tanto e tão rapidamente que, em 1701, não havia alimento em quantidade suficiente, e muitos morreram de fome com os bolsos cheios de ouro. Já nos primeiros 40 anos de exploração, as jazidas auríferas dos aluviões e sedimentos do Rio do Carmo praticamente se extinguiram, restando ainda as grandes jazidas subterrâneas para serem lavradas.

A exploração mais intensa do ferro no QF teve início no começo do século 20, e ganhou mais força após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, há em torno de 30 minas de ferro em atividade na região. O escoamento da produção para o litoral do Espírito Santo se dá por via férrea e, no caso da Samarco, pelo mineroduto, tubulação em que o ferro é transportado da mina de Germano até o porto da empresa em Ubu (ES).

A mineração, ininterrupta há séculos no QF, tem trazido riquezas e problemas. Para a população local e para o meio ambiente, ela traz riscos ambientais, com impactos físicos e químicos. A maioria dos municípios não tem rede de esgotos, e os dejetos são lançados nos rios.

 

Referências

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Raquel de Queiroz Almeida - Jornalista graduada pela UFRJ. Mestranda em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/ IEL/Unicamp, com bolsa Capes. Especialização em Marketing pelo Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da UFRJ. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração, especialmente com jornalismo online e projetos de conteúdo em meios digitais. Trabalhou por 20 anos em redações de jornais e revistas no Rio de Janeiro e São Paulo. Foi repórter e editora em veículos como Jornal do Brasil, O Dia, Veja, Gazeta Mercantil, Globo.com e O Globo. Desde 2001, estuda e participa de pesquisas em jornalismo online e produtos digitais. Email: raqalmeida@gmail.com

 


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Mina da Vale em Itabiritu (MG) | Foto: Marcelo Araújo | VALE