Para entender e para poder falar sobre ciência

Em maio completamos 15 anos sem José Reis (1907-2002), médico e pesquisador considerado o pai da divulgação científica brasileira. As lições deixadas por ele foram muitas. Talvez a mais importante delas tenha a ver com a eterna necessidade de estabelecer e revelar as conexões entre a ciência e a sociedade, sem deixar ninguém para trás. Mais do que explicar conceitos, a missão de Reis era despertar o público para a ciência, provocar trocas. Parte disso ele semeou através de sua coluna semanal Periscópio, que circulou na Folha de S. Paulo desde 1988 até pouco antes de sua morte. Quem ficou com a responsabilidade de ocupar aquele vazio deixado no jornal, mais especificamente no caderno Mais!, foi Marcelo Leite, igualmente apaixonado por ciência.

A partir de 2002, então, Leite passou a distribuir em sua coluna, Ciência em Dia, doses de informação que fazem a ponte entre a complexidade do universo científico, com seus personagens e instituições, e a leveza de nosso dia a dia. Oitenta desses artigos, publicados entre 2002 e 2007, estão reunidos no livro Ciência: use com cuidado (Editora da Unicamp), que integra a coleção Meio de Culturahttp://www.editoraunicamp.com.br/produtos.asp?id=104, toda dedicada à divulgação científica. Formado em Jornalismo pela ECA-USP e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Leite explora temas da ciência há mais de 30 anos, sendo autor de livros como Promessas do genoma (Editora Unesp) e Os Alimentos Transgênicos (Publifolha).  

A bagagem do jornalista permite que ele não apenas leve o leitor a navegar por assuntos supostamente labirínticos, mas também que ensine aos interessados como comandar o barco por conta própria. E é isso que Ciência: use com cuidado tem de mais atraente: a possibilidade de servir de guia àqueles que queiram para si a difícil missão de um jornalista de ciência. Isso porque, para cada artigo de jornal, o livro traz um pós-escrito em que o autor atualiza informações, critica os próprios textos, aprofunda o assunto, fornece fontes complementares e, acima de tudo, apresenta os bastidores da produção jornalística, desde meras curiosidades do processo até técnicas utilizadas para coletar e narrar os fatos.

Foto: Reprodução
Marcelo Leite, autor de “Ciência: use com cuidado”

O livro divide-se em quatro seções: Sobre gente e bichos; Ciência, crítica e cultura; Clones, quimeras e os seus, os meus, os nossos genes; e Tempo quente. Independentemente do tema, a proposta é reduzir a distância entre as ciências e a vida cotidiana, avizinhando tópicos da biologia, astronomia, ecologia e antropologia a um público amplo, incluindo aqueles com pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto em questão. Embalada por metáforas e outros truques de palavras, a narrativa de Leite é capaz de transformar, por exemplo, Plutão, a bactéria Wolbachia e a ovelha Dolly em “gente” conhecida do leitor. 

Cada coluna aborda um tópico científico particular, cujo gancho pode vir de uma descoberta, um processo de descoberta, personagens e personalidades da ciência, relatórios divulgados, premiações e eventos, acontecimentos históricos, controvérsias, lançamento de livros ou filmes, encontros com pesquisadores e até mesmo micos do jornalismo científico. A partir do mote, o autor se dedica não só a explicar o assunto, mas também a oferecer interpretações críticas e opiniões, como toda boa coluna de jornal. O principal diferencial aparece à medida em que Leite ultrapassa os fatos e acontecimentos da ciência para discutir seus impactos na sociedade, na cultura e no meio ambiente.

Pode-se pensar que um compilado de colunas escritas há mais de dez anos mostre cenas datadas, já superadas pela ciência. No entanto, a graça parece estar justamente em poder revisitar e repensar os registros de alguns dos principais momentos vividos pela ciência naqueles cinco anos, período em que muito se falou sobre biotecnologia e mudanças climáticas, por exemplo.

Além disso, a abordagem de Leite inova ao revelar as diferentes camadas que compõem o universo científico, dando espaço a questões raramente expostas nos jornais diários, tais como ética, política científica e tecnológica, episódios envolvendo pesquisadores e instituições, e os desafios da divulgação científica. As colunas, portanto, não servem à promoção de grandes novidades e feitos da ciência – algumas, pelo contrário, são bastante pessimistas –, e tampouco se constroem com base em curiosidades da natureza, dicas de saúde ou tentativas didáticas – como fazem muitas iniciativas de jornalismo científico. Seu papel está mais no sentido de fornecer ao leitor ferramentas para questionar o que se lê, incentivar uma maior investigação sobre cada tópico, estimular os debates e elevar o nível das discussões.

Justamente dessa necessidade de duvidar e de valorizar as incertezas surge o título da obra, Ciência: use com cuidado. Para o autor, o jornalismo científico de qualidade deve buscar não só os avanços, mas também as fraquezas da ciência. Deve provocar, no bom sentido, os cientistas, as instituições e demais autoridades da área. Deve ser realista, mostrar diferentes perspectivas. E, como Leite ressalta na obra, isso de maneira alguma significa uma desvalorização ou um combate à ciência. Pelo contrário, significa contribuir para que os cidadãos estejam bem informados e aptos a participar da construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento científico.   

 

Foto: ReproduçãoSERVIÇO


Título: Ciência – use com cuidado

Autor: Marcelo Leite

Editora da Unicamp

Páginas: 280

Preço: R$ 48,00

www.editoraunicamp.com.br/

 

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