A morte e o desengano humano nos Sermões de Padre Vieira

Antonio Vieira (1608-1697) foi um dos principais escritores portugueses do Barroco. O religioso, ordenado em 1634, possui uma obra extensa e diversificada com profecias, cartas e sermões, sendo parte dela fruto de seu destaque enquanto missionário da Companhia de Jesus em terras brasileiras. Dentre eles estão os Sermões de Quarta-Feira de Cinza, três textos que possuem uma unidade temática instigante: a morte e o desengano humano.

Concebidos para serem pronunciados em voz alta para um público, os Sermões têm como propósito ensinar, convencer e mudar o comportamento do auditório, o que produz no texto escrito uma clareza quanto a seus objetivos.

Este [a mudança de vida] é o único antídoto contra o veneno da morte, este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duas; se é terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível por ser momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira faremos da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos será o corretivo do pó que havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris.

Este excerto explicita muito da obra. Primeiro, o próprio tema está nele inserido. Segundo, há o uso da citação bíblica (“Pulvis es, in pulverem reverteris”, que é, inclusive, a epígrafe do primeiro Sermão de Quarta-feira de Cinza), recurso muito comum no gênero. O aforisma católico de que somos pó e ao pó retornaremos perpassa a argumentação dos três sermões.

Por último, temos uma característica típica do conceptismo - estilo do Barroco a que Vieira se filia: o paradoxo. Na obra, há o pareamento de opostos como certeza e incerteza, efemeridade e durabilidade. Neste sentido, a abordagem da finitude do homem versus a infinidade divina concatena as particularidades da obra: em sua temática, há a noção do homem ser “pó levantado” porque o caráter divino da Criação o fez possível.

Os Sermões de Quarta-feira de Cinza são, pois, parte de um discurso moralizador característico de sua época, que objetivava modelar as mentalidades pelas palavras do pregador, numa valorização da vida presente enquanto possibilidade de uma mudança comportamentos e atitudes. Dessa maneira, conquista-se a vida depois da passagem, da morte – o que é corroborado pelo título da obra, já que é na Quarta-feira de Cinza que começa a Quaresma, marco católico que significa a redenção do fiel e de seus pecados.

Sendo o conteúdo destes Sermões pregado nesta data específica, o conceito de purificação da plateia é aprofundado, pois a compreensão de que o homem não passa de pó se dá diante de um período propício ao condicionamento da existência a um destino feliz conforme uma boa conduta.

A importância desta obra vai além do tempo em que foi concebida: o tema da morte instiga a todos por envolver a curiosidade humana de sua única e mais apavorante certeza. Nesse sentido, os textos possuem este tema como base argumentativa, já que, neles, transparece o receio do ser humano de encarar o fim da vida, seja apenas em pensamento, ou mais concretamente ao ouvir ou ler um sermão.

Durante a leitura, a aproximação da morte se apresenta como alvo inevitável, porém aceitável; a resiliência e consequentemente a conduta resultante dela são o cerne do que vem a ser a solução para a problemática do temor de se estabelecer contato com evidências tão assustadoras. Fugir do assunto não é a saída do problema, pelo contrário: desta forma, apenas se constrói uma ilusão, um desengano. É então que a salvação esbarra no comportamento social que o sermão quer evitar: toda a ação humana baseada no descumprimento dos dogmas cristãos é diametralmente oposta a qualquer vislumbre de recepção profícua da morte.

Entretanto, por mais que o leitor dos sermões não seja cristão, os ensinamentos de Antonio Vieira destinam-se adequadamente a qualquer homem; qualquer que seja sua crença, mesmo que a inexistência de uma, pensar na vinda dos dias finais tange à vivência de todos. Por este modesto motivo, porém significativo, os Sermões de Quarta-feira de Cinza são capazes de cativar o leitor.

E precisamente por terem sido elaborados principalmente para a fala, a linguagem colabora para o envolvimento que provoca no leitor: ela é simples e objetiva a fim de transmitir as ideias e argumentos da forma mais eficaz possível. Desta forma, a habilidade literária de Vieira emerge para o leitor por conta de sua maestria em compor um texto que, além de sensibilizar o ouvinte da época, continua a fazê-lo após séculos, justamente pela tentativa de convencimento por meio das características peculiares de um gênero envolvente como o sermão.

Foto: ReproduçãoSERVIÇO

Título:Sermões de Quarta-feira de Cinza

AutorAntonio Vieira

Organizador: Alcir Pécora

Páginas: 200

Preço: R$ 13,00

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